===== VERDADEIRO ===== (gr. [[lexico:a:alethes|alethes]]; lat. Verum; in. True; fr. Vrai; al. Wahr; it. [[lexico:v:vero|vero]]). Os estoicos distinguiam verdadeiro de [[lexico:v:verdade|verdade]], porque o verdadeiro é um [[lexico:e:enunciado|enunciado]], logo é [[lexico:i:incorporeo|incorpóreo]], enquanto a verdade, como [[lexico:c:ciencia|ciência]] que contém todos os verdadeiros, é um [[lexico:m:modo|modo]] de [[lexico:s:ser|ser]] da [[lexico:p:parte|parte]] hegemônica do [[lexico:h:homem|homem]], portanto corpórea. Ademais, o verdadeiro é [[lexico:s:simples|simples]], enquanto a verdade consta de muitos verdadeiros, e a verdade pertence à ciência, portanto ao [[lexico:s:sabio|sábio]], enquanto o verdadeiro pode ser também do néscio ([[lexico:s:sexto-empirico|Sexto Empírico]], Pirr. hyp., II, 81-83; Adv. dogm., I, 38-42). Na [[lexico:e:escolastica|Escolástica]] o verdadeiro foi considerado um dos [[lexico:t:transcendentais|transcendentais]], isto é, dos [[lexico:c:caracteres|caracteres]] que pertencem às [[lexico:c:coisas|coisas]] como tais, independentemente dos seus gêneros, e por verdadeiro foi entendida a [[lexico:i:inteligibilidade|inteligibilidade]] da [[lexico:c:coisa|coisa]] ([[lexico:t:tomas-de-aquino|Tomás de Aquino]], [[lexico:s:suma-teologica|Suma Teológica]], q. 16, a. I ad. 3e). A) «O verdadeiro é verdadeiro, o [[lexico:f:falso|falso]] é falso.» Qual o [[lexico:v:valor|valor]] de verdade de esta [[lexico:p:proposicao|proposição]]? [[lexico:t:tautologia|tautologia]]? [[lexico:d:dilema|dilema]]? [[lexico:a:afirmacao|afirmação]] [[lexico:e:existencial|existencial]]? No primeiro caso o [[lexico:s:significado|significado]] é nulo, porque se trataria de uma particularização do [[lexico:p:principio-de-identidade|princípio de identidade]], indiferente mesmo à [[lexico:p:possibilidade|possibilidade]] de [[lexico:d:distincao|distinção]] efetiva dos dois termos. No segundo caso corresponderia a afirmar uma bivalência absoluta; seria portanto uma afirmação falsa. No [[lexico:t:terceiro|terceiro]] caso tratar-se-ia de uma concepção realista (para usar o [[lexico:t:termo|termo]] tradicional) do falso e do verdadeiro como [[lexico:r:realidade|realidade]]. Se um viajante no deserto, alucinado pelo calor e pela sede, afirma que vê ao longe águas e árvores, a sua afirmação é verdadeira, mas [[lexico:n:nao|não]] são reais as árvores que vê. «Falso» e «verdadeiro» são características de proposições; «[[lexico:r:real|real]]» e «[[lexico:i:irreal|irreal]]», características do percetpo; mas esta aproximação é ainda insuficiente. Provam-no as formas do [[lexico:r:realismo|realismo]] contemporâneo (em que se atribui às ciências [[lexico:o:objeto|objeto]] [[lexico:e:exterior|exterior]] de realidade [[lexico:t:transcendente|transcendente]]), o [[lexico:r:regresso|regresso]] a uma concepção de um [[lexico:m:mundo|mundo]] de entidades racionais, simétrico de [[lexico:o:outro|outro]] de dados sensíveis, de [[lexico:e:estrutura|estrutura]] análoga à do primeiro. Ora o [[lexico:f:fato|fato]] de a verdade de uma proposição deduzida depender das premissas admitidas e da afirmação de que essas premissas implicam a conclusão só demonstra que «falso» e «verdadeiro» não são características absolutas. Se das proposições pudesse dizer-se rigorosamente que «existem» proposições falsas e proposições verdadeiras, dando ao termo «[[lexico:e:existir|existir]]» significado [[lexico:u:unico|único]] (sendo certo que tem mais de um), [[lexico:t:todo|todo]] o [[lexico:p:processo|processo]] se desenrolaria em [[lexico:p:presentacao|presentação]] intelectual exterior ao [[lexico:s:sujeito|sujeito]], e a [[lexico:i:ideia|ideia]] de [[lexico:d:demonstracao|demonstração]] rigorosa do que parecia intuitivo não poderia [[lexico:t:ter|ter]] surgido. [[lexico:n:nada|nada]] de