===== SCHELER ===== SCHELER (Max), [[lexico:f:filosofo:start|filósofo]] alemão (Munique 1874 — Francfort-sobre-o-Meno 1928). Foi um representante da [[lexico:f:fenomenologia:start|fenomenologia]], cujas análises estendeu à [[lexico:o:ordem:start|ordem]] dos sentimentos humanos: morais e religiosos. O [[lexico:f:formalismo:start|formalismo]] em [[lexico:e:etica:start|ética]] e a ética material dos valores (1913-1916), [[lexico:e:essencia:start|Essência]] e formas da [[lexico:s:simpatia:start|simpatia]] (1923), A [[lexico:s:situacao:start|situação]] do [[lexico:h:homem:start|homem]] no [[lexico:m:mundo:start|mundo]] (1928) desenvolvem um [[lexico:p:personalismo:start|personalismo]] muito [[lexico:c:concreto:start|concreto]] (a [[lexico:p:pessoa:start|pessoa]] é um "centro de atos irredutíveis a qualquer [[lexico:a:atividade:start|atividade]] [[lexico:p:particular:start|particular]] em que se manifesta") aliado a uma [[lexico:t:teoria:start|teoria]] bastante abstrata dos valores como [[lexico:e:essencias:start|essências]] eternas, distintas e imutáveis. Max Scheler (1875-1928) foi discípulo de Eucken, mas encontrou na fenomenologia de [[lexico:h:husserl:start|Husserl]] seu [[lexico:c:campo:start|campo]] de [[lexico:a:acao:start|ação]], que ele desenvolveu com observações e contribuições próprias. As contribuições mais importantes de Scheler se dão no terreno da [[lexico:a:axiologia:start|axiologia]] (a [[lexico:c:ciencia:start|ciência]] dos valores). Influído pelo [[lexico:p:pensamento:start|pensamento]] de [[lexico:s:santo:start|santo]] [[lexico:a:agostinho:start|Agostinho]], [[lexico:p:pascal:start|Pascal]] e [[lexico:n:nietzsche:start|Nietzsche]], Scheler ([[lexico:e:esse:start|esse]] "Nietzsche cristão", como o chamaram) construiu uma teoria dos valores, que examinamos em nosso "[[lexico:f:filosofia:start|Filosofia]] Concreta dos Valores". **A. [[lexico:p:personalidade:start|personalidade]]. Influências. [[lexico:e:evolucao:start|Evolução]].** Entre os filósofos que receberam a [[lexico:i:influencia:start|influência]] de Husserl, Max Scheler ocupa [[lexico:l:lugar:start|lugar]] de destaque, graças a sua [[lexico:o:originalidade:start|originalidade]] e a seus dotes especulativos. Nascido em Munique, em 1874, foi discípulo de Eucken, ensinou primeiramente nas [[lexico:u:universidades:start|universidades]] de Iena e de Munique e, desde 1919, na de Colônia. Desta foi [[lexico:c:chamado:start|chamado]] para a universidade de Francfort do Meno, onde morreu em 1928, antes de haver [[lexico:d:dado:start|dado]] início a seus cursos. Scheler era uma personalidade extraordinária, sem [[lexico:d:duvida:start|dúvida]], o pensador alemão mais fulgurante de seu [[lexico:t:tempo:start|tempo]]. Sua [[lexico:f:forca:start|força]] reside no campo da ética; mas dedicou igualmente [[lexico:i:interesse:start|interesse]] [[lexico:n:nao:start|não]] menos [[lexico:a:apaixonado:start|apaixonado]] à [[lexico:f:filosofia-da-religiao:start|filosofia da religião]], à [[lexico:s:sociologia:start|sociologia]] e a outros problemas. Seu pensamento é sempre importante e [[lexico:p:proximo:start|próximo]] da [[lexico:v:vida:start|vida]], e seus escritos são extremamente ricos de problemas. No domínio da ética, sua [[lexico:o:obra:start|obra]] é sem dúvida a mais importante e a mais [[lexico:c:caracteristica:start|característica]] da primeira metade do século XX. As mais diversas correntes estimularam seu pensamento. Na quadra da juventude esteve sob a influência de seu [[lexico:m:mestre:start|mestre]] Eucken, da qual dão [[lexico:t:testemunho:start|testemunho]] seus dois primeiros livros. O pensamento de Eucken gira em torno da vida do [[lexico:e:espirito:start|espírito]]. Eucken é uma [[lexico:e:especie:start|espécie]] de filósofo da vida, com a [[lexico:d:diferenca:start|diferença]] de que nele ocupa o primeiro lugar a