===== TÓPICOS ===== Os livros dos Tópicos, que se julga terem sido compostos antes dos [[lexico:a:analiticos|Analíticos]], compreendem duas partes principais: os Livros I e VII, 3 a VIII, constituindo uma introdução e uma conclusão e o bloco central dos livros II a VII, 3. O [[lexico:o:objeto|objeto]] do Tratado dos Tópicos é “Encontrar um [[lexico:m:metodo|método]] que nos possibilite [[lexico:r:raciocinar|raciocinar]] sobre qualquer [[lexico:p:problema|problema]] que poderia nos [[lexico:s:ser|ser]] proposto, partindo de premissas prováveis e, no decorrer da [[lexico:d:discussao|discussão]], evitar contradizer-nos a nós próprios". Tóp., I, c. 1, 100 a 18 Neste [[lexico:t:texto|texto]] inicial, [[lexico:a:aristoteles|Aristóteles]] nos dá a [[lexico:n:nota|nota]] que caracteriza o [[lexico:r:raciocinio|raciocínio]] dialético e o distingue do raciocínio demonstrativo. O raciocínio demonstrativo [[lexico:p:parte|parte]] de premissas necessárias e conduzem a uma conclusão científica necessária; o raciocínio dialético parte do [[lexico:p:provavel|provável]] para chegar a uma conclusão igualmente provável. Por provável, Aristóteles entende "o que parece ser, seja a todos os homens, seja à maioria, seja ao [[lexico:s:sabio|sábio]]". (I. C. 1, 100 b 21). O provável é definido então, por um [[lexico:c:criterio|critério]] [[lexico:e:externo|externo]], pelo [[lexico:s:sinal|sinal]] que permite reconhecê-lo: o [[lexico:t:testemunho|testemunho]]. Notemos que para Aristóteles, se [[lexico:b:bem|Bem]] que o provável [[lexico:n:nao|não]] seja a [[lexico:v:verdade|verdade]] mesma, reconhecida imediatamente ou cientificamente, deve ser tomado favoravelmente: é o que se assemelha à verdade, o [[lexico:v:verossimil|verossímil]]. A [[lexico:d:demonstracao|demonstração]] [[lexico:d:dialetica|dialética]] difere, portanto, da demonstração científica por sua [[lexico:m:materia|matéria]], mas é preciso observar que ambas utilizam as mesmas formas lógicas: a [[lexico:i:inducao|indução]] e o [[lexico:s:silogismo|silogismo]]. No c. 2 dos Tópicos, Aristóteles precisa que a prática da dialética pode [[lexico:t:ter|ter]] uma tríplice [[lexico:u:utilidade|utilidade]]: é um exercício do [[lexico:p:pensamento|pensamento]], — permite-nos discutir com [[lexico:q:quem|quem]] quer que seja partindo de suas próprias opiniões, — e finalmente é do [[lexico:i:interesse|interesse]] da [[lexico:c:ciencia|ciência]]: pois se, de um lado, estamos em condições de discutir o pró e o contra, de uma determinada [[lexico:q:questao|questão]], bem mais facilmente estaremos aptos a distinguir o [[lexico:v:verdadeiro|verdadeiro]] e o [[lexico:f:falso|falso]]. Por [[lexico:o:outro|outro]] lado, poderemos nos encaminhar na direção dos [[lexico:p:principios|princípios]] indemonstráveis das ciências. De [[lexico:f:fato|fato]], Aristóteles quase não explicou a maneira pela qual seria [[lexico:p:possivel|possível]] utilizar assim a dialética para subir aos princípios das ciências. Em [[lexico:t:tomas-de-aquino|Tomás de Aquino]] entretanto, podemos encontrar os delineamentos de uma [[lexico:l:logica|lógica]] inventiva já nitidamente melhor constituída. O problema [[lexico:g:geral|geral]] da dialética consiste em investigar, por [[lexico:m:meio|meio]] de premissas prováveis, se determinada conclusão pode ser aceita, quer dizer, se um certo [[lexico:p:predicado|predicado]] pertence a um determinado [[lexico:s:sujeito|sujeito]]. Para Aristóteles, [[lexico:e:esse|esse]] problema se subdivide em [[lexico:q:quatro|Quatro]] problemas mais particulares, segundo o predicado pertença ao sujeito como [[lexico:g:genero|gênero]], como [[lexico:d:definicao|definição]], como [[lexico:p:proprio|próprio]] ou como [[lexico:a:acidente|acidente]]. Perguntar-se-á, por [[lexico:e:exemplo|exemplo]], se o [[lexico:h:homem|homem]] é [[lexico:a:animal|animal]] (problema do gênero), se ele tem a [[lexico:c:capacidade|capacidade]] de rir (problema da [[lexico:p:propriedade|propriedade]]), se ele é branco (problema do acidente); cada uma dessas questões devendo ser resolvida, não por argumentos científicos, mas por argumentos prováveis ou a partir de princípios comumente aceitos. Para resolver cada um desses problemas, recorrer-se-á ao que Aristóteles chamou de topoi, [[lexico:l:lugares|lugares]] dialéticos. Os lugares dialéticos são conjuntos de proposições prováveis prontos a entrar como premissas nos silogismos dialéticos (v. silogismo) e que se acham classificados sob as quatro divisões das grandes questões dialéticas. Quer dizer que quando se levanta uma questão que entra em uma destas [[lexico:c:categorias|categorias]] (por exemplo: tal [[lexico:q:qualidade|qualidade]] é propriedade de tal sujeito?), encontra-se uma provisão de proposições que permitirão resolvê-la. A [[lexico:e:enumeracao|enumeração]] destes lugares dialéticos ocupa [[lexico:t:todo|todo]] o [[lexico:c:corpo|corpo]] da [[lexico:o:obra|obra]]: lugares do acidente (II e III), lugares do gênero (IV), lugares da propriedade (V), [[lexico:l:lugar|lugar]] da definição (VI, VII, 3). Os lugares dialéticos são, portanto, premissas, mais especialmente, maiores presuntivas. Citemos, a título de exemplo, os primeiros lugares do gênero: "Se um gênero, pretendido como tal, não pode ser atribuído a uma [[lexico:e:especie|espécie]] ou a um [[lexico:i:individuo|indivíduo]] dessa mesma espécie, ele, na [[lexico:r:realidade|realidade]], não é um gênero". — "O [[lexico:a:atributo|atributo]] que não convém essencialmente a todos os sujeitos aos quais ele pode ser atribuído, não poderia ser seu gênero". — "O predicado ao qual convém a definição de um acidente não é o gênero do sujeito desse acidente." Não entraremos em maiores detalhes sobre os Tópicos de Aristóteles ([[lexico:v:ver|ver]] a este [[lexico:r:respeito|respeito]] A. [[lexico:g:gardeil|Gardeil]], La Notion du lieu théologique). Eles são uma tentativa de [[lexico:c:constituicao|constituição]] de um método de discussão absolutamente [[lexico:u:universal|universal]]. Enquanto as ciências são circunscritas por seus objetos específicos, a dialética trata de tudo e a partir de princípios comuns admitidos por todos ou por muitos. Aristóteles cedia aqui ao [[lexico:g:gosto|gosto]], da discussão, tão comum entre os Gregos, mas ao mesmo [[lexico:t:tempo|tempo]], visava a louvável meta de tornar essas discussões tão fecundas quando possível para a defesa e procura da verdade. Repitamos que, em Tomás de Aquino, a dialética assume de maneira mais firme do que em Aristóteles a estatura de uma [[lexico:d:disciplina|disciplina]] de [[lexico:p:pesquisa|pesquisa]]. (Cf. J. Isaac, La notion de dialectique chez saint Thomas, na Rev. des Sc. Ph. et Th., 1950, pp. 481-506).