===== RICKERT ===== Rickert retoma de [[lexico:w:windelband:start|Windelband]] a concepção da [[lexico:f:filosofia:start|Filosofia]] como [[lexico:t:teoria:start|teoria]] dos valores e, ao mesmo [[lexico:t:tempo:start|tempo]], os resultados mais válidos de sua [[lexico:i:investigacao:start|investigação]] metodológica. Entretanto, ele tenta sistematizar resultados semelhantes em concepção orgânica da [[lexico:t:teoria-do-conhecimento:start|teoria do conhecimento]] e procura fundar (ao invés de, mais ou menos simplesmente, registrar) a [[lexico:a:autonomia:start|autonomia]] do [[lexico:c:conhecimento:start|conhecimento]] [[lexico:h:historico:start|histórico]]. A [[lexico:o:orientacao:start|orientação]] [[lexico:s:sistematica:start|sistemática]] de Rickert já pode [[lexico:s:ser:start|ser]] claramente encontrada em seu [[lexico:t:trabalho:start|trabalho]] de 1892 intitulado O [[lexico:o:objeto:start|objeto]] do conhecimento, onde se analisa o tríplice [[lexico:s:significado:start|significado]] da [[lexico:a:antitese:start|antítese]] entre [[lexico:s:sujeito-e-objeto:start|sujeito e objeto]]: 1) como antítese entre a [[lexico:i:individualidade:start|individualidade]] psicofísica e o [[lexico:a:ambiente:start|ambiente]] que a circunda; 2) como antítese entre a [[lexico:c:consciencia:start|consciência]] e a [[lexico:r:realidade:start|realidade]] corpórea fora da consciência; 3) como antítese entre a pura [[lexico:a:atividade:start|atividade]] da consciência e os seus conteúdos. Para Rickert, a terceira antítese é a que conta. E a ela Rickert liga a [[lexico:c:critica:start|crítica]] à [[lexico:g:gnosiologia:start|gnosiologia]] de matriz realista, no [[lexico:s:sentido:start|sentido]] de que ele nega que o conhecimento seja a [[lexico:r:relacao:start|relação]] do [[lexico:s:sujeito:start|sujeito]] com um objeto [[lexico:t:transcendente:start|transcendente]], [[lexico:i:independente:start|independente]] dele e com o qual o conhecimento deve se defrontar. A [[lexico:r:representacao:start|representação]] e a [[lexico:c:coisa:start|coisa]] representada são ambos objetos e conteúdos de consciência. Por isso, a sua relação é a que existe entre dois objetos de [[lexico:p:pensamento:start|pensamento]]. Consequentemente, a [[lexico:g:garantia:start|garantia]] da [[lexico:v:validade:start|validade]] do conhecimento [[lexico:n:nao:start|não]] reside no ser, e sim no [[lexico:d:dever:start|dever]] ser. Conhecer quer dizer julgar, isto é, aceitar ou rejeitar, aprovar ou reprovar, o que implica no [[lexico:r:reconhecimento:start|reconhecimento]] de um dever ser que está na base do conhecimento. Negar o dever ser, isto é, a [[lexico:n:norma:start|norma]], equivaleria a ratificar a [[lexico:i:impossibilidade:start|impossibilidade]] de qualquer [[lexico:j:juizo:start|juízo]], inclusive daquele que nega. Um juízo não é [[lexico:v:verdadeiro:start|verdadeiro]] porque expressa aquilo que é; pode-se afirmar muito mais que algo é somente se o juízo que o expressa é verdadeiro por [[lexico:f:forca:start|força]] do seu dever ser. E o dever ser, isto é, os valores, ou seja, as normas, são transcendentes em relação a cada [[lexico:s:simples:start|simples]] consciência empírica. Quando se julga, o "juízo que [[lexico:e:eu:start|eu]] formulo, por mais que diga [[lexico:r:respeito:start|respeito]] a representações que vão e vêm, tem [[lexico:v:valor:start|valor]] duradouro, enquanto não poderia ser diferente daquilo que é. No [[lexico:m:momento:start|momento]] em que se julga, se pressupõe algo que vale eternamente". Para [[lexico:d:dilthey:start|Dilthey]], o sujeito do conhecer é o [[lexico:h:homem:start|homem]] como ser histórico. Já para Rickert é o sujeito [[lexico:t:transcendental:start|transcendental]], [[lexico:a:alem:start|além]] de qualquer [[lexico:c:condicionamento:start|condicionamento]] de [[lexico:e:espaco:start|espaço]] e de tempo; é a consciência em [[lexico:g:geral:start|geral]] (Bewusstsein