===== SOFISTA ===== (do gr. [[lexico:s:sophistes:start|sophistes]], de [[lexico:s:sophos:start|sophos]], [[lexico:s:sabio:start|sábio]]). Sábios errantes gregos que se dedicavam ao ensino da [[lexico:s:sabedoria:start|sabedoria]] e da habilidade. Depois de [[lexico:p:platao:start|Platão]] e [[lexico:a:aristoteles:start|Aristóteles]], a [[lexico:p:palavra:start|palavra]] tomou um [[lexico:s:sentido:start|sentido]] pejorativo, para indicar aquele que usa habitualmente de [[lexico:s:sofismas:start|sofismas]] (v. [[lexico:s:sofisma:start|sofisma]]). "Sofista" é um [[lexico:t:termo:start|termo]] que significa "sábio", "especialista do [[lexico:s:saber:start|saber]]". A acepção do termo, que em si mesma é positiva, tornou-se, porém, negativa sobretudo pela tomada de [[lexico:p:posicao:start|posição]] fortemente polêmica de Platão e Aristóteles. Como já havia feito [[lexico:s:socrates:start|Sócrates]], eles sustentaram que o saber dos [[lexico:s:sofistas:start|sofistas]] era "[[lexico:a:aparente:start|aparente]]" e [[lexico:n:nao:start|não]] "[[lexico:e:efetivo:start|efetivo]]" e que, ademais, não era professado tendo em vista a busca desinteressada da [[lexico:v:verdade:start|verdade]], mas sim com objetivos de lucro. Platão, em especial, insistiu na periculosidade das [[lexico:i:ideias:start|ideias]] dos sofistas do [[lexico:p:ponto:start|ponto]] de vista [[lexico:m:moral:start|moral]], [[lexico:b:bem:start|Bem]] como em sua [[lexico:i:inconsistencia:start|inconsistência]] [[lexico:t:teoretica:start|teorética]]. Durante muito [[lexico:t:tempo:start|tempo]], os historiadores da [[lexico:f:filosofia:start|Filosofia]] adotaram, [[lexico:a:alem:start|além]] das informações fornecidas por Platão e Aristóteles sobre os sofistas, também as suas avaliações, de [[lexico:m:modo:start|modo]] que, geralmente, o [[lexico:m:movimento:start|movimento]] sofista foi desvalorizado, sendo considerado predominantemente como um [[lexico:m:momento:start|momento]] de grave [[lexico:d:decadencia:start|decadência]] do [[lexico:p:pensamento:start|pensamento]] [[lexico:g:grego:start|grego]]. Somente em nosso século é que foi [[lexico:p:possivel:start|possível]] uma revisão [[lexico:s:sistematica:start|sistemática]] desses juízos e, consequentemente, uma radical reavaliação histórica dos sofistas. Hoje, as conclusões extraídas por W. Jaeger são compartilhadas por todos. Escreve ele: "... os sofistas são um [[lexico:f:fenomeno:start|fenômeno]] tão [[lexico:n:necessario:start|necessário]] quanto Sócrates e Platão; aliás, sem eles, estes são absolutamente impensáveis". Com [[lexico:e:efeito:start|efeito]], os sofistas operaram uma verdadeira [[lexico:r:revolucao:start|revolução]] espiritual, deslocando o eixo da [[lexico:r:reflexao:start|reflexão]] filosófica da [[lexico:p:physis:start|physis]] e do cosmos para o [[lexico:h:homem:start|homem]] e aquilo que concerne a [[lexico:v:vida:start|vida]] do homem como membro de uma [[lexico:s:sociedade:start|sociedade]]. E compreensível, portanto, que a [[lexico:s:sofistica:start|sofística]] tenha feito de seus temas predominantes a [[lexico:e:etica:start|ética]], a [[lexico:p:politica:start|política]], a [[lexico:r:retorica:start|retórica]], a [[lexico:a:arte:start|arte]], a [[lexico:l:lingua:start|língua]], a [[lexico:r:religiao:start|religião]] e a [[lexico:e:educacao:start|educação]], ou seja, aquilo que hoje chamamos a [[lexico:c:cultura:start|cultura]] do homem. Assim, é [[lexico:e:exato:start|exato]] afirmar que, com os sofistas, inicia-se o período humanista da filosofia antiga. [[lexico:e:esse:start|esse]] deslocamento radical do eixo da filosofia se explica pela [[lexico:a:acao:start|ação]] conjunta de dois diferentes tipos de [[lexico:c:causas:start|causas]]. Por um lado, como vimos, a filosofia da physis pouco a pouco havia exaurido todas as suas possibilidades. Com efeito, todos os caminhos já haviam sido palmilhados e o pensamento "[[lexico:f:fisico:start|físico]]" havia chegado