===== SOCIEDADE ===== (lat. Societas; in. Society; fr. Société; al. Gesellschaft; it. Società). No [[lexico:s:sentido:start|sentido]] [[lexico:g:geral:start|geral]] e fundamental: 1) [[lexico:c:campo:start|campo]] de [[lexico:r:relacoes:start|relações]] intersubjetivas, ou seja, das relações humanas de [[lexico:c:comunicacao:start|comunicação]], portanto também: 2) a [[lexico:t:totalidade:start|totalidade]] dos indivíduos entre os quais ocorrem essas relações; 3) um [[lexico:g:grupo:start|grupo]] de indivíduos entre os quais essas relações ocorrem em alguma [[lexico:f:forma:start|forma]] condicionada ou determinada. 1) O primeiro [[lexico:s:significado:start|significado]], [[lexico:c:como-se:start|como se]] disse, é o fundamental; foi introduzido na [[lexico:c:cultura:start|cultura]] ocidental pelos escritores latinos — especialmente por Cícero — que o hauriram no [[lexico:e:estoicismo:start|estoicismo]]. Nos escritores clássicos da [[lexico:g:grecia:start|Grécia]], os aspectos estatal e [[lexico:s:social:start|social]] encontram-se fundidos e [[lexico:n:nao:start|não]] se distinguem do [[lexico:c:conceito:start|conceito]] de [[lexico:p:polis:start|polis]]; graças ao cosmopolitismo dos estoicos, foram dissociados e, portanto, a sociedade passou a [[lexico:s:ser:start|ser]] considerada [[lexico:i:independente:start|independente]] do [[lexico:e:estado:start|Estado]], da organização [[lexico:p:politica:start|política]]. Foi expondo a doutrina dos estoicos que Cícero disse: "Nascemos para a agregação dos homens e para a sociedade e a [[lexico:c:comunidade:start|comunidade]] do [[lexico:g:genero:start|gênero]] [[lexico:h:humano:start|humano]]" (De finibus, IV, 2, 4). [[lexico:e:esse:start|esse]] conceito de sociedade é retomado pelo [[lexico:j:jusnaturalismo:start|jusnaturalismo]] [[lexico:m:moderno:start|moderno]], no qual é acompanhado pelo conceito de [[lexico:d:direito-natural:start|direito natural]] (o que já acontecia nos estoicos). O [[lexico:d:direito:start|direito]] [[lexico:n:natural:start|natural]], aliás, é empregado pelos jusnaturalistas para delimitar o campo da sociedade. Huig van Groot (Grócio), p. ex., diz que "a conservação da sociedade, em conformidade com a [[lexico:i:inteligencia:start|inteligência]] humana, é [[lexico:f:fonte:start|fonte]] do direito propriamente [[lexico:d:dito:start|dito]]" (De jure bellis ac pacis, 1625, Proleg., § 8). Analogamente, para [[lexico:h:hobbes:start|Hobbes]], a sociedade era uma [[lexico:a:associacao:start|associação]] decorrente das necessidades humanas e do temor, vale dizer, constituída em última [[lexico:a:analise:start|análise]] por relações humanas de [[lexico:u:utilidade:start|utilidade]] recíproca (De Cive, 1642,12). Pufendorf fundamentava a [[lexico:l:lei-natural:start|lei natural]] com o [[lexico:p:principio:start|princípio]] seguinte: "Cada um, no que depender de si, deve promover e manter para com seus semelhantes um estado de sociabilidade pacífica, condizente em geral com a índole e as finalidades do gênero humano", e explicava que se devia entender por sociabilidade "a [[lexico:d:disposicao:start|disposição]] do [[lexico:h:homem:start|homem]] para com o homem, graças à qual um se considera vinculado ao [[lexico:o:outro:start|outro]] pela [[lexico:b:benevolencia:start|benevolência]], pela [[lexico:p:paz:start|paz]] e pela [[lexico:c:caridade:start|caridade]]" (De jure naturae, 1672, II, 3). Também é [[lexico:p:possivel:start|possível]] encontrar uma [[lexico:d:definicao:start|definição]] indireta da sociedade nos textos que insistem na [[lexico:t:tendencia:start|tendência]] natural do homem para a sociabilidade, como os que aparecem frequentemente nas obras de [[lexico:k:kant:start|Kant]]. "O homem tem inclinação a associar-se porque no estado de sociedade sente-se mais homem, vale dizer, sente que pode desenvolver melhor suas