===== SACRALIDADE ===== Sem [[lexico:d:duvida:start|dúvida]], a ênfase cristã na sacralidade da [[lexico:v:vida:start|vida]] faz [[lexico:p:parte:start|parte]] da herança hebraica, que já apresentava um notável contraste com as atitudes da [[lexico:a:antiguidade:start|antiguidade]]: o desprezo pagão pelos tormentos impostos pela vida ao [[lexico:h:homem:start|homem]] no [[lexico:t:trabalho:start|trabalho]] e no parto, a figuração invejosa da “vida fácil” dos [[lexico:d:deuses:start|deuses]], o [[lexico:c:costume:start|costume]] de enjeitar os filhos indesejados, a [[lexico:c:conviccao:start|convicção]] de que a vida sem saúde [[lexico:n:nao:start|não]] vale a [[lexico:p:pena:start|pena]] [[lexico:s:ser:start|ser]] vivida (de [[lexico:s:sorte:start|sorte]] que se considerava, por [[lexico:e:exemplo:start|exemplo]], que o médico desvirtuava a sua [[lexico:v:vocacao:start|vocação]] ao prolongar a vida quando era [[lexico:i:impossivel:start|impossível]] para ele restaurar a saúde), [Cf. Platão, República, 405C] e de que o [[lexico:s:suicidio:start|suicídio]] é o gesto nobre de desvencilhar-se de uma vida que se tornou opressiva. Contudo, basta lembrar a [[lexico:f:forma:start|forma]] como o Decálogo menciona o homicídio, sem lhe atribuir gravidade especial em [[lexico:m:meio:start|meio]] a um rol de outras transgressões – as quais, em nosso [[lexico:m:modo:start|modo]] de [[lexico:p:pensar:start|pensar]], [[lexico:m:mal:start|mal]] se podem [[lexico:c:comparar:start|comparar]] a [[lexico:e:esse:start|esse]] crime supremo –, para que se compreenda que nem mesmo o [[lexico:c:codigo:start|código]] legal hebraico, embora muito mais [[lexico:p:proximo:start|próximo]] do nosso que qualquer escala pagã de ofensas, fazia da preservação da vida a pedra angular do [[lexico:s:sistema:start|sistema]] legal do [[lexico:p:povo:start|povo]] judeu. Essa [[lexico:p:posicao:start|posição]] intermediária do código legal hebraico – situado entre a Antiguidade pagã e todos os sistemas legais cristãos e pós-cristãos – talvez tenha sua [[lexico:e:explicacao:start|explicação]] no [[lexico:c:credo:start|credo]] hebraico, cuja ênfase recai sobre a [[lexico:i:imortalidade:start|imortalidade]] potencial do povo, em [[lexico:c:contraposicao:start|contraposição]] à imortalidade pagã do [[lexico:m:mundo:start|mundo]] e à imortalidade cristã da vida individual. De qualquer forma, essa imortalidade cristã atribuída à [[lexico:p:pessoa:start|pessoa]] que, em sua [[lexico:u:unicidade:start|unicidade]], começa a vida na [[lexico:t:terra:start|Terra]] através do nascimento, resultou não somente no mais óbvio [[lexico:a:aumento:start|aumento]] da além-mundanidade, mas também em um enorme aumento da importância da vida na Terra. O que importa é que o cristianismo – com a [[lexico:e:excecao:start|exceção]] de especulações heréticas e gnósticas – sempre insistiu em que a vida, embora não tivesse mais um [[lexico:f:fim:start|fim]] definitivo, tinha ainda um [[lexico:c:comeco:start|começo]] definido. A vida na Terra pode ser apenas o primeiro e mais miserável estágio da vida eterna; ainda assim, é a vida e, sem essa vida que termina com a [[lexico:m:morte:start|morte]], não pode haver vida eterna. Talvez resida aí o [[lexico:m:motivo:start|motivo]] para o [[lexico:f:fato:start|fato]] indubitável de que, somente quando a imortalidade da vida individual passou a ser o credo central da [[lexico:h:humanidade:start|humanidade]] ocidental, isto é, somente com o surgimento do cristianismo, a vida na Terra passou também a ser o [[lexico:b:bem-supremo:start|bem supremo]] do homem. A ênfase cristã na sacralidade da vida tendeu a nivelar as antigas distinções e articulações no interior da [[lexico:v:vita-activa:start|vita activa]]; tendeu a [[lexico:v:ver:start|ver]] o trabalho, a [[lexico:o:obra:start|obra]] e a [[lexico:a:acao:start|ação]] como igualmente sujeitos à [[lexico:n:necessidade:start|necessidade]] da vida presente. Ao mesmo [[lexico:t:tempo:start|tempo]], contribuiu para liberar um pouco a [[lexico:a:atividade:start|atividade]] do trabalho, isto é, tudo quanto é [[lexico:n:necessario:start|necessário]] para manter o [[lexico:p:proprio:start|próprio]] [[lexico:p:processo:start|processo]] biológico, do desprezo que a Antiguidade nutria por ela. O antigo desprezo pelo [[lexico:e:escravo:start|escravo]], menosprezado porque servia apenas às [[lexico:n:necessidades-da-vida:start|necessidades da vida]] e se submetia ao domínio do amo por desejar permanecer vivo a qualquer preço, não podia de modo algum sobreviver na era cristã. Já não era [[lexico:p:possivel:start|possível]] menosprezar o escravo, como [[lexico:p:platao:start|Platão]] o fazia, por não haver cometido suicídio ao invés de submeter-se, pois permanecer vivo em quaisquer circunstâncias passara a ser um [[lexico:d:dever:start|dever]] [[lexico:s:sagrado:start|sagrado]], e o suicídio era visto como pior que o homicídio. O enterro cristão era negado não ao assassino, mas àquele que havia posto fim à sua própria vida. [ArendtCH:C44] {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}