===== XENÓFANES ===== O [[lexico:p:poeta:start|poeta]] Xenófanes de Cólofon (cerca de 570-470 a.C.) do qual nos resta uma centena de versos, abandonou sua [[lexico:c:cidade:start|cidade]] natal por volta dos vinte e cinco anos, para [[lexico:n:nao:start|não]] cair, diz-se, sob o domínio dos persas, e levou uma [[lexico:v:vida:start|vida]] errante através de toda a [[lexico:g:grecia:start|Grécia]]. É célebre sua denúncia da [[lexico:r:religiao:start|religião]] antropomórfica: para dela zombar, diz que os animais, se soubessem pintar, representariam os [[lexico:d:deuses:start|deuses]] à sua própria [[lexico:i:imagem:start|imagem]] e observa, em apoio disso, que os deuses diferem entre si como as raças humanas que os veneram. Mas ele é um [[lexico:e:espirito:start|espírito]] tradicionalista e provavelmente deixou Cólofon muito menos em [[lexico:r:razao:start|razão]] da conquista persa que por lhe repugnarem o [[lexico:e:esforco:start|esforço]] dos jônios em busca da prosperidade material e seu [[lexico:a:amor:start|amor]] ao luxo, assimilados a uma [[lexico:c:corrupcao:start|corrupção]] "oriental". Ele quer dar do [[lexico:d:divino:start|divino]] uma alta e pura [[lexico:i:ideia:start|ideia]], não procura atacar a religião como tal: o [[lexico:v:verdadeiro:start|verdadeiro]] [[lexico:d:deus:start|Deus]] é [[lexico:u:unico:start|único]], poder [[lexico:a:absoluto:start|absoluto]], clarividência perfeita, [[lexico:j:justica:start|justiça]] infalível, majestade imóvel; pouco se assemelha aos deuses homéricos sempre correndo pelo [[lexico:m:mundo:start|mundo]] sob o império das paixões. Xenófanes alia assim um [[lexico:s:sentido:start|sentido]] antigo da [[lexico:p:piedade:start|piedade]] à herança milesiana, modificando essas duas inspirações, uma pela outra, em proveito da primeira. Deus penetra sem esforço as [[lexico:c:coisas:start|coisas]], pela [[lexico:a:acao:start|ação]] do seu espírito; [[lexico:o:ordem:start|ordem]] imutável que é, confunde-se, parece, com a [[lexico:u:unidade:start|unidade]] esférica do mundo, que é [[lexico:e:eterno:start|eterno]] (e não mais engendrado e perecível); [[lexico:v:vivente:start|vivente]] imóvel, dá a vida do [[lexico:m:movimento:start|movimento]] às realidades variadas que abarca em seu [[lexico:t:todo:start|todo]]. Reverenciado como o espírito [[lexico:p:perfeito:start|perfeito]], o cosmos agrega em si a unidade e a [[lexico:e:eternidade:start|Eternidade]] da arché milesiana sem conservar o seu movimento. É difícil restabelecer os detalhes dessa cosmologia; eles tinham a [[lexico:v:ver:start|ver]], talvez, com o sentido da [[lexico:r:relatividade:start|relatividade]] e, no melhor dos casos, da [[lexico:p:probabilidade:start|probabilidade]] dos conhecimentos humanos, de que Xenófanes lança mão como contraste, ao depreciar tudo o que ultrapassa a [[lexico:s:simples:start|simples]] [[lexico:s:sensacao:start|sensação]], para engrandecer o [[lexico:s:saber:start|saber]] de Deus. O [[lexico:p:proprio:start|próprio]] Deus não é o [[lexico:o:objeto:start|objeto]] de uma firme [[lexico:c:crenca:start|crença]] senão com [[lexico:r:respeito:start|respeito]] a alguns atributos essenciais, tão grande é a distância que nos separa de sua [[lexico:p:perfeicao:start|perfeição]]. Assim nasce uma religião cósmica e antimitológica que reintroduz, com vigor, num [[lexico:m:monismo:start|monismo]] de [[lexico:p:principio:start|princípio]] o [[lexico:m:misterio:start|mistério]] e a inacessibilidade de Deus. Xenófanes permaneceu um isolado, apesar de sua [[lexico:i:influencia:start|influência]] sobre