===== TRANSCENDÊNCIA ===== Do latim "transcendere", etimologicamente significa a [[lexico:a:acao:start|ação]] de "transcender, [[lexico:s:superar:start|superar]]". Este [[lexico:s:significado:start|significado]] fundamental varia de muitas maneiras, consoante o domínio a que o [[lexico:t:termo:start|termo]] se aplica. — Do [[lexico:p:ponto:start|ponto]] de vista epistemológico, transcendência (1) significa independência de [[lexico:c:consciencia:start|consciência]]. O [[lexico:o:objeto:start|objeto]] transcende o [[lexico:a:ato:start|ato]] cognitivo, contrapõe-se a ele como algo [[lexico:i:independente:start|independente]], [[lexico:n:nao:start|não]] como algo só posto pelo ato. Isto dá-se já dentro da [[lexico:a:autoconsciencia:start|autoconsciência]]: um ato cognoscitivo orientado a [[lexico:c:compreender:start|compreender]] um ato volitivo encontra este como algo independente dele. Com dobrada [[lexico:r:razao:start|razão]] o [[lexico:m:mundo:start|mundo]] [[lexico:e:exterior:start|exterior]] transcende toda nossa consciência, a qual se dirige a ele como a algo já existente. — "Em [[lexico:r:relacao:start|relação]] à nossa [[lexico:e:experiencia:start|experiência]], [[lexico:t:transcendente:start|transcendente]] significa o supra [[lexico:s:sensivel:start|sensível]] e o inexperimentável. O âmago [[lexico:e:essencial:start|essencial]] das [[lexico:c:coisas:start|coisas]] visíveis e toda a [[lexico:o:ordem:start|ordem]] espiritual transcendem nossa experiência sensório-intuitiva: são, portanto, supra-sensíveis = transcendentes (2), mas não absolutamente inexperimentáveis, porque mediante a [[lexico:r:reflexao:start|reflexão]] experimentamos nosso [[lexico:p:pensar:start|pensar]] e querer em sua [[lexico:e:existencia:start|existência]], embora não em sua espiritualidade. Também no que diz [[lexico:r:respeito:start|respeito]] às [[lexico:e:essencias:start|essências]] podemos [[lexico:f:falar:start|falar]] de experiência, na [[lexico:m:medida:start|medida]] em que primariamente refulgem enquadradas totalmente na [[lexico:i:intuicao:start|intuição]]. Contudo, as essências, desligadas do sensível, [[lexico:b:bem:start|Bem]] como as leis e o espiritual como tal, transcendem toda experiência, porque só são acessíveis num novo ato apreensivo que se situa em frente dela ([[lexico:a:abstracao:start|abstração]] explícita, [[lexico:i:inteleccao:start|intelecção]] da [[lexico:e:essencia:start|essência]], [[lexico:c:consequencia:start|consequência]] de um [[lexico:r:raciocinio:start|raciocínio]].). Convém-lhes também a transcendência (3) no [[lexico:s:sentido:start|sentido]] de in-experimentabilidade. O [[lexico:p:pensamento:start|pensamento]] dirigido ao inexperimentável chama se [[lexico:e:especulacao:start|especulação]]. Na ordem do [[lexico:s:ser:start|ser]], transcendência (4) significa supramundanidade. A [[lexico:a:alma:start|alma]] humana participa já desta, na medida em que, mercê de sua espiritualidade, transcende o mundo visível, apesar de permanecer inserta nele como [[lexico:f:forma:start|forma]] essencial do [[lexico:c:corpo:start|corpo]]. O [[lexico:p:puro:start|puro]] [[lexico:e:espirito:start|espírito]], que não é [[lexico:p:parte:start|parte]] nem membro do mundo, exprimi; plenamente a supra-mundanidade. Incomparável é a transcendência (5) ou supra-mundanidade de [[lexico:d:deus:start|Deus]], cuja infinidade sobrepuja, de [[lexico:m:modo:start|modo]] [[lexico:i:inefavel:start|inefável]], o mundo e tudo quanto é [[lexico:f:finito:start|finito]]; transcendência, à qual, não obstante, se une, em [[lexico:v:virtude:start|virtude]] da mesma infinidade, uma [[lexico:i:imanencia:start|imanência]] igualmente incomparável. — A transcendência (4 e 5), reflui para a transcendência (2 e 3), porque a supra-mundanidade traz consigo também uma rigorosíssima supra [[lexico:s:sensibilidade:start|sensibilidade]] e inexperimentabilidade. Considerada do ponto de vista [[lexico:l:logico:start|lógico]], a transcendência (6) convém àqueles [[lexico:c:conceitos:start|conceitos]] universalíssimos que transcendem todas as [[lexico:c:categorias:start|categorias]] e, em [[lexico:g:geral:start|geral]], todas as ordens particulares, envolvendo absolutamente tudo dentro de sua [[lexico:e:extensao:start|extensão]]. Trata-se, neste caso, do ser e dos chamados [[lexico:t:transcendentais:start|transcendentais]]. — Mencionemos aqui, só de passo, a transcendência [[lexico:m:matematica:start|matemática]] (7), que se atribui a uma [[lexico:q:quantidade:start|quantidade]] que ultrapassa os limites do algébrico, p. ex., o [[lexico:n:numero:start|número]]. Na [[lexico:a:atualidade:start|atualidade]], a [[lexico:f:filosofia:start|Filosofia]] [[lexico:e:existencial:start|existencial]] ([[lexico:f:filosofia-da-existencia:start|filosofia da existência]]) descobriu de novo a transcendência. [[lexico:j:jaspers:start|Jaspers]] [[lexico:f:fala:start|fala]] do ser como do "envolvente" e faz que a existência humana se constitua pela transcendência, isto é, por sua abertura ao [[lexico:a:absoluto:start|absoluto]]. [[lexico:h:heidegger:start|Heidegger]] entende a transcendência como elevação do [[lexico:e:ente:start|ente]] isolado ao mundo em geral, ao ente-no-todo, a "o" ser, embora não determine o que seja este ser. — Lötz. (in. Trancendence; fr. Transcendance; al. Transzendez; it. Trascen-denzd). [[lexico:e:esse:start|esse]] termo foi usado com dois significados diferentes: 1° [[lexico:e:estado:start|Estado]] ou [[lexico:c:condicao:start|condição]] do [[lexico:p:principio:start|princípio]] [[lexico:d:divino:start|divino]], do ser [[lexico:a:alem:start|além]] de tudo, de toda experiência humana (enquanto experiência de coisas) ou do [[lexico:p:proprio:start|próprio]] ser; 2° ato de estabelecer uma relação que exclua a unificação ou a identificação dos termos. 1) No primeiro sentido, esse termo vincula-se à concepção neoplatônica de divindade. [[lexico:p:platao:start|Platão]] já dissera que o Bem, como princípio supremo de tudo [[lexico:o:o-que-e:start|o que é]], comparável como tal ao [[lexico:s:sol:start|sol]] que dá [[lexico:v:vida:start|vida]] às coisas e as torna visíveis, está além da [[lexico:s:substancia:start|substância]] (epekeina tes ousias, [[lexico:r:republica:start|República]], VI, 509 b). A [[lexico:e:exemplo:start|exemplo]] de Platão, [[lexico:p:plotino:start|Plotino]] repete que o [[lexico:u:uno:start|uno]] está "além da substância" (Enn., VI, 8, 1 9), mas acrescenta que ele também está "além do ser" (epekeina ontos, Ibid., V, 5, 6) e "além da [[lexico:m:mente:start|mente]]" (epekeina nou, Ibid., III, 8, 9), de tal modo que é transcendente (hyperbebekos) em relação a todas as coisas, mesmo produzindo-as e conservando-as no ser (Ibid., V, 5, 12). [[lexico:p:proclo:start|Proclo]] diz: "Além de todos os corpos está a substância da alma; além de todas as almas, a [[lexico:n:natureza:start|natureza]] [[lexico:i:inteligivel:start|inteligível]]; além de todas as [[lexico:s:substancias:start|substâncias]] inteligíveis, está o Uno" (Inst. theol., 20). Escoto Erigena e outros usaram o termo [[lexico:s:supra-ente:start|supra-ente]] para designar a transcendência absoluta, graças à qual Deus está além de todas as determinações concebíveis, até mesmo do ser ou da substância. Nem