===== SUBLIME ===== (gr. hypsos; lat. Sublime; in. Sublime; al. Erhaben; it. Sublime). 1. [[lexico:f:forma:start|forma]] [[lexico:l:linguistica:start|linguística]], literária ou artística que expresse sentimentos ou atitudes elevadas ou nobres. Essa [[lexico:p:palavra:start|palavra]] começou a [[lexico:s:ser:start|ser]] usada com tal [[lexico:s:sentido:start|sentido]] no séc. I a.C., tendo sido analisada no pequeno tratado Sobre o sublime do Pseudo Logino: "O sublime é a ressonância da nobreza da [[lexico:a:alma:start|alma]], tanto que admiramos às vezes um [[lexico:p:pensamento:start|pensamento]] singelo, sem [[lexico:v:voz:start|voz]], [[lexico:p:por-si:start|por si]], pela superioridade do [[lexico:s:sentimento:start|sentimento]]. O [[lexico:s:silencio:start|silêncio]] de Ajax em Nekyia é maior e mais nobre que qualquer [[lexico:d:discurso:start|discurso]]" (Desubi, IX). No mesmo [[lexico:s:significado:start|significado]], essa palavra foi usada pelos autores latinos, principalmente por Quintiliano (Inst. or, VIII, 3, 18; VIII, 3, 74; XI, I, 3; XI, 3, 153, etc). Este é também o significado com que essa palavra costuma ser usada; refere-se [[lexico:n:nao:start|não]] só a expressões linguísticas ou literárias, mas também a [[lexico:a:acoes:start|ações]] ou atitudes consideradas nobres ou elevadas. Foi nesse mesmo sentido que [[lexico:c:croce:start|Croce]] entendeu o sublime, definindo-o como "[[lexico:a:afirmacao:start|afirmação]] subitânea de uma [[lexico:f:forca:start|força]] [[lexico:m:moral:start|moral]] poderosíssima", para expungi-lo da [[lexico:a:arte:start|arte]] ([[lexico:e:estetica:start|Estética]], 4a ed., 1912, p. 107). 2. Em sentido [[lexico:p:proprio:start|próprio]] e [[lexico:e:estrito:start|estrito]], o sublime é o [[lexico:p:prazer:start|prazer]] que provém da [[lexico:i:imitacao:start|imitação]] (ou da [[lexico:c:contemplacao:start|contemplação]]) de uma [[lexico:s:situacao:start|situação]] dolorosa. Com [[lexico:e:esse:start|esse]] sentido, essa [[lexico:n:nocao:start|noção]] vem diretamente do [[lexico:c:conceito:start|conceito]] aristotélico de [[lexico:t:tragedia:start|tragédia]].- que deve [[lexico:p:provocar:start|provocar]] "[[lexico:p:piedade:start|piedade]] e terror"; por isso, como diz [[lexico:a:aristoteles:start|Aristóteles]], o [[lexico:p:poeta:start|poeta]] [[lexico:t:tragico:start|trágico]] "deve propiciar o prazer que nasce da piedade e do terror por [[lexico:m:meio:start|meio]] da imitação" (Poet. 14,1453 b 10). No século XVIII, essa noção de tragédia deu [[lexico:o:origem:start|origem]] a um [[lexico:p:problema:start|problema]] que foi examinado por [[lexico:h:hume:start|Hume]] num dos seus [[lexico:e:ensaios:start|Ensaios]] morais e políticos (1741): "Parece inexplicável o prazer que os espectador de uma tragédia [[lexico:b:bem:start|Bem]] [[lexico:e:escrita:start|escrita]] aufere da [[lexico:d:dor:start|dor]], do terror, da [[lexico:a:angustia:start|angústia]] e de outras paixões que, em si mesmas, são desagradáveis e penosas" (é assim que Hume inicia o ensaio intitulado Of Tragedy); sua [[lexico:a:analise:start|análise]] serviu de [[lexico:f:fundamento:start|fundamento]] para a [[lexico:o:obra:start|obra]] de [[lexico:b:burke:start|Burke]], que em Inquiry on the Origin of our Ideas of Sublime and Beautiful (1756) distinguiu claramente o sublime do [[lexico:b:belo:start|belo]]: "O Belo e o sublime são [[lexico:i:ideias:start|ideias]] de [[lexico:n:natureza:start|natureza]] diferente: um tem fundamento na dor e o [[lexico:o:outro:start|outro]] no prazer; embora