===== TRANSCENDENTE ===== Que ultrapassa. — Uma [[lexico:r:realidade:start|realidade]] transcendente é a que ultrapassa nosso poder de conhecer; um [[lexico:g:genio:start|gênio]] transcendente ultrapassa a média dos seres humanos. Quando se [[lexico:f:fala:start|fala]] da [[lexico:t:transcendencia:start|transcendência]] de [[lexico:d:deus:start|Deus]], evoca-se um Deus criador, distinto de sua [[lexico:c:criacao:start|criação]]; contrapõe-se à [[lexico:i:imanencia:start|imanência]] de Deus, isto é, ao [[lexico:p:panteismo:start|panteísmo]] segundo o qual Deus estaria presente no [[lexico:m:mundo:start|mundo]] e em nós mesmos, sendo por isso mesmo conhecível. A transcendência contrapõe-se à imanência. Em [[lexico:g:geral:start|geral]], tem-se entendido que o transcendente é o que está “para lá de [[lexico:a:alguma-coisa:start|alguma coisa]]”; transcender é “sobressair.” Amiúde se tem admitido que algo que transcende é [[lexico:s:superior:start|superior]] a algo [[lexico:i:imanente:start|imanente]], até ao [[lexico:p:ponto:start|ponto]] de quando se quis destacar a superioridade infinita de Deus em [[lexico:r:relacao:start|relação]] ao criado se dizer que “Deus transcende o criado e inclusivamente que Deus é a transcendência”. Por isso também se tem [[lexico:d:dito:start|dito]] que o [[lexico:e:ente:start|ente]] é transcendente e se tem falado das propriedades [[lexico:t:transcendentais:start|transcendentais]] do ente. Este é o [[lexico:s:significado:start|significado]] [[lexico:p:proprio:start|próprio]] dos vocábulos [[lexico:t:transcendental:start|transcendental]] e transcendentais. A superioridade e importância do transcendente e transcendental adverte-se no [[lexico:u:uso:start|uso]] habitual em que algo transcendental é algo realmente importante e [[lexico:c:capital:start|capital]]. Há portanto um significado destes termos vinculado a problemas teológicos e metafísicos. No que se refere à transcendência de Deus, ou de um [[lexico:p:principio:start|princípio]] supremo, tem-se proposto várias teses: 1. Deus é absolutamente transcendente ao mundo; entre Deus e o mundo abre-se um [[lexico:a:abismo:start|abismo]] que só Deus pode, se quiser, franquear. 2. a [[lexico:t:tese:start|tese]] precedente põe em perigo a relação entre Deus e o mundo ou, em geral, entre um princípio supremo (o [[lexico:a:absoluto:start|absoluto]], o [[lexico:u:uno:start|uno]], etc) e as restantes realidades. Os partidários desta [[lexico:p:posicao:start|posição]] discordam porém sobre o [[lexico:m:modo:start|modo]] de relação entre Deus (um princípio metafísico) e o mundo, ou, dizendo de outra maneira, sobre os diversos graus de transcendência. Os mais moderados sustentam que “um transcendente” é absolutamente transcendente, mas [[lexico:n:nao:start|não]] há entre ele e o mundo um abismo, pois o mundo orienta-se para o transcendente ou participa dele numa [[lexico:s:serie:start|série]] de graus de menor a maior [[lexico:p:perfeicao:start|perfeição]]. Outros, em compensação, afirmam que Deus (ou o princípio) não é transcendente ao mundo, mas q é, como dizia Espinosa “[[lexico:c:causa:start|causa]] imanente de todas as [[lexico:c:coisas:start|coisas]]”, de modo que chega se uma identificação de Deus e do mundo tal como o postula o panteísmo..... Para [[lexico:a:alem:start|além]] do significado metafísico, é digno de considerar o ponto de vista propriamente gnoseológico acerca do [[lexico:c:conceito:start|conceito]] de transcendência, no qual desempenha um papel importante o modo de conceber a relação [[lexico:s:sujeito-objeto:start|sujeito-objeto]].. Neste caso, o [[lexico:s:sujeito:start|sujeito]] transcende par o [[lexico:o:objeto:start|objeto]] como objeto [[lexico:e:exterior:start|exterior]] cognoscível. Diz- se então que o objeto é transcendente ao sujeito e que este pode atingi-lo quando for para o objeto. Assim a transcendência gnoseológica do objeto pressupõe o transcender do sujeito para o objeto. Quando a transcendência do objeto é completa, sustenta- se uma concepção realista do [[lexico:c:conhecimento:start|conhecimento]]; em compensação, quando se nega que haja