===== TEXTO ===== A [[lexico:d:diversidade:start|diversidade]] entre [[lexico:d:dialogo:start|diálogo]] e texto pode permanecer naturalmente encoberta, antes de tudo se aquilo que precisa [[lexico:s:ser:start|ser]] interpretado é um documento [[lexico:e:escrito:start|escrito]] e se ele se assemelha a um [[lexico:d:discurso:start|discurso]] firmemente estabelecido. Neste caso, [[lexico:n:nao:start|não]] parece haver senão uma transição entre diálogo e texto e não uma cesura. Não obstante, subsiste aí uma cesura: quando o indagamos, o texto nega a resposta. Essa [[lexico:s:situacao:start|situação]] foi descrita no [[lexico:f:fedro:start|Fedro]] de [[lexico:p:platao:start|Platão]]. O [[lexico:c:carater:start|caráter]] temerário e perigoso (δεινόν ) da [[lexico:e:escrita:start|escrita]] (γραφή ) consiste no [[lexico:f:fato:start|fato]] de ela ser similar à pintura; tal como diz literalmente a [[lexico:p:palavra:start|palavra]] grega para pintura, ζωγραφία , ela é uma escrita do [[lexico:v:vivente:start|vivente]], mas uma escrita, na qual o vivente se dissipa. A escrita não consegue dar [[lexico:v:vida:start|vida]] aos seus filhos, mas a sua vida é apenas simulada. Quando perguntamos algo a ela, ela se cala com uma [[lexico:s:seriedade:start|seriedade]] sagrada . Essas [[lexico:i:ideias:start|ideias]], que na [[lexico:m:maioria-das-vezes:start|maioria das vezes]] são compreendidas como uma [[lexico:c:critica:start|crítica]] à escrita, não se mostram como uma tal crítica senão a partir de um [[lexico:p:pressuposto:start|pressuposto]]: o pressuposto de que a escrita é [[lexico:m:medida:start|medida]] a partir do discurso. É justamente contra isso, porém, que somos advertidos no Fedro. Em uma escrita que se mostra como dialógica e que apresenta personagens [[lexico:c:como-se:start|como se]] eles falassem, a advertência pode ser particularmente oportuna. Entretanto, a advertência é universalmente válida: não se faz jus à escrita, quando não a reconhecemos em sua [[lexico:e:essencia:start|essência]]. A dificuldade com a escrita, tal como ela é descrita aqui, repousa sobre uma desilusão que remonta, por sua vez, a uma confusão: aquilo que é escrito é tratado como uma [[lexico:p:pessoa:start|pessoa]] que poderia completar, variar ou elucidar aquilo que diz. Assim, o seu [[lexico:s:silencio:start|silêncio]] aparece como uma falha; ele significaria o mesmo que a incapacidade de prestar a informação desejada. Em [[lexico:c:contraposicao:start|contraposição]] ao diálogo, aquilo que é escrito é, ao que parece, deficiente. Todavia, o seu silêncio é em [[lexico:v:verdade:start|verdade]] uma [[lexico:r:recusa:start|recusa]] do mesmo [[lexico:t:tipo:start|tipo]] da que também é própria aos [[lexico:d:deuses:start|deuses]], que não se intrometem no diálogo [[lexico:h:humano:start|humano]] e, com maior [[lexico:r:razao:start|razão]], não se deixam arrastar para o interior desse diálogo; é por isso que o silêncio daquilo que é escrito é um silêncio dotado de uma seriedade sagrada (σεμνώς ). Escritos não pertencem ao contexto da vida humana; eles não são pessoas. [[lexico:q:quem:start|quem]] gostaria de receber informações elucidativas sobre eles é remetido à [[lexico:c:consistencia:start|consistência]] do escrito, àquilo que se acha presente. Os λόγοι são, então, comparados com a escrita no [[lexico:s:sentido:start|sentido]] dos sinais assentados e constatáveis. Poderíamos acreditar que eles disseram algo como que reflexivamente. No entanto, se estamos ávidos por aprender algo com aquilo que foi [[lexico:d:dito:start|dito]], então eles não nos dão aparentemente a entender senão uma e mesma [[lexico:c:coisa:start|coisa]] . Os λόγοι não são sem a escrita, mas eles também não são idênticos à escrita. Enquanto a escrita é a superfície perceptível dos λόγοι, esses se mostram como as unidades complexas que possuem a sua constatação material na escrita - ou seja, nos textos escritos. Eles recusam-se enquanto a escrita e com a escrita, mas se recusam de uma maneira diversa. Enquanto a escrita simplesmente silencia, os textos fazem aquilo que, segundo a [[lexico:s:sentenca:start|sentença]] de [[lexico:h:heraclito:start|Heráclito]] , o senhor do oráculo de Delfos também faz: eles dão a entender. Eles dizem algo como se estivessem refletindo, mas não pensam. Perguntar sobre o [[lexico:p:pensamento:start|pensamento]] do qual eles provieram seria sem sentido. Este pensamento efetivamente passou e aquilo que se encontra presente não é a sua relíquia; não se trata, neste caso, de uma [[lexico:r:referencia:start|referência]] ao fato de se [[lexico:t:ter:start|ter]] um dia pensado aqui. Os textos “dizem” algo – isso não significa que eles falam. Os textos só existem na escrita e a escrita sempre se cala. Entretanto, há algo nos textos que co-pertence de tal [[lexico:m:modo:start|modo]] ao pensamento, que poderíamos tomá-lo pelo pensamento. Ele está fora do pensamento, mas não é, por assim dizer, separado do pensamento por um muro. Ele é o [[lexico:e:exterior:start|exterior]] que é para o pensamento - ele é exterior porque ele mesmo não é pensamento e ele é para o pensamento em razão de sua co-pertinência com ele. Textos não são [[lexico:n:nada:start|nada]] para o que o pensamento poderia se dirigir por [[lexico:s:si-mesmo:start|si mesmo]] como que para uma coisa qualquer. Eles oferecem algo ao pensamento e, com isso, o expõem a partir de si. Eles lhe entregam algo que não se encontra em si mesmo e por [[lexico:m:meio:start|meio]] de si mesmo: um sentido, que não é a sua própria direção. Sentido significa direção. Pensemos no “sentido dos ponteiros do relógio”; ele é aquilo que faz com que um [[lexico:m:movimento:start|movimento]] seja dirigido, aquilo que faz com que ele se torne mesmo significativo. Na ligação com os textos, o pensamento é posto em ligação. Ele não se aproxima mais a partir de si mesmo de algo que apreende, nem tampouco toca a si mesmo; as [[lexico:c:coisas:start|coisas]] só se dão desse modo no primeiro [[lexico:m:momento:start|momento]] da [[lexico:i:ilusao:start|ilusão]], um momento no qual consideramos os textos como “pensantes”. Em verdade, ele os coloca em uma ligação que permite que prestemos [[lexico:a:atencao:start|atenção]] às suas possibilidades de [[lexico:c:compreensao:start|compreensão]]. O pensamento só aprende algo sobre “si” quando está fora e aprende de outra [[lexico:f:forma:start|forma]]. Isso acontece, na medida em que os textos “dão a entender”. Eles fornecem aquilo que nós mesmos temos de [[lexico:c:compreender:start|compreender]], sem a [[lexico:i:intencao:start|intenção]] de comunicar e sem a intenção de silenciar algo. Sua escrita está apenas simplesmente presente, legível; eles se acham fora do pensamento. Por meio deles, por meio de tudo aquilo que um texto é no sentido mais restrito e mais amplo do [[lexico:t:termo:start|termo]], o pensamento alcança uma [[lexico:e:exterioridade:start|exterioridade]] intensa, cognoscível enquanto tal. Trata-se da exterioridade intensa do [[lexico:e:elemento:start|elemento]] hermenêutico. Esta é a cena originária do pensamento hermenêutico - de um pensamento que possui o caráter hermenêutico, assim como de uma [[lexico:f:filosofia:start|Filosofia]] [[lexico:h:hermeneutica:start|hermenêutica]] que tem por propósito a [[lexico:s:sondagem:start|sondagem]] desse elemento. [FigalO:80-82] {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}