===== SONHO ===== (gr. enyption; lat. somnium; in. Dream; fr. Rêve; al. Traum; it. Sogno). [[lexico:a:acao|Ação]] da [[lexico:i:imaginacao|imaginação]] durante o sono. Esta é a [[lexico:d:definicao|definição]] já proposta por [[lexico:p:platao|Platão]] (Tim., 45 e) e [[lexico:a:aristoteles|Aristóteles]] (De Somniis, 1, 459 a 15), sendo também adotada pela [[lexico:p:psicologia|psicologia]] [[lexico:m:moderna|moderna]]; nesta, dá [[lexico:o:origem|origem]] a uma [[lexico:s:serie|série]] de problemas que escapam completamente à alçada da [[lexico:f:filosofia|Filosofia]] (cf. a propósito desses problemas E. Servadio, II sogno, 1955). [[lexico:f:freud|Freud]] e os psicanalistas interpretaram o sonho de [[lexico:m:modo|modo]] funcionalista, ao tentarem determinar sua [[lexico:f:funcao|função]] na [[lexico:v:vida|vida]] do [[lexico:h:homem|homem]]. Segundo Freud, o sonho "é um [[lexico:m:meio|meio]] de suprimir as excitações (psíquicas) que perturbem o sono, supressão essa realizada através de satisfações alucinatórias" (Intr. à la psychanalyse, 1932, p. 151). O que encontra realização [[lexico:s:simbolica|simbólica]] no sonho na [[lexico:m:maioria-das-vezes|maioria das vezes]] são desejos proibidos, inibidos pela censura, que, portanto, sofrem uma elaboração radical, cabendo ao psicólogo interpretá-la. (Ibid., pp. 189, 234). Essa [[lexico:t:teoria|teoria]] de Freud foi muito discutida, e [[lexico:n:nao|não]] parece apta a [[lexico:e:explicar|explicar]] todas as espécies de sonho ou todos os seus aspectos; apesar disso, foi a única a propor o [[lexico:p:problema|problema]] da funcionalidade do sonho, vale dizer, da função que ele exerce na [[lexico:e:economia|economia]] da [[lexico:v:vida-psiquica|vida psíquica]]. Os filósofos algumas vezes se dedicaram à [[lexico:a:analise|análise]] do sonho para mostrar a incerteza da [[lexico:d:discriminacao|discriminação]] entre ele e a vigília, utilizando-o como [[lexico:e:elemento|elemento]] de [[lexico:d:duvida|dúvida]] teórica. Platão dizia: "[[lexico:n:nada|nada]] nos impede de crer que as conversas que [[lexico:a:agora|agora]] mantemos sejam mantidas em sonho, e quando em sonho cremos contar um sonho, a [[lexico:s:semelhanca|semelhança]] das sensações no sonho e na vigília é realmente maravilhosa" (Teet, 158 c). Por [[lexico:o:outro|outro]] lado, "o [[lexico:t:tempo|tempo]] durante o qual dormimos é igual ao tempo em que estamos acordados, e em ambos nossa [[lexico:a:alma|alma]] afirma que só as opiniões que tem naquele [[lexico:m:momento|momento]] são verdadeiras; desse modo, por igual [[lexico:e:espaco|espaço]] de tempo dizemos que são verdadeiras ora estas, ora aquelas, e defendemos umas e outras com a mesma [[lexico:e:energia|energia]]" (Ibid., 158 d). Nos sécs. XVII e XVIII [[lexico:e:esse|esse]] [[lexico:t:tema|tema]] foi frequentemente repetido por poetas e filósofos. Shakespeare dizia: "Somos feitos da mesma [[lexico:s:substancia|substância]] que que são feitos os sonho, e nossa breve vida está fechada num sono" (Tempest, [[lexico:a:ato|ato]] IV, cena I). Calderón de la Barca utilizou o mesmo tema em A vida é sonho (1635): "São as glórias tão semelhantes aos sonho que as verdadeiras passam por falsas, e as falsas por verdadeiras? É tão pouca a distância entre umas e outras que é preciso [[lexico:s:saber|saber]] se o que se vê ou frui é sonho ou [[lexico:r:realidade|realidade]]?" (Ato III, cena X). [[lexico:d:descartes|Descartes]] empregava o mesmo tema como elemento de dúvida: "O que acontece em sonho não parece tão claro e distinto quanto o que acontece durante a vigília. Mas, pensando a [[lexico:r:respeito|respeito]], lembro-me de [[lexico:t:ter|ter]] sido muitas vezes enganado por [[lexico:s:simples|simples]] ilusões, enquanto dormia. E, detendo-me nesse [[lexico:p:pensamento|pensamento]], vejo com clareza que não há indícios concludentes, nem sinais bastante seguros, que possibilitem distinguir com nitidez a vigília do sonho, a tal [[lexico:p:ponto|ponto]] que fico admirado, e minha [[lexico:a:admiracao|admiração]] é tanta que quase me convence de que estou dormindo" (Méd., I; cf. Princ. phil, I, 