===== TEORIA TOMISTA DO BEM ===== **[[lexico:f:formacao|Formação]] da [[lexico:t:teoria|teoria]].** Como para o [[lexico:v:vero|vero]], [[lexico:t:tomas-de-aquino|Tomás de Aquino]] se encontra diante de uma dupla [[lexico:t:tradicao|tradição]]: a tradição platônica, continuada pelos agostinianos, segundo a qual o [[lexico:b:bem|Bem]] se apresenta globalmente como um [[lexico:p:principio|princípio]] [[lexico:t:transcendente|transcendente]] e separado, doutrina que culmina de [[lexico:m:modo|modo]] [[lexico:n:natural|natural]] na [[lexico:a:afirmacao|afirmação]] da anterioridade e, portanto, da preeminência do bem sobre o [[lexico:s:ser|ser]]; e a tradição mais realista do [[lexico:a:aristotelismo|aristotelismo]] que, considerando o bem de maneira mais [[lexico:e:experimental|experimental]], dele faz uma [[lexico:p:perfeicao|perfeição]] implicada nas [[lexico:c:coisas|coisas]]. Aqui ainda é a uma [[lexico:o:obra|obra]] de [[lexico:s:sintese|síntese]], mais exatamente a uma [[lexico:a:assimilacao|assimilação]] pelo peripatetismo da [[lexico:t:tese|tese]] oposta, que Tomás de Aquino vai-nos fazer assistir. **A [[lexico:n:natureza|natureza]] do bem.** Retomando a doutrina expressa no [[lexico:t:texto|texto]] célebre do início da [[lexico:e:etica-a-nicomaco|Ética a Nicômaco]], Tomás de Aquino define fundamentalmente o bem por sua [[lexico:r:relacao|relação]] com o [[lexico:a:apetite|apetite]]: o bem é aquilo para o qual tendem todas as coisas: [[lexico:q:quod|quod]] omnia appetunt. Assim como o vero se definia por uma relação da [[lexico:i:inteligencia|inteligência]] como o ser, o bem se define por uma relação do ser com o apetite, fórmulas que [[lexico:n:nao|não]] fazem mais do que sintetizar os dados da [[lexico:e:experiencia|experiência]] [[lexico:u:universal|universal]] e comum. Mas enquanto o [[lexico:v:verdadeiro|verdadeiro]] se encontrava principalmente na [[lexico:p:potencia|potência]] de conhecer, o bem se encontra inicialmente na [[lexico:c:coisa|coisa]]: o bem é a coisa mesma, na [[lexico:m:medida|medida]] em que a coisa funda a [[lexico:p:propriedade|propriedade]] da apetibilidade. Que [[lexico:t:todo|todo]] ser tenha [[lexico:r:razao|razão]] de bem, ou que o bem seja um [[lexico:t:transcendental|transcendental]], Tomás de Aquino o manifesta pelo seguinte [[lexico:r:raciocinio|raciocínio]]: o bem é o que todas as coisas desejam; ora, deseja-se uma coisa na medida em que ela é perfeita; ora, ela é perfeita na medida em que está em [[lexico:a:ato|ato]]; ela está em ato na medida em que é ser: portanto, é manifesto que bem e ser são realmente idênticos, mas o bem implica a razão de apetibilidade, que o ser não exprime. "Bonum est quod omnia appetunt: manifestum est autem quod unumquodque est appetibile secundum quod est perfectum... in tantum autem est perfectum unumquodque, in quantum est in [[lexico:a:actu|actu]]: unde manifestum est quod in tantum est aliquid bonum in quantum est [[lexico:e:ens|ens]], [[lexico:e:esse|esse]] enim est actualitas omnis rei... Unde manifestum est quod bonum et ens sunt idem secundum rem: sed bonum dicit rationem appetibilis quod non dicit ens". Ia Pa, q. 5, a.1 Ato, perfeição, bem: três termos de [[lexico:s:significacao|significação]] bastante vizinha, que se solicitam um ao [[lexico:o:outro|outro]] e cuja conveniência profunda assegura a convertibilidade do ser e do bem. **Bem e [[lexico:c:causa|causa]] final.** Cf. Ia Pa, q. 5, a. 4. Uma outra aproximação se impõe, a das noções de bem e de causa final: é manifesto, com [[lexico:e:efeito|efeito]], que o que cada coisa pode desejar a título de causa final não pode ser para ela senão um bem; e, inversamente, todo bem pode [[lexico:t:ter|ter]] razão de causa final "Cum bonum sit quod omnia appetunt, hoc autem habet rationem finis, manifestum est quod bonum rationem f inis importat". Há aqui evidências imediatas para qualquer um que tenha tomado [[lexico:c:consciencia|consciência]] do [[lexico:s:sentido|sentido]] destes termos; a [[lexico:o:ordem|ordem]] do bem e a da [[lexico:f:finalidade|finalidade]] coincidem perfeitamente. Deve-se observar que a [[lexico:c:causalidade|causalidade]] final implica uma causalidade eficiente e, no princípio desta, uma causalidade [[lexico:f:formal|formal]]; entretanto, de modo [[lexico:p:proprio|próprio]], o bem age apenas como causa final, ou suscitando o [[lexico:d:desejo|desejo]] dela. Todo esse [[lexico:a:aspecto|aspecto]] irradiante do bem, que se encontra expresso neste famoso adágio que o bem é difusivo de [[lexico:s:si-mesmo|si mesmo]], bonum est diffusivum sui, não deverá, portanto, ser compreendido como uma [[lexico:e:especie|espécie]] de [[lexico:a:atividade|atividade]] eficiente ou de irradiação propriamente dita. A causa final, o bem, como tais, se comportam como motores imóveis, enquanto determinam somente o [[lexico:m:movimento|movimento]] de [[lexico:a:apeticao|apetição]]. **As modalidades do bem.** O bem, sendo convertível com o ser, é como este uma [[lexico:n:nocao|noção]] analógica de múltiplas [[lexico:s:significacoes|significações]]: há um bem correspondente a cada ser [[lexico:p:particular|particular]]. Retomando uma [[lexico:f:formula|fórmula]] de [[lexico:s:santo|santo]] [[lexico:a:ambrosio|Ambrósio]], a tradição reteve sobretudo a grande [[lexico:d:divisao|divisão]] em bem honesto, [[lexico:u:util|útil]] ou deleitável. Se a compreendermos de maneira correta, esta divisão aparecerá como exaustiva. Consideremos, com efeito, um apetite em [[lexico:t:tendencia|tendência]] para o bem. [[lexico:o:o-que-e|o que é]] desejado pode ser, seja um [[lexico:m:meio|meio]] ordenado a um [[lexico:f:fim|fim]] ulterior, seja o próprio fim. No primeiro caso, o bem desejado, a título de meio, é o bonum utile. No segundo caso, dois pontos de vista podem ainda ser considerados: ou o bem de que se trata é o próprio [[lexico:t:termo|termo]] [[lexico:o:objetivo|objetivo]] do movimento apetitivo e se tem o bonum honestum (deve-se notar a significação especial aqui do termo honestum; o bem honesto é o bem como [[lexico:s:simples|simples]] termo do desejo, e [[lexico:n:nada|nada]] mais); ou o bem considerado designa a [[lexico:p:posse|posse]] subjetiva deste [[lexico:u:ultimo|último]], o quies in re desiderata, e se tem o bonum delectabile (não há evidentemente deleite no sentido próprio da [[lexico:p:palavra|palavra]] senão para os seres dotados de [[lexico:a:afetividade|afetividade]]). É claro que o primeiro destes três [[lexico:b:bens|bens]] é o bem honesto, ao qual os outros se reportam a título de meio de complemento. **O [[lexico:m:mal|mal]] enquanto oposto ao bem.** O [[lexico:p:problema|problema]] do mal possui aspectos múltiplos e diversos. Também não se trata aqui senão de indicar qual [[lexico:p:posicao|posição]] de princípio adotou Tomás de Aquino a partir de sua concepção do bem. A significação de um termo é de modo corrente tornada manifesta através da significação de seu oposto: assim as trevas são tornadas manifestas pela [[lexico:l:luz|luz]]. Ora, sabemos que todo ser tem a [[lexico:i:ideia|ideia]] de bem. O mal, que é o oposto ao bem, não pode pois designar positivamente o ser: somente pode corresponder a uma certa [[lexico:a:ausencia|ausência]] de ser: "Non potest esse quod malum significet quoddam esse, seu quamdam formam, seu naturam. Relinquitur ergo, quod nomine mali significatur quemdam absentiam boni". Ia Pa, p. 48, a. 2 Mas é importante precisar que não é toda e qualquer [[lexico:n:negacao|negação]] de ser que tem a [[lexico:d:determinacao|determinação]] do mal: somente tem este [[lexico:d:direito|direito]] a negação ou, mais exatamente, a [[lexico:p:privacao|privação]] de uma [[lexico:m:modalidade|modalidade]] de ser que deveria se encontrar em um [[lexico:s:sujeito|sujeito]]. Em [[lexico:c:consequencia|consequência]], não poderá haver mal [[lexico:a:absoluto|absoluto]]; supondo-se, com efeito, um certo sujeito, todo mal repousa sobre algo de [[lexico:p:positivo|positivo]] que não pode ser senão algo de [[lexico:b:bom|Bom]]. Enfim, o mal jamais pode ser desejado [[lexico:p:por-si|por si]] mesmo; um apetite somente pode se referir a um bem. Se, portanto, um apetite parece relacionado a algum mal, isto não é mais do que uma [[lexico:a:aparencia|aparência]]; ele se refere em [[lexico:r:realidade|realidade]] a um bem que lhe é conexo. Só, em definitivo, o bem pode ser desejável: solum bonum habet rationem appetibilis.