===== SENTIMENTO ===== (in. Sentiment; fr. Sentiment; al. Gefühl; it. Sentimento). [[lexico:e:esse:start|esse]] [[lexico:t:termo:start|termo]] pode significar: 1) o mesmo que [[lexico:e:emocao:start|emoção]], no [[lexico:s:significado:start|significado]] mais [[lexico:g:geral:start|geral]], ou algum [[lexico:t:tipo:start|tipo]] ou [[lexico:f:forma:start|forma]] [[lexico:s:superior:start|superior]] de emoção. Para este significado, v. emoção; 2) pressentimento, no [[lexico:s:sentido:start|sentido]] em que se usam frases como "sinto que algo [[lexico:n:nao:start|não]] vai [[lexico:b:bem:start|Bem]]" para dizer que se tem uma [[lexico:o:opiniao:start|opinião]] que não é [[lexico:p:possivel:start|possível]] justificar naquele [[lexico:m:momento:start|momento]]; quanto a esse sentido, v. opinião; 3) [[lexico:f:fonte:start|fonte]] de emoções, como [[lexico:p:principio:start|princípio]], [[lexico:f:faculdade:start|faculdade]] ou [[lexico:o:orgao:start|órgão]] que preside às emoções, e do qual elas dependem, ou como [[lexico:c:categoria:start|categoria]] na qual elas se enquadram. É com este [[lexico:u:ultimo:start|último]] sentido que essa [[lexico:p:palavra:start|palavra]] é comumente empregada hoje, p. ex. quando se opõe o "sentimento" à "[[lexico:r:razao:start|razão]]" (considerada como órgão ou faculdade de conhecimentos objetivos), em frases como "não se faz [[lexico:p:politica:start|política]] com sentimentos". Este emprego é justificado por uma [[lexico:t:tradicao:start|tradição]] filosófica relativamente recente, só encontrada na Idade [[lexico:m:moderna:start|moderna]]. Isto porque a [[lexico:f:filosofia:start|Filosofia]] antiga e a medieval não conheceram o sentimento como fonte ou princípio das afeições, afetos ou emoções e portanto não usam essa [[lexico:n:nocao:start|noção]] como categoria para organizar e classificar as afeições da [[lexico:a:alma:start|alma]]. Nem a [[lexico:p:psicologia:start|psicologia]] platônica, que distingue uma alma [[lexico:r:racional:start|racional]], uma concupiscível e uma [[lexico:i:irascivel:start|irascível]] ([[lexico:r:republica:start|República]], TV, 12-15), nem a psicologia aristotélica, que distingue um princípio vegetativo, um sensitivo e um intelectivo (De an., II, 2), reconhecem uma fonte e um princípio autônomos das emoções: estas são repartidas entre as várias divisões ou [[lexico:p:principios:start|princípios]] admitidos, sem exclusão do princípio racional ou intelectivo. O mesmo acontece com a [[lexico:f:filosofia-medieval:start|filosofia medieval]], que segue as pegadas da psicologia aristotélica. Na [[lexico:r:realidade:start|realidade]], o [[lexico:r:reconhecimento:start|reconhecimento]] de uma fonte ou princípio autônomo das emoções relaciona-se com o reconhecimento da [[lexico:s:subjetividade:start|subjetividade]] humana como algo irredutível a um conjunto de [[lexico:e:elementos:start|elementos]] objetivos ou objetiváveis ou a modificações passivas produzidas por tais elementos. Este reconhecimento caracteriza os primórdios da [[lexico:f:filosofia-moderna:start|filosofia moderna]] e é, como todos sabem, uma contribuição do [[lexico:c:cartesianismo:start|cartesianismo]]. Os pressupostos desse reconhecimento devem [[lexico:s:ser:start|ser]] buscados na linha de [[lexico:p:pensamento:start|pensamento]] que vai de [[lexico:p:pascal:start|Pascal]] aos moralistas franceses e ingleses ([[lexico:l:la-rochefoucauld:start|La Rochefoucauld]], Vauvenargues, Shaftesbury e [[lexico:h:hume:start|Hume]]) e chega até [[lexico:r:rousseau:start|Rousseau]] e [[lexico:k:kant:start|Kant]], culminando neste último: essa é a linha que levou à elaboração do [[lexico:c:conceito:start|conceito]] [[lexico:m:moderno:start|moderno]] de [[lexico:p:paixao:start|paixão]] como emoção dominante e à noção de [[lexico:g:gosto:start|gosto]] que está intimamente relacionada com a de sentimento. "sentimento", "[[lexico:c:coracao:start|coração]]", "[[lexico:e:espirito:start|espírito]] de fineza" foram expressões usadas por Pascal para indicar o princípio ou o órgão das emoções, que é diferente do órgão ou do princípio dos raciocínios e irredutível a este. Pascal diz: "Os que estão acostumados a julgar com o sentimento [[lexico:n:nada:start|nada]] entendem das [[lexico:c:coisas:start|coisas]] do [[lexico:r:raciocinio:start|raciocínio]] porque logo querem penetrar a [[lexico:q:questao:start|questão]] com um lance de olhos, desacostumados que estão a buscar princípios. Os outros, ao contrário, que estão acostumados a [[lexico:r:raciocinar:start|raciocinar]] por princípios, nada entendem das coisas do sentimento, porque buscam princípios, e não podem apreendê-los apenas com um lance de olhos" (Pensées, 3). Ao sentimento ou ao coração deve-se a mesma [[lexico:c:certeza:start|certeza]] que têm os [[lexico:p:primeiros-principios:start|primeiros princípios]] do raciocínio ("Os princípios são sentidos, as proposições são deduzidas, e em cada uma dessas duas formas há certeza, embora obtida por caminhos diferentes"); ao sentimento e ao coração é atribuída a verdadeira religiosidade, da qual o raciocínio pode somente aproximar-se e da qual só pode dar expectativas (Ibid., 282). Assim, os moralistas ingleses e franceses acima citados contribuíram para a elaboração e o reconhecimento da categoria do sentimento, por terem acentuado o papel dominante das emoções na [[lexico:v:vida:start|vida]] do [[lexico:h:homem:start|homem]]. Finalmente, é preciso lembrar que a "volta à [[lexico:n:natureza:start|natureza]]", proclamada por Rousseau como [[lexico:m:meio:start|meio]] capaz de libertar o homem dos males produzidos pelos artificialismos sociais e de reconduzi-lo à [[lexico:b:bondade:start|bondade]] original, é entendida por ele como volta ao [[lexico:p:primitivo:start|primitivo]] sentimento [[lexico:n:natural:start|natural]]. O sentimento natural é um [[lexico:i:instinto:start|instinto]], uma [[lexico:t:tendencia:start|tendência]] originária que o conduz para o bem; quando não é alterada, afetada ou bloqueada, conserva o homem no bem e no bem permite-lhe progredir. Nestas famosas teses de Rousseau talvez se encontre a primeira aparição da categoria do sentimento como princípio autônomo da vida espiritual. Mas o primeiro a [[lexico:f:falar:start|falar]] em termos filosóficos sobre essa categoria e a incluí-la numa nova subdivisão dos poderes ou das [[lexico:f:faculdades:start|faculdades]] espirituais foi provavelmente Kant. Enquanto [[lexico:w:wolff:start|Wolff]] (e depois dele os wolffianos) admitia somente duas [[lexico:a:atividades:start|atividades]] fundamentais do espírito [[lexico:h:humano:start|humano]], [[lexico:c:conhecimento:start|conhecimento]] e volição, objetos dos dois ramos fundamentais da filosofia, o [[lexico:t:teorico:start|teórico]] e o [[lexico:p:pratico:start|prático]], Kant reconheceu um [[lexico:t:terceiro:start|terceiro]] poder ou faculdade, o sentimento. "Todos os poderes ou [[lexico:f:faculdades-da-alma:start|faculdades da alma]] — diz Kant (Crít. do [[lexico:j:juizo:start|Juízo]], Intr., § III) — podem ser reduzidos a três, que não são redutíveis a um princípio comum: o poder cognitivo, o sentimento do [[lexico:p:prazer:start|prazer]] e da [[lexico:d:dor:start|dor]] e o poder de desejar." O sentimento de prazer ou dor deve ser inserido entre o poder cognitivo e o poder de desejar; a ele cabe um princípio autônomo, que Kant chama às. [[lexico:f:faculdade-de-juizo:start|faculdade de juízo]]. Assim, o sentimento é o [[lexico:c:campo:start|campo]] de [[lexico:c:critica:start|crítica]] da faculdade de juízo, assim como a faculdade de desejar é o campo de [[lexico:c:critica-da-razao-pratica:start|crítica da razão prática]]. Kant caracteriza o sentimento como o [[lexico:a:aspecto:start|aspecto]] irredutivelmente [[lexico:s:subjetivo:start|subjetivo]] da [[lexico:r:representacao:start|representação]]. Diz (Ibid., § VII): "Aquilo que há de subjetivo numa representação e que não pode de [[lexico:m:modo:start|modo]] algum tornar-se artigo de conhecimento é o prazer ou a dor que estão ligados à representação; isso porque através deles nada conheço do [[lexico:o:objeto:start|objeto]] da representação, ainda que eles possam ser [[lexico:e:efeito:start|efeito]] de algum conhecimento." Em conformidade com esta reivindicação de [[lexico:a:autonomia:start|autonomia]] do sentimento como categoria espiritual, em sua [[lexico:a:antropologia:start|antropologia]] [[lexico:p:pragmatica:start|pragmática]], Kant divide a primeira [[lexico:p:parte:start|parte]], dedicada ao "modo de conhecer interior e [[lexico:e:exterior:start|exterior]] do homem", em três livros, dedicados respectivamente ao poder cognitivo, ao sentimento de prazer e dor e ao poder apetitivo. Por sua vez, o segundo livro é dividido em duas partes principais, a primeira das quais dedicada ao "sentimento de deleite e prazer [[lexico:s:sensivel:start|sensível]] na [[lexico:s:sensacao:start|sensação]] do objeto"; a segunda, dedicada ao "sentimento do [[lexico:b:belo:start|belo]], que é em parte sensível e em parte intelectual, sendo [[lexico:p:proprio:start|próprio]] da [[lexico:i:intuicao:start|intuição]] reflexa ou do gosto". Esta segunda parte resume de forma mais acessível os resultados da Crítica do Juízo, a primeira contém uma [[lexico:s:serie:start|série]] de observações sobre o sentimento de prazer e dor em [[lexico:r:relacao:start|relação]] com os [[lexico:d:dados-dos-sentidos:start|dados dos sentidos]] (cf. também Met. der Sitten, Intr. 1, [[lexico:n:nota:start|nota]]) (v. emoção). Com isso, o sentimento ingressara oficialmente na filosofia como categoria [[lexico:i:independente:start|independente]]. O próprio [[lexico:h:hegel:start|Hegel]] aceita-o como [[lexico:d:determinacao:start|determinação]] do espírito subjetivo e define-o como "uma [[lexico:a:afeicao:start|afeição]] determinada", mas determinada de modo [[lexico:s:simples:start|simples]], isto é, de tal modo que, mesmo quando seu conteúdo é sólido e [[lexico:v:verdadeiro:start|verdadeiro]] (o que nem sempre acontece), ele assume a forma de "particularidade acidental". Hegel acrescenta: "Quando, ao discutir sobre uma [[lexico:c:coisa:start|coisa]], alguém não recorre à natureza e ao conceito da coisa, ou pelo menos à razão e à universalidade do [[lexico:i:intelecto:start|intelecto]], mas a seu sentimento, nada se pode fazer; porque desse modo essa [[lexico:p:pessoa:start|pessoa]] está se recusando a aceitar a comunhão da razão e fecha-se em sua subjetividade, em sua particularidade" (Enc., § 447). Nesse aspecto, Hegel opõe-se à tendência literária do [[lexico:r:romantismo:start|Romantismo]], cuja bandeira foi a [[lexico:d:descoberta:start|descoberta]] e a exaltação do sentimento, considerando-o a forma mais íntima e ao mesmo [[lexico:t:tempo:start|tempo]] mais livre de vida espiritual. Para os