===== SABEDORIA ===== VIDE Sabedoria, [[lexico:s:sapiencia:start|sapiência]] gr. [[lexico:s:sophia:start|Sophia]] A [[lexico:c:ciencia:start|ciência]] e [[lexico:v:virtude:start|virtude]]. — A sabedoria é o [[lexico:o:objetivo:start|objetivo]] da [[lexico:f:filosofia:start|Filosofia]] (do gr. philos, desejoso de, e sophia, sabedoria). Une o [[lexico:c:conhecimento:start|conhecimento]] [[lexico:t:teorico:start|teórico]] à realização de um [[lexico:i:ideal:start|ideal]] [[lexico:p:pratico:start|prático]]: o [[lexico:s:sabio:start|sábio]] se distingue do erudito na [[lexico:m:medida:start|medida]] em que vive sua doutrina e em que sua [[lexico:v:vida:start|vida]] constitui em si mesma uma realização e um [[lexico:t:testemunho:start|testemunho]] da [[lexico:v:verdade:start|verdade]]. O ideal do sábio foi o mais elevado ideal da [[lexico:a:antiguidade:start|antiguidade]]: os "[[lexico:s:sete-sabios:start|Sete Sábios]]" da [[lexico:g:grecia:start|Grécia]], que os poderosos iam consultar e que possuíam só para si [[lexico:t:todo:start|todo]] o [[lexico:s:saber:start|saber]] da [[lexico:e:epoca:start|época]], foram Tales, Pitacos, Bias, Sólon, Cleóbulo, Mison e Quilon ([[lexico:p:platao:start|Platão]] os cita em seu [[lexico:d:dialogo:start|diálogo]] [[lexico:p:protagoras:start|Protágoras]]). A doutrina estoica revela-nos as características do sábio antigo: sua particularidade fundamental era [[lexico:v:viver:start|viver]] "em [[lexico:h:harmonia:start|harmonia]]" como o [[lexico:m:mundo:start|mundo]]; todas as leis do "cosmos" (do [[lexico:u:universo:start|universo]]) repercutiam nele; para a [[lexico:i:imaginacao:start|imaginação]] antiga, o sábio era em [[lexico:p:principio:start|princípio]] o que contempla o [[lexico:c:ceu:start|céu]] estrelado e que experimenta o [[lexico:s:sentimento:start|sentimento]] [[lexico:p:profundo:start|profundo]] da [[lexico:o:ordem:start|ordem]] e da [[lexico:r:racionalidade:start|racionalidade]] das [[lexico:c:coisas:start|coisas]]. — Num [[lexico:s:sentido:start|sentido]] mais [[lexico:m:moderno:start|moderno]], o sábio é que vive em harmonia com a [[lexico:h:humanidade:start|humanidade]]: é o que, na ordem humana, compreende tudo sem [[lexico:t:ter:start|ter]] tudo experimentado (A. Gehlen, [[lexico:t:teoria:start|teoria]] da [[lexico:l:liberdade-da-vontade:start|liberdade da vontade]]), 1933). Essa [[lexico:d:definicao:start|definição]] cósmica ou [[lexico:e:etica:start|ética]] do sábio é certamente a mais rigorosa: a sabedoria, no sentido antigo, é o conhecimento intuitivo das leis do mundo e, no sentido moderno, a [[lexico:c:compreensao:start|compreensão]] dos problemas do [[lexico:o:outro:start|outro]]. Mais comumente, a sabedoria é uma [[lexico:n:nocao:start|noção]] [[lexico:m:moral:start|moral]] que designa o "equilíbrio" da [[lexico:p:personalidade:start|personalidade]]: a "[[lexico:t:temperanca:start|temperança]]" (Platão), ou moderação dos desejos. Nesse sentido, a sabedoria contrapõe-se tanto à [[lexico:p:paixao:start|paixão]] quanto à tolice. Tende a identificar-se com a [[lexico:p:prudencia:start|prudência]]. (V. filosofia.) A sabedoria [[lexico:n:nao:start|não]] é um saber qualquer, mas um saber [[lexico:r:referente:start|referente]] ao [[lexico:e:essencial:start|essencial]] às [[lexico:c:causas:start|causas]] e fins últimos do [[lexico:s:ser:start|ser]] é uma consideração e apreciação das coisas terrenas à [[lexico:l:luz:start|luz]] da [[lexico:e:eternidade:start|Eternidade]] (sub specie aeternitatis), um saber que dá provas de fecundidade, pelo [[lexico:f:fato:start|fato]] de assinar a todas as coisas o [[lexico:l:lugar:start|lugar]] que lhes corresponde na ordenação hierárquica do universo, segundo a [[lexico:s:sentenca:start|sentença]] de S. Tomás, frequentemente repetida: Sapientis est ordinare: compete ao sábio [[lexico:p:por:start|pôr]] em ordem. A [[lexico:f:forma:start|forma]] científica não é essencial à sabedoria, mas sim a conformidade do operar com o saber. S. Tomás distingue três graus de sabedoria: o primeiro é a [[lexico:i:inteleccao:start|intelecção]] modeladora da vida, e que é fruto da [[lexico:m:meditacao:start|meditação]] filosófica, principalmente da [[lexico:m:metafisica:start|metafísica]]. Em nível mais elevado se encontra a sabedoria procedente da [[lexico:f:fe:start|fé]] e da ciência teológica, a qual ordena todas as coisas no conjunto do mundo [[lexico:s:sobrenatural:start|sobrenatural]] que abarca céu e [[lexico:t:terra:start|Terra]]. O [[lexico:t:terceiro:start|terceiro]] [[lexico:g:grau:start|grau]] é a sabedoria como [[lexico:d:dom:start|dom]] do [[lexico:e:espirito:start|Espírito]] [[lexico:s:santo:start|santo]]; com ela o [[lexico:h:homem:start|homem]] que ama a [[lexico:d:deus:start|Deus]] já não compreende só pelo [[lexico:p:proprio:start|próprio]] [[lexico:e:esforco:start|esforço]] [[lexico:o:o-que-e:start|o que é]] reto, mas sim à luz da divina inspiração: "experimentando o [[lexico:d:divino:start|divino]]", sente que faz uma só [[lexico:c:coisa:start|coisa]] com ele e esquadrinha, com amorosa [[lexico:a:alegria:start|alegria]], a ordem que Deus quer que reine em todas as coisas. — De Vries. A sua [[lexico:s:significacao:start|significação]] oscilou entre um sentido predominantemente prático. O primeiro é óbvio em Platão e em [[lexico:a:aristoteles:start|Aristóteles]]. Platão concebia a sabedoria como a virtude [[lexico:s:superior:start|superior]], paralela à [[lexico:c:classe:start|classe]] superior dentro da [[lexico:c:cidade:start|cidade]] ideal e à [[lexico:p:parte:start|parte]] mais elevada da [[lexico:a:alma:start|alma]] na [[lexico:d:divisao:start|divisão]] tripartida desta. Admitiu também, contudo, outros significados da sabedoria; por [[lexico:e:exemplo:start|exemplo]], a sabedoria como [[lexico:a:arte:start|arte]], no sentido de habilidade para praticar uma [[lexico:o:operacao:start|operação]]. A [[lexico:d:diferenca:start|diferença]] entre ambos os significados consiste em que enquanto no primeiro caso se trata de uma sabedoria superior, no [[lexico:u:ultimo:start|último]] é uma sabedoria inferior. De fato, no primeiro caso temos a sabedoria , ao passo que no último temos só uma sabedoria entre muitas. Por outro lado, Platão falou da sabedoria como uma [[lexico:i:investigacao:start|investigação]] das coisas naturais. O predomínio do [[lexico:s:significado:start|significado]] teórico da sabedoria alcançou a sua [[lexico:m:maxima:start|máxima]] [[lexico:e:expressao:start|expressão]] em Aristóteles, quando este considerou a sabedoria como a ciência dos [[lexico:p:primeiros-principios:start|primeiros princípios]] e a identificou com a [[lexico:f:filosofia-primeira:start|filosofia primeira]] (metafísica). A sabedoria é a [[lexico:u:uniao:start|união]] da [[lexico:r:razao:start|razão]] [[lexico:i:intuitiva:start|intuitiva]] com o conhecimento rigoroso do superior ou das primeiras causas e [[lexico:p:principios:start|princípios]]. A [[lexico:o:orientacao:start|orientação]] para o teórico ou contemplativo reduziu-se considerável [[lexico:m:mente:start|mente]] no período helenístico... Entre estas escolas filosóficas pós-aristotélicas dominou a concepção da sabedoria como a [[lexico:a:atitude:start|atitude]] de