===== SI MESMO ===== As [[lexico:q:quatro|Quatro]] questões colocadas em 1991 por Vincent Descombes, leitor de Paul [[lexico:r:ricoeur|Ricoeur]] [P. Ricoeur, Soi-même comme un autre.], que, em “O Poder de [[lexico:s:ser|ser]] Si” [V. Descombes, “Le pouvoir d’être soi. Paul Ricoeur. Soi-même comme un autre”, Critique, 529-530, pp. 545-576.], articulam [[lexico:g:gramatica|gramática]] filosófica, [[lexico:f:filosofia-da-acao|filosofia da ação]], [[lexico:m:metafisica|metafísica]] e [[lexico:f:filosofia-do-espirito|Filosofia do Espírito]], são, em sua formulação e em sua própria [[lexico:s:solidariedade|solidariedade]], a [[lexico:e:expressao-filosofica|expressão filosófica]] mais adequada do [[lexico:c:complexo|complexo]] que tentamos traçar arqueologicamente. Mais que o tratamento dos problemas — isto é, 1º para a gramática filosófica: “Que diferenças notáveis existem, do [[lexico:p:ponto|ponto]] de vista do emprego, entre essas [[lexico:p:palavras|palavras]] que alinhamos muitíssimo preguiçosamente em uma única [[lexico:c:categoria|categoria]] de [[lexico:p:pronomes|pronomes]] pessoais (e, particularmente aqui, [[lexico:e:eu|eu]], ele, mim, lhe, ela, si)?”; 2º para a [[lexico:f:filosofia|Filosofia]] da [[lexico:a:acao|ação]]: “Qual é o [[lexico:e:estatuto|estatuto]] das intenções de agir? Elas são antes de tudo propriedades da ação ou propriedades do [[lexico:a:agente|agente]]?”; 3º para a metafísica: “É preciso distinguir, como propõe Ricoeur, dois [[lexico:c:conceitos|conceitos]] de [[lexico:i:identidade|identidade]], a identidade como [[lexico:m:mesmidade|mesmidade]] (idem) e a identidade como [[lexico:i:ipseidade|ipseidade]] (ipse)?”; e 4º para a filosofia do [[lexico:e:espirito|espírito]]: “Qual é, portanto, [[lexico:e:esse|esse]] si que [[lexico:f:figura|figura]] na [[lexico:e:expressao|expressão]] a [[lexico:c:consciencia|consciência]] de si?” – é o “[[lexico:c:campo|campo]] de [[lexico:p:presenca|presença]]” de O [[lexico:s:si-mesmo|si mesmo]] como um [[lexico:o:outro|outro]] (o livro-mestre discutido por Descombes) que interessa em especial à arqueologia do [[lexico:s:sujeito|sujeito]]. [[lexico:n:nao|Não]] é nossa [[lexico:i:intencao|intenção]] retomar aqui como tal o [[lexico:p:projeto|projeto]] de Ricoeur, o da [[lexico:h:hermeneutica|hermenêutica]] de si, na [[lexico:m:medida|medida]] em que ele se distingue da filosofia do sujeito ou de sua variante “cartesiana”, a “filosofia do [[lexico:e:ego|ego]]” ou “[[lexico:e:egologia|egologia]]”, nem relançar por nossa vez a “querela do [[lexico:c:cogito|cogito]]”, nem arbitrar entre a [[lexico:p:posicao|posição]] “indireta” do si em Ricoeur e as duas posições “imediatas”, ditas do “cogito exaltado” (“posição direta” ou autoposição) e do “cogito humilhado” ou “anti-cogito” (ou “deposição direta”). Não faz [[lexico:p:parte|parte]] tampouco de nossa proposta questionar a pertinência do diagnóstico feito por Descombes sobre tal “querela”, a [[lexico:s:saber|saber]], que ela “versa sobre os pronomes pessoais”, na medida em que tanto a filosofia do eu quanto a “doutrina do anti-cogito” têm em comum a mesma “[[lexico:p:premissa|premissa]] decisiva: ele só é [[lexico:v:verdadeiro|verdadeiro]] sujeito na primeira [[lexico:p:pessoa|pessoa]]”. Por uma [[lexico:r:razao|razão]] [[lexico:s:simples|simples]]: nós partilhamos esse diagnóstico, mas nosso [[lexico:o:objetivo|objetivo]] é menos intervir na [[lexico:d:discussao|discussão]] das teses em presença, do que reconstruir sua proveniência historial, propor ou assegurar sua “traçabilidade”. As doutrinas do “cogito humilhado” têm uma pré-história: o apelo ao “[[lexico:p:processo|processo]] sem sujeito” do qual “se deve [[lexico:f:falar|falar]] na terceira pessoa” que se confronta com a primeira pessoa exaltada na egologia; o recurso a frases como ‘Ele pensa em mim” ou “isso [[lexico:f:fala|fala]]” – essa “[[lexico:v:verdade|verdade]] surpreendente embora a [[lexico:p:psicologia|psicologia]] e a [[lexico:e:etnologia|etnologia]] a tenham tornado mais familiar para nós”, [[lexico:d:descoberta|descoberta]], segundo [[lexico:l:levi-strauss|Lévi-Strauss]], por [[lexico:r:rousseau|Rousseau]], a saber, “que existe um ‘ele’ que se pensa em mim, e que me faz primeiro duvidar se sou eu que penso” [Cf. Cl. Lévi-Strauss, Anthropologie structurale deux, p. 49.] –, inspiram em Descombes um comentário de gramática filosófica, colocando um contra o outro, Ricoeur e o grande etnólogo: *De onde esse “ele” pode [[lexico:t:ter|ter]] saído senão da [[lexico:n:nominalizacao|nominalização]] do si? Ele se pensa em mim: o [[lexico:p:problema|problema]] é que essa [[lexico:f:frase|frase]], pois ela está nele, autoriza que se coloque a [[lexico:q:questao|questão]] do [[lexico:r:referente|referente]]. O si foi hipostasiado. [[lexico:q:quem|quem]] pensa em mim e que pensa ele? É ele quem pensa (não eu), e ele pensa ele mesmo. Eis que o si mesmo foi metamorfoseado em um ele mesmo. Lévi-Strauss nominaliza o pronome si a [[lexico:f:fim|fim]] de poder opor dois pretendentes ao título de pensador de meus [[lexico:p:pensamentos|Pensamentos]], mim e ele. Mas é justamente para sair do conflito entre eu e ele que Ricoeur, ele também, fala do si. As doutrinas são exatamente opostas.* Nossa questão é diferente. Trata-se de remontar, trabalhando o arquivo filosófico, àquilo mesmo que tornou [[lexico:p:possivel|possível]] a articulação das quatro disciplinas ou vias invocadas por Descombes para [[lexico:p:pensar|pensar]] as [[lexico:r:relacoes|relações]] existentes entre o eu, o mim, o si, e... o “ele” ou o “isso”. “De onde sai esse ‘ele’ é uma boa [[lexico:p:pergunta|pergunta]]. Mas não é a única. É preciso acrescentar esta outra: de onde vem que o que autoriza a colocar a questão do referente de ‘ele’ em ‘ele se pensa em mim’ possa ser descrito filosoficamente a partir de uma [[lexico:a:assercao|asserção]] tal como ‘o si foi hipostasiado’? E muitas outras, que são levantadas à medida que se considera mais de perto a [[lexico:l:linguagem|linguagem]] ou a [[lexico:m:metalinguagem|metalinguagem]] teórica utilizada por Descombes na discussão das teses de Ricoeur, tanto no artigo de 1991 quanto na admirável súmula que é O Complemento de Sujeito [V. Descombes, Le Complément de sujet. Enquête sur le fait d’agir de soi-même]. [LiberaAS:37-40]