românticos só pode ser [[lexico:a:artista:start|artista]] [[lexico:q:quem:start|quem]] — como diz Friedrich Schlegel (Ideen, § 13), — "tem uma [[lexico:r:religiao:start|religião]] própria, uma intuição original do [[lexico:i:infinito:start|infinito]]". Essa intuição original do infinito é aquilo que os românticos chamam de sentimento. Em outras [[lexico:p:palavras:start|palavras]], sentimento é a [[lexico:m:manifestacao:start|manifestação]] do Infinito, de [[lexico:d:deus:start|Deus]], à intimidade da [[lexico:c:consciencia:start|consciência]]. Portanto, as características que definem o sentimento na concepção romântica são dois: 1) seu [[lexico:c:carater:start|caráter]] de extrema subjetividade, constituindo o que há de mais subjetivo no [[lexico:s:sujeito:start|sujeito]]; 2) sua [[lexico:c:capacidade:start|capacidade]] de revelar o Princípio infinito da realidade. Em [[lexico:v:virtude:start|virtude]] deste segundo aspecto, o sentimento é entendido pelos românticos, alternada ou concomitantemente, como órgão da [[lexico:a:arte:start|arte]], da filosofia e da religião. [[lexico:s:schleiermacher:start|Schleiermacher]] considerou-o órgão da religião, afirmando que "só o sentimento revela o Infinito" (Reden, II; trad. it., p. 43), [[lexico:t:tese:start|tese]] reexposta e defendida frequentemente depois disso. Em tempos mais recentes foi considerado órgão da arte por Gentile (Filosofia da arte, 1931), porquanto a arte é "a subjetividade pura, íntima e inexprimível do sujeito pensante", e o sentimento é precisamente isso. Na concepção de arte de Gentile, o sentimento conserva todas as conotações românticas: é o infinito espiritual na própria forma de sua infinidade, livre de determinações conceptuais necessitantes, constituindo "a subjetividade pura do sujeito" (Ibid., pp. 176 ss.); como tal, a infinidade do sentimento é a infinidade do homem em sua universalidade, estando portanto acima e [[lexico:a:alem:start|além]] da [[lexico:d:diversidade:start|diversidade]] empírica dos homens, considerados individualmente" (Ibid., p. 205). Mas a outra corrente do Romantismo oitocentista, o [[lexico:p:positivismo:start|positivismo]], também não ficou alheia à exaltação do sentimento. Ao delinear as características do [[lexico:f:futuro:start|futuro]] [[lexico:r:regime:start|regime]] sociocrático (dominado e dirigido por uma corporação de filósofos positivistas), [[lexico:c:comte:start|Comte]] afirmou que esse regime será dominado mais pelo sentimento que pela razão e que, portanto, atribuirá papel importante às [[lexico:m:mulheres:start|mulheres]], que representam o [[lexico:e:elemento:start|elemento]] [[lexico:a:afetivo:start|afetivo]] do [[lexico:g:genero:start|gênero]] humano (Politique positive, I, pp. 204 ss.). Isto porque a [[lexico:m:moral:start|moral]] dessa [[lexico:s:sociedade:start|sociedade]] futura será o [[lexico:a:altruismo:start|altruísmo]], mas um altruísmo tão desenvolvido que criará inclinações e instintos benévolos que, tanto quanto o sentimento, agem sem [[lexico:n:necessidade:start|necessidade]] de [[lexico:r:reflexao:start|reflexão]]. As preocupações religiosas e morais de Comte levaram-no a insistir no [[lexico:v:valor:start|valor]] do sentimento e a exaltá-lo à maneira romântica. Mas fora do Romantismo, e contra ele, o sentimento foi aceito como categoria fundamental da vida espiritual, como uma das "faculdades" ou "poderes" do espírito. É curioso notar que, enquanto Kant admitia a tripartição conhecimentos-vontade-sentimento com base apenas num modesto mas válido [[lexico:m:motivo:start|motivo]] metodológico (porque os três grupos de fenômenos não são redutíveis a um princípio [[lexico:u:unico:start|único]]), logo depois dele essa tripartição começa a ser dogmatizada: para Fries ela já é resultado [[lexico:i:imediato:start|imediato]] da [[lexico:a:auto-observacao:start|auto-observação]] (Anthropologie, I, 1837, § 4). [[lexico:h:herbart:start|Herbart]], conquanto negasse a doutrina das faculdades da alma, considerando-as "[[lexico:c:conceitos:start|conceitos]] de [[lexico:c:classe:start|classe]]" segundo os quais os fenômenos estudados se organizam, nem por isso deixou de incluir entre tais conceitos de classe o conceito de sentimento. Para Benecke, o sentimento era a base da moral e da religião; esta última originar-se-ia do sentimento de dependência em relação a Deus, justificado pelo caráter fragmentário da vida humana e pela exigência de completitude, que só pode vir de Deus (System der Metaphysik und Religionsphilosophie, 1840). Para Rosmini o sentimento era a consciência que cada um tem de si, [[lexico:p:ponto:start|ponto]] de partida e base para o [[lexico:c:conhecimento-da-alma:start|conhecimento da alma]] (Psicologia, § 69). A tripartição das faculdades do espírito em conhecimento, sentimento e [[lexico:v:vontade:start|vontade]] manteve-se como [[lexico:e:esquema:start|esquema]] praticamente constante na filosofia do séc. XIX. Para sua difusão muito contribuiu a [[lexico:o:obra:start|obra]] de [[lexico:c:cousin:start|Cousin]], que estabeleceu a [[lexico:c:correspondencia:start|correspondência]] entre essa tripartição e três valores absolutos: o Verdadeiro, o Belo e o Bem (Du vrai, du beau et du bien foi título da obra mais conhecida de Cousin, 1853). Se deixarmos de lado as críticas de caráter metodológico sobre a oportunidade de semelhantes esquemas rígidos de subdivisão no [[lexico:e:estudo:start|estudo]] dos