moderação e prudência em todas as coisas; à [[lexico:n:nota:start|nota]] e universalidade acrescentara-se os [[lexico:c:caracteres:start|caracteres]] de [[lexico:e:experiencia:start|experiência]] e maturidade. Relacionado com esta concepção encontra-se o ideal antigo do sábio, que não é apenas o homem que sabe, mas o homem de experiência. O sábio é o que possui todas as condições necessárias para pronunciar juízos reflexivos e maduros, subtraídos tanto à paixão como à precipitação. Por isso o sábio é [[lexico:c:chamado:start|chamado]] também o homem prudente, o judicioso por [[lexico:e:excelencia:start|excelência]]. O ideal da sabedoria nessa época encontra-se, em [[lexico:s:suma:start|suma]], baseado na [[lexico:f:funcao:start|função]] do teórico com o prático ou, melhor dizendo, na [[lexico:s:suposicao:start|suposição]] de que o saber e a virtude são uma e a mesma coisa. Em rigor, o ideal antigo do sábio oscila continuamente entre um saber da [[lexico:b:bondade:start|bondade]] que se identifica pura e simplesmente com a própria bondade, e uma prática da bondade que se identifica com o seu conhecimento.. A culminação do ideal do sábio é na antiguidade o [[lexico:t:tipo:start|tipo]] do sábio estoico, que defronta o [[lexico:i:infinito:start|infinito]] rigor do universo, com a serena aceitação do seu [[lexico:d:destino:start|destino]]. As filosofias e teologias medievais aceitaram a concepção agostiniana da sabedoria como um conhecimento superior, tornado [[lexico:p:possivel:start|possível]] pela [[lexico:g:graca:start|graça]] divina e ao qual estão subordinados todos os demais conhecimentos. Alguns filósofos preocuparam-se em estabelecer distinções [[lexico:e:ente:start|ente]] diversos graus de sabedoria: o que mais pormenorizada tratou deste [[lexico:p:problema:start|problema]] foi [[lexico:t:tomas-de-aquino:start|Tomás de Aquino]]. No cap. 2 do livro A de sua Metafísica, Aristóteles enumera as concepções mais correntemente admitidas concernentes à sabedoria filosófica: a ciência mais [[lexico:u:universal:start|universal]], a mais árdua, a mais própria a ser ensinada etc. para finalmente deter-se no que lhe parece caracterizar do [[lexico:m:modo:start|modo]] mais [[lexico:f:formal:start|formal]] esta ciência: a metafísica é a ciência das primeiras causas e dos primeiros princípios. Há no homem uma [[lexico:t:tendencia:start|tendência]] inata ao saber, isto é, a conhecer pelas causas, e este [[lexico:d:desejo:start|desejo]] não pode ser satisfeito senão no [[lexico:m:momento:start|momento]] em que se atinge a [[lexico:c:causa:start|causa]] última,, aquela após a qual não há [[lexico:n:nada:start|nada]] mais a procurar, e que se basta, portanto, a si mesma. Ciência das supremas explicações ou das primeiras causas, tal nos parece, pois, ser a metafísica que, sob este [[lexico:a:aspecto:start|aspecto]], merece propriamente o título de sabedoria. A noção de sabedoria não é [[lexico:p:propriedade:start|propriedade]] exclusiva do peripatetismo nem do cristianismo. Todo [[lexico:p:pensamento-filosofico:start|pensamento filosófico]] digno deste [[lexico:n:nome:start|nome]] pretende ser uma sabedoria. Mas é evidente que as diversas sabedorias filosóficas diferem profundamente, segundo o [[lexico:f:fim:start|fim]] perseguido e os meios postos em [[lexico:a:acao:start|ação]]. Entre os gregos, o [[lexico:t:termo:start|termo]] sabedoria (sophia) encontra-se, de início, revestido de uma significação de ressonâncias utilitárias. É sinônimo de habilidade ou de excelência numa arte qualquer. Policleto é sábio porque é um escultor particularmente engenhoso. A sophia