===== SABER TEÓRICO ===== Essa concepção do [[lexico:s:saber|saber]], que num certo [[lexico:s:sentido|sentido]] é imantada por uma [[lexico:v:visao|visão]] prática, pois ordena-se a um [[lexico:e:estado|Estado]] que deve [[lexico:s:ser|ser]] alcançado no término de um [[lexico:p:processo|processo]], conduz facilmente à do saber contemplativo. Aqui, o [[lexico:t:tema|tema]] inspirador [[lexico:n:nao|não]] é mais o da [[lexico:s:sabedoria|sabedoria]], mas o da [[lexico:t:teoria|teoria]]. Encontramo-nos sempre na [[lexico:o:ordem|ordem]] do saber, mais exatamente, de um saber da [[lexico:t:totalidade|totalidade]], mas a ênfase é deslocada: [[lexico:o:o-que-e|o que é]] evidenciado não é mais este estado bem-aventurado que deve proporcionar uma visão justa, mas a própria visão, considerada, de certa [[lexico:f:forma|forma]], como um [[lexico:v:valor|valor]] em si, como desvinculada de toda [[lexico:p:perspectiva|perspectiva]] prática, não somente no [[lexico:p:plano|plano]] instrumental, no plano dos interesses imediatos, mas até mesmo no plano desse agir sobre si, dessa [[lexico:t:transformacao|transformação]] interior que deve conduzir à [[lexico:b:beatitude|beatitude]]. Subsiste uma [[lexico:o:oposicao|oposição]] entre uma [[lexico:v:vida|vida]] inautêntica, encerrada no [[lexico:e:erro|erro]], vale dizer, na imediatez das visões parciais, e uma vida autêntica, que se conforma com a [[lexico:v:verdade|verdade]]. Ora, a verdade é a integralidade da [[lexico:m:manifestacao|manifestação]]; é, ao mesmo [[lexico:t:tempo|tempo]], a [[lexico:r:revelacao|revelação]] do [[lexico:m:mundo|mundo]], segundo sua [[lexico:m:maxima|máxima]] envergadura, e o [[lexico:m:movimento|movimento]] acabado de sua vinda em sua auto-mostração, tal como ele se revela desde suas [[lexico:o:origens|origens]] até as mais tênues terminações de sua eflorescência. A visão verdadeira segue, por assim dizer, o [[lexico:u:universo|universo]] nessa manifestação, refaz com ele o [[lexico:c:caminho|caminho]] de seu crescimento e de sua eclosão, acompanha desde o [[lexico:c:comeco|começo]] até suas últimas ramificações o movimento do [[lexico:a:aparecer|aparecer]]. Por isso, ela se eleva acima de toda forma de [[lexico:a:apreensao|apreensão]], quer seja da ordem da [[lexico:s:sensibilidade|sensibilidade]], da [[lexico:i:imaginacao|imaginação]] ou do [[lexico:p:pensamento|pensamento]], que permaneceria apenas na superfície mais visível das [[lexico:c:coisas|coisas]], só podendo [[lexico:a:apreender|apreender]], por isso mesmo, fragmentos relativamente isolados da [[lexico:r:realidade|realidade]]. O [[lexico:a:acordo|acordo]] com a verdade, vale dizer, com a amplitude mesma da [[lexico:g:genese|gênese]] [[lexico:u:universal|universal]], é uma forma de vida que pertence verdadeiramente à ordem da [[lexico:s:soberania|soberania]]. Porque, ao elevar-se a uma [[lexico:c:contemplacao|contemplação]] adequada daquilo que mantém coesas todas as formas particulares na [[lexico:u:unidade|unidade]] de um imenso jorrar, indo ao encontro da [[lexico:f:forca|força]] mesma do originário, o ser [[lexico:h:humano|humano]] pensante ultrapassa sua própria particularidade, as determinações pelas quais está submetido às leis da [[lexico:m:materia|matéria]], da vida e da [[lexico:h:historia|história]], para coincidir com aquilo que se encontra na [[lexico:r:raiz|raiz]] de todas as leis e, por conseguinte, para [[lexico:a:alem|além]] de toda [[lexico:l:lei|lei]], de toda [[lexico:d:determinacao|determinação]] e de [[lexico:t:todo|todo]] [[lexico:c:condicionamento|condicionamento]]. O originário é, necessariamente, o [[lexico:i:incondicionado|incondicionado]], o que só remete a si, ao [[lexico:a:abismo|abismo]] inexaustivo de sua [[lexico:e:energia|energia]] manifestadora: só pode ser celebração de [[lexico:s:si-mesmo|si mesmo]], irradiação de si numa [[lexico:g:gloria|glória]] incomparável e sem declínio. A teoria não é um vão olhar sobre um mundo que seria inteiramente em superfícies, que não seria outra [[lexico:c:coisa|coisa]] senão um cintilar que se revela, nem tampouco um exercício insignificante que deixaria todas as coisas como estão, só fazendo acrescentar à infelicidade da vida o inútil desdobramento de um [[lexico:r:reflexo|reflexo]] estéril. A teoria é o [[lexico:e:esforco|esforço]] [[lexico:s:sublime|sublime]] do «[[lexico:l:logos|Logos]]» no [[lexico:h:homem|homem]] para elevar uma vida contnigente, aparentemente entregue às fatalidades e votada