disposições naturais. Mas também tem forte tendência a dissociar-se (isolar-se) porque tem em si também a [[lexico:q:qualidade:start|qualidade]] anti-social de querer voltar tudo para seu [[lexico:p:proprio:start|próprio]] [[lexico:i:interesse:start|interesse]], em [[lexico:v:virtude:start|virtude]] do que deve esperar resistência de todos os lados e, por sua vez, sabe que terá de resistir aos outros" (Idee zu einer allgemeinen [[lexico:g:geschichte:start|Geschichte]] in weltburgerlicher Absicht, 1784, IV; trad. it., p. 127; Met. der Sitten, II, § 47; Crít. do [[lexico:j:juizo:start|Juízo]], § 41). [[lexico:f:fichte:start|Fichte]] expressava esse mesmo conceito ao dizer: "Chamo de sociedade a [[lexico:r:relacao:start|relação]] recíproca entre seres racionais" (Die Bestimmung des Gelehrten, 1794, II). Desse [[lexico:p:ponto:start|ponto]] de vista, a análise da sociedade pode [[lexico:t:ter:start|ter]] como [[lexico:o:objetivo:start|objetivo]]: a) Os fins que a totalidade do gênero humano deve ter em vista e dos meios que a [[lexico:r:razao:start|razão]] indica para a consecução de tais fins. As teorias políticas dos autores gregos, p. ex., de [[lexico:p:platao:start|Platão]] e de [[lexico:a:aristoteles:start|Aristóteles]], e as teorias jusnaturalistas analisam a sociedade nesse sentido. b) As condições que, de [[lexico:f:fato:start|fato]], possibilitam as relações humanas. Essas condições foram definidas de várias maneiras, e sua definição pode ser considerada a primeira [[lexico:t:tarefa:start|tarefa]] da [[lexico:s:sociologia:start|sociologia]]. Max [[lexico:w:weber:start|Weber]] identificou-as na [[lexico:a:atividade:start|atividade]] social, que se realiza segundo uma [[lexico:o:ordem:start|ordem]] deliberada e relativamente constante (Über einige Kategorien der verstehenden Soziologie, 1913, V; trad. it., in Il [[lexico:m:metodo:start|método]] delle scienze storico-sociali, pp. 262 ss.). [[lexico:d:durkheim:start|Durkheim]] considerou característicos da sociedade humana os modos de agir que são impostos de fora e se consolidam nas instituições (Règles de la méthode sociologique, 1895, cap. I). E a própria [[lexico:a:acao:start|ação]], ou [[lexico:c:comportamento:start|comportamento]], às vezes é considerada [[lexico:e:elemento:start|elemento]] objetivo que define o campo das relações humanas (cf. Talcott Parsons, The Structure of Social Action, 1949; 2a ed., 1957). Este segundo [[lexico:m:modo:start|modo]] de entender a sociedade atribui-lhe explícita ou implicitamente o [[lexico:c:carater:start|caráter]] de "campo" e a reduz portanto a uma construeto conceitual, isentando-a do caráter de totalidade [[lexico:r:real:start|real]] e do caráter de [[lexico:i:ideal:start|ideal]] [[lexico:n:normativo:start|normativo]]. 2) O conceito de sociedade como totalidade de indivíduos entre os quais há relações intersubjetivas, ou seja, como "[[lexico:m:mundo:start|mundo]] social", em geral está ligado ao conceito de sociedade como [[lexico:o:organismo:start|organismo]] ou "superorganismo". Os antigos já haviam comparado a comunidade política, o Estado, a um organismo. Os estoicos compararam toda a sociedade — como comunidade de seres racionais — a um organismo (cf. [[lexico:m:marco-aurelio:start|Marco Aurélio]], Memórias, VII, 13); esse paralelo continua na Idade [[lexico:m:moderna:start|moderna]]. [[lexico:c:comte:start|Comte]] chama a sociedade de "organismo coletivo" (Cours de phil. positive, IV, pp. 442 ss.). Por sua vez, [[lexico:s:spencer:start|Spencer]] chama de superorgânica a [[lexico:e:evolucao:start|evolução]] que conduz à sociedade e considera a própria sociedade como um organismo cujos [[lexico:e:elementos:start|elementos]] são, em primeiro [[lexico:l:lugar:start|lugar]], as famílias e depois os indivíduos isolados. Segundo Spencer, o organismo social difere do organismo [[lexico:a:animal:start|animal]] porque