corresponde também a um certo domínio na [[lexico:c:conduta:start|conduta]] da vida. É neste sentido mais elevado que [[lexico:s:socrates:start|Sócrates]] falará de sabedoria: é sábio aquele que, conhecendo [[lexico:b:bem:start|Bem]] a [[lexico:s:si-mesmo:start|si mesmo]], é assim capaz de se dirigir com [[lexico:d:discernimento:start|discernimento]]. Platão recolherá a herança moral de Sócrates; para ele a sophia é a arte de se governar a si mesmo e de governar a cidade segundo as normas da [[lexico:j:justica:start|justiça]] e da prudência. Mas, no [[lexico:f:filosofo:start|filósofo]] das [[lexico:i:ideias:start|ideias]], outras perspectivas se abriram: a alma, através de sua parte superior, o [[lexico:n:nous:start|noûs]], está em [[lexico:c:comunicacao:start|comunicação]] com o mundo das verdadeiras realidades, as formas inteligíveis, no ápice das quais cintila a forma superior do bem; portanto, a sophia é também [[lexico:t:theoria:start|theoria]] e, em seu termo, [[lexico:c:contemplacao:start|contemplação]] de Deus. Os maiores dentre os discípulos de Platão, Aristóteles e [[lexico:p:plotino:start|Plotino]], seguirão o [[lexico:m:mestre:start|mestre]] nesta ascensão intelectual rumo ao ser supremo. Assim, a sabedoria filosófica, no [[lexico:l:limite:start|limite]] de suas possibilidades humanas, reencontrou seu [[lexico:v:verdadeiro:start|verdadeiro]] princípio, mas ignora ainda as vias que para lá conduzem de maneira efetiva. Com a [[lexico:r:revelacao:start|revelação]] judeu-cristã, se a contemplação de Deus permanece sempre o fim último da sabedoria, as perspectivas se invertem. A sabedoria então se apresenta, essencialmente, não mais como vinda dos recursos próprios do espírito [[lexico:h:humano:start|humano]], mas como descendente do céu: é a [[lexico:s:salvacao:start|salvação]], que nos é trazida pela iniciativa e pela própria graça de Deus. Também uma tal sabedoria se manifesta de [[lexico:i:imediato:start|imediato]] como algo que ultrapassa a filosofia, ainda que, sob o [[lexico:r:reino:start|reino]] da graça, possa perfeitamente se constituir uma sabedoria autenticamente filosófica. Em face do Evangelho constitui-se, enfim, aquilo que este nos ensinou a chamar a sabedoria deste mundo, que consiste profundamente numa [[lexico:r:recusa:start|recusa]] do [[lexico:t:transcendente:start|transcendente]]: trata-se de organizar o mundo pelos seus próprios recursos, e em vista unicamente do homem. Para um cristão, uma tal sabedoria que não se edifica sobre os verdadeiros valores, não pode evidentemente ser senão pretensa a falsa. Se abandonamos o [[lexico:p:plano:start|plano]] da [[lexico:h:historia:start|história]] para nos colocarmos no da doutrina, deveremos dizer com Tomás de Aquino, que exprime aqui a [[lexico:o:opiniao:start|opinião]] teológica comum, que pode haver no espírito humano três sabedorias essencialmente distintas e hierarquicamente ordenadas: a sabedoria infusa, dom do Espírito Santo, a [[lexico:t:teologia:start|teologia]] e a metafísica, distinguindo-se estas três sabedorias de modo correlativo conforme a luz que as determina e conforme seu [[lexico:o:objeto:start|objeto]] formal. Com a sabedoria infusa, julgamos por uma conaturalidade fundada no [[lexico:a:amor:start|amor]] de [[lexico:c:caridade:start|caridade]] que nos permite atingir Deus nele mesmo e segundo um modo de agir, ou melhor, de "padecer" supra-humano A sabedoria teológica está, como a precedente, sob o [[lexico:r:regime:start|regime]] da fé e tem igualmente por objeto Deus considerado nele mesmo: mas está fundada imediatamente sobre a revelação e seu modo de exercício