fenômenos espirituais, podemos dizer que essa tripartição ainda hoje é a mais difundida, tendo-se incorporado ao modo de [[lexico:p:pensar:start|pensar]] comum. [[lexico:e:excecao:start|Exceção]] é [[lexico:c:croce:start|Croce]], que reconduziu as formas do espírito às duas formas admitidas por Wolff: a teórica e a prática, criticando o sentimento como categoria espúria e ambígua. Para Croce, sentimento era uma palavra "usada para denominar uma classe de [[lexico:f:fatos-psiquicos:start|fatos psíquicos]] constituída segundo o [[lexico:m:metodo:start|método]] naturalista e [[lexico:p:psicologico:start|psicológico]]": noção que várias vezes exerceu [[lexico:f:funcao:start|função]] negativa e crítica em [[lexico:e:estetica:start|estética]], [[lexico:h:historiografia:start|historiografia]], [[lexico:l:logica:start|lógica]] e [[lexico:e:etica:start|ética]], pois contrapunha às interpretações demasiado limitadas e estreitas tudo o que havia de "[[lexico:i:indeterminado:start|indeterminado]]" ou "semideterminado" fora dessas interpretações. O [[lexico:t:testemunho:start|testemunho]] a que recorria para rejeitar essa categoria é o da [[lexico:o:observacao:start|observação]] interior: "Quem quiser, investigue seu espírito e tente indicar um [[lexico:a:ato:start|ato]] sequer que, ao contrário dos indicados acima , constitua algo novo e original, e mereça a [[lexico:d:denominacao:start|denominação]] especial de sentimento" (Fil. da prática, I, I, c. 2). Mas esse tipo de testemunho é extremamente variável e infenso a qualquer [[lexico:v:verificacao:start|verificação]]; para Fries, p. ex., e para muitos outros, a [[lexico:d:distincao:start|distinção]] entre sentimento e outras atividades espirituais era tão claramente provada pelo testemunho interior quanto desmentida para Croce. Na realidade, o [[lexico:u:uso:start|uso]] de tais [[lexico:c:categorias:start|categorias]], como sentimento, [[lexico:a:atividade:start|atividade]] teórica, atividade prática, só pode ser discutido, portanto submetido a limites e regras, com base na [[lexico:a:analise:start|análise]] precisa de um [[lexico:g:grupo:start|grupo]] delimitável de fenômenos: análise que Croce nem sequer tentou. Contudo, na filosofia contemporânea não faltam análises desse tipo, que figuram entre suas contribuições menos discutíveis para o conhecimento do homem em seu [[lexico:m:mundo:start|mundo]]. Uma dessas contribuições — das mais importantes — é a de Max [[lexico:s:scheler:start|Scheler]], que se referiu às palavras de Pascal, "o coração tem razões que a razão desconhece", mas sem interpretá-las no sentido frequentemente encontrado na filosofia moderna e contemporânea (v. coração), de que a razão deveria [[lexico:t:ter:start|ter]] certa condescendência para com o sentimento e tentar corresponder às suas exigências, porém no sentido de que o sentimento tem suas próprias leis, seus próprios objetos e constitui, portanto, um mundo diferente do racional. Scheler começa fazendo a distinção entre os estados emotivos simples, que não têm caráter [[lexico:i:intencional:start|intencional]], ou seja, que não se referem imediatamente a um objeto próprio (v. emoção), e o sentimento originário e intencional, que, ao contrário, é uma [[lexico:r:reacao:start|reação]] [[lexico:p:particular:start|particular]] ao [[lexico:e:estado:start|Estado]] [[lexico:e:emotivo:start|emotivo]] e consiste nas atitudes extremamente variáveis e mutáveis assumidas diante do estado emotivo: enfrentar, tolerar, fruir, suportar, etc. Estado emotivo, p. ex., é o prazer sensível correspondente ao caráter agradável de uma refeição, um perfume, um leve toque. O sentimento [[lexico:p:puro:start|puro]], ao contrário, consiste nas reações do [[lexico:e:eu:start|eu]] a tal estado emotivo: p. ex., fruir em maior ou menor [[lexico:g:grau:start|grau]], tolerar, etc. Assim, enquanto um estado emotivo faz parte do conteúdo fenomenal, o sentimento puro está entre as funções destinadas a [[lexico:a:apreender:start|apreender]] tal conteúdo. Desse ponto de vista,. a tendência a suportar ou a fruir nada tem a [[lexico:v:ver:start|ver]] com a [[lexico:s:sensibilidade:start|sensibilidade]] em relação ao prazer e à dor. O grau de prazer ou de dor pode ser o mesmo, mas o [[lexico:s:sofrimento:start|sofrimento]] e o gozo por eles provocados em dois indivíduos ou no mesmo [[lexico:i:individuo:start|indivíduo]] em momentos diferentes podem ser completamente diferentes. Ora, enquanto os estados emotivos podem ser relacionados apenas de modo indireto com os objetos ou os fatos de que são efeito ou [[lexico:s:sinal:start|sinal]], os sentimentos puros referem-se imediatamente a um objeto específico, que é o valor. Portanto, a relação entre sentimento e valor é a mesma observada entre a representação e seu objeto: a relação intencional (v. [[lexico:i:intencionalidade:start|intencionalidade]]). Enquanto é [[lexico:n:necessario:start|necessário]] um ato de reflexão para relacionar um estado emotivo com o objeto de que é sinal ou que julgamos ter provocado, o sentimento relaciona-se com seu objeto específico, o valor, de modo imediato, como acontece, p. ex., quando sentimos a [[lexico:b:beleza:start|beleza]] dos montes cobertos de neve ao pôr-do-sol. A conexão intencional entre sentimento e valor não tem, pois, nada a ver com um vínculo causal entre sentimento e objeto, e independe também da [[lexico:c:causalidade:start|causalidade]] psíquica