===== SKEPTIKOS ===== skeptikós (ho) / skeptikos = cético. Latim: scepticus. [[lexico:a:adjetivo|adjetivo]]: cético, que duvida; substantivo: o cético, membro de uma [[lexico:e:escola|escola]] filosófica criada por Pírron de Elida (365-275 a.O), que baseava seu [[lexico:s:sistema|sistema]] na [[lexico:d:duvida|dúvida]]. O [[lexico:c:ceticismo|ceticismo]], sistema dos céticos, é uma [[lexico:p:palavra|palavra]] que data do século XVIII. Mas o [[lexico:p:proprio|próprio]] sistema e a escola que o adotou foram constituídos no século IV a.C; seus adeptos diziam-se skeptikoí, partidários da dúvida, mais exatamente da dúvida absoluta e [[lexico:u:universal|universal]], em [[lexico:o:oposicao|oposição]] aos dogmáticos, que professam a [[lexico:c:certeza|certeza]] da [[lexico:v:verdade|verdade]]. Essa [[lexico:d:designacao|designação]] vem do [[lexico:v:verbo|verbo]] sképtomai, no [[lexico:s:sentido|sentido]] lato: considerar, inspecionar, refletir; [[lexico:e:esse|esse]] verbo deriva de skopô, com o mesmo sentido. Entre os substantivos compostos: epískopos, inspetor e, depois, bispo. Diógenes Laércio escreve (IX, 74): “Os filósofos céticos tinham o [[lexico:c:costume|costume]] de destruir as doutrinas das outras escolas, mas [[lexico:n:nao|não]] estabeleciam nenhuma.” Assim, empregavam os recursos da [[lexico:r:razao|razão]] para negar o poder da razão. Pírron parece não [[lexico:t:ter|ter]] [[lexico:e:escrito|escrito]] [[lexico:n:nada|nada]], mas simplesmente transmitido suas teorias aos discípulos; destes, os mais célebres foram Tímon (Sobre as imagens, Sobre as sensações) e Enesidemo (Sobre Pírron, Contra a [[lexico:s:sabedoria|sabedoria]]). Dessas obras, restam apenas fragmentos. Por [[lexico:o:outro|outro]] lado, ainda temos a [[lexico:o:obra|obra]] de um dos últimos adeptos, [[lexico:s:sexto-empirico|Sexto Empírico]], que expõe sistematicamente, no século III de nossa era, a doutrina da [[lexico:s:seita|seita]] em duas grandes obras: Contra os matemáticos, ou seja, aqueles que ensinam (v. máthema / mathema), em onze livros; e Hipotiposes pirronianas: a hypotyposis era uma [[lexico:i:imagem|imagem]], um esboço, uma [[lexico:d:descricao|descrição]]. E uma [[lexico:e:exposicao|exposição]] hábil do ensinamento de Pírron e de seus discípulos, [[lexico:b:bem|Bem]] como uma contribuição importante para o [[lexico:c:conhecimento|conhecimento]] de todas as doutrinas que ele chama de dogmáticas e tenta demolir. “Ceticismo” é um desses termos filosóficos que se incorporaram à [[lexico:l:linguagem|linguagem]] comum e que, portanto, todos julgamos [[lexico:s:saber|saber]] o que significa. Ao examinarmos a [[lexico:t:tradicao|tradição]] cética vemos, no entanto, que não há um ceticismo, mas várias concepções diferentes de ceticismo, e mesmo o que podemos considerar a “tradição cética” não se constituiu linearmente a partir de um [[lexico:m:momento|momento]] inaugural ou da [[lexico:f:figura|figura]] de um grande [[lexico:m:mestre|mestre]], mas se trata muito mais de uma tradição reconstruída. Um [[lexico:b:bom|Bom]] [[lexico:p:ponto|ponto]] de partida para tentar uma caracterização dessa [[lexico:d:distincao|distinção]] acerca dos vários sentidos de “ceticismo” é o [[lexico:t:texto|texto]] do próprio Sexto [[lexico:e:empirico|Empírico]], nossa principal [[lexico:f:fonte|fonte]] de conhecimento do ceticismo antigo. Em suas Hipotiposes pirrônicas (doravante H.P.), logo no capítulo de abertura (I, 1), é [[lexico:d:dito|dito]] que: “O resultado [[lexico:n:natural|natural]] de qualquer [[lexico:i:investigacao|investigação]] é que aquele que investiga ou bem encontra o [[lexico:o:objeto|objeto]] de sua busca, ou bem nega que seja encontrável e confessa [[lexico:s:ser|ser]] ele inapreensível, ou, ainda, persiste na sua busca. O mesmo ocorre com os objetos investigados pela [[lexico:f:filosofia|Filosofia]], e é provavelmente