a [[lexico:c:consciencia:start|consciência]] pertence apenas aos elementos que o compõem, pois a sociedade não tem órgãos de sentido como os animais, mas vive e sente apenas através dos indivíduos que a compõem (The Study of Sociology, 1873); [[lexico:w:wundt:start|Wundt]] expressou-se no mesmo sentido (System der Philosophie, 2a ed., 1897, pp. 616 ss.). A [[lexico:h:hipotese:start|hipótese]] organicista continua por trás de muitas teorias políticas e sociológicas modernas. Pode ser considerada uma variante dessa mesma concepção a doutrina de [[lexico:h:hegel:start|Hegel]], para [[lexico:q:quem:start|quem]] a "sociedade civil" é uma fase imperfeita ou preparatória do Estado, que é a [[lexico:i:ideia:start|ideia]] Divina realizada na [[lexico:t:terra:start|Terra]]: "A [[lexico:s:substancia:start|substância]] que, enquanto [[lexico:e:espirito:start|espírito]], se particulariza abstratamente em muitas pessoas (a [[lexico:f:familia:start|família]] é uma só [[lexico:p:pessoa:start|pessoa]]), em famílias ou em indivíduos, que [[lexico:p:por-si:start|por si]] estão em [[lexico:l:liberdade:start|liberdade]], são independentes e particulares, e perde seu caráter ético; isso porque essas pessoas, enquanto tais, não têm na consciência e como objetivo a [[lexico:u:unidade:start|unidade]] absoluta, mas sua própria particularidade e seu ser por si: daí nasce o [[lexico:s:sistema:start|sistema]] da atomística". Este sistema é precisamente a sociedade civil como "conexão [[lexico:u:universal:start|universal]] e mediadora de extremos independentes e de seus interesses particulares" ou como "Estado [[lexico:e:exterior:start|exterior]]" (Enc., § 523; Fil. do dir., § 184). Neste sentido, segundo Hegel, a sociedade civil compreende, em primeiro lugar, o sistema das necessidades; em segundo lugar, a administração da [[lexico:j:justica:start|justiça]]; em [[lexico:t:terceiro:start|terceiro]] lugar, a polícia e a corporação, ou seja, os órgãos que detêm a tutela dos interesses particulares (Fil. do dir., § 188). O próprio [[lexico:m:marx:start|Marx]] manteve inalterado este conceito da sociedade civil, mas inverteu sua relação com o Estado e adotou-o como princípio de [[lexico:e:explicacao:start|explicação]] do próprio Estado e, em geral, de [[lexico:t:todo:start|todo]] o mundo ideológico: "Por meus estudos, fui levado à conclusão de que nem as relações jurídicas nem as formas do Estado poderiam ser compreendidas por si mesmas ou pelo [[lexico:c:chamado:start|chamado]] [[lexico:d:desenvolvimento:start|desenvolvimento]] geral do espírito humano, mas de que estão enraizadas nas relações materiais da [[lexico:e:existencia:start|existência]], cujo conjunto é enfeixado por Hegel com o [[lexico:n:nome:start|nome]] de sociedade civil, a anatomia dessa sociedade civil deve ser buscada na [[lexico:e:economia-politica:start|economia política]]" (Zur Kritik der politischen Ökonomie, 1859, Pref.; trad. it., Cantimori, p. 10). Conceito [[lexico:a:analogo:start|análogo]] de sociedade pareceu a [[lexico:b:bergson:start|Bergson]] ser o próprio ideal de sociedade "aberta", ou sociedade [[lexico:m:mistica:start|mística]]. "Uma sociedade mística que abarque toda a [[lexico:h:humanidade:start|humanidade]] e que, animada por uma [[lexico:v:vontade:start|vontade]] comum, marche para a [[lexico:c:criacao:start|criação]] incessantemente renovada de uma humanidade mais completa, certamente se realizará no porvir tanto quanto no passado existiram sociedade humanas funcionando de maneira orgânica à [[lexico:s:semelhanca:start|semelhança]] das sociedade animais. A [[lexico:a:aspiracao:start|aspiração]] pura é um [[lexico:l:limite:start|limite]] ideal como a [[lexico:o:obrigacao:start|obrigação]] nua" (Deux sources, I, trad. it., p. 87). 