4). A teoria de [[lexico:l:leibniz|Leibniz]], segundo a qual a vida da [[lexico:m:monada|mônada]] ([[lexico:s:substancia-espiritual|substância espiritual]]) é "um sonho [[lexico:b:bem|Bem]] regulado", constitui outra [[lexico:m:manifestacao|manifestação]] do mesmo tema. Leibniz diz: "Metafisicamente falando, não é [[lexico:i:impossivel|impossível]] que haja um sonho tão [[lexico:c:continuo|contínuo]] e duradouro quanto a idade de um homem. (...) Mas, desde que os fenômenos estejam interligados, não importa que sejam chamados de sonhos ou não, porque a [[lexico:e:experiencia|experiência]] mostra que não nos enganamos ao aprendermos os fenômenos, quando eles são aprendidos segundo as [[lexico:v:verdades-de-razao|verdades de razão]]" (Nouv. ess., IV, 2, 14). [[lexico:v:voltaire|Voltaire]] dizia: "Se os órgãos, [[lexico:p:por-si|por si]] sós, produzem os sonho da noite, por que não poderiam produzir, por si sós, as [[lexico:i:ideias|ideias]] do dia? Se a alma, por si só, tranquila no descanso dos sentidos e agindo sozinha, é a [[lexico:c:causa|causa]] única e o [[lexico:u:unico|único]] [[lexico:s:sujeito|sujeito]] de todas as ideias que temos dormindo, por que todas essas ideias são quase sempre irregulares, irracionais, incoerentes?" (Dictionnaire philosophique, 1764, art. Songes). [[lexico:s:schopenhauer|Schopenhauer]] talvez seja o [[lexico:u:ultimo|último]] a apresentar esse tema em sua [[lexico:f:forma|forma]] clássica: "A vida e os sonho são páginas de um mesmo livro. A [[lexico:l:leitura|leitura]] contínua chama-se vida [[lexico:r:real|real]]. Mas quando o tempo habitual de leitura (o dia) chega ao [[lexico:f:fim|fim]] e vem a hora de descansar, então às vezes continuamos, fracamente, sem [[lexico:o:ordem|ordem]] e conexão, a folhear aqui e acolá algumas páginas: às vezes é uma página já lida, muitas outras vezes uma outra ainda desconhecida, mas sempre do mesmo livro" (Die Welt, I, § 5). A [[lexico:s:sequencia|sequência]] de imagens psíquicas que se produzem no sono. — A [[lexico:c:caracteristica|característica]] fundamental do sonho é fazer-nos participar de uma ação; em outros termos, [[lexico:s:ser|ser]] dramático. As associações formam-se nele de maneira absolutamente livre, independentemente do controle da [[lexico:c:consciencia|consciência]] e da [[lexico:v:vontade|vontade]]. Pensou-se também que a [[lexico:l:logica|lógica]] do sonho era uma [[lexico:e:expressao|expressão]] do [[lexico:i:inconsciente|Inconsciente]]. A [[lexico:p:psicanalise|psicanálise]], cujo [[lexico:o:objeto|objeto]] é a análise do inconsciente, dá grande importância à análise dos sonhos; distingue seu conteúdo manifesto (que nos parece frequentemente desprovido de [[lexico:s:sentido|sentido]]) e seu conteúdo [[lexico:l:latente|latente]] (o sentido inconsciente). Desse ponto de vista, Freud distingue (em O sonho e sua [[lexico:i:interpretacao|interpretação]]) os sonhos de criança e os sonhos de adulto: os primeiros apenas exprimem os desejos da véspera (tal é o caso do menino Hermann, que, tendo sido [[lexico:p:privado|privado]] de cerejas no jantar, desperta satisfeito, afirmando ter "comido todas as cerejas". Sonhara que as comera, e esse sonho muito simples evoca diretamente um [[lexico:d:desejo|desejo]] [[lexico:c:consciente|consciente]].). Em compensação, no sonho do adulto, o desejo é reprimido pela "cesura" da consciência [[lexico:s:social|social]] e se exprime sob uma forma disfarçada. Por [[lexico:e:exemplo|exemplo]], uma jovem sonha que seu sobrinho, de [[lexico:q:quem|quem]] gosta muito na vida real, está morto; ora, experimenta com isso uma [[lexico:s:sensacao|sensação]] de contentamento. A análise psicanalítica revela que, no passado, a jovem encontrara o homem que amava junto ao leito de seu primeiro sobrinho, que está morto; em [[lexico:c:consequencia|consequência]] disso, espera revelo por [[lexico:o:ocasiao|ocasião]] da [[lexico:m:morte|morte]] de seu segundo sobrinho: daí advindo a sensação de contentamento. A especificidade do sonho do adulto manifesta-se aqui no [[lexico:f:fato|fato]] de que a sensação (de contentamento) não