===== SÓCRATES ===== SÓCRATES, [[lexico:f:filosofo|filósofo]] [[lexico:g:grego|grego]] (Alopekê, Ática, 470 — Atenas 399 a. C), [[lexico:f:filho|filho]] de um escultor e de uma [[lexico:p:parteira|parteira]]. Sócrates [[lexico:n:nada|nada]] escreveu: conhecê-mo-lo sobretudo pelos "[[lexico:d:dialogos|diálogos]]" de [[lexico:p:platao|Platão]], escritos sob grande indignação pela condenação à [[lexico:m:morte|morte]] de seu [[lexico:m:mestre|mestre]] ([[lexico:a:apologia|apologia]] de Sócrates, [[lexico:c:criton|Críton]]), e mais [[lexico:t:tarde|Tarde]] através de [[lexico:f:fedon|Fédon]], O [[lexico:b:banquete|Banquete]] e [[lexico:t:teeteto|Teeteto]]. Representa-se Sócrates sempre discutindo, vestido com um manto grosseiro, percorrendo as ruas com os pés descalços, com qualquer [[lexico:t:tempo|tempo]]. De compleição extremamente robusta, de [[lexico:e:exterior|exterior]] [[lexico:v:vulgar|vulgar]], possuindo um nariz achatado, [[lexico:n:nao|não]] se assemelhava de nenhum [[lexico:m:modo|modo]] aos [[lexico:s:sofistas|sofistas]] ricamente vestidos que atraíam os atenienses, nem aos sábios de outrora, que ocupavam em [[lexico:g:geral|geral]] funções importantes em suas cidades. Crítico impiedoso das opiniões humanas e da [[lexico:t:tirania|tirania]], guerreiro corajoso e excelente cidadão, [[lexico:f:forma|forma]] um [[lexico:t:tipo|tipo]] novo que se vai tornar, no [[lexico:f:futuro|futuro]], o [[lexico:m:modelo|modelo]] constante de uma [[lexico:s:sabedoria|sabedoria]] toda [[lexico:p:pessoal|pessoal]], que nada deve às circunstâncias. Encontrava-se o filósofo em toda a [[lexico:p:parte|parte]] onde se reunia a [[lexico:m:multidao|multidão]] (assembleias do [[lexico:p:povo|povo]], festas públicas, ginásio), apresentando-se como "aquele que nada sabe", interrogando sem cessar os atenienses, principalmente os jovens, para destruir a [[lexico:e:educacao|educação]] adquirida sem [[lexico:r:reflexao|reflexão]] e estimular a reflexão pessoal, provando ao [[lexico:h:heroi|herói]] Laques, por [[lexico:e:exemplo|exemplo]], que este não sabe [[lexico:o:o-que-e|o que é]] a [[lexico:c:coragem|coragem]], e aos políticos, que não conhecem a [[lexico:e:essencia|essência]] da [[lexico:p:politica|política]]. Tal é a [[lexico:i:ironia-socratica|ironia socrática]] (que não significa absolutamente "zombaria" e sim "[[lexico:i:interrogacao|interrogação]]" — do grego eironeia). Seu [[lexico:o:objetivo|objetivo]] era despertar ou — como dizia ele — "partejar" as almas do [[lexico:s:saber|saber]] pré-formado nelas contido: assim é a "[[lexico:m:maieutica|maiêutica]]" socrática (do grego [[lexico:m:maieutike|maieutike]], [[lexico:a:arte|arte]] de partejar). Sócrates foi finalmente condenado à morte sob a acusação de [[lexico:t:ter|ter]] "querido corromper a juventude e de ter honrado outros [[lexico:d:deuses|deuses]] [[lexico:a:alem|além]] dos da [[lexico:c:cidade|cidade]]". Realmente, Sócrates havia abalado a [[lexico:t:tradicao|tradição]] e preparado a [[lexico:c:consciencia|consciência]] antiga para uma outra [[lexico:m:mensagem|mensagem]], a do cristianismo. Bebe a cicuta conversando e morre com serenidade. Sua morte contribuiu para fazer dele o que [[lexico:h:hegel|Hegel]] denomina um "herói da [[lexico:h:humanidade|humanidade]]". — De Sócrates, fica-nos a [[lexico:f:figura|figura]] de um apóstolo da [[lexico:l:liberdade|liberdade]] (tanto [[lexico:s:social|social]] quanto individual: da liberdade de "[[lexico:j:juizo|juízo]]") e