===== SOLIPSISMO ===== (do lat. solus, sozinho e ipse, [[lexico:s:si-mesmo|si mesmo]]). [[lexico:a:atitude|atitude]] ou doutrina daquele que se separa do [[lexico:m:mundo|mundo]] e que submete toda [[lexico:r:realidade|realidade]] à de seu "[[lexico:e:eu|eu]]" individual. — O solipsismo é o [[lexico:e:estado|Estado]] do que duvida de tudo; o primeiro [[lexico:m:momento|momento]] das Meditações de [[lexico:d:descartes|Descartes]], em que o [[lexico:f:filosofo|filósofo]] coloca em [[lexico:q:questao|questão]] todas as evidências comuns, é o momento do solipsismo. O [[lexico:t:termo|termo]] equivale ao de [[lexico:c:ceticismo|ceticismo]]. É a doutrina que considera o [[lexico:i:individuo|indivíduo]] [[lexico:r:racional|racional]] como o [[lexico:p:ponto|ponto]] de partida e de legitimação de tudo quanto há e existe. É, metafisicamente, uma variante viciosa do [[lexico:i:idealismo|Idealismo]], que afirma que [[lexico:t:todo|todo]] o [[lexico:f:fundamento|fundamento]] do mundo [[lexico:e:externo|externo]] e de toda realidade depende das representações do indivíduo, [[lexico:n:nao|não]] tendo uma [[lexico:e:existencia|existência]] [[lexico:i:independente|independente]] da [[lexico:m:mente|mente]] humana. É aquela [[lexico:e:especie|espécie]] de idealismo que [[lexico:n:nada|nada]] mais reconhece como certo do que o [[lexico:a:ato|ato]] de [[lexico:p:pensar|pensar]] e o [[lexico:p:proprio|próprio]] [[lexico:s:sujeito|sujeito]]. Tudo o mais é [[lexico:i:incognoscivel|incognoscível]] ou incerto. O solipsismo teve representantes no século XVIII, os quais arvoraram em [[lexico:o:objeto|objeto]] [[lexico:u:unico|único]] de [[lexico:c:conhecimento|conhecimento]] a [[lexico:p:proposicao|proposição]] cartesiana "[[lexico:c:cogito|cogito]], ergo sum". No século XIX, aparece em Max [[lexico:s:stirner|Stirner]], como [[lexico:r:reacao|reação]] contra [[lexico:h:hegel|Hegel]] e sua vigorosa acentuação do [[lexico:u:universal|universal]]. Atualmente não é já ponto de vista meramente especulativo, mas [[lexico:e:egoismo|egoísmo]] [[lexico:p:pratico|prático]]. O solipsismo não pode [[lexico:s:ser|ser]] afirmado como doutrina susceptível de ser exposta, sem se contradizer a si mesma. Para mais ampla [[lexico:r:refutacao|refutação]]. vide idealismo. — Santeler. O solipsismo surge como uma [[lexico:c:consequencia|consequência]] do corte entre o sujeito (visto como a [[lexico:p:pessoa|pessoa]]) e o objeto como o mundo). O solipsismo é apenas indiretamente uma consequência do [[lexico:p:pensamento|pensamento]] nominalista: um nominalista como Guilherme de Ockham jamais distingue, efetivamente, entre o "[[lexico:s:subjetivo|subjetivo]]" e o "[[lexico:o:objetivo|objetivo]]", e, em consequência, jamais surge em suas análises o [[lexico:p:problema|problema]] do solipsismo. É difícil expor-se a [[lexico:t:tese|tese]] solipsista. Ela afirma, pelo menos, que qualquer "conhecimento" "seguro" do mundo — da [[lexico:o:objetividade|objetividade]] — é [[lexico:i:impossivel|impossível]]. Em consequência, qualquer conhecimento "seguro" do [[lexico:o:outro|outro]] — das outras pessoas que comigo coexistem no mundo — é impossível. Como um [[lexico:c:corolario|corolário]], segue-se que a [[lexico:c:comunicacao|comunicação]] é essencialmente impossível, desde que a comunicação pressupõe um conhecimento "comum" entre os comunicantes — conhecimento este que a tese solipsista afirma impossível. Tomando-a em todas as suas implicações, a tese solipsista obriga a [[lexico:r:reducao|redução]] de todo o [[lexico:u:universo|universo]] a um único sujeito pensante — aquele sujeito que reconhece fora de si a objetividade "inalcançável". A [[lexico:a:analise|análise]] solipsista é extremamente rigorosa, e só pode ser considerada se revelarmos os problemas implícitos nos seus axiomas fundamentais. O primeiro deles afirma: toda [[lexico:f:forma|forma]] de conhecimento nos é dada através de sensações. Ora, as sensações são falhas — porque nos iludimos constantemente com elas, ao julgar violeta uma cor vermelha na penumbra, ou ao encontrar na [[lexico:m:multidao|multidão]], enganosamente, a cara de um amigo que lá não estava, ou ao supormos [[lexico:r:real|real]] uma [[lexico:a:alucinacao|alucinação]] que nos tiver a febre causado. Logo, toda forma de conhecimento é falha. Mas, em [[lexico:p:particular|particular]], a existência ou não dos "outros" nos é feita conhecer