===== TRADUÇÃO ===== Segundo a [[lexico:h:hipotese:start|hipótese]] de Sapir-Whorf, a concepção de [[lexico:m:mundo:start|mundo]]([[lexico:w:weltanschauung:start|Weltanschauung]]) de uma [[lexico:p:pessoa:start|pessoa]] está intimamente ligada à [[lexico:n:natureza:start|natureza]] de sua [[lexico:l:lingua:start|língua]] nativa. Isto apenas no [[lexico:p:plano:start|plano]] [[lexico:e:empirico:start|empírico]], pois antes da língua definir o conteúdo da [[lexico:p:percepcao:start|percepção]] (e através da percepção a [[lexico:c:cultura:start|cultura]]), esta mesma língua é uma [[lexico:e:estrutura:start|estrutura]] que independe, ao menos parcialmente, da cultura onde se dá ([[lexico:v:ver:start|ver]] [[lexico:d:discussao:start|discussão]] em cultura). Ao lado dos [[lexico:e:elementos:start|elementos]] culturais, sempre [[lexico:r:relativos:start|relativos]], que influenciam a formatividade da língua (níveis [[lexico:f:funcional:start|funcional]] e expressivo) há seu nível fundamental, a ela [[lexico:i:imanente:start|imanente]] (estrutural) e que só pode [[lexico:s:ser:start|ser]] estudado através de seus dois códigos. [[lexico:j:jakobson:start|Jakobson]] demonstrou, contra [[lexico:r:russell:start|Russell]] e os positivistas lógicos, que o [[lexico:s:sentido:start|sentido]] das [[lexico:p:palavras:start|palavras]] se dá numa [[lexico:e:experiencia:start|experiência]] [[lexico:s:semiotica:start|semiótica]] e [[lexico:n:nao:start|não]] calcado numa "[[lexico:o:objetividade:start|objetividade]] qualquer". Só a partir disto é que se poderia, entendendo a [[lexico:i:imanencia:start|imanência]] do significante, tentar estudar sua [[lexico:r:relacao:start|relação]] com [[lexico:s:significado:start|significado]] e, no caso que interessa aqui, com a cultura. A semiótica é uma [[lexico:c:ciencia:start|ciência]] mais ampla que a [[lexico:l:linguistica:start|linguística]] (se [[lexico:b:bem:start|Bem]] que, segundo muitos autores, não seja ainda uma ciência) e nela se escaparia da circularidade não [[lexico:d:dialetica:start|dialética]] de Whorf e Sapir: de como a língua influencia a cultura e de como a cultura influencia a língua. A partir desta [[lexico:p:perspectiva:start|perspectiva]], Jakobson propõe três formas de tradução: 1) — tradução intralingual (ou reformulação) — consiste em interpretar signos linguísticos por [[lexico:m:meio:start|meio]] de outros signos linguísticos da mesma língua. Assim dizer que "[[lexico:e:esfera:start|esfera]]" é um "sólido gerado pela rotação completa de um semicírculo em torno de seu diâmetro" ou "uma moeda portuguesa de ouro cunhada no [[lexico:t:tempo:start|tempo]] de D. Manoel". Situações mais complexas — uma [[lexico:f:frase:start|frase]], por [[lexico:e:exemplo:start|exemplo]], — podem ser traduzidas por outras situações complexas. "Ele está chateado" pode ser traduzido por uma frase incompleta "teve aborrecimentos hoje e daí. . ." No primeiro exemplo, "esfera" tem um referencial, enquanto o segundo exemplo depende do exame — mesmo que [[lexico:i:imediato:start|imediato]], ingênuo — do [[lexico:s:situacao:start|situação]]; 2) — tradução interlingual (ou tradução propriamente dita) que consiste em interpretar signos linguísticos através de signos linguísticos de outra língua. O alemão Pferd será cheval em francês, enquanto arbre em francês será árvore em português. Estas palavras têm referenciais e podem ser indicadas (nem sempre, pois, por exemplo, dizer que "pequinês" ou "dinamarquês" são "cachorros" não pode ser atribuído à [[lexico:c:consciencia:start|consciência]] imediata perceptiva mas deve ser procurada numa [[lexico:t:teoria:start|teoria]] da [[lexico:c:classificacao:start|classificação]]). Já a