é essencialmente [[lexico:r:racional:start|racional]]. Já a metafísica é puramente humana, não tendo outra luz senão a da nossa razão [[lexico:n:natural:start|natural]]; como o veremos, ela pretende também atingir Deus, princípio supremo das coisas, mas a título de causa e não mais a título de objeto diretamente apreendido. A [[lexico:e:especulacao:start|especulação]] cristã conhece ainda um outro emprego do termo sabedoria, na medida em que serve para designar um [[lexico:a:atributo:start|atributo]] essencial de Deus: a sabedoria transcendente que convém a Deus na sua [[lexico:n:natureza:start|natureza]] e que a teologia trinitária nos autoriza a atribuir pessoalmente ao [[lexico:f:filho:start|filho]]. Notemos que é nesta sabedoria, da qual retiram sua [[lexico:o:origem:start|origem]] comum, que as três sabedorias que iluminam hierarquicamente o espírito humano encontram seu princípio profundo de [[lexico:u:unidade:start|unidade]]. Para um homem, ser sábio é, fundamentalmente, participar, segundo os diversos modos progressivos que acabamos de definir, da própria [[lexico:v:visao-de-deus:start|visão de Deus]] sobre o mundo. Longe de se oporem, as três sabedorias do cristão se harmonizam e se aperfeiçoam mutuamente. Outras precisões devem ser feitas. Considerada no [[lexico:s:sujeito:start|sujeito]], a sabedoria é para Tomás de Aquino um habitus, ou uma virtude, isto é, uma [[lexico:p:perfeicao:start|perfeição]] da [[lexico:i:inteligencia:start|inteligência]] que a faz proceder no seu [[lexico:a:ato:start|ato]] com facilidade e exatidão. Sabe-se que, no peripatetismo, as [[lexico:v:virtudes:start|virtudes]] humanas se distinguem em virtudes morais, que aperfeiçoam as potências apetitivas, e em virtudes intelectuais, que aperfeiçoam a inteligência. Em continuidade com o [[lexico:p:pensamento:start|pensamento]] de Aristóteles ([[lexico:e:etica-a-nicomaco:start|Ética a Nicômaco]], l. 6), Tomás de Aquino distingue cinco espécies de virtudes intelectuais (Ia IIae, q. 57, a. 2), das quais três se referem ao [[lexico:i:intelecto:start|intelecto]] especulativo: a ciência, a inteligência e a sabedoria; e duas ao intelecto prático: a prudência e a arte. Resulta, portanto, que a sabedoria é um habitas do intelecto especulativo, ao lado dos habitus da inteligência e da ciência. Como ela se distingue destes? O verdadeiro, que é a perfeição própria do intelecto especulativo, pode ser considerado de duas maneiras: enquanto é conhecido [[lexico:p:por-si:start|por si]] mesmo, per se natum, ou enquanto é conhecido por um outro, [[lexico:p:per-aliud:start|per aliud]] natum. O que é conhecido por si tem [[lexico:v:valor:start|valor]] de princípio e é apreendido imediatamente pela inteligência que, para isto, é aperfeiçoada pelo habitus [[lexico:d:dito:start|dito]] do intellectus. O que é conhecido por um outro não pode evidentemente sê-lo senão a título de termo. Ora, isto pode se produzir de dois modos: ou trata-se do verdadeiro que tem valor de termo em um [[lexico:g:genero:start|gênero]] [[lexico:p:particular:start|particular]] de conhecimento, e neste caso a inteligência é aperfeiçoada pelo habitus da ciência; ou trata-se do verdadeiro enquanto este é termo último de todo conhecimento humano, e é aqui que intervém o habitus da sabedoria. A sabedoria é assim o habitus ou a [[lexico:q:qualidade:start|qualidade]] que aperfeiçoa o intelecto especulativo enquanto este visa obter um conhecimento absolutamente universal das coisas a partir dos princípios ou das mais elevadas razões. Segue-se desta definição que há, então, no domínio da ciência vários habitus, e que não