se liga ao conteúdo manifesto do sonho (a morte do sobrinho), e sim a seu conteúdo latente, reprimido no inconsciente. O "disfarce" é uma característica específica do sonho do adulto. A [[lexico:t:tarefa|tarefa]] da análise psicológica é permitir-nos fazer coincidir os dados de nossa consciência com nossas aspirações inconscientes e realizar assim o equilíbrio de nossa [[lexico:p:personalidade|personalidade]]. Quando o [[lexico:f:fogo|fogo]] [[lexico:e:exterior|exterior]] se retira pela noite, o fogo interior se encontra separado dele; então, se sai dos olhos, cai sobre um elemento diferente, se modifica e extingue, uma vez que deixa de ter uma [[lexico:n:natureza|natureza]] comum com o [[lexico:a:ar|ar]] que o rodeia, que já não tem fogo. Deixa de [[lexico:v:ver|ver]], e conduz ao sono. Esses aparatos protetores da [[lexico:v:visao|visão]] dispostos pelos [[lexico:d:deuses|deuses]], as pálpebras, quando se fecham freiam a [[lexico:f:forca|força]] do fogo interior. Este, por sua vez, acalma e aquieta os movimentos internos. E assim que estes se tenham apaziguado, sobrevêm o sonho; e se o repouso é completo, um sono quase sem sonhos se abate sobre nós. Por outro lado, quando subsistem em nós movimentos mais acentuados, de [[lexico:a:acordo|acordo]] com sua natureza e segundo o [[lexico:l:lugar|lugar]] em que se encontrem, dele resultam imagens de diversos tipos, mais ou menos intensas, semelhantes a objetos interiores ou exteriores, e das quais conservamos alguma lembrança ao despertar. [Platão, Timeu, XLV] Se imaginarmos o sonhador quando ele, em meio à [[lexico:i:ilusao|ilusão]] do [[lexico:m:mundo|mundo]] [[lexico:o:onirico|onírico]] e sem perturbá-la, se põe a clamar: “Isto é um sonho, mas quero continuar sonhando!”, se daí tivermos de concluir que há um [[lexico:p:profundo|profundo]] [[lexico:p:prazer|prazer]] interior na [[lexico:c:contemplacao|contemplação]] do sonho, se, de outro lado, para podermos sonhar com esse prazer íntimo diante da visão, tivermos de esquecer inteiramente o dia e suas terríveis importunações, poderemos então interpretar todos esses fenômenos, sob a direção de Apolo oniromante, mais ou menos da seguinte maneira: Tão certamente quanto das duas metades da vida, a desperta e a sonhadora, a primeira se nos afigura incomparavelmente mais preferível, mais importante, mais digna de ser vivida, sim, a única vivida, do mesmo modo, por mais que pareça um [[lexico:p:paradoxo|paradoxo]], [[lexico:e:eu|eu]] gostaria de sustentar, em [[lexico:r:relacao|relação]] àquele fundo misterioso de nosso ser, do qual nós somos a [[lexico:a:aparencia|aparência]], precisamente a valoração oposta no tocante ao sonho. Com [[lexico:e:efeito|efeito]], quanto mais percebo na natureza aqueles onipotentes impulsos artísticos e neles um poderoso anelo pela aparência , pela [[lexico:r:redencao|redenção]] através da aparência, tanto mais me sinto impelido à [[lexico:s:suposicao|suposição]] [[lexico:m:metafisica|metafísica]] de que o verdadeiramente-existente e Uno-primordial, enquanto o eterno-padecente e pleno de [[lexico:c:contradicao|contradição]] necessita, para a sua constante redenção, também da visão extasiante, da aparência prazerosa — aparência esta que nós, inteiramente envolvidos nela e dela consistentes, somos obrigados a sentir como o verdadeiramente não existente , isto é, como um ininterrupto [[lexico:v:vir-a-ser|vir-a-ser]] no tempo, espaço e [[lexico:c:causalidade|causalidade]], em outros termos, como realidade empírica. Se portanto nos abstrairmos por um [[lexico:i:instante|instante]] de nossa própria “realidade”, se concebermos a nossa [[lexico:e:existencia|existência]] empírica, do mesmo modo que a do mundo em [[lexico:g:geral|geral]], como uma [[lexico:r:representacao|representação]] do Uno-primordial gerada em cada momento, neste caso o sonho deve agora valer para nós como a aparência da aparência; por conseguinte, como uma satisfação mais elevada do [[lexico:a:apetite|apetite]] primevo pela aparência. [Nietzsche, Friedrich. O Nascimento da Tragédia. Tr. J. Guinsburg. São Paulo: Companhia das Letras, 2007 (ebook)]