da [[lexico:a:amizade|amizade]] entre os homens. A única prece que conhecemos dele era assim concebida: "Meu [[lexico:d:deus|Deus]], dai-me a pureza interior". O [[lexico:d:discurso|discurso]] que Platão lhe atribui em seu [[lexico:d:dialogo|diálogo]] O banquete, onde Sócrates baseia o [[lexico:c:conhecimento|conhecimento]] no [[lexico:a:amor|amor]] e na [[lexico:p:participacao|participação]] da divindade, a [[lexico:e:evocacao|evocação]] frequente dos "[[lexico:m:misterios|mistérios]]" religiosos ("mistérios" de Elêusis, a [[lexico:v:voz|voz]] da pítia etc), sua inclinação para o [[lexico:e:espiritualismo|espiritualismo]] pitagórico e sua [[lexico:s:sensibilidade|sensibilidade]] para a [[lexico:p:poesia|poesia]] deixam entrever, sob o exterior rude do [[lexico:h:homem|homem]] e por trás do [[lexico:r:racionalismo|racionalismo]] [[lexico:m:moral|moral]], um fundo certo de [[lexico:m:misticismo|misticismo]]. Sócrates nasceu em Atenas em 470/469 a.C. e morreu em 399 a.C, em [[lexico:v:virtude|virtude]] de uma condenação por "impiedade" (foi acusado de não crer nos deuses da cidade e de corromper os jovens; mas, por detrás de tais acusações, escondiam-se ressentimentos de vários tipos e manobras políticas). Era filho de um escultor e uma obstetriz. Não fundou uma [[lexico:e:escola|escola]], como os outros filósofos, realizando o seu ensinamento em locais públicos (nos ginásios, nas praças públicas etc), como uma [[lexico:e:especie|espécie]] de pregador leigo, exercendo um imenso fascínio não só sobre os jovens, mas também sobre os homens de todas as idades, o que lhe custou inúmeras aversões e inimizades. Parece sempre mais claro que se deve distinguir duas fases na [[lexico:v:vida|vida]] de Sócrates. Na primeira fase, ele esteve [[lexico:p:proximo|próximo]] dos físicos, particularmente Arquelau, que, como vimos, professava uma doutrina [[lexico:s:semelhante|semelhante]] à de [[lexico:d:diogenes-de-apolonia|Diógenes de Apolônia]] (que misturava ecleticamente [[lexico:a:anaximenes|Anaxímenes]] e [[lexico:a:anaxagoras|Anaxágoras]]). Sofrendo a [[lexico:i:influencia|influência]] da [[lexico:s:sofistica|sofística]], fez próprios os seus problemas, embora polemizando firmemente contra as soluções que lhes foram dadas pelos maiores sofistas. Assim sendo, não é estranho o [[lexico:f:fato|fato]] de que Aristófanes, na célebre [[lexico:c:comedia|comédia]] As nuvens, representada no ano de 423 (portanto, quando Sócrates estava na metade de sua quarta década de vida), tenha apresentado um Sócrates [[lexico:b:bem|Bem]] diferente do apresentado por Platão e [[lexico:x:xenofonte|Xenofonte]], que é o Sócrates da [[lexico:v:velhice|velhice]], o Sócrates da última parte de sua vida. Mas, como ressaltou oportunamente A. E. Taylor, além dos fatos de sua vida individual, os dois momentos da vida de Sócrates têm sua [[lexico:r:raiz|raiz]] no [[lexico:p:proprio|próprio]] [[lexico:m:momento|momento]] [[lexico:h:historico|histórico]] em que ele viveu: "Não podemos nem mesmo começar a [[lexico:c:compreender|compreender]] Sócrates enquanto não tivermos claro para nós mesmos que a sua juventude e a sua primeira maturidade transcorreram em uma [[lexico:s:sociedade|sociedade]] separada daquela em que cresceram Platão e Xenofonte por um [[lexico:a:abismo|abismo]] semelhante ao que separa a Europa pré-guerra da Europa do após-guerra." Sócrates não escreveu nada, considerando que a sua mensagem era transmissível pela [[lexico:p:palavra|palavra]] viva, através do diálogo e da "oralidade [[lexico:d:dialetica|dialética]]", como já se disse muito bem. Seus discípulos fixaram por [[lexico:e:escrito|escrito]] uma [[lexico:s:serie|série]] de doutrinas a ele atribuídas. Mas tais doutrinas frequentemente não concordam entre si e, por vezes, até se contradizem. Aristófanes caricaturiza um Sócrates que, como vimos, não é o de sua última maturidade. Na maior parte de seus diálogos, Platão idealiza Sócrates e o faz porta-voz também de suas próprias doutrinas: desse modo, é dificílimo estabelecer o que é efetivamente de Sócrates nesses textos e o que, ao contrário, representa repensamentos e reelaborações de Platão. Em seus escritos socráticos, Xenofonte apresenta um Sócrates de dimensões reduzidas, com traços que às vezes limitam-se até mesmo com a banalidade (certamente, seria [[lexico:i:impossivel|impossível]] que os atenienses tivessem [[lexico:m:motivos|motivos]] para condenar à morte um homem como o Sócrates descrito por Xenofonte). [[lexico:a:aristoteles|Aristóteles]] só [[lexico:f:fala|fala]] de Sócrates ocasionalmente. Entretanto, suas afirmações são consideradas mais objetivas. Mas Aristóteles não foi contemporâneo de Sócrates: certamente, ele pode ter se documentado sobre o que registra, mas faltou-lhe o contato direto com a [[lexico:p:personagem|personagem]], contato que, no caso de Sócrates, revela-se insubstituível. Por [[lexico:f:fim|fim]], os vários socráticos, fundadores das chamadas "escolas socráticas menores", deixaram muito pouco sobre ele, lançando [[lexico:l:luz|luz]] apenas sobre um [[lexico:a:aspecto|aspecto]] parcial de Sócrates. Desse modo, alguns chegaram a sustentar a [[lexico:t:tese|tese]] da [[lexico:i:impossibilidade|impossibilidade]] de reconstruir a figura "histórica" e o [[lexico:p:pensamento|pensamento]] [[lexico:e:efetivo|efetivo]] de Sócrates. Por alguns lustros, as pesquisas socráticas caíram em séria crise. Mas hoje está abrindo [[lexico:c:caminho|caminho]], não o [[lexico:c:criterio|critério]] da [[lexico:e:escolha|escolha]] entre as várias fontes ou de sua combinação eclética, mas sim o critério que pode [[lexico:s:ser|ser]] definido como "a [[lexico:p:perspectiva|perspectiva]] do antes e depois de Sócrates". Vamos explicá-lo melhor: a partir do momento em que Sócrates atuou em Atenas, pode-se constatar que a [[lexico:l:literatura|literatura]] em geral, particularmente a filosófica, registra uma série de novidades de alcance bastante considerável, que depois, no âmbito do helenismo, iriam permanecer como aquisições irreversíveis e pontos constantes de [[lexico:r:referencia|referência]]. Mas há mais: as fontes a que nos referimos (e também outras fontes, além das mencionadas) concordam na indicação de Sócrates como o autor de tais novidades, seja de modo [[lexico:e:explicito|explícito]], seja [[lexico:i:implicito|implícito]]. Assim, podemos creditar a Sócrates, com elevado [[lexico:g:grau|grau]] de [[lexico:p:probabilidade|probabilidade]], aquelas doutrinas que a [[lexico:c:cultura|cultura]] grega recebeu no momento em que Sócrates atuava em Atenas e que os nossos documentos creditam a ele. Relida com base nesse critério, a [[lexico:f:filosofia|Filosofia]] socrática revela ter exercido tal [[lexico:p:peso|peso]] no [[lexico:d:desenvolvimento|desenvolvimento]] do pensamento grego e do pensamento ocidental em geral que pode ser comparada a uma verdadeira [[lexico:r:revolucao|revolução]] espiritual.