individual, ou seja, das leis que regem a [[lexico:v:vida-psiquica:start|vida psíquica]] do indivíduo. De [[lexico:f:fato:start|fato]], quando as exigências dos valores não são satisfeitas, sofremos, p. ex., por não nos sentirmos tão alegres quanto o valor de um [[lexico:a:acontecimento:start|acontecimento]] mereceria, ou por não nos sentirmos tão tristes pela [[lexico:m:morte:start|morte]] de um [[lexico:e:ente:start|ente]] querido quanto esse fato exigiria (Formalismus, pp. 260 ss.). Assim, segundo Scheler, o sentimento dá [[lexico:a:acesso:start|acesso]] a um mundo de objetos tão reais quanto as coisas ou os fatos que constituem o objeto da representação, mas que nada têm a ver com eles, porque não são coisas nem fatos, mas valores. Scheler, portanto, está de [[lexico:a:acordo:start|acordo]] com Kant ao julgar que o sentimento não é "artigo de conhecimento", mas discorda dele quanto a julgar que ele não tem nenhum objeto e é, por isso, destituído de caráter intencional. Apenas as emoções sensíveis são destituídas de objeto e por isso constituem estados emotivos puros, ao passo que os sentimentos vitais e os psíquicos sempre podem revelar caráter intencional (referir-se a um objeto-valor); os sentimento espirituais revelam-no necessariamente (para a distinção entre os graus emocionais, V. emoção). A análise de Scheler é muito importante porque lança novas luzes sobre a vida [[lexico:e:emocional:start|emocional]] do homem. Contudo, o próprio Scheler usou sua análise como [[lexico:f:fundamento:start|fundamento]] de uma verdadeira [[lexico:m:metafisica:start|metafísica]] dos valores, em que estes não são considerados somente objetos, no sentido próprio e restrito do termo (v. objeto), mas verdadeiras realidades, no sentido em que são chamadas de reais as coisas, as entidades e os fatos, com a [[lexico:d:diferenca:start|diferença]] de que, diante de qualquer outra coisa, [[lexico:e:entidade:start|entidade]] ou fato, os valores seriam realidades últimas ou "absolutas". Essa [[lexico:i:integracao:start|integração]] metafísica de uma análise meritória pelo modo como foi conduzida e pelas suas conclusões pode levantar dúvidas quanto à sua legitimidade. Com efeito, pode-se considerar que um dos resultados dessa análise é estender o significado de "objeto" como termo ou [[lexico:f:fim:start|fim]] de um ato intencional, de tal modo que não sejam chamados de objetos apenas os que possam ser considerados reais no sentido de terem características de fatos ou entidades subsistentes. Por realidade entende-se, pois, de modo [[lexico:e:estrito:start|estrito]] e rigoroso, o termo de um [[lexico:p:processo:start|processo]] cognitivo passível de verificação (v. realidade), e não há razão para identificar a intencionalidade emotiva com a intencionalidade cognitiva; o próprio Scheler dá boas razões para fazer o contrário. Se as coisas são assim, ou seja, se a intencionalidade do sentimento é diferente da intencionalidade do conhecimento, sendo também diferentes seus respectivos objetos, deixa de ter fundamento a crítica de Scheler à tendência da psicologia contemporânea, de negar a "função cognitiva" dos sentimento Isto porque a psicologia contemporânea admite a função dos sentimento no [[lexico:c:comportamento:start|comportamento]] vital do [[lexico:o:organismo:start|organismo]], e considera-os anúncio de situações presentes ou futuras, o que permite enfrentar tais situações da mesma maneira como um dispositivo de alarme põe em [[lexico:m:movimento:start|movimento]] os meios de enfrentar um perigo. Assim como Scheler, [[lexico:h:heidegger:start|Heidegger]] reconheceu a importância fundamental do sentimento, que ele considera arraigado na [[lexico:s:substancia:start|substância]] humana, vale dizer, na [[lexico:e:estrutura:start|estrutura]] [[lexico:o:ontologica:start|ontológica]] de sua [[lexico:e:existencia:start|existência]]. Heidegger chama de [[lexico:s:situacao:start|situação]] afetiva (Befindlichkeit) o tom emocional da ocupação cotidiana do homem, e vê nesse tom uma manifestação [[lexico:e:essencial:start|essencial]] do ser do homem no mundo: "O estado da situação afetiva constitui, essencialmente, a abertura do [[lexico:s:ser-ai:start|ser-aí]] no mundo" (Sein und Zeit, § 29). Segundo Heidegger, a situação fundamental de um ente que, como o homem, vive num [[lexico:a:ambiente:start|ambiente]] que lhe fornece as coisas a serem utilizadas e que, por isso, pode ameaçá-lo com a não-instrumentalidade, com a resistência das coisas, é a [[lexico:p:possibilidade:start|possibilidade]] de ser ameaçado pelas coisas e pelos acontecimentos do mundo e de reagir a essa ameaça com medo ou com [[lexico:c:coragem:start|coragem]]. Também neste caso, se deixarmos de lado a [[lexico:l:linguagem:start|linguagem]] específica da [[lexico:o:ontologia:start|ontologia]] de Heidegger, podemos dizer que sua análise concorda fundamentalmente com a da psicologia contemporânea e que confirma a noção de sentimento como capacidade de apreender o valor que um fato ou uma situação apresenta para o ser ([[lexico:a:animal:start|animal]] ou homem) que deve enfrentá-la. Finalmente, é preciso lembrar que para [[lexico:h:hartmann:start|Hartmann]] o sentimento — que serviu de base para a sua ética — é a "principal sede em que os valores se dão" (Ethik, 1926). Tudo o que sentimos, e particularmente as emoções de fraca [[lexico:i:intensidade:start|intensidade]] e