vida do espírito. É outrossim um dos admiradores de S. Agostinho. Estes dois rasgos, voltamos a encontrá-los em Scheler. Assim, segundo ele, S. Agostinho é o grande [[lexico:t:teorico:start|teórico]] do [[lexico:a:amor:start|amor]], de um amor concebido pelo grande santo de maneira original e desconhecido dos gregos. No segundo período de sua vida, Scheler prosseguirá conscientemente nesta via. [[lexico:a:alem:start|Além]] de S. Agostinho, influíram nele, de maneira definitiva, a [[lexico:f:filosofia-da-vida:start|filosofia da vida]], Nietzsche, [[lexico:d:dilthey:start|Dilthey]] e [[lexico:b:bergson:start|Bergson]]. Pelo que, houve [[lexico:q:quem:start|quem]] o chamasse o "Nietzsche católico" (Troeitsch). Contudo, Husserl foi, talvez, para ele mais importante, pois Scheler não faz mais do que continuar-lhe a doutrina, modificá-la e transpô-la para [[lexico:o:outro:start|outro]] [[lexico:p:plano:start|plano]]. Depois do fundador, passa por [[lexico:s:ser:start|ser]] o primeiro fenomenólogo. Podemos distinguir três períodos na vida de Scheler. O primeiro — como fica [[lexico:d:dito:start|dito]] — é dominado por Eucken. A seguir, vem a fase da maturidade (entre 1913 e 1922), durante a qual surgem as obras decisivas: Der Formalismus in der Ethik und die materiale Wertethik (O formalismo em ética e a ética material dos valores), que apareceu primeiramente no Anuário de Husserl (1913-1916), sua obra fundamental, e duas coleções de [[lexico:e:ensaios:start|Ensaios]] com os títulos Vom Umsturz der Werte (Acerca da subversão dos valores) (1919) e Vom Ewigen im Menschen (Do [[lexico:e:eterno:start|eterno]] no homem) (1921). Nesta [[lexico:e:epoca:start|época]] Scheler é personalista, teísta e cristão convicto. Sofre, em seguida, uma [[lexico:t:transformacao:start|transformação]] interior, em que têm alguma [[lexico:p:participacao:start|participação]] sua [[lexico:n:natureza:start|natureza]] pouco unitária e o [[lexico:d:dinamismo:start|dinamismo]] apaixonado de sua vida: não só perde a [[lexico:f:fe:start|fé]] de outrora, como também abandona sua [[lexico:p:posicao:start|posição]] de teísta. Esta [[lexico:m:mudanca:start|mudança]] revela-se já em Die Wissens¡formen und die Gesellschaft (As [[lexico:f:formas-do-saber:start|formas do saber]] e a [[lexico:s:sociedade:start|sociedade]]) (1926); e Die Stellung des Menschen im [[lexico:k:kosmos:start|kosmos]] (A situação do homem no cosmos) (1928) exprime-a da maneira mais clara. Se até então a filosofia de Scheler se centrava na [[lexico:i:ideia:start|ideia]] do [[lexico:d:deus:start|Deus]] de amor [[lexico:p:pessoal:start|pessoal]], de ora avante diz-nos que o homem "é o lugar [[lexico:u:unico:start|único]] da divinização". A [[lexico:m:morte:start|morte]] prematura impediu que Scheler desenvolvesse pormenorizadamente seu pensamento deste [[lexico:u:ultimo:start|último]] período de sua vida. **B. A [[lexico:t:teoria-do-conhecimento:start|teoria do conhecimento]].** Existem no homem três espécies de [[lexico:s:saber:start|saber]]. A primeira é o saber indutivo das ciências positivas. Baseia-se no [[lexico:i:instinto:start|instinto]] de dominação e nunca chega a leis compulsivas. Seu [[lexico:o:objeto:start|objeto]] é a [[lexico:r:realidade:start|realidade]]. Scheler admite a [[lexico:e:existencia:start|existência]] da realidade, mas afirma com Dilthey que um ser puramente cognoscente não teria realidade, porque a realidade é aquilo que opõe resistência a nosso [[lexico:e:esforco:start|esforço]]. O choque com essa resistência [[lexico:p:prova:start|prova]] a existência do [[lexico:r:real:start|real]]. A segunda espécie de saber é o saber da [[lexico:e:estrutura:start|estrutura]] [[lexico:e:essencial:start|essencial]] de tudo [[lexico:o:o-que-e:start|o que é]], da "[[lexico:q:quididade:start|quididade]]" (die Washeit) das [[lexico:c:coisas:start|coisas]]. A