überhaupt); "a pura atividade do conhecer, que se exerce além da [[lexico:s:subjetividade:start|subjetividade]] individual e das condições de [[lexico:f:fato:start|fato]] do [[lexico:p:processo:start|processo]] de [[lexico:p:pesquisa:start|pesquisa]]". E essa "consciência em geral" não é somente [[lexico:l:logica:start|lógica]], mas também [[lexico:e:etica:start|ética]] e [[lexico:e:estetica:start|estética]]. Desse [[lexico:m:modo:start|modo]], sendo os valores transcendentes às consciências individuais e sendo o sujeito do conhecimento entendido como sujeito transcendental, é óbvio que as investigações de Rickert, diferentemente das de Max [[lexico:w:weber:start|Weber]], se colocam em [[lexico:p:plano:start|plano]] que abstrai completamente as condições e os problemas efetivos dos processos de pesquisa, sejam estes científicos, sejam históricos. Segundo Rickert, a filosofia não tem em [[lexico:a:absoluto:start|absoluto]] a [[lexico:f:funcao:start|função]] de se interessar por tais problemas: ela deve muito mais cumprir a função de estabelecer de que modo as ciências generalizantes e as individualizantes encontram a garantia de sua validade [[lexico:u:universal:start|universal]] e necessária tendo em vista os valores que constituem seus [[lexico:p:principios:start|princípios]] a-priori e o seu [[lexico:f:fundamento:start|fundamento]]. Posteriormente, em 1921, no [[lexico:s:sistema:start|sistema]] de filosofia, Rickert apresenta sistematização de [[lexico:t:tipo:start|tipo]] escolástico da teoria dos valores. Ele distingue seis domínios do valor: 1) a lógica, que é o domínio do valor de [[lexico:v:verdade:start|verdade]]; 2) a estética, que é o domínio do valor de [[lexico:b:beleza:start|beleza]]; 3) a [[lexico:m:mistica:start|mística]], que é o domínio da [[lexico:s:santidade:start|santidade]] [[lexico:i:impessoal:start|impessoal]]; 4) a ética, que é o domínio da [[lexico:m:moralidade:start|moralidade]]; 5) a [[lexico:e:erotica:start|erótica]], que é o domínio da [[lexico:f:felicidade:start|felicidade]]; 6) a filosofia religiosa, que é o domínio da santidade [[lexico:p:pessoal:start|pessoal]]. E a cada um desses domínios ele faz corresponder um [[lexico:b:bem:start|Bem]] ([[lexico:c:ciencia:start|ciência]], [[lexico:a:arte:start|arte]], uno-todo, [[lexico:c:comunidade:start|comunidade]] livre, comunidade de [[lexico:a:amor:start|amor]], [[lexico:m:mundo:start|mundo]] [[lexico:d:divino:start|divino]]), uma relação ao sujeito (juízo, [[lexico:i:intuicao:start|intuição]], adoração, [[lexico:a:acao:start|ação]] autônoma, unificação, [[lexico:d:decisao:start|decisão]]) e determinada [[lexico:i:intuicao-do-mundo:start|intuição do mundo]] ([[lexico:i:intelectualismo:start|intelectualismo]], esteticismo, [[lexico:m:misticismo:start|misticismo]], [[lexico:m:moralismo:start|moralismo]], [[lexico:e:eudemonismo:start|eudemonismo]], [[lexico:t:teismo:start|teísmo]] ou [[lexico:p:politeismo:start|politeísmo]]). [[lexico:c:como-se:start|como se]] pode [[lexico:v:ver:start|ver]], todas essas classificações têm algo de artificioso, não constituindo certamente a [[lexico:p:parte:start|parte]] mais duradoura da filosofia de Rickert. São mais interessantes as obras que se colocam entre os dois pontos extremos rapidamente examinados. Esses trabalhos consistem essencialmente na elaboração das [[lexico:i:ideias:start|ideias]] de Windelband, ideias que Rickert procurou desenvolver, enquadrar ou, como dizia ele, fundamentar no quadro de sua filosofia sistemática dos valores. Em Os limites da [[lexico:f:formacao:start|formação]] dos [[lexico:c:conceitos:start|conceitos]] das ciênicas naturais (1806-1902), Rickert retoma de Windelband a [[lexico:d:distincao:start|distinção]] entre ciências [[lexico:n:nomoteticas:start|nomotéticas]] e ciências idiográficas. Mas, como já observamos, ele não se limita, como Windelband, a constatar a [[lexico:e:existencia:start|existência]] de dois grupos de disciplinas e a [[lexico:d:diversidade:start|diversidade]] de seus objetivos. Mais do que qualquer outra coisa, ele faz [[lexico:q:questao:start|questão]] de demonstrar a autonomia do conhecimento histórico e fazer ver a [[lexico:d:diferenca:start|diferença]] de [[lexico:e:estrutura:start|estrutura]] lógica implicada na diferença do tipo de elaboração conceituai das duas formas de conhecimento. O [[lexico:o:objetivo:start|objetivo]] da [[lexico:c:ciencia-natural:start|ciência natural]] está em estabelecer a uniformidade do [[lexico:r:real:start|real]]. Ela tende a traduzir a [[lexico:m:multiplicidade:start|multiplicidade]] do [[lexico:d:dado:start|dado]] [[lexico:e:empirico:start|empírico]] em conceitos gerais. Sua orientação é generalizante. E seu resultado é uma [[lexico:e:explicacao:start|explicação]] necessária da realidade, realizada por [[lexico:o:obra:start|obra]] de leis incondicionalmente válidas, nas quais os conceitos de coisa são gradualmente traduzidos em conceitos de [[lexico:r:relacoes:start|relações]]: em outros termos, nas quais os dados empíricos são traduzidos em traumas de puras relações formais. Para Rickert, como antes para Windelband, as ciências generalizantes dizem respeito tanto ao mundo [[lexico:f:fisico:start|físico]] como ao mundo [[lexico:p:psiquico:start|psíquico]]. A distinção entre ciências nomotéticas e ciências idiográficas, pelo menos no momento, é uma distinção metodológica realizada, através de uma orientação específica de elaboração conceituai. Por isso, escreve Rickert, "a [[lexico:n:natureza:start|natureza]] é a realidade em [[lexico:r:referencia:start|referência]] ao geral". A natureza não é conjunto delimitado de objetos ou eventos, mas a realidade inteira, estudada a [[lexico:f:fim:start|fim]] de se estabelecer as uniformidades gerais. [[lexico:a:agora:start|agora]], porém, afirma Rickert, as ciências da natureza ou ciências generalizantes deixam fora de si [[lexico:t:todo:start|todo]] o mundo da individualidade. Com [[lexico:e:efeito:start|efeito]], todo processo, corpóreo ou espiritual que seja, é [[lexico:i:individuo:start|indivíduo]], [[lexico:a:alguma-coisa:start|alguma coisa]] de [[lexico:u:unico:start|único]] e irrepetível, "isto é, alguma coisa que ocorre uma vez neste determinado [[lexico:l:lugar:start|lugar]] do espaço e do tempo, sendo diferente de qualquer [[lexico:o:outro:start|outro]] ser corpóreo ou espiritual". E é assim que a ciência [[lexico:n:natural:start|natural]], feita de leis gerais, encontra na individualidade única e irrepetível o seu [[lexico:l:limite:start|limite]]. Mas como poderemos, então, conhecer a realidade em sua individualidade? Há uma [[lexico:f:forma:start|forma]] de conhecimento, diferente do generalizante, capaz de captar as manifestações singulares e irrepetíveis da realidade? Eis como, precisamente dos limites em que se debate a ciência natural, surge a questão de se é [[lexico:p:possivel:start|possível]] uma forma diversa de conhecimento, capaz de captar a individualidade. Para Rickert, como antes para Windelband, [[lexico:e:esse:start|esse]] tipo diferente de conhecimento existe: é a [[lexico:h:historia:start|história]], que representa a "realidade não em referência ao geral, mas somente em referência ao [[lexico:p:particular:start|particular]], já que só o particular é que acontece realmente". Assim, estamos então raciocinando em nível puramente metodológico. A própria realidade "torna-se natureza quando considerada em referência ao geral, mas torna-se história quando, ao contrário, considerada em referência ao particular". Assim, a [[lexico:c:contraposicao:start|contraposição]] entre natureza e história perde sua [[lexico:c:conotacao:start|conotação]] objetivo-metafísica para se transformar em uma contraposição de tipo metodológico. A autonomia do conhecimento histórico é o [[lexico:p:problema:start|problema]] de fundo de Heinrich Rickert (1863-1936). