===== SUJEITO E OBJETO ===== Subjekt, Objekt § 2. Aquele que tudo conhece mas [[lexico:n:nao|não]] é conhecido por ninguém é o [[lexico:s:sujeito|sujeito]]. Este é, por conseguinte, o sustentáculo do [[lexico:m:mundo|mundo]], a [[lexico:c:condicao|condição]] [[lexico:u:universal|universal]] e sempre pressuposta de tudo o que aparece, de [[lexico:t:todo|todo]] [[lexico:o:objeto|objeto]], pois tudo o que existe, existe para o sujeito. Cada um encontra-se a [[lexico:s:si-mesmo|si mesmo]] como [[lexico:e:esse|esse]] sujeito, todavia, somente na [[lexico:m:medida|medida]] em que conhece, não na medida em que é objeto de [[lexico:c:conhecimento|conhecimento]]. Objeto, contudo, já é o seu [[lexico:c:corpo|corpo]], que, desse [[lexico:p:ponto|ponto]] de vista, também denominamos [[lexico:r:representacao|representação]]. Pois o corpo é objeto entre objetos e está submetido à [[lexico:l:lei|lei]] deles, embora seja objeto [[lexico:i:imediato|imediato]]. Ele encontra-se, como todos os objetos da [[lexico:i:intuicao|intuição]], nas formas de todo conhecer, no [[lexico:t:tempo|tempo]] e no [[lexico:e:espaco|espaço]], mediante os quais se dá a [[lexico:p:pluralidade|pluralidade]]. O sujeito, entretanto, aquele que conhece e nunca é conhecido, não se encontra nessas formas, que, antes, já o pressupõem: ao sujeito, portanto, não cabe pluralidade nem seu oposto, [[lexico:u:unidade|unidade]]. Nunca o conhecemos, mas ele é justamente o que conhece onde quer que haja conhecimento. Portanto, o mundo como representação, [[lexico:u:unico|único]] [[lexico:a:aspecto|aspecto]] no qual [[lexico:a:agora|agora]] o consideramos, possui duas metades essenciais, necessárias e inseparáveis. Uma é o OBJETO, cuja [[lexico:f:forma|forma]] é espaço e tempo, e, mediante estes, pluralidade. A outra, entretanto, o sujeito, não se encontra no espaço nem no tempo, pois está inteiro e indiviso em cada [[lexico:s:ser|ser]] que representa; por conseguinte, um único ser que representa, com o objeto, complementa o mundo como representação tão integralmente quanto um milhão de seres que representam: mas se aquele único ser desaparecesse, então o mundo como representação não mais existiria. Tais metades são, em [[lexico:c:consequencia|consequência]], inseparáveis, mesmo para o [[lexico:p:pensamento|pensamento]]: porque cada uma delas possui [[lexico:s:significacao|significação]] e [[lexico:e:existencia|existência]] apenas por e para a outra; cada uma existe com a outra e desaparece com ela. Elas limitam-se reciprocamente: onde começa o objeto, termina o sujeito. A [[lexico:r:reciprocidade|reciprocidade]] desse [[lexico:l:limite|limite]] mostra-se precisamente no [[lexico:f:fato|fato]] de as formas essenciais e [[lexico:u:universais|universais]] de todo objeto – tempo, espaço e [[lexico:c:causalidade|causalidade]] – também poderem ser encontradas e completamente conhecidas partindo-se do sujeito, sem o conhecimento do objeto, isto é, na [[lexico:l:linguagem|linguagem]] de [[lexico:k:kant|Kant]], residem [[lexico:a:a-priori|a priori]] em nossa [[lexico:c:consciencia|consciência]]. [[lexico:t:ter|ter]] descoberto isso é um dos méritos capitais de Kant, e um dos maiores. Afirmo, ademais, que o [[lexico:p:principio|princípio]] de [[lexico:r:razao|razão]] é a [[lexico:e:expressao|expressão]] comum para todas essas formas do objeto das quais estamos conscientes a priori, e que, portanto, tudo o que conhecemos a priori [[lexico:n:nada|nada]] é senão exatamente o conteúdo do mencionado princípio e do que dele pode ser deduzido: princípio no qual está propriamente expresso todo o nosso conhecimento certo a priori. No meu ensaio sobre o princípio de razão mostrei detalhadamente como todo objeto [[lexico:p:possivel|possível]] está submetido a esse princípio, ou seja, como todo objeto encontra-se em [[lexico:r:relacao|relação]] necessária com outros objetos, de um lado sendo determinado, de [[lexico:o:outro|outro]] determinando; isso vai tão longe que a existência inteira de todos os objetos, na [[lexico:q:qualidade|qualidade]] de objetos, representações e nada mais, reporta-se de volta, sem [[lexico:e:excecao|exceção]], àquela relação necessária de um com o outro, consiste apenas nela e, portanto, é completamente relativa. Adiante retomarei o assunto. Mostrei ainda que, conforme as classes nas quais os objetos são agrupados segundo a sua [[lexico:p:possibilidade|possibilidade]], aquela relação necessária expressa em [[lexico:g:geral|geral]] pelo princípio de razão aparece em outras figuras, pelo que de novo a [[lexico:p:particao|partição]] correta dessas classes se confirma. Pressuponho aqui constantemente como conhecido e sempre presente ao leitor tudo o que foi [[lexico:d:dito|dito]] naquele ensaio, pois, se lá já não houvesse sido dito, teria aqui o seu [[lexico:l:lugar|lugar]] [[lexico:n:necessario|necessário]]. [Schopenhauer, MVR1:45-47] **Sujeito cognoscente e objeto conhecido: sua [[lexico:c:correlacao|correlação]].** Encontramos como primeiros [[lexico:e:elementos|elementos]] no conhecimento do sujeito pensante, o sujeito cognoscente e o objeto conhecido. Todo conhecimento, qualquer conhecimento, há de ser de um sujeito sobre um objeto. De [[lexico:m:modo|modo]] que o par: sujeito cognoscente — objeto conhecido, é [[lexico:e:essencial|essencial]] em qualquer conhecimento. Esta [[lexico:d:dualidade|dualidade]] do objeto e do sujeito é uma [[lexico:s:separacao|separação]] completa; de maneira que o sujeito é sempre o sujeito e o objeto sempre o objeto. Nunca pode fundir-se o sujeito no objeto nem o objeto no sujeito. Se se fundissem, se deixassem de ser dois, não haveria conhecimento. O conhecimento é sempre, pois, essa dualidade de [[lexico:s:sujeito-e-objeto|sujeito e objeto]]. Mas essa dualidade é ao mesmo tempo uma relação. Não se deve entender, não podemos entender essa dualidade como a dualidade de duas [[lexico:c:coisas|coisas]] que não têm entre si a menor relação. Vamos tentar [[lexico:v:ver|ver]] agora em que consiste esta relação entre o sujeito cognoscente e o objeto conhecido. Esta relação aparece-nos em primeiro [[lexico:t:termo|termo]] como uma correlação, como uma relação dupla, de ida e de volta, que consiste em que o sujeito é sujeito para o objeto e em que o objeto é objeto para o sujeito. Do mesmo modo que nos termos, que os lógicos chamam correlativos, a relação consiste em que não se pode [[lexico:p:pensar|pensar]] um sem o outro, nem este sem aquele; assim os termos sujeito e objeto do conhecimento são correlativos. Assim como a esquerda não tem [[lexico:s:sentido|sentido]] nem significa nada, se não é por [[lexico:c:contraposicao|contraposição]] à direita, e a direita não significa nada, se não é por contraposição à esquerda; assim como o acima não significa nada se não é por contraposição ao abaixo; e pólo Norte não significa nada se não por contraposição ao pólo Sul; do mesmo modo, sujeito, no conhecimento não tem sentido senão por contraposição ao objeto, e objeto não tem sentido senão por contraposição ao sujeito. A relação é, pois, uma correlação. Mas, ademais, esta correlação é [[lexico:i:irreversivel|irreversível]]. As correlações que antes citei como [[lexico:e:exemplo|exemplo]] são reversíveis. A esquerda se torna direita quando a direita se torna esquerda; o acima se torna abaixo quando o abaixo se torna acima. Porém, o sujeito e o objeto são irreversíveis. Não existe possibilidade de que o objeto se torne sujeito ou que o sujeito se torne objeto. Não há reversibilidade. Mas podemos chegar mais ao fundo dessa relação entre o sujeito e o objeto. Esta relação consiste em que o sujeito faz algo. E [[lexico:o:o-que-e|o que é]] que faz o sujeito? Faz algo que consiste em sair de si para o objeto, para captá-lo. Esse apossar-se do objeto não consiste, porém, em tomar o objeto, segurá-lo e metê-lo dentro do sujeito. Não. Isso acabaria com a correlação. O que faz o sujeito ao sair de si mesmo para tornar-se dono do objeto é captar o objeto mediante um pensamento. O sujeito produz um pensamento do objeto. Vista a relação do outro lado, diremos que o objeto vai para o sujeito, se entrega ao sujeito, não na [[lexico:t:totalidade|totalidade]] do sujeito, mas em forma tal que produz uma modificação no sujeito, uma modificação na totalidade do sujeito, modificação que é o pensamento. De modo que agora temos um [[lexico:t:terceiro|terceiro]] [[lexico:e:elemento|elemento]] na correlação do conhecimento. Já não temos somente o sujeito e o objeto, mas agora temos também o pensamento; o pensamento, que, visto do sujeito é a modificação que o sujeito produziu em si mesmo ao sair do objeto para apossar-se dele, e visto do objeto é a modificação que o objeto, ao entrar, por assim dizer, no sujeito, produziu nos [[lexico:p:pensamentos|Pensamentos]] deste. **Relação gnosiológica [[lexico:s:sujeito-objeto|sujeito-objeto]]** (v. [[lexico:g:gnosiologia|gnosiologia]]) — Prescindindo, por ora, das soluções adotadas em cada uma das grandes questões que dizem [[lexico:r:respeito|respeito]] ao [[lexico:p:problema|problema]] do conhecimento — sua possibilidade, sua [[lexico:o:origem|origem]], suas formas etc. —, e numa [[lexico:r:reflexao|reflexão]] previa a essas soluções, o conhecimento exige, antes de tudo, uma [[lexico:d:descricao|descrição]] pura do que ocorre na relação sujeito-objeto, descrição que somente se faz possível no marco de uma [[lexico:f:fenomenologia-do-conhecimento|fenomenologia do conhecimento]]. Os resultados dessa [[lexico:f:fenomenologia|fenomenologia]], tal como foi especialmente desenvolvida por Nicolai [[lexico:h:hartmann|Hartmann]], mostraram de modo especial que o conhecimento consiste numa relação e numa correlação do sujeito cognoscente com o objeto do conhecimento, de modo que os dois termos conservam sua condição peculiar, o que não significa sua independência mútua absoluta, mas únicamente seu [[lexico:c:carater|caráter]] de sujeito e objeto, caráter que, por outro lado, adquirem, precisamente, na relação de cada um com o termo oposto. Com [[lexico:e:efeito|efeito]], o sujeito cognoscente é sujeito somente enquanto há um objeto que [[lexico:a:apreender|apreender]] e, vice-versa, o objeto é somente objeto de conhecimento enquanto é apreendido por um sujeito. Esta aprensão se verifica mediante uma penetração do sujeito no objeto, num [[lexico:a:ato|ato]] de [[lexico:t:transcendencia|transcendência]]. Contudo, este transcender do sujeito para o objeto não equivale a uma [[lexico:f:fusao|fusão]], pois o objeto permanece inalterável.pela "invasão" do sujeito cognoscente. No ato de saída do sujeito para o objeto em que consiste o conhecimento, o objeto determina o sujeito e produz nele uma [[lexico:i:imagem|imagem]] do objeto conhecido. A esta imagem se refere todo conhecimento e só por ela é possível a [[lexico:a:apreensao|apreensão]] referida. O conhecimento se distingue, assim, da [[lexico:a:acao|ação]], na qual a [[lexico:d:determinacao|determinação]] se efetua em sentido inverso. Mas a [[lexico:d:diferenca|diferença]] entre ação e o conhecimento não significa que este seja absolutamente [[lexico:p:passivo|passivo]]; pelo contrário, o ato cognoscente mostra uma [[lexico:a:atividade|atividade]], mas uma atividade que somente se aplica à imagem do objeto do conhecimento e não ao [[lexico:p:proprio|próprio]] objeto. As notas que caracterizam portanto, nesta primeira descrição, o ato do conhecimento são a correlação sujeito-objeto, a transcendência do sujeito para o objeto, a inalterabilidade deste, sua determinação sobre o sujeito e, finalmente, a atividade do sujeito no ato de [[lexico:r:receptividade|receptividade]]. A correlação necessária se refere somente, claro está, à [[lexico:o:oposicao|oposição]] sujeito cognoscente-objeto do conhecimento, mas não à [[lexico:s:simples|simples]] oposição sujeito-objeto. Nesta última têm ambos os termos plena [[lexico:s:subsistencia|subsistência]] [[lexico:p:por-si|por si]] mesmo. O sujeito pode ser, com efeito, não só cognoscente como também [[lexico:a:afetivo|afetivo]] ou volitivo; o objeto pode, por sua vez, ser parcial ou totalmente desconhecido. Ao manifestar-se assim, o sujeito e o objeto são com [[lexico:r:referencia|referência]] ao conhecimento uma mera possibilidade de correlação. A [[lexico:f:funcao|função]] do sujeito é apreender o objeto; a função do objeto é ser apreensível e ser apreendido pelo sujeito. Vista a partir do sujeito, essa apreensão aparece como uma saída do sujeito para [[lexico:a:alem|além]] de sua [[lexico:e:esfera|esfera]] própria, como uma invasão da esfera do objeto e como uma apreensão das determinações do objeto. Com isso, no entanto, o objeto não é arrastado para a esfera do sujeito, mas permanece [[lexico:t:transcendente|transcendente]] a ele. Não é no objeto, mas no sujeito que algo foi alterado pela função cognoscitiva. Surge no sujeito uma "[[lexico:f:figura|figura]]" que contém as determinações do objeto, uma "imagem" do objeto. Visto a partir do objeto, o conhecimento aparece como um alastramento, no sujeito, das determinações do objeto. Há uma transcendência do objeto na esfera do sujeito correspondendo à transcendência do sujeito na esfera do objeto. Ambas são apenas aspectos diferentes do mesmo ato. Nesse ato, porém, o objeto tem preponderância sobre o sujeito. O objeto é o determinante, o sujeito é o determinado. É por isso que o conhecimento pode ser definido como uma determinação do sujeito pelo objeto. Não é, porém o sujeito que é pura e simplesmente determinado, mas apenas a imagem, nele, do objeto. A imagem é objetiva na medida em que carrega consigo as características do objeto. Diferente do objeto, ela está, de um certo modo, entre o sujeito e o objeto. Ela é o [[lexico:m:meio|meio]] com o qual a consciência cognoscente apreende seu objeto. Dizer que o conhecimento é uma determinação do sujeito pelo objeto é dizer que o sujeito comporta-se receptivamente com respeito ao objeto. Essa receptividade, contudo, não significa passividade. Pelo contrário, pode-se [[lexico:f:falar|falar]] de uma atividade e de uma [[lexico:e:espontaneidade|espontaneidade]] do sujeito no conhecimento. Certamente, a espontaneidade não está relacionada ao objeto, mas à imagem do objeto, na qual a consciência pode muito [[lexico:b:bem|Bem]] ter uma [[lexico:p:participacao|participação]] criadora. Receptividade com respeito ao objeto e espontaneidade com respeito à imagem do objeto no sujeito podem perfeitamente coexistir. Na medida em que determina o sujeito, o objeto mostra-se [[lexico:i:independente|independente]] do sujeito, para além dele, transcendente. Todo conhecimento visa ("intenciona") um objeto independente da consciência cognoscente. Por isso o caráter transcendente é [[lexico:a:adequado|adequado]] a todos os objetos de conhecimento. Dividimos os objetos em reais e ideais. Chamamos de reais ou efetivos todos que nos são dados na [[lexico:e:experiencia|experiência]] externa ou interna ou são inferidos a partir dela. Comparados a eles, os objetos ideais aparecem como irreais, meramente pensados. Esses objetos ideais são por exemplo, as estruturas da [[lexico:m:matematica|matemática]], os números e as figuras geométricas. O estranho é que também esses objetos ideais possuem um ser em si, uma transcendência, no sentido epistemológico. As leis numéricas, as [[lexico:r:relacoes|relações]] existentes, por exemplo, entre os lados e ângulos de um [[lexico:t:triangulo|triângulo]] têm uma independência de nosso pensamento [[lexico:s:subjetivo|subjetivo]] [[lexico:s:semelhante|semelhante]] à dos objetos reais. Apesar de sua irrealidade, defrontam-se com nosso pensamento como algo em si mesmo determinado e independente. Parece [[lexico:e:existir|existir]] uma [[lexico:c:contradicao|contradição]] entre a transcendência do objeto em face do sujeito e a correlação constatada há pouco entre sujeito e objeto. Essa contradição, porém, é apenas [[lexico:a:aparente|aparente]]. O objeto só não é separável da correlação na medida em que é um objeto de conhecimento. A correlação entre sujeito e objeto não é em si mesma indissolúvel; só o é no interior do conhecimento. Sujeito e objeto não se esgotam em seu ser um para o outro, mas têm, além disso, um ser em si. No objeto, este ser em si consiste naquilo que ainda é desconhecido. No sujeito, consiste naquilo que ele é além de sujeito que conhece. Além de conhecer, ele também está apto a sentir e a querer. Assim, enquanto o objeto cessa de ser objeto quando se separa da correlação, o sujeito apenas deixa de ser sujeito cognoscente. Assim como a correlação entre sujeito e, objeto só não é dissolúvel no interior do conhecimento, ela também só não é [[lexico:r:reversivel|reversível]] enquanto relação de conhecimento. Em si mesma, uma reversão é perfeitamente possível. Ela ocorre, de fato, na ação, pois nesse caso não é o objeto que determina o sujeito, mas o sujeito que determina o objeto. Não é o sujeito que muda, mas o objeto. O sujeito não mais se comporta receptivamente, mas espontânea e ativamente, ao passo que o objeto comporta-se passivamente. Desse modo, conhecimento e ação apresentam estruturas completamente opostas. [HESSEN, Johannes. Teoria do Conhecimento. João Vergílio Gallerani Cuter. São Paulo: Martins Fontes, 2003, p. 20-22]