através de sensações. Logo, o conhecimento que temos desta existência é falho, permitindo-nos dela duvidar. [[lexico:i:implicito|Implícito]] a esta [[lexico:s:sequencia|sequência]] de silogismos está o segundo [[lexico:a:axioma|axioma]] que funda a análise solipsista: partindo-se das sensações, a [[lexico:l:logica-formal|lógica formal]] nos permite expandir nosso conhecimento. Ora, nem um axioma nem o outro são proposição analíticas, isto é, são proposições cuja [[lexico:v:verdade|verdade]] é óbvia, ou, com maior rigor, nenhum dos dois é uma proposição onde o sujeito contenha o [[lexico:p:predicado|predicado]], assim implicando a [[lexico:v:veracidade|veracidade]] do afirmado. Os dois axiomas que fundamentam a tese solipsista são [[lexico:j:juizos-sinteticos|juízos sintéticos]] a [[lexico:r:respeito|respeito]] da [[lexico:t:totalidade|totalidade]] do existente, ou seja, são proposições metafísicas, postulando o [[lexico:a:apriorismo|apriorismo]] (a) das sensações como [[lexico:p:possibilidade-do-conhecimento|possibilidade do conhecimento]] e (b) da [[lexico:l:logica|lógica]] [[lexico:f:formal|formal]] como [[lexico:p:possibilidade|possibilidade]] da [[lexico:e:extensao|extensão]] do conhecimento. Em consequência, elucida-se como "[[lexico:s:sensacao|sensação]]" é algo que foi abstraído de certas experiências perceptuais nossas, e que foi constituída em [[lexico:c:categoria|categoria]] fundamental. Não sendo diretamente percebida no mundo, a "sensação" é uma categoria duvidosa. Desta maneira, tudo que por ela for implicado é, também, duvidoso. Entre os quais tanto o próprio primeiro axioma quanto a tese solipsista. Quer dizer: os axiomas que levam à tese solipsista são auto-contraditórios. Por redução ao [[lexico:a:absurdo|absurdo]] (uma proposição implicar sua [[lexico:n:negacao|negação]] implica logicamente a [[lexico:f:falsidade|falsidade]] daquela proposição), a tese solipsista é falsa. Notemos como a redução ao absurdo exige que utilizemos o segundo axioma; tentemos mostrar sua falsidade à [[lexico:l:luz|luz]] do primeiro axioma. Como este, o axioma do apriorismo da lógica como [[lexico:m:meio|meio]] de conhecimento é um [[lexico:j:juizo|juízo]] [[lexico:s:sintetico|sintético]], isto é, não nos é diretamente revelado através de uma [[lexico:p:percepcao|percepção]] direta e imediata das [[lexico:c:coisas|coisas]]. Muito pelo contrário. Séculos se necessitaram para que sistemas lógicos fossem desenvolvidos. Não se fundando diretamente no que é percebido, o axioma do apriorismo da lógica é falho. Como corolário, qualquer conhecimento que dele possa ser deduzido é, ao menos, duvidoso. Utilizamos a lógica neste [[lexico:u:ultimo|último]] [[lexico:r:raciocinio|raciocínio]] para mostrarmos como a tese solipsista se auto-aniquila. Nosso exercício de [[lexico:e:escolastica|escolástica]] teve uma [[lexico:f:finalidade|finalidade]]: sugerir o casuísmo implícito na tese solipsista. No entanto, esta tese foi por muitos sustentada; procuremos, portanto, a sua verdade através de uma análise [[lexico:e:existencial|existencial]] do problema que parece se esconder por trás do problema do solipsismo: o problema da [[lexico:s:solidao|solidão]]. Análise existencial da solidão. Como em todos os verbetes teóricos de nossa autoria, referir-nos-emos, de início, à análise feita por [[lexico:h:heidegger|Heidegger]] em [[lexico:s:ser-e-tempo|Ser e Tempo]]. Heidegger mostra como nós só existimos no mundo como Mitsein, isto é, como o ser-com. Ser-com que, ou com [[lexico:q:quem|quem]]? Com os outros. Um dos modos do ser-com é o ser-sozinho. Hajam ou não outros à nossa volta, nós somos o ser-com, isto é, existe em nós uma certa abertura, existencialmente apriorística, para os outros. Deste [[lexico:m:modo|modo]], o ser-sozinho é uma deficiência. A solidão é a paisagem de um momento da existência com o outro para um momento [[lexico:f:futuro|futuro]] de existência com um novo outro. É uma [[lexico:s:situacao|situação]] "instável", ladeada pela lembrança do passado com uma pessoa querida, e tentada ou amargurada pelo [[lexico:d:desejo|desejo]] de um futuro com nova (ou a mesma) pessoa querida. O exercício da solidão exige [[lexico:e:energia|energia]], "[[lexico:f:forca|força]] de [[lexico:v:vontade|vontade]]"; é uma [[lexico:v:violencia|violência]] contra o nosso modo-de-ser no mundo; o eremita fazia "exercícios espirituais", "sacrificava-se" para