3) Na [[lexico:l:linguagem:start|linguagem]] comum e nas disciplinas sociológicas a [[lexico:p:palavra:start|palavra]] sociedade costuma ser usada no terceiro significado, de conjunto de indivíduos caracterizado por uma [[lexico:a:atitude:start|atitude]] comum ou institucionalizada. Neste sentido, designa tanto um grupo de indivíduos quanto a [[lexico:i:instituicao:start|instituição]] que caracteriza esse grupo, como acontece nas expressões "sociedade comercial", "sociedade capitalista", etc. Esse emprego é tão óbvio que em geral não é sequer definido. Às vezes é definido em relação com cultura, como fazem Kluckhohn e Kelly: "sociedade refere-se a um grupo de pessoas que aprenderam a agir em conjunto; cultura refere-se aos [[lexico:m:modos-de-vida:start|modos de vida]] que distinguem esse grupo de pessoas" (R. Linton, The Science of [[lexico:m:man:start|Man]] in the World Crisis, 7a ed., 1952, p. 79). Sociedade (1), como sinônimo de comunidade, designa toda reunião, estável e ativa, de homens, que tenha em mira a realização de um [[lexico:f:fim:start|fim]] ou [[lexico:v:valor:start|valor]] comum. — Sociedade (2), em acepção distinta da de comunidade, denota só os entes coletivos endereçados a um fim artificial; ao passo que comunidade denota os entes coletivos à base de um vínculo natural. — Sociedade (3) exprime a totalidade das criações e relações oriundas da índole dada ao homem pela [[lexico:n:natureza:start|natureza]]; exprime, portanto, a humanidade como uma unidade, o Estado, o município e a [[lexico:c:classe:start|classe]] profissional, a a família, a parentela, a linhagem ( [[lexico:p:povo:start|povo]]), e o conjunto global das associações livres de toda [[lexico:e:especie:start|espécie]]. — Sociedade (4) indica, outrossim, a [[lexico:c:classe-social:start|classe social]] mais influente e, via de [[lexico:r:regra:start|regra]], a mais rica, isto é, aqueles círculos onde existe "trato social" e onde geralmente costuma ser [[lexico:m:mal:start|mal]] visto o matrimônio de um de seus membros com outro de classe "socialmente" inferior. — Sociedade (5), em [[lexico:o:oposicao:start|oposição]] a Estado: entendido por Estado a comunidade do povo organizada e dotada de poder, sociedade será, ao invés, a mesma comunidade do povo (mas, de fato, as mais das vezes, só os círculos da "sociedade" no sentido como pretensa zona "livre do Estado") sem relação interna ao quadro do Estado que a contém. — Este conceito da sociedade baseava-se na concepção liberal-burguesa do Estado, em vigor no século XIX, em que cada qual se sentia a salvo do Estado e por isso o minimizava ao ponto de reduzi-lo a um quadro [[lexico:v:vazio:start|vazio]] (!). — Sociedade (6), em [[lexico:t:terminologia:start|terminologia]] jurídica, designa primariamente os agrupamentos de natureza jurídico-econômica, via de regra associações de [[lexico:t:trabalho:start|trabalho]] e [[lexico:c:capital:start|capital]] para fins industriais. A cada [[lexico:e:entidade:start|entidade]] social corresponde uma atuação social. Mas, como não são essas entidades, senão só os homens que podem [[lexico:p:pensar:start|pensar]], querer e operar, a entidade social, para ser capaz de ação, requer determinados órgãos e, por conseguinte, organização. Os órgãos diretivos precisam de ter [[lexico:a:autoridade:start|autoridade]], uma vez que os restantes membros da sociedade os devem seguir, na qualidade de seres livres. De um ponto de vista ético-jurídico, a autoridade e a [[lexico:s:subordinacao:start|subordinação]], o poder de mandar e o [[lexico:d:dever:start|dever]] de obedecer, são essenciais a todo quadro social e, por conseguinte, são queridos por [[lexico:d:deus:start|Deus]] juntamente com a índole social do homem. A autoridade tem seu [[lexico:f:fundamento:start|fundamento]] e sua [[lexico:l:limitacao:start|limitação]] no [[lexico:b:bem-comum:start|bem comum]]. — Nell-Breuning {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}