sempre, porém, a transcendência é levada ao ponto de situar Deus além do ser, transformando-o de algum modo em "[[lexico:n:nada:start|nada]]". A [[lexico:e:escolastica:start|escolástica]] clássica, reconhecendo a analogicidade do ser, não põe Deus além do próprio ser: esta forma de transcendência é, ao contrário, própria da [[lexico:t:teologia-negativa:start|teologia negativa]] ou [[lexico:m:mistica:start|mística]] (v. [[lexico:t:teologia:start|teologia]], 4). Fora da teologia, essa [[lexico:e:especie:start|espécie]] de transcendência foi reconhecida por Jaspers, que a contrapôs à existência: transcendência é o que está além da [[lexico:p:possibilidade:start|possibilidade]] de existência, é o ser que nunca se resolve no [[lexico:p:possivel:start|possível]] e com o qual a única relação que o [[lexico:h:homem:start|homem]] pode [[lexico:t:ter:start|ter]] consiste na [[lexico:i:impossibilidade:start|impossibilidade]] de alcançá-lo. Nesse sentido, a transcendência se manifesta sob forma de [[lexico:c:cifra:start|cifra]] nas situações-limite e não pode ser caracterizada nem como "divindade", sem incidir na [[lexico:s:supersticao:start|superstição]]. A única [[lexico:c:certeza:start|certeza]] que se pode ter em relação à transcendência é que "o ser é, e é assim" (Phil., III, p. 134). Entrementes, as correntes realistas da filosofia contemporânea atribuíam transcendência às coisas, aos objetos do [[lexico:c:conhecimento:start|conhecimento]] em geral ou ao ser de tais objetos. Nesse sentido, [[lexico:h:husserl:start|Husserl]] negava que uma [[lexico:c:coisa:start|coisa]] pudesse ser dada como [[lexico:i:imanente:start|imanente]] em qualquer [[lexico:p:percepcao:start|percepção]] ou consciência, e definia o ser da coisa como ser transcendente, que é mais ou menos sombreado pelas [[lexico:a:aparicoes:start|aparições]] da coisa à consciência (ldeen, I, § 41). N. [[lexico:h:hartmann:start|Hartmann]] insistia na transcendência do ser em relação ao conhecimento, porquanto o ser fica sempre além do objeto cognitivo imanente (Metaphysik der Erkenntniss, 2a ed., 1925, p. 50). No mesmo sentido, a transcendência era combatida pelas várias formas do [[lexico:i:imanentismo:start|imanentismo]]. 2) No segundo significado, transcendência é o ato de se estabelecer uma relação, sem que esta signifique [[lexico:u:unidade:start|unidade]] ou [[lexico:i:identidade:start|identidade]] de seus termos, mas sim garantindo, com a própria relação, a sua [[lexico:a:alteridade:start|alteridade]]. Esse [[lexico:c:conceito:start|conceito]] também tem [[lexico:o:origem:start|origem]] religiosa e neoplatônica. Plotino dizia que a [[lexico:c:contemplacao:start|contemplação]] é "para [[lexico:q:quem:start|quem]] foi além de tudo" (Enn., VI, 9, 11). Num trecho famoso, S. [[lexico:a:agostinho:start|Agostinho]] dizia: "Se achares mutável a tua natureza, transcende-te a ti mesmo", e acrescentava: "Lembra-te de que, ao te transcenderes a ti mesmo, estás transcendendo uma alma [[lexico:r:racional:start|racional]] e que, portanto, deves visar ao ponto do qual provém a [[lexico:l:luz:start|luz]] da razão" (De vera relig., 39). Esse sentido ativo de transcendência ficou praticamente obliterado na filosofia tradicional e só foi retomado pela filosofia contemporânea. Com [[lexico:r:referencia:start|referência]] à transcendência do ser ou da coisa em relação à consciência que a apreende ou ao ato de conhecimento que é seu objeto, a própria consciência ou o ato de conhecimento foram chamados de transcendentes. Assim, Husserl fala de percepção transcendente, que tem a coisa por objeto e em relação à qual a coisa é