aos seus limites extremos. Desse modo, era fatal a busca de [[lexico:o:outro:start|outro]] [[lexico:o:objetivo:start|objetivo]]. Por outro lado, no século V a.C, manifestaram-se fermentos sociais, econômicos e culturais que, ao mesmo tempo, favoreceram o [[lexico:d:desenvolvimento:start|desenvolvimento]] da sofística e, por seu turno, foram por ele favorecidos. Antes de mais [[lexico:n:nada:start|nada]], recordemos a lenta mas inexorável crise da [[lexico:a:aristocracia:start|aristocracia]], acompanhada pari passu pelo sempre crescente poder do demos, o [[lexico:p:povo:start|povo]]; o afluxo sempre mais maciço de estrangeiros às cidades, especialmente em Atenas, com a ampliação do comércio, que, superando os limites de cada [[lexico:c:cidade:start|cidade]], levava cada uma delas ao contato com um [[lexico:m:mundo:start|mundo]] mais amplo; a difusão dos conhecimentos e experiências dos viajantes, que levavam à inevitável comparação entre os usos, [[lexico:c:costumes:start|costumes]] e leis helénicos e usos, costumes e leis totalmente diferentes. Todos esses fatores contribuíram fortemente para o surgimento da [[lexico:p:problematica:start|problemática]] sofistica. A crise da aristocracia implicou também na crise da antiga areté, os valores tradicionais, que eram precisamente os valores apreciados pela aristocracia. A crescente [[lexico:a:afirmacao:start|afirmação]] do poder do demos e a ampliação dá [[lexico:p:possibilidade:start|possibilidade]] de aceder ao poder a círculos mais vastos fizeram cair a [[lexico:c:conviccao:start|convicção]] de que a areté (v. [[lexico:a:arete:start|arete]]) estivesse ligada à nascença, isto é, que se nascia virtuoso e não se tornava, colocando em primeiro [[lexico:p:plano:start|plano]] a [[lexico:q:questao:start|questão]] de [[lexico:c:como-se:start|como se]] adquire a "[[lexico:v:virtude:start|virtude]] política". A [[lexico:r:ruptura:start|ruptura]] do [[lexico:c:circulo:start|círculo]] restrito da [[lexico:p:polis:start|polis]] e o [[lexico:c:conhecimento:start|conhecimento]] de costumes, usos e leis opostos deveriam constituir a [[lexico:p:premissa:start|premissa]] do [[lexico:r:relativismo:start|relativismo]], gerando a convicção de que aquilo que era considerado eternamente válido, na verdade, não tinha [[lexico:v:valor:start|valor]] em outros meios e em outras circunstâncias. Os sofistas souberam captar de modo [[lexico:p:perfeito:start|perfeito]] essas instâncias da [[lexico:e:epoca:start|época]] angustiada em que viveram, sabendo-as explicitar e dar-lhes [[lexico:f:forma:start|forma]] e [[lexico:v:voz:start|voz]]. E isso explica por que eles alcançaram tanto [[lexico:s:sucesso:start|sucesso]], especialmente entre os jovens: eles respondiam a reais necessidades do momento, propondo aos jovens a palavra nova que eles esperavam, já que não estavam mais satisfeitos com os valores tradicionais que a velha [[lexico:g:geracao:start|geração]] lhes propunha nem com o modo como os propunha. Tudo isso permite-nos [[lexico:c:compreender:start|compreender]] melhor certos aspectos da sofística pouco apreciados no passado ou até julgados negativamente: a) Além da busca do saber enquanto tal, é verdade que os sofistas visavam objetivos práticos, sendo [[lexico:e:essencial:start|essencial]] para eles a busca de alunos (que não era essencial para os físicos). Entretanto também é verdade que a [[lexico:o:objetivacao:start|objetivação]] prática das doutrinas sofistas apresenta também um [[lexico:a:aspecto:start|aspecto]] altamente [[lexico:p:positivo:start|positivo]]: com efeito, com os sofistas, o [[lexico:p:problema:start|problema]] educacional e o [[lexico:c:compromisso:start|compromisso]] pedagógico emergem para o primeiro plano e assumem um novo [[lexico:s:significado:start|significado]]. De [[lexico:f:fato:start|fato]], eles se fazem porta-vozes da [[lexico:i:ideia:start|ideia]] de que a "virtude" (a areté} não depende da nobreza do [[lexico:s:sangue:start|sangue]] e da