===== SOCIEDADE MODERNA ===== A [[lexico:f:fim|fim]] de medirmos a [[lexico:e:extensao|extensão]] da vitória da [[lexico:s:sociedade|sociedade]] na era [[lexico:m:moderna|moderna]], sua inicial [[lexico:s:substituicao|substituição]] da [[lexico:a:acao|ação]] pelo [[lexico:c:comportamento|comportamento]] e sua posterior substituição do [[lexico:g:governo|governo]] [[lexico:p:pessoal|pessoal]] pela [[lexico:b:burocracia|burocracia]], que é o governo de ninguém, pode convir também lembrar que sua [[lexico:c:ciencia|ciência]] inicial, a [[lexico:e:economia|economia]], que altera padrões de comportamento somente nesse [[lexico:c:campo|campo]] bastante limitado da [[lexico:a:atividade|atividade]] humana, foi finalmente sucedida pela pretensão oniabrangente das [[lexico:c:ciencias-sociais|ciências sociais]], que, como “ciências do comportamento” visam a reduzir o [[lexico:h:homem|homem]] como um [[lexico:t:todo|todo]], em todas as suas [[lexico:a:atividades|atividades]], ao nível de um [[lexico:a:animal|animal]] comportado e condicionado. Se a economia é a ciência da sociedade em suas primeiras fases, quando suas regras de comportamento podiam [[lexico:s:ser|ser]] impostas somente a determinados setores da população e a uma parcela de suas atividades, o surgimento das “ciências do comportamento” indica claramente o estágio final desse desdobramento, quando a sociedade de massas já devorou todas as camadas da [[lexico:n:nacao|nação]] e o “comportamento [[lexico:s:social|social]]” converteu-se em [[lexico:m:modelo|modelo]] de todas as áreas da [[lexico:v:vida|vida]]. Desde o advento da sociedade, desde a [[lexico:a:admissao|admissão]] das atividades domésticas e da administração do [[lexico:l:lar|lar]] no domínio [[lexico:p:publico|público]], uma das principais características do novo domínio tem sido uma irresistível [[lexico:t:tendencia|tendência]] a crescer, a devorar os domínios mais antigos do [[lexico:p:politico|político]] e do [[lexico:p:privado|privado]], [[lexico:b:bem|Bem]] como a [[lexico:e:esfera|esfera]] da intimidade, instituída mais recentemente. [[lexico:e:esse|esse]] constante crescimento, cuja aceleração [[lexico:n:nao|não]] menos constante podemos observar no decorrer de pelo menos três séculos, deriva sua [[lexico:f:forca|força]] do [[lexico:f:fato|fato]] de que, por [[lexico:m:meio|meio]] da sociedade, o [[lexico:p:proprio|próprio]] [[lexico:p:processo|processo]] da vida foi, de uma [[lexico:f:forma|forma]] ou de outra, canalizado para o domínio público. O domínio privado do lar era a esfera na qual as [[lexico:n:necessidades-da-vida|necessidades da vida]], da [[lexico:s:sobrevivencia|sobrevivência]] individual e da continuidade da [[lexico:e:especie|espécie]] eram atendidas e garantidas. Uma das características da [[lexico:p:privatividade|privatividade]], antes da [[lexico:d:descoberta|descoberta]] do íntimo, era que o homem existia nessa esfera não como um ser verdadeiramente [[lexico:h:humano|humano]], mas somente como [[lexico:e:exemplar|exemplar]] da espécie animal humana. Residia aí, precisamente, a [[lexico:r:razao|razão]] última do vasto desprezo nutrido por ela na [[lexico:a:antiguidade|antiguidade]]. O surgimento da sociedade mudou a avaliação de toda essa esfera, mas não chegou a transformar-lhe a [[lexico:n:natureza|natureza]]. O [[lexico:c:carater|caráter]] monolítico de todo [[lexico:t:tipo|tipo]] de sociedade, o seu conformismo, que só admite um [[lexico:u:unico|único]] [[lexico:i:interesse|interesse]] e uma única [[lexico:o:opiniao|opinião]], tem suas raízes basicamente na [[lexico:u:unicidade|unicidade]] da espécie humana. E, como essa unicidade da espécie humana não é [[lexico:f:fantasia|fantasia]] e nem mesmo [[lexico:s:simples|simples]] [[lexico:h:hipotese|hipótese]] científica, como o é a “[[lexico:f:ficcao-comunista|ficção comunista]]” da economia clássica, a sociedade de massas, onde o homem como animal social reina supremo e onde aparentemente a sobrevivência da espécie poderia ser garantida em escala mundial, pode ao mesmo [[lexico:t:tempo|tempo]] ameaçar de extinção a [[lexico:h:humanidade|humanidade]]. A indicação talvez mais clara de que a sociedade constitui a organização pública do processo vital encontra-se no fato de que, em um tempo relativamente curto, o novo domínio social transformou todas as comunidades modernas em sociedades de trabalhadores e [[lexico:e:empregados|empregados]]; em outras [[lexico:p:palavras|palavras]], essas comunidades concentraram-se imediatamente em torno da única atividade necessária para manter a vida. (Naturalmente, para que se tenha uma sociedade de trabalhadores não é [[lexico:n:necessario|necessário]] que cada um dos seus membros seja realmente um trabalhador ou um operário – e nem mesmo a emancipação da [[lexico:c:classe-operaria|classe operária]] e a enorme força potencial que o governo da maioria lhe atribui são decisivas nesse [[lexico:p:particular|particular]] –, basta que todos os seus membros considerem tudo o que fazem primordialmente como [[lexico:m:modo|modo]] de sustentar suas próprias vidas e as de suas famílias.) A sociedade é a forma na qual o fato da dependência mútua em prol da vida, e de [[lexico:n:nada|nada]] mais, adquire importância pública, e na qual se permite que as atividades relacionadas com a mera sobrevivência apareçam em público. [ArendtCH, 6]