a [[lexico:e:escola:start|escola]] eleática. [[lexico:p:pitagoras:start|Pitágoras]], ao contrário, dá seu [[lexico:n:nome:start|nome]] a uma das mais ricas e mais vigorosas correntes do [[lexico:p:pensamento:start|pensamento]] antigo. Foi antes de tudo o fundador de uma confraria religiosa, o que, pela quase [[lexico:d:deificacao:start|deificação]] do fundador, pelo [[lexico:h:habito:start|hábito]] facilmente contraído de lhe referir toda novidade, pela [[lexico:o:obrigacao:start|obrigação]] do segredo, pelo menos em certos domínios, enfim pelas peripécias que a [[lexico:h:historia:start|história]] da [[lexico:s:seita:start|seita]] conheceu, explica suficientemente a extrema obscuridade na qual se envolve essa importante [[lexico:f:figura:start|figura]]. É quase [[lexico:i:impossivel:start|impossível]] distinguir sua [[lexico:o:obra:start|obra]] própria tanto do que tomou emprestado de uma corrente [[lexico:m:mistica:start|mística]], que também conhecemos muito [[lexico:m:mal:start|mal]], o [[lexico:o:orfismo:start|orfismo]], como dos desenvolvimentos devidos a seus sucessores dos séculos VI e V. Há poucas razões, todavia, para reduzi-lo à [[lexico:l:lenda:start|lenda]] e para lhe recusar as grandes linhas e a unidade profunda do [[lexico:p:pitagorismo:start|pitagorismo]]. [J. Bernhardt] Xenófanes nasceu na cidade jônia de Cólofon, em torno de 570 a.C. Por volta dos vinte e cinco anos de idade, emigrou para as colônias itálicas, na Sicília e na Itália meridional. Depois, continuou viajando, sem moradia fixa, até uma idade [[lexico:b:bem:start|Bem]] adiantada, cantando como aedo as suas próprias composições poéticas, das quais nos chegaram alguns fragmentos. Tradicionalmente, se tem considerado Xenófanes como fundador da escola de Eleia, mas com base em interpretações incorretas de alguns testemunhos antigos. No entanto, ele próprio nos diz que ainda era um andarilho, sem morada fixa, até a idade de noventa e dois anos. Ademais, sua [[lexico:p:problematica:start|problemática]] é de [[lexico:c:carater:start|caráter]] teológico e cosmológico, ao passo que os [[lexico:e:eleatas:start|eleatas]], como veremos, fundaram a problemática [[lexico:o:ontologica:start|ontológica]]. Assim, justamente, considera-se hoje Xenófanes como um pensador [[lexico:i:independente:start|independente]], tendo apenas algumas afinidades muito genéricas com os eleatas, mas certamente sem ligação com a fundação da escola de Eleia. O [[lexico:t:tema:start|tema]] central desenvolvido nos versos de Xenófanes é constituído sobretudo pela [[lexico:c:critica:start|crítica]] à concepção dos deuses que Homero e [[lexico:h:hesiodo:start|Hesíodo]] haviam fixado de [[lexico:m:modo:start|modo]] [[lexico:e:exemplar:start|exemplar]] e que era própria da religião pública e do [[lexico:h:homem:start|homem]] [[lexico:g:grego:start|grego]] em [[lexico:g:geral:start|geral]]. O nosso [[lexico:f:filosofo:start|filósofo]] identifica de modo perfeito o [[lexico:e:erro:start|erro]] de fundo do qual brotam todos os absurdos ligados a tal concepção. E [[lexico:e:esse:start|esse]] erro consiste no [[lexico:a:antropomorfismo:start|antropomorfismo]], ou seja, em atribuir aos deuses formas exteriores, características psicológicas e paixões iguais ou análogas às que são próprias dos homens, só quantitativamente mais notáveis, mas não qualitativamente diferentes. Agudamente, Xenófanes objeta que se os animais tivessem [[lexico:m:maos:start|mãos]] e pudessem fazer imagens de deuses, os fariam em [[lexico:f:forma:start|forma]] de [[lexico:a:animal:start|animal]], assim