este saber conduz-nos a [[lexico:a:abstencao:start|abstenção]] do [[lexico:c:comportamento:start|comportamento]] instintivo, a [[lexico:a:abstracao:start|abstração]] da [[lexico:p:presenca:start|presença]] real das coisas; seu objeto é" o [[lexico:a:a-priori:start|a priori]]. Scheler assegura, com [[lexico:k:kant:start|Kant]], que existe um [[lexico:c:conhecimento:start|conhecimento]] do a priori. Considera a priori todas as proposições e unidades significativas ideais que são dadas, abstraindo de toda "posição" do [[lexico:s:sujeito:start|sujeito]] que as pensa. Contudo, neste terreno, Scheler opõe-se em diferentes pontos a Kant. Em primeiro lugar, as essências, e não as proposições, constituem primariamente o a priori. Em segundo lugar, o domínio do "a priori-evidente" [[lexico:n:nada:start|nada]] tem que [[lexico:v:ver:start|ver]] com o domínio do [[lexico:f:formal:start|formal]]: existe um a priori material, conteúdos independentes da [[lexico:e:experiencia:start|experiência]] e da [[lexico:i:inducao:start|indução]]. Scheler rejeita energicamente o [[lexico:c:conceptualismo:start|conceptualismo]] idealista e o [[lexico:n:nominalismo:start|nominalismo]] positivista. Além disso, tampouco quer conceder a Kant que a teoria do conhecimento seja a teoria fundamental do a priori. O [[lexico:p:proton-pseudos:start|proton pseudos]] (o primeiro passo em [[lexico:f:falso:start|falso]]) dos kantianos consiste em haver posto a [[lexico:q:questao:start|questão]]: como é [[lexico:p:possivel:start|possível]] que [[lexico:a:alguma-coisa:start|alguma coisa]] possa ser dada? em vez da questão fundamental: "que [[lexico:c:coisa:start|coisa]] é que é dada?". Por isso, a teoria do conhecimento não é, segundo ele, senão uma seção da doutrina das [[lexico:r:relacoes:start|relações]] objetivas das essências. Por [[lexico:f:fim:start|fim]], a teoria kantiana da [[lexico:e:espontaneidade:start|espontaneidade]] do pensamento, segundo a qual tudo o que é [[lexico:r:relacao:start|relação]] deve ser produzido pelo [[lexico:e:entendimento:start|entendimento]] (ou antes, pela [[lexico:r:razao-pratica:start|razão prática]]), afigura-se-lhe ser radicalmente falsa. Na realidade, não existe entendimento que prescreva suas leis à natureza. Só podemos estabelecer o que estriba numa convenção, nunca porém leis. Mas o [[lexico:e:erro:start|erro]] máximo de Kant e de toda a filosofia racionalista consiste em haver confundido o a priori e o [[lexico:r:racional:start|racional]]. Na realidade, toda nossa vida espiritual possui um conteúdo a priori — mesmo a [[lexico:p:parte:start|parte]] emotiva do espírito, a que sente, ama, odeia, etc. Existe uma "ordem do [[lexico:c:coracao:start|coração]]" a priori, uma "[[lexico:l:logica:start|lógica]] do coração" (Pascal) em [[lexico:s:sentido:start|sentido]] [[lexico:e:estrito:start|estrito]]. Scheler desenvolveu, a partir deste [[lexico:p:ponto:start|ponto]] de vista, a fenomenologia de Husserl de maneira peculiar e abriu-lhe novos horizontes. Designou esta doutrina [[lexico:a:apriorismo:start|apriorismo]] [[lexico:e:emocional:start|emocional]]. A terceira espécie de saber é o saber metafísico ou saber de [[lexico:s:salvacao:start|salvação]]. Provém da junção dos resultados das ciências positivas com a filosofia que estuda a essência. Constituem seu objeto, primeiramente, os problemas-limites das ciências (por [[lexico:e:exemplo:start|exemplo]], "que é a vida?") e, em seguida, a [[lexico:m:metafisica:start|metafísica]] do [[lexico:a:absoluto:start|absoluto]]. Contudo, o [[lexico:c:caminho:start|caminho]] para esta metafísica não pode partir do ser-objeto, mas arranca da [[lexico:a:antropologia-filosofica:start|antropologia filosófica]], a qual se propõe a questão: "que é o homem?". A metafísica [[lexico:m:moderna:start|moderna]] deve ser uma meta-antropologia. **C. Os valores.** Os objetos intencionais do sentir (intentionale Gegenstände des Fuhlens) são o a priori do emocional: são os valores. O entendimento é cego para eles, mas eles são dados imediatamente ao sentir [[lexico:i:intencional:start|intencional]], como as cores à [[lexico:v:visao:start|visão]]. São a priori. Scheler leva a cabo uma [[lexico:c:critica:start|crítica]] demolidora, por um lado, de toda espécie de nominalismo axiológico, para o qual os valores nada mais são do que fatos empíricos, e, por outro lado, do formalismo ético. Por esta [[lexico:f:forma:start|forma]] consegue liberar a filosofia dos preconceitos [[lexico:d:dominantes:start|dominantes]] no século XIX, mediante um esforço comparável ao de Bergson no campo teórico. Não podemos entrar aqui nos pormenores desta crítica e circunscrevemo-nos a traçar suas linhas fundamentais. No comportamento [[lexico:h:humano:start|humano]] distingue Scheler a [[lexico:t:tendencia:start|tendência]] (Streben), os fins (Zwecke), os objetivos (Ziele) e os valores (Werte). O fim é um conteúdo, dado para ser realizado; pertence sempre à [[lexico:e:esfera:start|esfera]] dos conteúdos figurados, é, portanto, representado. Nem em toda tendência há um fim. Pelo contrário, toda tendência tem um [[lexico:o:objetivo:start|objetivo]]: radica no [[lexico:p:proprio:start|próprio]] curso da tendência e não é condicionado por nenhum [[lexico:a:ato:start|ato]] da [[lexico:r:representacao:start|representação]]. Em [[lexico:t:todo:start|todo]] objetivo há um [[lexico:v:valor:start|valor]]: o valor é o conteúdo [[lexico:i:imediato:start|imediato]] do objetivo. É totalmente errônea a [[lexico:a:afirmacao:start|afirmação]] de que o homem aspira sempre ao [[lexico:p:prazer:start|prazer]]. Na realidade nunca procura originariamente o prazer nem qualquer outro [[lexico:e:estado:start|Estado]] [[lexico:a:afetivo:start|afetivo]], mas sim os valores. E mesmo nos casos em que o prazer se converte em objetivo, na [[lexico:i:intencao:start|intenção]] ele converte-se em valor. Mas nem todo dado de valor está ligado a uma tendência: podemos sentir valores (mesmo éticos) sem tender para eles. Segue-se, portanto, que os valores não dependem dos fins, mas radicam já nos objetivos de nossas tendências, que lhes servem de [[lexico:f:fundamento:start|fundamento]], e mais ainda aos fins. Por outro lado, tampouco se deve confundir o valor com o [[lexico:d:dever:start|dever]] ser. Scheler distingue aqui entre o "dever ser [[lexico:i:ideal:start|ideal]]" e o "dever ser [[lexico:n:normativo:start|normativo]]" (imperativista). Neste último, um conteúdo de "dever ser ideal" é referido, como exigência, a uma tendência. O valor fundamenta o dever ser ideal e este é o fundamento do dever ser normativo. Constitui grave [[lexico:e:equivoco:start|equívoco]] pretender construir a ética sobre este último. Os valores são tudo menos [[lexico:r:relativos:start|relativos]]: são absolutos no duplo sentido da [[lexico:p:palavra:start|palavra]]. Seu conteúdo não é uma relação; pertencem à [[lexico:c:categoria:start|categoria]] da [[lexico:q:qualidade:start|qualidade]], e são imutáveis. [[lexico:r:relativo:start|relativo]] é o nosso conhecimento dos valores, e não os valores. Neste ponto Scheler investe energicamente contra as diferentes formas de [[lexico:r:relativismo:start|relativismo]] e, especialmente, contra a ética relativista. Empreende, sucessivamente, o exame do [[lexico:s:subjetivismo:start|subjetivismo]] que reduz os valores ao homem, do relativismo que os reduz à vida ou os considera historicamente necessitados. Deste ponto de vista, descobrimos variações do [[lexico:s:sentimento:start|sentimento]] (portanto, do conhecimento) dos valores ([[lexico:e:ethos:start|ethos]]), variações no [[lexico:j:juizo:start|juízo]] dos valores (Ethik), variações dos tipos unitários de instituições, de [[lexico:b:bens:start|bens]] e