possam depois afastar-se da verdadeira natureza de suas [[lexico:c:causas:start|causas]], estas continuarão sendo diferentes uma da outra, e essa [[lexico:d:diferenca:start|diferença]] nunca deverá ser esquecida por [[lexico:q:quem:start|quem]] se propuser suscitar paixões" (Inquiry on the Origin of our Ideas of Sublime and Beautiful, 1756, III, 27). O terror, a dor em [[lexico:g:geral:start|geral]], as situações de perigo são causas do sublime (Ibid., IV, 5). O [[lexico:m:modo:start|modo]] como essa [[lexico:c:causa:start|causa]] pode produzir prazer (porque o sublime é um prazer) é um problema que Burke resolve da mesma maneira que Hume; este, por sua vez, inspirara-se em [[lexico:f:fontenelle:start|Fontenelle]] (Réflexions sur la poétique, 36): o prazer provém do exercício, ou seja, do [[lexico:m:movimento:start|movimento]] que a dor e o terror provocam no [[lexico:e:espirito:start|espírito]] quando isentos do [[lexico:r:real:start|real]] perigo de [[lexico:d:destruicao:start|destruição]]. Nesse caso — como diz Burke — o que nasce não é exatamente o prazer, mas "uma [[lexico:e:especie:start|espécie]] de horror deleitável, de [[lexico:t:tranquilidade:start|tranquilidade]] matizada de terror; este, porém, quando provém do [[lexico:i:instinto:start|instinto]] de conservação, é uma das paixões mais fortes. Isso é o sublime" (Ibid., IV, 7). Nas Observações sobre o sentimento do belo e do sublime (1764), [[lexico:k:kant:start|Kant]] repetiu substancialmente os mesmos [[lexico:c:conceitos:start|conceitos]], robustecendo-os com vasta [[lexico:e:exemplificacao:start|exemplificação]], de [[lexico:v:valor:start|valor]] bastante duvidoso, pois continha entre outras [[lexico:c:coisas:start|coisas]] a caracterização dos diferentes povos, com base em suas atitudes em [[lexico:r:relacao:start|relação]] ao sublime e ao belo (Beobachtungen über das Gefuhl des Schönen und Erhabenen, IV). Mas em [[lexico:c:critica:start|Crítica]] do [[lexico:j:juizo:start|juízo]], as ideias de Hume e Burke foram expressas com maior rigor conceitual, ganhando forma clássica. Segundo Kant, o sentimento do sublime tem dois componentes: 1) [[lexico:a:apreensao:start|apreensão]] de uma [[lexico:d:dimensao:start|dimensão]] desproporcional às [[lexico:f:faculdades:start|faculdades]] sensíveis do [[lexico:h:homem:start|homem]] (sublime matemático), ou de um poder terrificante para essas mesmas faculdades (sublime [[lexico:d:dinamico:start|dinâmico]]); 2° o sentimento de conseguir reconhecer essa desproporção ou ameaça, e, por isso, de ser [[lexico:s:superior:start|superior]] a ambas. Kant diz: "A [[lexico:q:qualidade:start|qualidade]] do sentimento do sublime é ser ele, em relação a algum [[lexico:o:objeto:start|objeto]], um sentimento de padecimento, representado ao mesmo [[lexico:t:tempo:start|tempo]] como final; isso é [[lexico:p:possivel:start|possível]] porque nossa impotência revela a [[lexico:c:consciencia:start|consciência]] de um poder [[lexico:i:ilimitado:start|ilimitado]] do mesmo [[lexico:s:sujeito:start|sujeito]], e o sentimento só pode julgar esteticamente este [[lexico:u:ultimo:start|último]] através da primeira" (Crít. do juízo, § 27). Por isso, Kant define o sublime como "o que agrada imediatamente pela sua [[lexico:o:oposicao:start|oposição]] ao [[lexico:i:interesse:start|interesse]] dos sentidos" (Ibid., § 29, Obs. geral); com isso entende que, ao advertir a desproporção ou o perigo que o sublime representa para a sua natureza [[lexico:s:sensivel:start|sensível]], o homem se dá conta de que, justamente por adverti-la, não