===== SIMBÓLICO ===== Examinemos a [[lexico:q:questao|questão]] noutra [[lexico:p:perspectiva|perspectiva]]. Uma das portas de [[lexico:a:acesso|acesso]] ao [[lexico:m:mundo|mundo]] [[lexico:m:mitico|mítico]] é a [[lexico:r:reflexao|reflexão]] sobre o simbólico. Se há uma [[lexico:r:realidade|realidade]] [[lexico:s:simbolica|simbólica]] — aquela, cuja [[lexico:e:expressao|expressão]] mais adequada é o [[lexico:m:mito|mito]] — é ela constituída por entes fluidos e translúcidos; de tal maneira fluidos, que [[lexico:i:indistinto|indistinto]] se torna o [[lexico:l:limite|limite]] entre o [[lexico:s:ser|ser]] [[lexico:h:humano|humano]] e o ser [[lexico:d:divino|divino]], entre o ser divino e o ser [[lexico:n:natural|natural]], entre o ser natural e o ser humano; e de tal maneira translúcidos, que através do ser [[lexico:h:homem|homem]] transparece o ser [[lexico:a:animal|animal]] ou o ser planta, o ser rio, mar ou montanha; ou o através do ser [[lexico:d:deus|Deus]] transparece o ser humano ou o ser natural. Perca o simbólico a sua fluidez e a sua [[lexico:t:transparencia|transparência]], que sucederá? Tudo se cousifica! E a [[lexico:c:coisa|coisa]], que nos mostra a sua face de [[lexico:t:terra|Terra]], oculta seus veios de [[lexico:s:sangue|sangue]] ou de seiva, o corpóreo oculta o anímico ou o anímico oculta o corpóreo, o homem esconde o divino ou o divino esconde o humano. Quando o [[lexico:s:simbolo|símbolo]] se cousifica, ou quando por diabólica inspiração ou [[lexico:s:sugestao|sugestão]], nós cousificarmos o simbólico, a [[lexico:m:metamorfose|metamorfose]] já [[lexico:n:nao|não]] é [[lexico:p:possivel|possível]], e o [[lexico:p:poeta|poeta]] virá então falar-nos de um «[[lexico:u:ultimo|Último]] Sortilégio» e cantar-nos, tangendo a lira da [[lexico:c:consciencia|consciência]] infeliz, estes versos de desânimo e de [[lexico:r:renuncia|renúncia]]: Outrora meu condão fadava as sarças E a minha [[lexico:e:evocacao|evocação]] do solo erguia Presenças concentradas das que esparsas Dormem nas formas naturais das [[lexico:c:coisas|coisas]]. Outrora a minha [[lexico:v:voz|voz]] acontecia. Fadas e Elfos, se [[lexico:e:eu|eu]] chamasse, via, E as folhas da floresta eram lustrosas. 20. Tentado estaria a dizer, sem [[lexico:e:erro|erro]] claro, evidente e clamoroso, que o «[[lexico:d:diabolico|diabólico]]» e o «simbólico» correm em sentidos contrários: «coisas» são [[lexico:s:simbolos|símbolos]] desintegrados; como «símbolos» são coisas reintegradas. [[lexico:p:problema|problema]] é o de [[lexico:s:saber|saber]] [[lexico:c:como-se|como se]] vive num mundo de símbolos, pois, ao que parece, só nos ensinaram a [[lexico:v:viver|viver]] num mundo de coisas. E se desta última [[lexico:v:vida|vida]], nossos mestres são os da [[lexico:e:educacao|educação]], quanto à primeira, não sabemos, ou só muito vagamente pressentimos, a quais havemos de recorrer. Já é [[lexico:b:bom|Bom]] [[lexico:c:comeco|começo]] reconhecer que à fragmentada «coisa-Homem» se coordenam multidões de «coisas-Mundo», e que estas mais nos possuem do que nós as possuímos a elas. Poder pelo poder, saber pelo poder, ou poder pelo saber, é a grande tentação diabólica. De que consistirá o que em nós ainda é [[lexico:p:propensao|propensão]] para o simbólico? E como, quando e onde se revela, em nosso convívio com as «coisas», ou antes, como entre «coisas» não há possível convívio, em nossas [[lexico:r:relacoes|relações]], todas exteriores, com as «coisas», o que se possa chamar de «propensão para o simbólico»? Grande é a tentação de [[lexico:f:falar|falar]] do simbólico, invertendo ou virando do avesso o que acima dissemos do diabólico, já que, um e [[lexico:o:outro|outro]], correm em sentidos contrários. Mas resistamos a ela, o quanto possível. Deste [[lexico:m:modo|modo]], tudo se reduziria ao magro [[lexico:e:esquema|esquema]] de duas flechas paralelas e sobrepostas, disparadas simultaneamente contra alvos situados nos extremos do mesmo segmento de reta. É demasiado muito e demasiado pouco. Aliás, não é assim que, por [[lexico:e:exemplo|exemplo]] flagrante, a [[lexico:m:morte|morte]] se opõe à vida, pois nem sequer à vida a morte se opõe; não se opõem, as duas, de modo nenhum; o que, na [[lexico:v:verdade|verdade]], sucede é que a morte está na vida, é [[lexico:m:momento|momento]] da vida, da vida que, sem a morte, não existe. E, decerto, vida e morte são duas partes de um símbolo, de um símbolo que, por [[lexico:f:falta|falta]] de [[lexico:p:palavras|palavras]] que só designam coisas, indiferentemente se poderia chamar de Vida ou de Morte. Por ora, a [[lexico:d:diferenca|diferença]] específica do simbólico, neste caso, fica assinalada só pela maiúscula. [EudoroMito:108-109]