de [[lexico:a:acoes:start|ações]], da [[lexico:m:moralidade:start|moralidade]] prática, que afeta o valor do comportamento humano, finalmente variações dos [[lexico:c:costumes:start|costumes]] e usos tradicionalmente estabelecidos. Tudo isto é captado numa evolução constante, mas os valores morais permanecem intatos. Estes podem ser mais ou menos [[lexico:b:bem:start|Bem]] captados, concebidos e formulados, mas, em si mesmos, permanecem absolutos e imutáveis. Os valores constituem um mundo de relações, no qual reinam as relações de essência e as leis formais a priori. Segundo isso, os valores dividem-se em positivos e negativos. A existência de um valor [[lexico:p:positivo:start|positivo]] é, em si mesma, um valor positivo, e sua não-existência um valor [[lexico:n:negativo:start|negativo]]; a existência de um valor negativo é um valor negativo, e sua não-existência um valor positivo. O mesmo valor não pode ser, a um tempo, negativo e positivo, todo valor não negativo é positivo e vice-versa. Os valores agrupam-se em superiores e inferiores. São valores superiores os mais consistentes, os menos "divisíveis", os que servem de fundamento aos outros, os que provocam satisfação mais profunda, finalmente os que são os menos relativos. A [[lexico:h:hierarquia:start|hierarquia]] a priori das modalidades de valor é a seguinte: 1) valores sensíveis: o agradável e o desagradável; 2) valores vitais: o nobre e o [[lexico:v:vulgar:start|vulgar]]; 3) valores espirituais: o [[lexico:b:belo:start|belo]] e o feio, o justo e o injusto, o conhecimento [[lexico:p:puro:start|puro]] da [[lexico:v:verdade:start|verdade]]; 4) valores do [[lexico:s:sagrado:start|sagrado]] e do profano. A verdade não é um valor. Esta [[lexico:c:classificacao:start|classificação]] não contém os valores éticos (morais), porque estes consistem na realidade de outros valores relativamente superiores ou inferiores. Finalmente, os valores agrupam-se segundo seus portadores. A [[lexico:d:divisao:start|divisão]] mais importante é a de valores de pessoa e valores de coisa. São valores de coisa ou reais os que concernem a objetos de valor (bens), entre outros também aos bens de [[lexico:c:cultura:start|cultura]]. São valores de pessoa ou pessoais os valores da "própria" pessoa e os valores de [[lexico:v:virtude:start|virtude]]. São, por essência, superiores aos valores de coisa. Só a pessoa é originariamente boa ou má. Em segundo lugar, estes valores correspondem às direções da [[lexico:c:capacidade:start|capacidade]] [[lexico:m:moral:start|moral]] e, em [[lexico:t:terceiro:start|terceiro]] lugar, aos atos de uma pessoa. Pelo que, os valores morais são valores pessoais por [[lexico:e:excelencia:start|excelência]]. **D. A pessoa e a [[lexico:c:comunidade:start|comunidade]].** O [[lexico:p:problema:start|problema]] da pessoa ocupa o centro do [[lexico:s:sistema:start|sistema]] de Scheler. A pessoa não se identifica com a [[lexico:a:alma:start|alma]], nem mesmo com o [[lexico:e:eu:start|eu]]. Nem todos os homens são pessoas no sentido pleno da palavra. A [[lexico:n:nocao:start|noção]] de pessoa compreende o pleno [[lexico:u:uso:start|uso]] da [[lexico:r:reflexao:start|reflexão]] (Vollsinnigkeit), a maturidade (Mundigkeit) e o poder de escolher (Wahlmächtigkeit). A pessoa não se identifica com a [[lexico:s:substancia:start|substância]] da alma, não é psíquica nem tem nada que ver com o problema psicofísico, com o [[lexico:c:carater:start|caráter]], a saúde ou a insanidade da alma, etc. Não é nem substância nem objeto. É antes a [[lexico:u:unidade:start|unidade]] de ser concreta de atos (konkrete Seinseinheit von Akten), que não são objetos. A pessoa existe unicamente na execução de seus atos. Mas isto não quer dizer que ela seja [[lexico:s:simples:start|simples]] "ponto de partida" de atos e, menos ainda, que ela consista nestes atos, como o considerava Kant. A pessoa apresenta-se antes como inserta, toda quanta, em cada ato e variando com ele, sem que seu ser seja absorvido por algum ato. E como a esfera total dos atos é espírito, a pessoa é, por essência, espiritual. Por espirito, entende Scheler não a [[lexico:i:inteligencia:start|inteligência]] nem a capacidade de escolher — visto que, sob este [[lexico:r:respeito:start|respeito]], não haveria nenhuma diferença essencial entre um chimpanzé inteligente e Edison, mas tão só diferença de [[lexico:g:grau:start|grau]] — mas um [[lexico:p:principio:start|princípio]] novo e totalmente diferente da natureza. Os atos que determinam o espírito não são funções do eu, são apsíquicos (mas nem por isso são físicos); são executados, ao passo que as funções psíquicas se executam. O ato de [[lexico:i:ideacao:start|ideação]], ou seja, a [[lexico:f:faculdade:start|faculdade]] de separar a existência da essência, constitui a característica fundamental do espírito humano. Por conseguinte, o espírito é [[lexico:o:objetividade:start|objetividade]], [[lexico:p:possibilidade:start|possibilidade]] de ser determinado pelo "ser assim" (Sosein) das próprias coisas. A pessoa é totalmente individual; cada homem, na [[lexico:m:medida:start|medida]] em que é uma pessoa, é um ser e um valor único. O individual opõe-se, neste caso, ao [[lexico:g:geral:start|geral]], não à [[lexico:t:totalidade:start|totalidade]]. Não se pode [[lexico:f:falar:start|falar]] de uma pessoa geral: a "[[lexico:c:consciencia:start|consciência]] em geral" de Kant é um [[lexico:a:absurdo:start|absurdo]]. A pessoa é autônoma de duas maneiras: por um lado, temos a [[lexico:a:autonomia:start|autonomia]] da visão pessoal do bem e do [[lexico:m:mal:start|mal]]; por outro lado, a autonomia do ato pessoal de querer o que é dado como bem ou mal. A pessoa está também unida ao [[lexico:c:corpo:start|corpo]], mas sem qualquer relação de dependência relativamente a ele; o domínio sobre o corpo é antes uma das condições da existência da pessoa. Por último, a pessoa nunca é "parte", mas é sempre o correlato de um "mundo", de [[lexico:s:sorte:start|sorte]] que a cada pessoa corresponde um mundo ([[lexico:m:microcosmo:start|microcosmo]]) e a cada mundo uma pessoa. Mas a pessoa divide-se em pessoa [[lexico:s:singular:start|singular]] e em pessoa plural (Gesamtperson). Compete à essência de uma pessoa que ela seja originariamente, em todo seu ser e agir espiritual, tanto uma realidade individual (pessoa singular) quanto uma realidade que seja membro de uma comunidade. A cada pessoa finita "pertence" pois uma pessoa singular e uma pessoa plural. Esta última radica nos centros múltiplos da vida, na totalidade da vida em comum. Scheler distingue [[lexico:q:quatro:start|Quatro]] tipos de unidades sociais: 1) unidade por contágio e [[lexico:i:imitacao:start|imitação]] involuntária (a [[lexico:m:massa:start|massa]]); 2) unidade por convivência ou por viver-segundo, de sorte que haja uma [[lexico:c:compreensao:start|compreensão]] entre os membros, mas que não preceda a convivência (comunidade de vida); 3) unidade artificial, na qual toda relação entre indivíduos se estabelece mediante certos atos conscientes (sociedade; aliás, não há sociedade sem comunidade); 4) unidade de pessoas singulares autônomas numa pessoa plural autônoma, espiritual, individual. A unidade desta última funda-se numa unidade de essência com [[lexico:r:referencia:start|referência]] a um valor determinado. Não existem, de [[lexico:f:fato:start|fato]], senão dois tipos de pessoas plurais puras: a igreja (valor de salvação) e a [[lexico:n:nacao:start|nação]] ou esfera de cultura (pessoa plural cultural, valores culturais espirituais). **E. O [[lexico:h:homem-e-deus:start|homem e Deus]].