manter a solidão imposta por seu voto. Mas a [[lexico:e:estrutura|estrutura]] existencial da solidão não é caracterizada apenas pela [[lexico:a:ausencia|ausência]] do outro; a [[lexico:p:presenca|presença]] de alguém a meu lado, se desconhecido, pode caracterizar para mim a para ele um duplo ser-sozinho. Nas filas de ônibus às seis da [[lexico:t:tarde|Tarde]], o ser-sozinho é comum a todos os que esperam condução. Na praia de domingo, quando chego à uma das tarde, [[lexico:s:sol|sol]] brilhante, [[lexico:c:ceu|céu]] muito azul, e no meio das muitas centenas de pessoas quando só vejo uma conhecida, e pergunto, "como está a praia?", muito possivelmente vou [[lexico:t:ter|ter]] como resposta, "uma droga; não tem ninguém". O "ninguém" é a ausência do outro que destrói a solidão, e, no caso, nenhuma das trezentas pessoas que nos cercam é capaz de nos destruir nossa solidão. Uma tentativa de elucidar o problema da [[lexico:d:destruicao|destruição]] da solidão está na [[lexico:a:analise-existencial-da-comunicacao|análise existencial da comunicação]]. Mais profundamente, Heidegger mostra como a [[lexico:e:experiencia|experiência]] da solidão está ligada à [[lexico:a:angustia|angústia]]. Especificamente, "a angústia isola e abre a [[lexico:d:dasein|Dasein]] (i.e., nós) como "solus ipse". E, adiante, analisando o [[lexico:s:sentimento|sentimento]] de "estranheza" e "insegurança" no meio do mundo que a angústia nos [[lexico:c:causa|causa]], diz Heidegger, "a estranheza (Das Un-zuhause) deve ser compreendida existencial-ontologicamente como o [[lexico:f:fenomeno|fenômeno]] mais originário". Estas são as duas características que apontamos na solidão: ela conduz à experiência de um solipsismo, de uma solidão dentro do mundo. Esta solidão é desvelada pela angústia, e junto com ela vem uma radical desvalorização, uma [[lexico:p:perda|perda]] total de [[lexico:s:sentido|sentido]] das coisas que existem no mundo. Ora, já a angústia é causada por uma ausência; pela inexistência dentro do mundo de algo que desejamos, ou precisamos — e, em particular, do outro como companheiro ou como pessoa amada. Por outro lado, a angústia torna estranho o mundo: e como fundamento da experiência do ser-sozinho (que não é sempre experimentado como tal, na fila do ônibus ou na praia do encontro dos amigos; nestes dois casos, o ser-sozinho é encoberto pela [[lexico:e:expectativa|expectativa]] do encontro da [[lexico:f:familia|família]] em casa, ou da "turma" vinte metros à nossa frente), como fundamento de nosso auto-reconhecimento na solidão ela torna indesejável, inatural esta própria solidão, e exige que nós dela saiamos. Este [[lexico:i:imperativo|imperativo]] da angústia pode se transformar num [[lexico:d:dilema|dilema]] que explica existencialmente, muitos casos de doenças mentais: a angústia junto ao [[lexico:r:reconhecimento|reconhecimento]] da solidão exige o relacionamento ao outro. Tentando-se estabelecer este relacionamento, a tentativa é bloqueada pela angústia que permanece e que revela o outro como inalcançável, no mesmo gesto que tenta o alcance como "sem sentido", "absurdo". Em consequência surge a "[[lexico:d:doenca-mental|doença mental]]" como desistência de alcançar o outro. Pelo menos uma tentativa séria já foi feita, no sentido de se [[lexico:c:compreender|compreender]] a [[lexico:d:doenca|doença]] mental como [[lexico:r:recusa|recusa]] à comunicação, ou como comunicação fictícia, e parece ter havido [[lexico:s:sucesso|sucesso]] com a terapia de se tentar revelar a possibilidade do estabelecimento de uma ligação ao outro. Existencialmente, portanto, o solipsismo tem uma verdade irrespondível. Reconsiderando dentro da [[lexico:f:fenomenologia|fenomenologia]] o problema, Maurice [[lexico:m:merleau-ponty|Merleau-Ponty]] mostra como o solipsismo é uma verdade, mas como a construção de uma [[lexico:f:filosofia|Filosofia]] solipsista pressupõe um auditório capaz de ouvi-la: o [[lexico:p:paradoxo|paradoxo]] está no [[lexico:f:fato|fato]] da recusa à comunicação ser também um modo de comunicação, desde que ela pressupõe um outro a quem nos recusamos. A solidão como modo de comunicação será considerada na análise existencial da comunicação, onde será vista como o surgimento da [[lexico:p:pluralidade|pluralidade]] do "outro" leva a um falseamento da comunicação, e eventualmente ao solipsismo. (Francisco Doria - [[lexico:d:dcc|DCC]]).