como os etíopes, que são negros e têm o nariz achatado, representam seus deuses negros e com o nariz achatado ou os trácios, que têm olhos azuis e cabelos ruivos, representam seus deuses com tais características. Mas, [[lexico:o:o-que-e:start|o que é]] ainda mais grave, os homens também tendem a atribuir aos deuses tudo aquilo que eles mesmos fazem, não só o bem, mas também o mal: Mas os [[lexico:m:mortais:start|mortais]] acham que os deuses nascem, que têm roupas, vozes e vultos como eles. Homero e Hesíodo atribuem aos deuses tudo aquilo que é desonra e vergonha para os homens: roubar, cometer adultério, enganar-se mutuamente. Assim, de um só golpe, são contestados do modo mais radical, na credibilidade, não apenas os deuses tradicionais, mas também os seus aclamados cantores. Os grandes poetas com base nos quais os gregos tradicionalmente se haviam formado espiritualmente [[lexico:a:agora:start|agora]] eram declarados porta-vozes de mentiras. Analogamente, Xenófanes também desmitifica as várias explicações míticas dos fenômenos naturais, que, como sabemos, eram atribuídos a deuses. Eis, por [[lexico:e:exemplo:start|exemplo]], como a deusa Íris (o arco-íris) é desmitificada: Aquela que chamamos Íris, porém, também ela é uma nuvem, [[lexico:p:purpurea:start|purpúrea]], violácea, verde de se ver. A breve distância de seu nascimento, a [[lexico:f:filosofia:start|Filosofia]] mostra a sua forte carga inovadora, desmontando crenças seculares que eram consideradas muito sólidas, mas somente porque se radicavam no modo de [[lexico:p:pensar:start|pensar]] e de sentir tipicamente helênico: contesta qualquer [[lexico:v:validade:start|validade]] a elas e revoluciona inteiramente o modo de ver Deus que era próprio do homem antigo. Depois das críticas de Xenófanes, o homem ocidental não poderá nunca mais conceber o divino segundo formas e medidas humanas. Mas as [[lexico:c:categorias:start|categorias]] de que Xenófanes dispunha para criticar o antropomorfismo e denunciar a [[lexico:f:falacia:start|falácia]] da religião tradicional eram as categorias derivadas da filosofia da [[lexico:p:physis:start|physis]] e da cosmologia jônica. Consequentemente, é compreensível que ele, depois de negar com argumentos muito adequados que Deus possa [[lexico:s:ser:start|ser]] concebido com formas humanas, acaba afirmando que Deus é o cosmos. Então, pode-se entender algumas de suas afirmações, que para muitos soaram como enigmáticas mas que, ao contrário, são evidentes no interior do [[lexico:h:horizonte:start|horizonte]] do pensamento grego [[lexico:p:primitivo:start|primitivo]]. Diz [[lexico:a:aristoteles:start|Aristóteles]] que, "estendendo as suas considerações à [[lexico:t:totalidade:start|totalidade]] do [[lexico:u:universo:start|universo]]", Xenófanes "afirmou que o [[lexico:u:uno:start|uno]] é Deus". Assim, o uno de Xenófanes é o universo, que, como ele próprio diz, "é uno, Deus, [[lexico:s:superior:start|superior]] entre os deuses e os homens, nem por figura nem por pensamento [[lexico:s:semelhante:start|semelhante]] aos homens". Como o Deus de Xenófanes é o Deus-cosmos, então pode-se [[lexico:c:compreender:start|compreender]] claramente as outras afirmações do filósofo: Tudo ele vê, tudo ele pensa, tudo ele ouve. Sem esforço, com a [[lexico:f:forca:start|força]] de sua [[lexico:m:mente:start|mente]], tudo faz vibrar. Permanece sempre no mesmo [[lexico:l:lugar:start|lugar]] sem se mover de modo algum, que não lhe é próprio andar ora em um lugar, ora noutro. Em resumo: o ver, o ouvir, o pensar e a