transcendência do objeto sustenta-se uma concepção idealista do conhecimento; finalmente, quando se pressupõe que o objeto não é absolutamente transcendente, sustenta-se uma concepção realista (moderada) do conhecimento. A doutrinas dos transcendentais mais conhecida - embora não a única - é a de S. Tomás. Para ele, o que o [[lexico:i:intelecto:start|intelecto]] apreende antes de tudo é o ente enquanto ente; portanto, nenhum ente em [[lexico:p:particular:start|particular]], mas o ente em geral, o conceito de ente. Não se pode adicionar ao ente algo que não seja ente para formar um novo conceito, pois tudo é ente. No entanto, pode tornar-se [[lexico:e:explicito:start|explícito]] o ente sem lhe adicionar [[lexico:n:nada:start|nada]] diferente, dizendo, por [[lexico:e:exemplo:start|exemplo]], que o ente é por [[lexico:s:si-mesmo:start|si mesmo]] em cujo caso “[[lexico:p:por-si:start|por si]] mesmo” não acrescenta nenhuma realidade ao ente, como acrescentaria a cor amarelo a uma [[lexico:c:coisa:start|coisa]], fazendo dela uma coisa amarela. E também pode fazer-se explícito o ente exprimindo algo que corresponde a [[lexico:t:todo:start|todo]] o ente como ente: as suas propriedades, por pertencerem só -ao ente enquanto ente se chamaram propriedades transcendentais ou, mais brevemente, transcendentais. As propriedades podem fazer-se explícitas, considerando o ente explicitamente; isto sucede quando digo do ente (afirmativamente) que é uma coisa, e quando digo (negativamente) que é uno, quer dizer, que não está dividido, pois se o estivesse teríamos dois entes. As propriedades também podem fazer-se explícitas, considerando o ente relativamente; isto sucede quando digo que um ente é diferente de qualquer [[lexico:o:outro:start|outro]] ente, em cujo caso é algo; ou quando considero a relação do ente com o intelecto e então todo o é conforme o [[lexico:p:pensar:start|pensar]] e é [[lexico:v:verdadeiro:start|verdadeiro]]; é a relação do ente com a [[lexico:v:vontade:start|vontade]], e então todo o ente é apetecível e, portanto, [[lexico:b:bom:start|Bom]]. Deste modo temos a lista dos transcendentais: ente, coisa, uno, algo, verdadeiro e bom. Pode-se observar que ente, coisa e algo são termos [[lexico:s:sinonimos:start|sinônimos]]; por isso às vezes se diz que não são propriamente atributos transcendentais do ente, visto que não acrescentam nada ao ente. Em compensação, uno, verdadeiro e bom acrescentaram algo ao ente, embora de um modo especial; [[lexico:s:ser:start|ser]] uno não é uma [[lexico:p:propriedade:start|propriedade]] do ente no [[lexico:s:sentido:start|sentido]] de constituir uma realidade distinta do ente. A [[lexico:u:unidade:start|unidade]] e o ente são o mesmo; por isso são convertíveis, isto é, afirmar o ente é afirmar que é uno, e afirmar o uno é afirmar o ente. O mesmo sucede com as propriedades verdadeiro e bom. Daí a célebre [[lexico:f:formula:start|fórmula]] [[lexico:e:escolastica:start|escolástica]]: “o uno, o verdadeiro e o bom são convertíveis entre si. Para concluir com as doutrinas mais importantes sobre estes termos referir-nos-emos ao sentido do transcendental em [[lexico:k:kant:start|Kant]], porque nele se manifesta um uso novo e, além disso, uma [[lexico:t:transformacao:start|transformação]] do uso tradicional. O transcendental está determinado pelo conceito de [[lexico:p:possibilidade-do-conhecimento:start|possibilidade do conhecimento]]; todo o exame de tal [[lexico:p:possibilidade:start|possibilidade]] é de [[lexico:c:carater:start|caráter]] transcendental: “chamo transcendental a todo o conhecimento que se ocupa não tanto dos objetos como mo modo de os conhecer, na [[lexico:m:medida:start|medida]] em que este modo é [[lexico:p:possivel:start|possível]] [[lexico:a:a-priori:start|a priori]]. O [[lexico:s:sistema:start|sistema]] de tais [[lexico:c:conceitos:start|conceitos]] pode ser [[lexico:c:chamado:start|chamado]] [[lexico:f:filosofia:start|Filosofia]] transcendental”. Kant distingue entre transcendental e transcendente; o primeiro refere-se ao que torna possível o conhecimento da [[lexico:e:experiencia:start|experiência]] e