por isso que alguns afirmaram ter descoberto a verdade; outros, que a verdade não pode ser apreendida, enquanto outros continuam buscando. Aqueles que afirmam ter descoberto a verdade são os ‘dogmáticos’, assim são chamados especialmente [[lexico:a:aristoteles|Aristóteles]], p. ex., [[lexico:e:epicuro|Epicuro]], os estoicos e alguns outros. Clitômaco, Carnéades e outros acadêmicos consideram a verdade inapreensível, e os céticos continuam buscando. Portanto, parece [[lexico:r:razoavel|razoável]] manter que há três tipos de filosofia: a dogmática, a acadêmica e a cética.” Desta [[lexico:f:forma|forma]], segundo a [[lexico:i:interpretacao|interpretação]] de Sexto, há uma [[lexico:d:diferenca|diferença]] fundamental entre a [[lexico:a:academia|Academia]] de Clitômaco e Carnéades e o ceticismo. O ponto fundamental de divergência parece ser que, enquanto os acadêmicos afirmam ser [[lexico:i:impossivel|impossível]] encontrar a verdade, os céticos, por assim dizer “autênticos”, seguem buscando. Aliás, o [[lexico:t:termo|termo]] [[lexico:s:skepsis|skepsis]] significa literalmente investigação, [[lexico:i:indagacao|indagação]]. Ou seja, a [[lexico:a:afirmacao|afirmação]] de que a verdade seria inapreensível já não caracterizaria mais uma [[lexico:p:posicao|posição]] cética, mas sim uma forma de [[lexico:d:dogmatismo|dogmatismo]] [[lexico:n:negativo|negativo]]. A posição cética, ao contrário, caracterizar-se-ia pela suspensão de [[lexico:j:juizo|juízo]] (époche) quanto à [[lexico:p:possibilidade|possibilidade]] ou não de algo ser [[lexico:v:verdadeiro|verdadeiro]] ou [[lexico:f:falso|falso]]. É nisso que consiste o ceticismo [[lexico:e:efetico|efético]], ou suspensivo, que Sexto (H.P. I, 7) considera o [[lexico:u:unico|único]] a merecer o [[lexico:n:nome|nome]] de “ceticismo”, e que seria proveniente da filosofia de [[lexico:p:pirro|Pirro]] de Élis. Daí a reivindicação da [[lexico:e:equivalencia|equivalência]] entre ceticismo e [[lexico:p:pirronismo|pirronismo]]. Sexto relata que os céticos denominavam-se pirrônicos porque Pirro “parece ter se dedicado ao ceticismo de forma mais completa e explícita que seus predecessores” (H.P., I, 7). Examinando-se a [[lexico:f:formacao|formação]] do ceticismo antigo é [[lexico:p:possivel|possível]] distinguir: 1) O protoceticismo: uma fase inicial em que podemos identificar temas e tendências céticas já na filosofia dos [[lexico:p:pre-socraticos|pré-socráticos]] (séc. VI a.C.). É a esses filósofos que Aristóteles se refere no livro Γ da [[lexico:m:metafisica|Metafísica]]. 2) O ceticismo inaugurado por Pirro de Élis (360-270 a.C.), cujo [[lexico:p:pensamento|pensamento]] conhecemos por [[lexico:m:meio|meio]] de fragmentos de seu discípulo Tímon de Flios (325-235 a.C.). 3) O ceticismo acadêmico, correspondendo à fase cética da Academia de [[lexico:p:platao|Platão]] iniciada por [[lexico:a:arcesilau|Arcesilau]] (por vezes conhecida como Média Academia) a partir de 270 a.C., vigorando até Carnéades (219-129 a.C.) e Clitômaco (175-110 a.C.), a assim chamada Nova Academia. (A distinção entre Média e Nova Academia, encontrada na [[lexico:a:antiguidade|antiguidade]], não é mais comumente aceita pelos modernos historiadores.) Com Fílon de Larissa (c. 110 a.C.) a Academia abandona progressivamente o ceticismo (4a Academia). Conhecemos essa doutrina sobretudo a partir do [[lexico:d:dialogo|diálogo]] Acadêmica (priora et posteriora) de Cícero (c. 55 a.C.). 4) O pirronismo ou ceticismo pirrônico: Enesidemo de Cnossos (séc. I a.C.), possivelmente um discípulo da Academia no período de Fílon, procura reviver o ceticismo buscando inspiração em Pirro e dando [[lexico:o:origem|origem]] ao que ficou conhecido como ceticismo pirrônico, cujo pensamento nos foi transmitido basicamente pela obra de Sexto Empírico (séc. II d.C.), consistindo de Hipotiposes pirrônicas e Contra os matemáticos.