se pode encontrar, sob uma mesma luz, senão uma só sabedoria. Esta doutrina exige alguns esclarecimentos. Pode-se distinguir de modo [[lexico:a:absoluto:start|absoluto]], como o fizemos, a sabedoria da ciência e da inteligência? Com [[lexico:e:efeito:start|efeito]], e isto é uma primeira dificuldade. A sabedoria que explica pelas causas não é ela mesma uma ciência? Sim, é preciso responder, se tomamos ciência no sentido mais extenso do termo; não, se lhe damos a significação restrita que acabamos de definir (Ia IIae, q. 57, a. 2, ad I). De outra parte, há lugar para se colocar ao lado da sabedoria e da ciência um habitus especial dos princípios (o intellectus para Tomás de Aquino), estando entendido que a sabedoria e a ciência devem conhecer estes mesmos princípios, uma vez que deduzem a partir deles? Deve-se responder que ao intellectus é reservada a [[lexico:a:apreensao:start|apreensão]] pura e [[lexico:i:independente:start|independente]] dos princípios, enquanto que os outros habitus especulativos os apreendem apenas nas suas [[lexico:r:relacoes:start|relações]] com as verdades que deles dependem. Mas, objetar-se-á, pelo fato de que parece tirar seus princípios do intellectus que os apreende neles mesmos, a sabedoria poderá ainda ser encarada como a virtude intelectual suprema? Sim, pois a sabedoria está, do [[lexico:p:ponto:start|ponto]] de vista dos princípios, em uma [[lexico:s:situacao:start|situação]] particular; o [[lexico:j:juizo:start|juízo]] superior ou a [[lexico:j:justificacao:start|justificação]] [[lexico:c:critica:start|crítica]] destes princípios cabe-lhe em todas as instâncias: ela é, em [[lexico:r:realidade:start|realidade]], ao mesmo [[lexico:t:tempo:start|tempo]], conhecimento das conclusões e apreciação dos princípios, e é devido a isto que ela está em definitivo acima do [[lexico:s:simples:start|simples]] intellectus (Ia IIae, q. 66, a. 5, ad 4) . Deve-se dizer que a sabedoria é puramente especulativa ou que também é prática? No [[lexico:u:uso:start|uso]] corrente um e outro destes aspectos, especulativo (conhecimento desinteressado), e prático (regulação da conduta), são juntamente atribuídos à sabedoria. Para Tomás de Aquino eis o que é conveniente reconhecer: a sabedoria, que se situa em regime de fé, é simultaneamente especulativa e prática: ordenação dos conhecimentos e ordenação da [[lexico:a:atividade:start|atividade]] humana. Isto é verdadeiro para o dom da sabedoria (Ia IIae, q. 45, a. 3), e isto deve ser igualmente afirmado da teologia que, embora principalmente especulativa, é também uma ciência prática (Ia, q. 1, a. 4). A metafísica, pelo contrário, deve ser colocada, segundo a [[lexico:t:tradicao:start|tradição]] aristotélica, entre os habitus puramente especulativos. O Estagirita alinhou-a sempre, com a [[lexico:f:fisica:start|física]] e a [[lexico:m:matematica:start|matemática]], no [[lexico:g:grupo:start|grupo]] das ciências teóricas, diferenciando-se estas das ciências práticas pelo seu fim (Metaf., VI, c. 1); como também ocupou-se sempre em assinalar o seu [[lexico:c:carater:start|caráter]] absolutamente desinteressado. A metafísica, sabedoria [[lexico:t:teoretica:start|teorética]] natural suprema, é pois uma ciência puramente especulativa e contemplativa. Os atos próprios da sabedoria. Dois tipos de atos intelectuais são continuamente conferidos por Tomás de Aquino à sabedoria: julgar e ordenar: Ad sapientem pertinet judicare et ordinare. O que se deve entender com esta [[lexico:f:formula:start|fórmula]]? O "juízo" de que se trata aqui não é um juízo qualquer, mas aquele que a inteligência emite, em última [[lexico:a:analise:start|análise]], à luz dos princípios supremos: é um juízo de valor ou de ordenação definitivo e absoluto, acima do qual não há mais nada a dizer. "Ordenar" é tomado originariamente em [[lexico:r:relacao:start|relação]] a um fio que, no caso da sabedoria, é evidentemente o fim supremo: relacionar tudo a Deus. Mas se este ato implica em toda sua plenitude uma ordenação efetiva, com intervenção das potências da ação, pode ser também conduzido à simples consideração intelectual da ordem existente. Existe, sem [[lexico:d:duvida:start|dúvida]], também neste caso, ordenação, mas somente para o espírito. E é neste sentido restrito que convém entender a atividade ordenadora da metafísica que é, nós o sabemos, puramente especulativa. Em todos os casos, é ao juízo e à ordenação suprema de Deus que se deve referir. Excelência da sabedoria. Para Tomás de Aquino, a excelência de uma virtude depende principalmente da perfeição do seu objeto. Portanto, a sabedoria, que considera a causa mais elevada de todas, Deus, e que julga todas as coisas a partir desta causa, é a mais excelente das virtudes. Deve-se aduzir que, em razão da superioridade do seu ponto de vista, a sabedoria tem uma função de juízo e de ordenação a exercer em relação às outras virtudes intelectuais, que se encontram assim subordinadas a ela (Ia IIae, q. 66, a. 5) . De nada adianta objetar (ibid., ad 3) que podemos ter um conhecimento mais [[lexico:p:perfeito:start|perfeito]] das coisas humanas do que das coisas divinas; é verdade, mas não é preferível conhecer poucas coisas das mais nobres, do que conhecer bastante das realidades inferiores? Aristóteles que não ignorou, ainda que este ponto tenha permanecido nele dentro de uma certa obscuridade, que a filosofia devia sua excelência à altura de seus princípios (ela é virtude divina e tem um objeto divino), compraz-se de preferência em fazer valer suas prerrogativas de [[lexico:l:liberdade:start|liberdade]]: "Assim como chamamos homem livre aquele que é para ele mesmo seu fim e não é o fim de um outro, assim esta ciência é também a única de todas as ciências que é livre, pois somente ela é seu próprio fim. É portanto, com boas razões, que se poderia estimar mais do que humana a [[lexico:p:posse:start|posse]] da filosofia" (Metaf., A, c. 2) . No sentido mais elevado da [[lexico:p:palavra:start|palavra]] e com toda a superioridade que isto lhe confere, o sábio é um homem livre. Considerando as coisas do ponto de vista do proveito que ela pode nos obter, Tomás de Aquino, no Contra Gentiles (I, c. 2) engrandece assim o [[lexico:e:estudo:start|estudo]] da sabedoria, "a mais perfeita de todas, pois quanto mais o homem se dá ao estudo da sabedoria, mais toma parte na [[lexico:b:beatitude:start|beatitude]] verdadeira... a mais [[lexico:s:sublime:start|sublime]]; pois é por ela, sobretudo, que o homem acede à [[lexico:s:semelhanca:start|semelhança]] com Deus que tudo fez com sabedoria (salmo 103, 24) . . . a mais [[lexico:u:util:start|útil]], pelo fato de que pela sabedoria chega-se ao reino da [[lexico:i:imortalidade:start|imortalidade]] . . . ou mais agradável pois seu comércio não possui amargor, nem sua comensalidade [[lexico:t:tristeza:start|tristeza]], mas satisfação e alegria (Sabedoria, VIII, 16)". Este elogio, onde desponta o [[lexico:e:entusiasmo:start|entusiasmo]] do Doutor angélico, não é evidentemente integral senão quanto à sabedoria submetida à revelação, mas pode ser aplicado, na devida proporção, à sabedoria metafísica, o mais excelente dos saberes propriamente humanos. {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}