não vai mais além da experiência; o segundo alude ao que se encontra mais além de toda a experiência. Portanto devem rejeitar-se a [[lexico:i:ideias:start|ideias]] transcendentes do mesmo modo que há que admitir os [[lexico:p:principios:start|princípios]] transcendentais. (lat. Transcendens; in. Transcendent; fr. Transcendant; al. Transzendent; it. Trascendente). Este [[lexico:t:termo:start|termo]] tem dois significados fundamentais, correspondentes aos dois significados de transcendência: 1) o que está além de determinado [[lexico:l:limite:start|limite]], tomado como medida ou como ponto de [[lexico:r:referencia:start|referência]]; 2) [[lexico:o:operacao:start|operação]] de [[lexico:t:transposicao:start|transposição]]. 1) No primeiro significado, essa [[lexico:p:palavra:start|palavra]] assume valores muito diferentes, segundo o que se considere limite ou medida. As propriedades transcendentais eram chamadas assim por serem transcendente em relação aos gêneros, dos quais eram consideradas independentes. Fala-se de "perfeição transcendente" como perfeição que supera todos os graus alcançáveis. Mais frequentemente, [[lexico:e:esse:start|esse]] termo é usado em filosofia para indicar o que ultrapassa os limites de alguma [[lexico:f:faculdade:start|faculdade]] humana ou de todas as [[lexico:f:faculdades:start|faculdades]] e do próprio [[lexico:h:homem:start|homem]]. Assim, [[lexico:b:boecio:start|Boécio]] afirmava que "A [[lexico:r:razao:start|razão]] transcende a [[lexico:i:imaginacao:start|imaginação]] porque apreende a [[lexico:e:especie:start|espécie]] [[lexico:u:universal:start|universal]] que está ligada às coisas singulares" (Phil. cons., V, 4). [[lexico:t:tomas-de-aquino:start|Tomás de Aquino]] afirmava que a [[lexico:t:teologia:start|teologia]] "transcende todas as outras ciências tanto especulativas quanto práticas" porque é mais certa que elas e por tratar de coisas "que, pela elevação, transcendem a razão" ([[lexico:s:suma-teologica:start|Suma Teológica]], I, q. 1, a. 5). Ao tratar da [[lexico:i:identidade:start|identidade]] do mínimo absoluto e do máximo absoluto em Deus, [[lexico:n:nicolau-de-cusa:start|Nicolau de Cusa]] diz que "isso transcende o nosso intelecto, que não pode combinar racionalmente as coisas que são contraditórias em seu princípio" (De docta ignor., 1,4). Foi mais precisamente a partir de Kant que transcendente passou a designar a [[lexico:n:nocao:start|noção]] que excede os limites da experiência possível. Portanto, segundo Kant, são transcendentes as ideias da [[lexico:r:razao-pura:start|razão pura]]: "Chamaremos de imanentes os princípios cuja aplicação se mantém em tudo e por tudo nos limites da experiência possível, e de transcendentes os que devem ultrapassar esses limites" ([[lexico:c:critica-da-razao-pura:start|Crítica da Razão Pura]], [[lexico:d:dialetica:start|Dialética]], Intr., I; cf. Prol, § 40). É diferente dos princípios transcendentes o uso transcendental dos princípios imanentes, que se vale de princípios cognitivos legítimos, mas sem levar muito em conta os limites da experiência (Ibid., Dialética, Intr., I; cf. Prol., § 40). 2) Nos significados anteriores, a palavra transcendente designa o que está além de certo limite. Na filosofia contemporânea, é muitas vezes usada para designar uma [[lexico:a:atividade:start|atividade]] ou uma operação correspondente ao 2° significado de transcendência. Nesse sentido, segundo [[lexico:h:husserl:start|Husserl]], é transcendente a [[lexico:p:percepcao:start|percepção]] das coisas em [[lexico:o:oposicao:start|oposição]] à percepção que a [[lexico:c:consciencia:start|consciência]] tem de si mesma (que é percepção imanente) (Ideen, I, § 46). No mesmo sentido, [[lexico:h:hartmann:start|Hartmann]] chama de [[lexico:a:ato:start|ato]] transcendente o conhecimento (Systematische Philosophie, § II). [[lexico:h:heidegger:start|Heidegger]] define como transcendente "o que atualiza a ultrapassagem, o que se mantém na ultrapassagem" (Vom [[lexico:w:wesen:start|Wesen]] des Grundes, II; trad. it., p. 29) (v. transcendência). {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}