===== SECULAR ===== A vitória do [[lexico:a:animal|animal]] laborans jamais teria sido completa se o [[lexico:p:processo|processo]] de secularização, a [[lexico:m:moderna|moderna]] [[lexico:p:perda|perda]] da [[lexico:f:fe|fé]] como decorrência inevitável da [[lexico:d:duvida|dúvida]] cartesiana, [[lexico:n:nao|não]] houvesse despojado a [[lexico:v:vida|vida]] individual de sua [[lexico:i:imortalidade|imortalidade]], ou pelo menos da [[lexico:c:certeza|certeza]] da imortalidade. A vida individual voltou a [[lexico:s:ser|ser]] mortal, tão mortal quanto o fora na [[lexico:a:antiguidade|antiguidade]], e o [[lexico:m:mundo|mundo]] passou a ser ainda menos estável, menos permanente e, portanto, menos confiável do que o fora durante a era cristã. Ao perder a certeza de um mundo [[lexico:f:futuro|futuro]], o [[lexico:h:homem|homem]] [[lexico:m:moderno|moderno]] foi arremessado para dentro de [[lexico:s:si-mesmo|si mesmo]], e não para este mundo; longe de crer que este mundo pudesse ser potencialmente imortal, ele não estava sequer seguro de que fosse [[lexico:r:real|real]]. E, na [[lexico:m:medida|medida]] em que teve de admitir que era real, no [[lexico:o:otimismo|otimismo]] acrítico e aparentemente despreocupado de uma [[lexico:c:ciencia|ciência]] em [[lexico:c:continuo|contínuo]] [[lexico:p:progresso|progresso]], afastava-se da [[lexico:t:terra|Terra]] para um [[lexico:p:ponto|ponto]] muito mais distante do que qualquer além-mundanidade cristã jamais o havia levado [v. ponto arquimediano]. Qualquer que seja o [[lexico:s:sentido|sentido]] atribuído à [[lexico:p:palavra|palavra]] “secular” no [[lexico:u:uso|uso]] corrente, historicamente ele não pode ser equacionado com mundanidade; em [[lexico:t:todo|todo]] caso, o homem moderno não ganhou este mundo ao perder o [[lexico:o:outro|outro]], e tampouco, a rigor, ganhou a vida; foi empurrado de volta para ela, arremessado na [[lexico:i:interioridade|interioridade]] fechada da [[lexico:i:introspeccao|introspecção]], na qual o máximo que ele poderia experienciar seriam os processos vazios do [[lexico:c:calculo|cálculo]] da [[lexico:m:mente|mente]], o [[lexico:j:jogo|jogo]] da mente consigo mesma. Os únicos conteúdos que sobraram foram os apetites e os desejos, os anseios sem sentido de seu [[lexico:c:corpo|corpo]] que ele confundia com a [[lexico:p:paixao|paixão]] e que considerava “não razoáveis” por julgar não poder “arrazoar” com eles, isto é, calculá-los. [[lexico:a:agora|agora]], a única [[lexico:c:coisa|coisa]] que podia ser potencialmente imortal, tão imortal quanto fora o corpo [[lexico:p:politico|político]] na Antiguidade ou a vida individual na Idade Média, era a própria vida, isto é, o processo vital possivelmente [[lexico:e:eterno|eterno]] da [[lexico:e:especie|espécie]] humana. [ArendtCH:C45]