frase "ais Zarathustra dreissig Jahre alt war, verliess er seine Heimat und den See seiner Heimat und ging in das Gebirge" não possui, nem remotamente, referenciais (pois só pode ser pensada no nível do [[lexico:p:pensamento:start|pensamento]] elaborado de seu autor) e por isto pode ser traduzida de vários modos. A tradução interlingual tem vários aspectos, dos quais se podem estudar três: a — [[lexico:i:influencia:start|influência]] de uma língua sobre a outra — Meillet mostrou como os milhares de sorabos da Lusácia falavam o sorabo (também [[lexico:c:chamado:start|chamado]] sérvio da Lusácia) em casa e no [[lexico:u:uso:start|uso]] local, mas que sua língua de [[lexico:c:comunicacao:start|comunicação]] mais [[lexico:u:universal:start|universal]] era o alemão. Apesar de se expressarem nas duas línguas o alemão impunha sua [[lexico:f:forma:start|forma]] gramatical ao sorabo; b — a situação cultural — se bem que o [[lexico:s:signo:start|signo]] linguístico seja [[lexico:a:arbitrario:start|arbitrário]] [[lexico:a:a-priori:start|a priori]], isto é, os significados não trazem [[lexico:n:nada:start|nada]] em si que obriguem os sujeitos a denominá-los de [[lexico:m:modo:start|modo]] determinado (assim, por exemplo, o [[lexico:o:objeto:start|objeto]] "cabeça" é dominado variadamente como "tête", "head", "kopf", "capo", "cabeza" etc). Mas desde que um significado se estabeleça em sua relação significante, tudo muda: " Uma vez criado o signo, sua [[lexico:v:vocacao:start|vocação]] se precisa, de uma [[lexico:p:parte:start|parte]] em [[lexico:f:funcao:start|função]] da estrutura [[lexico:n:natural:start|natural]] do cérebro, de outra parte, por relação ao conjunto dos outros signos, ou seja, do [[lexico:u:universo:start|universo]] da língua, que tende naturalmente ao [[lexico:s:sistema:start|sistema]]"; c — dentro de um mesmo grupamento cultural aparecem diferenças de comunicação não devidas a fatores linguísticos: "A [[lexico:d:divisao:start|divisão]] de uma [[lexico:s:sociedade:start|sociedade]] em classes ou castas produz diferenças de vocabulário, [[lexico:g:gramatica:start|gramática]], fonética e [[lexico:f:fonema:start|fonema]], [[lexico:e:estilo:start|estilo]] etc".; 3) — tradução intersemiótica (ou transmutação) — [[lexico:i:interpretacao:start|interpretação]] de signos linguísticos por meio de signos não linguísticos. A Ode à [[lexico:a:alegria:start|alegria]] de Schiller traduzida por Beethoven na sua Nona Sinfonia, por exemplo. Nesta terceira forma de tradução dever-se-ia antes definir o funcionamento [[lexico:t:teorico:start|teórico]] dos diversos níveis de signos não linguísticos — pintura, balé, [[lexico:m:musica:start|música]], mímica etc. — para que a passagem de uma à outra pudesse ser dada pela teoria da tradução. Ver-se-ia que esta tradução não é completa pois não se pode afirmar cientificamente que todas as linguagens podem ser teorizadas completamente. Uma teoria só ganha [[lexico:s:status:start|status]] científico quando elabora seus [[lexico:p:principios:start|princípios]] teóricos e não quando se baseia num [[lexico:a:ato-de-fe:start|ato de fé]] de que "tudo é racionalizável" (esta [[lexico:e:esperanca:start|esperança]] pertence ao [[lexico:c:campo:start|campo]] filosófico, mesmo assim da velha [[lexico:f:filosofia:start|Filosofia]], e não ao científico) . Ainda no nível da tradução inter-semiótica, Jakobson deixa em [[lexico:a:aberto:start|aberto]] uma [[lexico:q:questao:start|questão]], a tradução (por [[lexico:d:definicao:start|definição]]) [[lexico:i:impossivel:start|impossível]] das linguagens matemáticas em signos linguísticos (a não ser quando os signos linguísticos perdem a [[lexico:c:conotacao:start|conotação]] de