** A palavra "homem" tem dupla [[lexico:s:significacao:start|significação]]. O homem enquanto homo naturalis é um diminuto rincão, um beco sem saída da vida, a qual constitui um todo único em constante evolução. Não se desenvolveu a partir do mundo [[lexico:a:animal:start|animal]]: era animal, é animal e será eternamente animal. A [[lexico:h:humanidade:start|humanidade]] do homo naturalis não possui unidade nem [[lexico:g:grandeza:start|grandeza]]. Não existe equívoco maior do que a adoração, por parte de [[lexico:c:comte:start|Comte]], desta humanidade como o "grand être". Mas a palavra "homem" tem ainda outro [[lexico:s:significado:start|significado]]: homem é o ser que ora, o que busca Deus, a [[lexico:i:imagem:start|imagem]] finita e viva de Deus: o ponto de irrupção de uma forma prenhe de sentido, de valor e de eficácia [[lexico:s:superior:start|superior]] a toda existência [[lexico:n:natural:start|natural]], a "pessoa". O homem possui uma [[lexico:e:experiencia-religiosa:start|experiência religiosa]] original e inderivável: o [[lexico:d:divino:start|divino]] pertence ao dado mais [[lexico:p:primitivo:start|primitivo]] da humana consciência. As determinações mais formais da essência do divino são: [[lexico:e:ens-a-se:start|ens a se]], infinidade, omni-realidade e [[lexico:s:santidade:start|santidade]]. O Deus [[lexico:r:religioso:start|religioso]] é um Deus vivo: é pessoa, a pessoa das pessoas. O Deus panteísta não é mais que um [[lexico:r:reflexo:start|reflexo]] da fé teísta. A censura de [[lexico:a:antropomorfismo:start|antropomorfismo]], que se faz a esta última, é absurda e cômica, porque não é Deus que é concebido à imagem do homem, senão o inverso: a única ideia sensata que se pode [[lexico:t:ter:start|ter]] do "homem" é um "teo-morfismo". Todo espírito [[lexico:f:finito:start|finito]] crê ou em Deus ou num [[lexico:i:idolo:start|ídolo]], e até o agnóstico crê no nada. À fé corresponde, por parte de Deus, a [[lexico:r:revelacao:start|revelação]]. Por este [[lexico:m:motivo:start|motivo]] a [[lexico:r:religiao:start|religião]] e a fé não são dadas senão pela ação de um Deus pessoal. A metafísica, que é sempre hipotética, não pode fundamentar a religião. Aliás, o deus da filosofia não é mais do que um rígido fundamento do mundo. Se as [[lexico:p:provas-da-existencia-de-deus:start|provas da existência de Deus]] gozaram de força persuasiva na Idade Média, coisa que hoje não acontece, é porque então havia uma rica experiência religiosa. No entanto, a metafísica é uma fase preliminar absolutamente necessária de todo conhecimento religioso; porque uma cultura sem metafísica é uma [[lexico:i:impossibilidade:start|impossibilidade]] religiosa. Por outro lado, a religião reinterpreta a [[lexico:s:sistematica:start|sistemática]] essencial do mundo (Konformitätssystem). Todavia, Scheler aduz nova prova da [[lexico:e:existencia-de-deus:start|existência de Deus]]: todo saber que se tem de Deus é um saber mediante Deus; ora, como existe [[lexico:s:semelhante:start|semelhante]] saber, isto é, um ato religioso, segue-se que também Deus existe. :Êle é dado como correlato do mundo: assim como a cada microcosmo corresponde uma pessoa finita, Deus como pessoa corresponde à totalidade do mundo ([[lexico:m:macrocosmo:start|macrocosmo]]). **F. O amor.** As [[lexico:i:ideias:start|ideias]] até aqui expostas são já revolucionárias em seu conteúdo e forma, mas é com a sua teoria do amor que Scheler se opõe da maneira mais radical ao pensamento do século XIX. Em primeiro lugar, o amor não se identifica com a simpatia, nem é, em geral, um sentimento. Não pressupõe nenhum juízo, não é um ato do esforço humano. Nada tem de [[lexico:s:social:start|social]] em si e tanto pode ser dirigido a si como a outrem. Todas as teorias do século XIX sobre o amor padecem de grave equívoco. Identificou-se o amor com o [[lexico:a:altruismo:start|altruísmo]], ideia absurda, segundo a qual outrem deve ser amado enquanto