é [[lexico:e:escravo:start|escravo]] dessa natureza, mas livre perante ela. Friedrich Schiller só fez expor e esclarecer as ideias de Kant ao afirmar que "se chama de sublime o objeto para cuja [[lexico:r:representacao:start|representação]] nossa natureza [[lexico:f:fisica:start|física]] sente seus próprios limites, ao mesmo tempo em que nossa natureza [[lexico:r:racional:start|racional]] percebe sua própria superioridade, seu [[lexico:c:carater:start|caráter]] ilimitado: um objeto diante do qual somos fisicamente fracos mas moralmente superiores, graças às ideias" (Vom Erhabenen, 1793). Schiller distinguiu o sublime [[lexico:t:teorico:start|teórico]], que está em conflito com as condições do [[lexico:c:conhecimento-sensivel:start|conhecimento sensível]], do 5. [[lexico:p:pratico:start|prático]], que está em conflito com o instinto de conservação; no sublime prático distinguiu o sublime prático contemplativo e o sublime prático [[lexico:p:patetico:start|patético]] (cf. Pareyson, A estética do [[lexico:i:idealismo-alemao:start|idealismo alemão]], I, pp. 175 ss.). [[lexico:h:hegel:start|Hegel]], por sua vez, expressou na oposição infinito-finito o conflito [[lexico:t:tipico:start|típico]] do Sublime: O sublime é a tentativa de exprimir o [[lexico:i:infinito:start|infinito]], sem encontrar, no [[lexico:r:reino:start|reino]] das aparências, um objeto que se preste a essa representação" (Vorlesungen uber die Ästhetik, ed. Glockner, I, p. 483). Por isso, "as formas por meio das quais aquilo que se manifesta é também abolido, de tal [[lexico:s:sorte:start|sorte]] que a [[lexico:m:manifestacao:start|manifestação]] dos conteúdos é também a [[lexico:s:superacao:start|superação]] das expressões, é a sublimidade: portanto, esta não consiste" — como diz Kant — "na [[lexico:s:subjetividade:start|subjetividade]] pura do sentimento e em seu poder de [[lexico:e:estar:start|estar]] acima das ideias da [[lexico:r:razao:start|razão]], mas, ao contrário, baseia-se no significado [[lexico:r:representativo:start|representativo]], em [[lexico:v:virtude:start|virtude]] do qual se refere a uma [[lexico:s:substancia:start|Substância]] Absoluta" (Ibid., p. 484). Portanto, Hegel viu no sublime uma forma especial de arte, mais precisamente a arte [[lexico:s:simbolica:start|simbólica]]. Nele, a dor e a situação de perigo que, para a estética do séc. XVIII, representam a causa do sublime, foram substituídas pela inefabilidade e pela majestade da Substância Infinita. [[lexico:s:schopenhauer:start|Schopenhauer]], contudo, limitou-se a reafirmar a [[lexico:t:teoria:start|teoria]] tradicional e considerou que o sublime existe quando "os objetos, cujas formas significativas nos convidam à contemplação pura, têm uma [[lexico:a:atitude:start|atitude]] hostil para com a [[lexico:v:vontade:start|vontade]] humana em geral (cuja [[lexico:o:objetividade:start|objetividade]] se evidencia no [[lexico:c:corpo:start|corpo]] [[lexico:h:humano:start|humano]]) e se opõem a ela ou a ameaçam com sua força superior" (Die Welt, § 39). O último pensador a expor o conceito de sublime nesses termos foi Santayana: "A [[lexico:s:sugestao:start|sugestão]] do terror faz que nos refugiemos em nós mesmos; aí, como numa [[lexico:a:acao:start|ação]] de ricochete, intervém a consciência da segurança ou da indiferença, e nós sentimos a [[lexico:e:emocao:start|emoção]] de distanciamento e [[lexico:l:libertacao:start|libertação]], em que consiste, realmente, o sublime" (The Sense of Beauty, 1896, p. 60). {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}