isto impede que em certo [[lexico:s:sentido|sentido]] possa falar-se de «verdade» a [[lexico:r:respeito|respeito]] do [[lexico:p:percepto|percepto]], pois ele entra em [[lexico:r:relacoes|relações]] múltiplas, e, [[lexico:a:alem|além]] disso, o «percepto» é [[lexico:c:conceito|conceito]] que não constitui [[lexico:e:elemento|elemento]] de [[lexico:p:percepcao|percepção]] [[lexico:a:atual|atual]]; simetricamente, pode falar-se do [[lexico:g:grau|grau]] de realidade do conceito, que é exemplificável, e todo [[lexico:e:exemplo|exemplo]] [[lexico:d:dado|dado]] é [[lexico:c:concreto|concreto]]. Trata-se pois de dissolver a [[lexico:o:oposicao|oposição]] que o realismo e o [[lexico:i:idealismo|Idealismo]] unilaterais tinham acentuado erradamente (é o que vai realizando o idealismo [[lexico:p:pos-kantiano|pós-kantiano]]) e simultaneamente elaborar o [[lexico:c:continuo|contínuo]] que vai do percepto à [[lexico:r:relacao|relação]] abstrata. Sendo assim, conclui-se não haver [[lexico:p:problema|problema]] especial da verdade como substantiva, mas apenas o de verificar ou demonstrar, o de construir estruturas cada vez mais gerais; admitida a [[lexico:h:hipotese|hipótese]] de uma relação de que todas pudessem depender, ela seria uma relação condicional, verificada nas inúmeras relações particulares nela abrangidas. B) Falando do conceito, importa sublinhar que o contrapus ao percepto, não tomando-o no sentido tradicional aristotélico, mas no sentido mais genérico de «ideia», que vai entroncar, embora não [[lexico:i:identico|idêntico]], na [[lexico:t:tradicao|tradição]] platônica. O que interessa nesta concepção, renovada em [[lexico:d:descartes|Descartes]], é a relação judicativa em [[lexico:a:ato|ato]], de que resulta o conceito. Tratar resultados a que se julga ter chegado legitimamente —o que muitas vezes não é [[lexico:e:exato|exato]] — como [[lexico:p:principios|princípios]] de onde se parte, protegendo-os sob a couraça de um [[lexico:a:a-priori|a priori]] ilusório, é processo frequente na [[lexico:h:historia|história]] do [[lexico:p:pensamento|pensamento]] — processo que parecia [[lexico:d:dar-razao|dar razão]] ao [[lexico:e:empirismo|empirismo]]. Posto assim o problema erradamente, ele transforma-se em problema de [[lexico:e:existencia|existência]]. Ora a existência, [[lexico:c:como-se|como se]] sabe, é postulada ou demonstrada e portanto, em si mesma, não é problema nem existe. Existência é uma [[lexico:c:caracteristica|característica]] de qualquer estruturação válida. E como um conceito não se estrutura —porque é resultado (e [[lexico:e:expressao|expressão]]) de uma estruturação, certa ou errada, e Verdade é um conceito —, perguntar se «a verdade existe» é fazer uma [[lexico:p:pergunta|pergunta]] sem sentido. Na [[lexico:l:logica|lógica]] [[lexico:m:moderna|moderna]] estabeleceram-se rigorosamente analogias estruturais e aplicação a domínios que pareciam irredutíveis, como anteriormente se julgaram irredutíveis a continuidade espacial (intuitiva-imaginativa) e o conjunto [[lexico:d:discreto|discreto]] aritmético ou algébrico, até à construção da [[lexico:g:geometria|geometria]] [[lexico:a:analitica|analítica]] por Descartes. Esta [[lexico:f:forma|forma]] de [[lexico:g:generalizacao|generalização]] documenta e acompanha o [[lexico:d:dinamismo|dinamismo]] da [[lexico:i:invencao|invenção]] ou [[lexico:c:criacao|criação]] científica, e nas mais típicas zonas do [[lexico:s:saber|saber]]: a lógica e a [[lexico:m:matematica|matemática]] — se não quisermos considerá-las uma zona só. E vê-se desaparecer, dissipar a [[lexico:i:ilusao|ilusão]] da [[lexico:n:necessidade|necessidade]] do substratum transcendente, que não intervém nem pode intervir na [[lexico:e:especulacao|especulação]] científica real.