outro. Fêz-se dele um amor da humanidade, um amor a qualquer coisa de [[lexico:a:abstrato:start|abstrato]], o que é nova monstruosidade. Identificaram-no com a inclinação para melhorar ou ajudar a outrem, rasgo que pode ser o resultado do amor, mas que não funda sua essência. Valendo-se de minuciosa [[lexico:a:analise:start|análise]], mostra Scheler que o altruísmo e formas análogas da [[lexico:m:mentalidade:start|mentalidade]] moderna se baseiam num [[lexico:r:ressentimento:start|ressentimento]]; portanto, no ódio a valores superiores e, em última [[lexico:i:instancia:start|instância]], a Deus. O sentimento de inveja que se tem aos sujeitos portadores de valores superiores gerou os ideais igualitários e humanitários que, no fundo, são uma [[lexico:n:negacao:start|negação]] do amor. O amor genuíno (como o ódio genuíno) é sempre amor de uma pessoa, não de um valor enquanto tal; Scheler vai ao [[lexico:e:extremo:start|extremo]] de afirmar que não é possível amar o bem. O amor endereça-se à pessoa como realidade através do valor da pessoa. A análise do amor que se tem a uma pessoa mostra que a [[lexico:s:soma:start|soma]] dos valores de uma pessoa amada não pode nem de longe coincidir com o nosso amor a ela. Subsiste sempre um "insondável" mais. Este "mais", a pessoa concreta do [[lexico:e:ente:start|ente]] amado, é o [[lexico:v:verdadeiro:start|verdadeiro]] objeto do amor. O último de todos os valores morais da pessoa só nos é dado na "co-execução" (Mitvollzug) de seu próprio ato de amor. O amor é um [[lexico:m:movimento:start|movimento]], no qual cada objeto individual concreto, portador de valores, chega ao valor mais elevado possível segundo sua [[lexico:d:determinacao:start|determinação]] ideal. Visa ele elevar o amado e eleva também o amante. O amor compreensivo é o escultor que, dado o caso, numa simples ação, num só gesto — independentemente de todo conhecimento [[lexico:e:empirico:start|empírico]] e intuitivo, que antes encobre a essência da pessoa — é capaz de [[lexico:a:apreender:start|apreender]] pela vista as linhas de sua essência de valor. Eis o motivo por que o [[lexico:p:progresso:start|progresso]] moral e, em geral, axiológico, é sempre devido a pessoas sociais exemplares, ao [[lexico:g:genio:start|gênio]], ao [[lexico:h:heroi:start|herói]], ao santo. O ponto culminante do amor é o amor de Deus, concebido não como amor a Deus infinitamente [[lexico:b:bom:start|Bom]], mas como "co-execução" de seu amor para com o mundo (amare mundum in Deo). Deus aparece como centro supremo do amor. Êle confere à pessoa o fundamento de seu sentido, ou seja, seu amor. Por último, a teoria da comunidade é considerada sob este ponto de vista. A filosofia que Scheler esboçou já no fim da vida significa a negação de grande parte de suas doutrinas anteriores. Sua [[lexico:t:tese:start|tese]] [[lexico:c:capital:start|capital]] é, [[lexico:a:agora:start|agora]], que as etapas superiores do ser são mais fracas que as inferiores. O que há de primordial e mais potente são os centros de força, cegos para as ideias, formas e estruturas, do mundo inorgânico como ínfimo ponto de ação de um ímpeto cego. Sobre esta base, Scheler esboçou uma [[lexico:t:teologia:start|teologia]] que relembra muito a que Alexander elaborara anteriormente. Mas este período de seu pensamento permaneceu inacabado. Perante a [[lexico:h:historia:start|história]], ele continua sendo o pensador personalista e teísta; e seu [[lexico:m:merito:start|mérito]] imarcescível será o ter rompido com os preconceitos monistas do século XIX e restaurado a pessoa em todos os seus direitos. Sua importância reside outrossim no fato de que, por ter sublinhado o caráter não objetivável da pessoa, representa uma transição para a [[lexico:f:filosofia-da-existencia:start|filosofia da existência]]. {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}