nascença, mas se funda no saber. Assim, pode-se compreender por que, para os sofistas, a [[lexico:p:pesquisa:start|pesquisa]] da verdade estava ligada necessariamente à sua difusão. A ideia ocidental de "educação" com base na "difusão do saber" deve muito aos sofistas. b) E verdade que os sofistas exigiam compensação pecuniária por seus ensinamentos. Isso escandalizava imensamente os antigos, porque, para eles, o saber era fruto de desinteressada comunhão espiritual, ao passo que só os aristocratas e ricos tinham [[lexico:a:acesso:start|acesso]] ao saber, pois já tinham os problemas práticos da vida resolvidos, dedicando ao saber o [[lexico:e:espaco:start|espaço]] de tempo "livre das necessidades". Já .os sofistas haviam feito do saber uma profissão, devendo portanto exigir uma compensação para que pudessem [[lexico:v:viver:start|viver]] e difundi-lo, viajando de cidade em cidade. Claro, pode-se censurar alguns sofistas pelos abusos em que caíram, mas não pelo [[lexico:p:principio:start|princípio]] que introduziram, o qual, aliás, embora só depois de muito tempo, tornou-se uma prática comumente aceita. Assim, os sofistas rompiam com um [[lexico:e:esquema:start|esquema]] [[lexico:s:social:start|social]] que limitava a cultura só a determinadas camadas, oferecendo também a outras camadas a possibilidade de adquiri-la. c) Os sofistas foram censurados por serem "nômades", desrespeitando o apego à cidade, que, para o grego de então, era uma [[lexico:e:especie:start|espécie]] de [[lexico:d:dogma:start|dogma]] ético. Mas, visto do enfoque oposto, mais uma vez essa [[lexico:a:atitude:start|atitude]] se mostra positiva: os sofistas compreenderam que os estreitos limites da polis não tinham mais [[lexico:r:razao:start|razão]] de [[lexico:s:ser:start|ser]] e fizeram-se portadores de instâncias pan-helênicas—mais do que cidadãos de uma [[lexico:s:simples:start|simples]] cidade, sentiam-se cidadãos da Hélade. Nesse ponto, inclusive, eles souberam até [[lexico:v:ver:start|ver]] além de Platão e Aristóteles, que continuaram a ver na Cidade-Estado o [[lexico:p:paradigma:start|paradigma]] do [[lexico:e:estado:start|Estado]] [[lexico:i:ideal:start|ideal]]. d) Os sofistas manifestaram uma notável [[lexico:l:liberdade:start|liberdade]] de [[lexico:e:espirito:start|espírito]] em [[lexico:r:relacao:start|relação]] à [[lexico:t:tradicao:start|tradição]], às normas e aos comportamentos codificados, mostrando uma confiança ilimitada nas possibilidades da razão. Por esse [[lexico:m:motivo:start|motivo]], foram chamados "os iluministas gregos", [[lexico:e:expressao:start|expressão]] que, oportunamente circunstanciada e historicizada, os define muito bem.- e) Os sofistas não constituem, de modo algum, um bloco compacto de pensadores. L. Robin escreveu justamente que "a sofística do século V representa um [[lexico:c:complexo:start|complexo]] de esforços independentes para satisfazer, com meios análogos, a necessidades idênticas". Já vimos quais eram essas necessidades. Resta examinar esses "esforços independentes" e esses "meios análogos". Mas, para nos orientarmos preliminarmente, precisamos distinguir três grupos de sofistas: 1) os grandes e famosos mestres da primeira geração, que não eram em [[lexico:a:absoluto:start|absoluto]] privados de reservas morais e que o [[lexico:p:proprio:start|próprio]] Platão considerou dignos de certo [[lexico:r:respeito:start|respeito]]; 2) os "erísticos", que levaram o aspecto [[lexico:f:formal:start|formal]] do [[lexico:m:metodo:start|método]] à exasperação, perderam [[lexico:i:interesse:start|interesse]] pelos conteúdos e também perderam a reserva moral dos mestres; 3) por [[lexico:f:fim:start|fim]], os "político-sofistas", que utilizaram ideias sofistas em sentido "ideológico", como diríamos hoje, ou seja, com finalidades políticas, caindo em excessos de vários tipos e chegando até à teorização do [[lexico:i:imoralismo:start|imoralismo]]. {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}