onipotente força que faz tudo vibrar são atribuídos a Deus, não numa [[lexico:d:dimensao:start|dimensão]] humana, mas sim numa dimensão cosmológica. Essa [[lexico:v:visao:start|visão]] não contrasta com as informações dos antigos de que Xenófanes erigiu a [[lexico:t:terra:start|Terra]] como "princípio", nem com suas precisas afirmações: Tudo nasce da terra e na terra termina — Todas as coisas que nascem e crescem são terra e água. Com [[lexico:e:efeito:start|efeito]], essas afirmações não se referem a todo o cosmos, que não nasce, não morre e não se torna [[lexico:n:nada:start|nada]], mas sim à [[lexico:e:esfera:start|esfera]] terrestre. E ele ainda apresenta provas bastante inteligentes de suas afirmações, como a [[lexico:p:presenca:start|presença]] de fósseis marinhos nas montanhas, [[lexico:s:sinal:start|sinal]] de que houve uma [[lexico:e:epoca:start|época]] em que havia mais água do que terra nesses [[lexico:l:lugares:start|lugares]]. Xenófanes também ficou conhecido por sua visão [[lexico:m:moral:start|moral]] de alto [[lexico:v:valor:start|valor]]: contestando as [[lexico:i:ideias:start|ideias]] correntes, ele afirmava a superioridade dos valores da [[lexico:i:inteligencia:start|inteligência]] e da [[lexico:s:sabedoria:start|sabedoria]] sobre os valores vitais da robustez e da força [[lexico:f:fisica:start|física]] dos atletas, veneradíssimos na Grécia. Não é o vigor ou a força física que torna melhores os homens e as cidades, mas sim a força da mente, à qual cabe a [[lexico:m:maxima:start|máxima]] [[lexico:h:honra:start|honra]]. Xenófanes representa um [[lexico:m:momento:start|momento]] [[lexico:i:interessante:start|interessante]] na [[lexico:h:historia-da-filosofia:start|história da filosofia]] grega; é posterior a Pitágoras e recolhe sua herança filosófica; ao mesmo [[lexico:t:tempo:start|tempo]], é um [[lexico:a:antecedente:start|antecedente]] direto de [[lexico:p:parmenides:start|Parmênides]] e da escola eleática. Viveu cerca da segunda metade do século VI e a primeira do V. Por [[lexico:o:outro:start|outro]] lado, Xenófanes, poeta e filósofo, marca uma etapa da [[lexico:l:luta:start|luta]] travada na Hélade entre a [[lexico:p:poesia:start|poesia]] e a filosofia como disciplinas [[lexico:d:dominantes:start|dominantes]]; pouco a pouco, a Grécia mítica e poética, que se nutre de Homero e de todos seus continuadores, será substituída pela Grécia do [[lexico:l:logos:start|Logos]], cuja primeira maturidade é atingida com Parmênides, e sua vigência [[lexico:s:social:start|social]] plena entre os séculos V e VI. "(Xenófanes) afirmou pela primeira vez que todo o gerado é corruptível, e que a [[lexico:a:alma:start|alma]] é um alento." (Diógenes Laércio, IX, 2.) "Os deuses não revelaram aos mortais todas as coisas desde o princípio; são estes que, procurando com o tempo, encontram o melhor." (Fr. 18 de Diels.) Nos esboços da [[lexico:a:antropologia:start|antropologia]] de Xenófanes descobre-se de novo o tema permanente da Grécia: a corruptibilidade ante o eterno e divino, e a [[lexico:r:referencia:start|referência]] do homem aos deuses imortais, que se manifesta no [[lexico:c:conhecimento:start|conhecimento]]. O saber total, sem [[lexico:d:duvida:start|dúvida]], é inaccessível aos mortais, e só com o tempo através de um [[lexico:p:processo:start|processo]] de esforço, chega-se de algum modo a participar dele. Em [[lexico:r:relacao:start|relação]] com isto, tenha-se presente Aristóteles: [[lexico:m:metafisica:start|Metafísica]], I, 2. [Julián Marías] {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}