as paixões, assim como as inclinações gerais do homem (sentimento moral, [[lexico:a:admiracao:start|admiração]]). — Uma "moral do sentimento" baseada na [[lexico:p:piedade:start|piedade]] ([[lexico:s:schopenhauer:start|Schopenhauer]]), na inspiração do coração (Rousseau), na [[lexico:s:simpatia:start|simpatia]] (Scheler), e no [[lexico:a:amor:start|amor]] ([[lexico:b:bergson:start|Bergson]]), contrapõe-se a uma [[lexico:m:moral-racional:start|moral racional]] ou "[[lexico:f:formal:start|formal]]" (como a de Kant), que preconiza a [[lexico:a:acao:start|ação]] por "princípios", qualquer que seja o nosso sentimento (prestar-se-á assistência ao [[lexico:o:outro:start|outro]] por [[lexico:d:dever:start|dever]] e não por piedade; a [[lexico:d:decisao:start|decisão]] será mais firme e nunca humilhará a pessoa humana). Uma moral do sentimento não pode ser verdadeiramente [[lexico:u:universal:start|universal]]. O [[lexico:p:problema-filosofico:start|problema filosófico]] do sentimento é [[lexico:s:saber:start|saber]] se o sentimento pode ser um meio [[lexico:r:real:start|real]] de conhecimento: distinguir-se-á, desse ponto de vista, as realidades naturais, que não apelam para o sentimento e sim para o [[lexico:c:conhecimento-objetivo:start|conhecimento objetivo]], que se originam de um [[lexico:t:trabalho:start|trabalho]] de "mensura", e as realidades humanas, onde o sentimento pode ser um [[lexico:i:instrumento:start|instrumento]] válido para um conhecimento universal; somente partindo de [[lexico:s:si-mesmo:start|si mesmo]] e de seu sentimento pode o etnólogo [[lexico:c:compreender:start|compreender]] realmente ([[lexico:o:o-que-e:start|o que é]] diferente de conhecer teoricamente) os [[lexico:c:costumes:start|costumes]] dos índios da [[lexico:a:america:start|América]] do Sul (Levi-Strauss). Enquanto a alma, no ato de conhecer, torna presentes a si mediante representações intencionais os objetos e na tendência visa alcançar [[lexico:b:bens:start|bens]] sensíveis ou espirituais com uma [[lexico:a:afirmacao:start|afirmação]] ativa, o sentimento como tal não é propriamente intencional, mas constitui um estado subjetivo, um ser-movida-a-alma em si mesma. Na agitação [[lexico:s:sentimental:start|sentimental]] aguda e intensa, temos a emoção; quando o estado afetivo persiste de maneira [[lexico:u:uniforme:start|uniforme]] recebe o [[lexico:n:nome:start|nome]] de estado de ânimo. A [[lexico:e:escolastica:start|escolástica]] medieval subordinava o sentimento à faculdade apetitiva, mas desde Tetens (1736-1807) a psicologia moderna prefere, com razão, a [[lexico:d:divisao:start|divisão]] trimembre das formas vivenciais: conhecimento, tendência, sentimento. Certas teorias do sentimento demasiado simplistas, surgidas no século XIX, pretendiam ver nele uma [[lexico:e:especie:start|espécie]] de impressões sensoriais, ou uma [[lexico:p:propriedade:start|propriedade]] das mesmas, ou um [[lexico:o:obscuro:start|obscuro]] conhecimento da [[lexico:u:utilidade:start|utilidade]] ou da nocividade dos objetos do conhecimento, chegando até a equiparar o sentimento com a forma de expressá lo ("não choramos porque estamos tristes, mas estamos tristes porque choramos ou enquanto choramos") (teorias sensistas, intelectualistas e fisiológicas do sentimento). [[lexico:s:semelhante:start|semelhante]] [[lexico:a:atitude:start|atitude]] não dá conta da peculiaridade vivencial dos fenômenos afetivos. Contudo, por outro lado, o sentimento funde-se intimamente com o conjunto da [[lexico:v:vida-consciente:start|vida consciente]], envolve-a e sustém-na, [[lexico:c:como-se:start|como se]] fosse uma atmosfera, e aparece como um [[lexico:r:reflexo:start|reflexo]] do funcionamento [[lexico:p:psiquico:start|psíquico]] (e, por vezes, fisiológico) total F. Krueger interpretava-o como a "[[lexico:q:qualidade:start|qualidade]] de [[lexico:t:totalidade:start|totalidade]]" da vida psíquica, com o que se salienta a íntima [[lexico:u:uniao:start|união]] do sentimento com a vida psíquica globalmente considerada, mas, em contrapartida, fica por aclarar a natureza peculiar da [[lexico:v:vivencia:start|vivência]] emocional. Os sentimentos são, em parte, produzidos pela peculiaridade dos objetos de conhecimento, e daí lhes vem seu caráter de [[lexico:i:inteligibilidade:start|inteligibilidade]]; e, em parte, são sentimentos elementares simplesmente agrupados em paralelo com determinados processos fisiológicos (p. ex., a sensação de bem [[lexico:e:estar:start|estar]] motivada por uma temperatura agradável). Certos sentimentos organicamente condicionados e "privados de objeto" parece, por assim dizer, "buscarem" para si um objeto de conhecimento (a [[lexico:a:angustia:start|angústia]] depressiva busca aquilo, "ante o que" deve inquietar se, desempenhando assim um papel funesto nas [[lexico:i:ideias:start|ideias]] religiosas acerca do [[lexico:p:pecado:start|pecado]]). Discute-se, se os sentimentos valorativos espirituais diferem dos sentimentos sensitivos, estreitamente vinculados à vida apetitivo-sensitiva, só pela diversa direção do objeto (Lindworsky), ou se também se diferenciam deles ontologicamente, por um modo espiritual de ser, [[lexico:i:identico:start|idêntico]] ao modo como o conhecer e o querer de [[lexico:o:ordem:start|ordem]] espiritual se distinguem da [[lexico:p:percepcao:start|percepção]] e do [[lexico:a:apetite:start|apetite]] sensoriais (Fröbes). Além da