ao aniquilamento, à [[lexico:c:condicao|condição]] sublime de uma vida soberana que é o acordo sem falha com aquilo que se encontra no [[lexico:c:coracao|coração]] mesmo da manifestação. A [[lexico:i:ideia|ideia]] de um acordo com o [[lexico:v:verdadeiro|verdadeiro]], ou da verdade com o acordo, longe de ser uma [[lexico:e:especie|espécie]] de abdicação diante de um poder [[lexico:e:exterior|exterior]], faz apenas exprimir, ao contrário, uma exigência que, provávelmente, é constitutiva do ser humano e que constitui como que o traço, nele, da vida do originário. Sob a forma do «logos», essa vida tende a realizar-se numa [[lexico:p:palavra|palavra]] que diria toda a sua força e, ao mesmo tempo, concluiria o movimento da manifestação. A teoria é ao mesmo tempo o [[lexico:e:espaco|espaço]] onde são recolhidas as forças constituintes e a forma mais espetacular na qual se atesta sua [[lexico:v:virtude|virtude]]. É, ao mesmo tempo o reflexo e a realização do movimento universal da verdade, isto é, da vinda a si da realidade total na epifania de seu incessante advento. A ideia de teoria, ela mesma derivada da de sabedoria, conduz a uma concepção [[lexico:h:hermeneutica|hermenêutica]] do saber. A teoria é uma espécie de [[lexico:r:repeticao|repetição]] da realidade que se revela. Ela reefetua, no espaço da palavra, as etapas constitutivas da manifestação. Desta forma, torna-se a si mesma manifestação, não somente no sentido em que, ao produzir-se, se dá a contemplar em seu acabamento, mas também, e mais radicalmente, no sentido em que se torna o [[lexico:m:momento|momento]] supremo da manifestação, a [[lexico:i:instancia|instância]] na qual o aparecimento da realidade é recolhido na força da palavra. Esta é ao mesmo tempo um componente do aparecimento e o [[lexico:l:lugar|lugar]] no qual ele pode produzir-se, ao mesmo tempo momento terminal e condição originária. É por isso que a palavra não é apenas um [[lexico:s:simples|simples]] relatório [[lexico:d:descritivo|descritivo]], mas o prolongamento daquilo que se mostra, a revelação das virtualidades ainda envoltas naquilo que constituía apenas o aparecer; e ao encontrar a [[lexico:f:fonte|fonte]] no aparecer que torna visível sua eficácia, ela é capaz de exprimir toda a sua força e de acrescentar, assim, ao visível, esta espécie de irradiação sem limites que consagra sua infinitude. Se pode, é porque o [[lexico:c:conceito|conceito]], que não somente é uma [[lexico:i:imagem|imagem]], um desdobramento da [[lexico:a:aparencia|aparência]], mas a forma [[lexico:d:dinamica|dinâmica]] capaz de apreender e de fazer [[lexico:v:ver|ver]], na aparência, o movimento que a transporta e, portanto, tudo o que ela anuncia, a verdade para cujo advento contribui. A teoria, sob sua forma acabada, é [[lexico:s:sistema|sistema]], vale dizer, configuração conceitual acabada, de que todos os [[lexico:e:elementos|elementos]] são interdependentes; e mostra, por sua [[lexico:e:estrutura|estrutura]] mesma, sua [[lexico:c:coerencia|coerência]] interna e seu [[lexico:c:carater|caráter]] de saturação. O sistema possui sua própria lei de funcionamento. E é através dela que ele faz ver a lei do mundo e a verdade da [[lexico:e:existencia|existência]]. Ora, é precisamente isso que caracteriza a [[lexico:i:interpretacao|interpretação]]. O [[lexico:d:discurso|discurso]] hermenêutico não é uma [[lexico:d:descricao|descrição]], mas uma espécie de recriação. Mão se liga à aparência para tentar restituir sua tecitura de superfície, mas visa a revelar seu sentido. Ora, o sentido não se mostra como um [[lexico:o:objeto|objeto]] nem como um sistema de objetos. É este [[lexico:e:elemento|elemento]] impalpável que atravessa todos os objetos e todos os sistemas, religando-se ao movimento universal da manifestação. Tal movimento é a irradiação do originário: reduz o visível à sua fonte e o impele para horizontes sempre mais vastos que ele só faz anunciar. Tornar o sentido manifesto é reinserir as aparências estáveis do mundo nesse [[lexico:d:devir|devir]] da manifestação. E um discurso só consegue isso, caso se converta em devir. O movimento de interpretação é justamente [[lexico:e:esse|esse]] processo de um discurso que, ao construir-se segundo as exigências próprias do conceito, faz progressivamente surgir, na concatenação mesma de seus momentos e na sistematicidade de sua [[lexico:a:arquitetura|arquitetura]] total, um sentido no qual se mostra e se celebra o fundo mesmo da realidade. [Ladrière]