transcendente, o que difere da percepção imanente, que tem por objeto as experiências conscientes que são imanentes à própria percepção (Ideen, I, § 42, 46). N. Hartmann baseou o seu [[lexico:r:realismo:start|realismo]] no conceito de transcendência: "O conhecimento não é um [[lexico:s:simples:start|simples]] ato de consciência, como o [[lexico:r:representar:start|representar]] e o pensar, mas um ato transcendente. Um ato desses se liga ao [[lexico:s:sujeito:start|sujeito]] só por um lado, mas por [[lexico:o:outro:start|outro]] fica fora; por este [[lexico:u:ultimo:start|último]], liga-se ao existente, que, graças a ele, se torna objeto. O conhecimento é uma relação entre um sujeito e um objeto existente. Nessa relação, o ato transcende a consciência" (Systematische Philosophie, § 11). No mesmo sentido ele chama de transcendente a relação cognoscitiva (Ibid., § 10). No entanto, a mais importante utilização do conceito nesse sentido foi a de Heidegger, que definiu como transcendente a relação entre o homem ([[lexico:d:dasein:start|Dasein]], [[lexico:s:ser-ai:start|ser-aí]]) e o mundo. "O ser-aí que transcende (eis uma [[lexico:e:expressao:start|expressão]] já [[lexico:p:por-si:start|por si]] tautológica) não ultrapassa nem um [[lexico:o:obstaculo:start|obstáculo]] anteposto ao sujeito de tal modo que o obrigue a permanecer em [[lexico:s:si-mesmo:start|si mesmo]] (imanência), nem um fosso que o separaria do objeto. Por sua vez, os objetos (entes que lhe estão presentes) não são aquilo em cuja direção ocorre a ultra-passagem. O que é ultrapassado é unicamente o ente, ou seja, qualquer ente que possa ser revelado ou revelar-se ao ser-aí, portanto o ente que o ser-aí é, enquanto, existindo, é ele mesmo" (Vom [[lexico:w:wesen:start|Wesen]] des Grundes, 1929, II). Em outros termos, é pelo ato de transcendência que o homem, como ente no mundo, se distingue dos outros entes ou objetos e se reconhece como "ele mesmo". Heidegger, portanto, considera a transcendência como o significado do ser no mundo. "Quem ultrapassa e, portanto, vai além, deve como tal sentir-se situado no ente. O ser-aí, na medida em que se sente como tal, está incluído no ente de tal modo que, reabarcado nele, é por ele conciliado consigo mesmo. A transcendência é um tal [[lexico:p:projeto:start|projeto]] do mundo que quem projeta é dominado pelo ente que transcende e está já de [[lexico:a:acordo:start|acordo]] com ele. Com esse ser incluído do ser-aí, ligado com a transcendência, o ser-aí ganhou base no ente, obteve o seu [[lexico:f:fundamento:start|fundamento]]" (Ibid., III). São características de Heidegger essa reincidência e esse achatamento da transcendência nos objetos transcendidos, do projeto nas suas condições de partida, do possível no [[lexico:e:efetivo:start|efetivo]], do [[lexico:f:futuro:start|futuro]] no passado. Heidegger chama de [[lexico:d:decadencia:start|decadência]] ou [[lexico:f:facticidade:start|facticidade]] essa reincidência ou achatamento. Foi o que fez [[lexico:s:sartre:start|Sartre]], que expressa o mesmo conceito de transcendência afirmando que a consciência (o [[lexico:p:para-si:start|para-si]]), ao transcender para o ser (o [[lexico:e:em-si:start|em-si]]), está apenas se anulando para revelar e afirmar, através de si, o próprio ser (L’être et le néant, II, cap. III, espec. pp. 268-69). Para uma [[lexico:i:interpretacao:start|interpretação]] da transcendência que fuja ao achatamento ou à nadificação, cf. [[lexico:a:abbagnano:start|Abbagnano]], Struttura dell’esistenza, 1939, § 18; ID., Introduzione all’esistenzialismo, I, 6; etc. {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}