particular vinculação que, do ponto de vista do sentido, têm os sentimentos valorativos com a volição e com o conhecimento intelectual, falam em abono da existência de sentimentos valorativos espirituais a índole subjetiva peculiar e o curso de muitos sentimentos de valor, relativamente aos quais dificilmente se pode mostrar um estreito [[lexico:p:paralelismo-psicofisico:start|paralelismo psicofísico]]; por outro lado, os sentimentos de natureza intelectual e sensitiva fundem-se de maneira tão íntima que será difícil demarcá-los mediante a análise reflexiva (o modo de sentir o valor é também amplamente condicionado pelo [[lexico:t:temperamento:start|temperamento]] e, conseguintemente, por bases orgânicas). A estrutura da vida sentimental não pode ser concebida de maneira "atomística", como se os sentimentos e estados de ânimo fossem compostos de poucos "elementos", a modo de mosaico. Sem [[lexico:d:duvida:start|dúvida]], o prazer e o desprazer encontram-se, como "matiz" último em todos os sentimentos, mas não são, por assim dizer, os elementos químicos das emoções e dos estados de ânimo. Tampouco dão suficiente conta da [[lexico:r:riqueza:start|riqueza]] da vida afetiva as sistematizações dos sentimentos propostas em épocas anteriores, sistematizações essas predominantemente lógicas e baseadas na relação destes com o objeto. Contudo é inegável que tais sistematizações põem em destaque certas formas capitais da vida emocional (como a ira, a [[lexico:t:tristeza:start|tristeza]], a [[lexico:a:alegria:start|alegria]], a [[lexico:m:melancolia:start|melancolia]], etc). Entre as vivências afetivas mais fundamentais contam-se a angústia (como reflexo emocional de um [[lexico:r:risco:start|risco]] total ou parcial do ser e do operar) e o sentimento de alegria correspondente à segurança do ser e a seu livre funcionamento. Com frequência se conglomeram sentimentos e estados de ânimo de diversas espécies, até opostos, para formar complexos sentimentais. De modo idêntico, a peculiaridade e a intensidade de um sentimento pode (na [[lexico:m:mudanca:start|mudança]] repentina e no contraste sentimental) co-determinar a natureza e a intensidade do sentimento subsequente. E difícil salientar com suficiente vigor a importância do sentimento no conjunto da vida psíquica tanto [[lexico:n:normal:start|normal]] quanto patológica (p. ex., na [[lexico:p:psicose:start|psicose]] maníaco-depressiva). Influi, como [[lexico:f:forca:start|força]] de primeira [[lexico:g:grandeza:start|grandeza]], tanto no conhecimento e no juízo quanto na [[lexico:o:orientacao:start|orientação]] teleológica, a peculiaridade formal, a [[lexico:e:energia:start|energia]] e a fraqueza do querer. Surgem aqui dois problemas: o [[lexico:p:problema:start|problema]] do [[lexico:c:chamado:start|chamado]] sentimento intencional, como de um estado emocional certamente subjetivo, mas que é, a um tempo, vivência dirigida para um objeto, e o problema da chamada certeza sentimental. Os sentimentos de segurança ( [[lexico:e:evidencia:start|Evidência]]) que podem unir-se a uma [[lexico:i:inteleccao:start|intelecção]] profunda e lúcida, são capazes de se adiantarem a um conhecimento (real ou [[lexico:s:suposto:start|suposto]]) que não faz senão iniciar se e todavia destituído de fundamento claro. Fala-se então, inexatamente, de pressentimentos sentimentais, de intelecção afetiva, de certeza sentimental, etc. Em tal caso, o sentimento é como que o garante da exatidão da [[lexico:h:hipotese:start|hipótese]] ou [[lexico:s:suposicao:start|suposição]], contudo, em rigor de [[lexico:e:expressao:start|expressão]], o sentimento "não pressente, nem supõe, nem suspeita", mas sim o [[lexico:e:entendimento:start|entendimento]]. Enquanto a [[lexico:p:pobreza:start|pobreza]] sentimental constitui uma lastimável falha de riqueza psíquica, uma vida sentimental exagerada e desmedida pode inundar a alma inteira de maneira muito perniciosa (arrebatamentos passionais, degeneração histérica do caráter, etc). Pelo que, uma das importantes tarefas educativas é a [[lexico:f:formacao:start|formação]] endereçada a conseguir o domínio indireto de uma vida afetiva autêntica e orientada para os valores. Dentro do âmbito da [[lexico:a:afetividade:start|afetividade]], merece salientar-se aquilo que a [[lexico:l:lingua:start|língua]] alemã designa pelo vocábulo "Gemüt". Este vocábulo, sem equivalente em português, mas que de algum modo se pode traduzir por "contextura afetiva", denota a íntima e perfeita [[lexico:u:unidade:start|unidade]], na vida afetiva, do espiritual "e" de sensitivo. Neste sentido, é [[lexico:c:costume:start|costume]] contrapor o homem dotado de tal "contextura" ao "homem de [[lexico:i:inteligencia:start|inteligência]] e de vontade", tomado unilateralmente. A "contextura afetiva" penetra inteiramente a [[lexico:v:vivencia-do-valor:start|vivência do valor]] nas esferas individual e [[lexico:s:social:start|social]], religiosa e ética. Enquanto uma "contextura afetiva" (excessivamente artificial, que, devido à preponderância do sentimento, degenera em [[lexico:s:sentimentalismo:start|sentimentalismo]]) carece de [[lexico:t:todo:start|todo]] valor na vida psíquica, e, por outro lado, uma "contextura afetiva" anormalmente pobre costuma vir associada a uma deformação e até a uma mutilação da mesma vida psíquica (podendo, inclusive, favorecer de muitas maneiras certas inclinações criminais), um [[lexico:v:viver:start|viver]] dotado de autêntica e vigorosa "contextura afetiva" é uma poderosa força na vida da alma e constitui um nobre [[lexico:o:objetivo:start|objetivo]] da formação do caráter. — Willwoll. A palavra SENTIMENTO designa um conceito de conteúdo completamente [[lexico:n:negativo:start|negativo]], noutros termos, designa algo presente na consciência que NÃO É CONCEITO NEM É CONHECIMENTO [[lexico:a:abstrato:start|abstrato]] DA RAZÃO: não importa o que isso seja, sempre cai sob a rubrica do conceito de SENTIMENTO, cuja [[lexico:e:esfera:start|esfera]] é extraordinariamente ampla e, por conseguinte, abrange as coisas mais heterogêneas que só entendemos como se agrupam quando reconhecemos que coincidem unicamente neste aspecto negativo: NÃO SEREM CONCEITOS ABSTRATOS. Pois os elementos mais diversos, sim, mais hostis, residem placidamente um ao lado do outro naquele conceito, como, por [[lexico:e:exemplo:start|exemplo]], o sentimento [[lexico:r:religioso:start|religioso]], o sentimento de volúpia, o sentimento moral, o sentimento corporal enquanto [[lexico:t:tato:start|tato]] e dor, o sentimento das cores, dos tons e de sua [[lexico:h:harmonia:start|harmonia]] e desarmonia, o sentimento de ódio, [[lexico:r:repugnancia:start|repugnância]], autossatisfação, [[lexico:h:honra:start|honra]], vergonha, justo e injusto, o sentimento da [[lexico:v:verdade:start|verdade]], estético, de força e fraqueza, saúde, [[lexico:a:amizade:start|amizade]], amor etc. etc. Entre eles não se encontra nenhum traço comum a não ser a qualidade negativa de não serem conhecimento abstrato da razão; porém, isso salta da maneira mais nítida aos olhos quando até mesmo o conhecimento abstrato [[lexico:a:a-priori:start|a priori]] das [[lexico:r:relacoes:start|relações]] espaciais, assim como o nosso conhecimento do puro entendimento, é subsumido naquele conceito ou em geral quando se diz de qualquer conhecimento, de qualquer verdade, da qual se está [[lexico:c:consciente:start|consciente]] apenas intuitivamente, porém ainda não formulada em conceitos abstratos, que se a SENTE. Para explicitar isso quero mencionar alguns exemplos extraídos de livros publicados recentemente, visto que são provas cabais da minha explanação. Lembro-me de ter lido no introito de uma [[lexico:t:traducao:start|tradução]] de [[lexico:e:euclides:start|Euclides]] que devemos permitir aos que se iniciam na [[lexico:g:geometria:start|geometria]] fazer primeiro o desenho das figuras antes de demonstrá-las, pois assim SENTEM a verdade geométrica antes de a [[lexico:d:demonstracao:start|demonstração]] lhes evidenciar o conhecimento completo. – Do mesmo modo, na Kritik der Sittenlehre de F. Schleiermacher fala-se de sentimento [[lexico:l:logico:start|lógico]] e matemático, também do sentimento da [[lexico:i:igualdade:start|igualdade]] ou diferença entre duas fórmulas; ainda, na [[lexico:g:geschichte:start|Geschichte]] der Philosophie de Tennemanns, lê-se: SENTIMOS que os [[lexico:s:sofismas:start|sofismas]] não eram raciocínios corretos, todavia não pudemos descobrir o [[lexico:e:erro:start|erro]]. – Enquanto o conceito de SENTIMENTO não for considerado do seu correto ponto de vista e não se reconhecer a sua [[lexico:c:caracteristica:start|característica]] negativa como essencial, ele tem de dar azo a contínuas confusões e disputas, devido à extraordinária [[lexico:e:extensao:start|extensão]] da sua esfera e ao seu conteúdo meramente negativo, totalmente unilateral e limitado. Como a língua alemã ainda possui a palavra sinônima Empfindung, “sensação”, seria [[lexico:u:util:start|útil]] reservá-la, como subespécie, para os sentimentos corporais. A [[lexico:o:origem:start|origem]] do conceito de sentimento sem dúvida alguma é a seguinte. Todos os conceitos, e apenas conceitos, são denotados por palavras; eles existem exclusivamente para a razão e dela procedem: com os conceitos, portanto, já se está num ponto de vista unilateral. Deste, porém, o que é [[lexico:p:proximo:start|próximo]] aparece de maneira distinta e é tomado positivamente; já as coisas distantes confluem umas nas outras e logo são levadas em conta só negativamente. Nesse sentido, cada [[lexico:n:nacao:start|nação]] chama todas as outras de estrangeiras; os gregos chamavam os outros povos de bárbaros; os ingleses chamam tudo o que não é da Inglaterra ou inglês de continente ou continental; os fiéis chamam todos os demais de heréticos ou pagãos; o nobre chama os que não o são de roturiers; para o estudante todos os outros são filisteus, e assim por diante. A mesma unilateralidade, até se pode dizer [[lexico:i:ignorancia:start|ignorância]] por [[lexico:o:orgulho:start|orgulho]], deve ser imputada, por mais estranho que soe, à razão mesma, na [[lexico:m:medida:start|medida]] em que esta engloba sob o ÚNICO conceito de SENTIMENTO qualquer modificação da consciência que não pertence imediatamente ao SEU modo de representação, isto é, que NÃO É CONCEITO ABSTRATO. Ora, como até [[lexico:a:agora:start|agora]] o seu próprio procedimento não lhe veio a ser claro mediante o [[lexico:p:profundo:start|profundo]] exame de si, ela teve de expiar a [[lexico:c:culpa:start|culpa]] mediante confusões e erros cometidos em seu próprio domínio; até mesmo uma faculdade especial para o sentimento foi forjada e teorias acerca dele foram construídas. [Schopenhauer, MVR1:99-102] {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}