comunicação funcional). Um dos corolários do [[lexico:t:teorema-de-godel:start|teorema de Gödel]] é de que as matemáticas não podem apontar para um referencial-objeto desde que seu objeto só pode ser verificado completamente numa [[lexico:l:linguagem:start|linguagem]] distinta (mais forte) da teoria que examina o objeto, pois toda teoria adequada não pode examinar todos seus objetos ([[lexico:o:oposicao:start|oposição]] de completude e [[lexico:c:consistencia:start|consistência]] numa teoria) . A "comunicação" nas matemáticas só pode ser verificada teoricamente e nunca numa tradução empírica. Questão da maior importância é a [[lexico:a:analise:start|análise]] dos diversos níveis expressivos e funcionais da comunicação. Ver-se-ia que a tradução interlingual nem sempre é [[lexico:p:possivel:start|possível]] de modo cibernético. Um contexto poético não pode ser traduzido justamente: "a [[lexico:p:poesia:start|poesia]], por definição, é intraduzível. Somente é possível a [[lexico:t:transposicao:start|transposição]] criadora: transposição no interior de uma língua — de uma forma poética à outra — transposição de uma língua à outra...". Enquanto num [[lexico:m:mito:start|mito]] o que importa não é seu estilo, modo de narração ou sua [[lexico:s:sintaxe:start|sintaxe]], já que sua [[lexico:s:substancia:start|substância]] está na [[lexico:h:historia:start|história]] que ele narra. Um romance, que o leigo entende como facilmente traduzível, não pode ser traduzido se o tradutor dominar unicamente as duas línguas (do original e da tradução), pois entre ambas situam-se não apenas o contexto e a situação mas o nível romance, que se cria e se manifesta de modo especial. O mesmo se pode afirmar da filosofia, que tem uma linguagem própria, não referenciável às experiências cotidianas ou não referenciável imediatamente aos contextos de outros sistemas. Por exemplo, "uma [[lexico:h:historia-da-filosofia:start|história da filosofia]] explica a [[lexico:c:constituicao:start|constituição]] e significado da filosofia dentro dos quadros da filosofia". Estes vários exemplos podem ser tratados rigorosamente no exame epistêmico de cada uma das linguagens propostas. Mas estas mesmas linguagens não terão o [[lexico:c:carater:start|caráter]] e a natureza da linguística. O [[lexico:p:problema:start|problema]] [[lexico:e:essencial:start|essencial]] ainda permanece: [[lexico:o:o-que-e:start|o que é]] a teoria da tradução? (Chaim Katz - [[lexico:d:dcc:start|DCC]]) A tradução de uma [[lexico:o:obra:start|obra]] de pensamento, seja ela filosófica ou poética, difere de uma tradução [[lexico:t:tecnica:start|técnica]], sobretudo pela sua [[lexico:i:impossibilidade:start|impossibilidade]] de ser definitiva. [[lexico:p:palavra:start|palavra]] e pensamento são criadores precisamente por se instalarem como nascente. Na nascente, porém, não é possível [[lexico:v:viver:start|viver]]. Só é possível viver desde a nascente. Isto significa que pertence a toda obra de pensamento um inacabamento vital, o em aberto mais generoso, que entrega a cada um a [[lexico:t:tarefa:start|tarefa]] de sempre de novo [[lexico:p:pensar:start|pensar]] juntamente com a obra o que o fundo de ser, o que a "relação de [[lexico:v:vida:start|vida]] e [[lexico:d:destino:start|destino]]" nos dá a pensar. Com isso se diz, por um lado, que a tradução não pode substituir a tarefa lenta e [[lexico:s:singular:start|singular]] de se pensar com a obra e, por [[lexico:o:outro:start|outro]], que a obra é tanto mais instauradora quanto mais intraduzível. Intraduzível não diz, contudo, não se deixar traduzir, mas doar a tarefa infinita de se traduzir sempre de novo. {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}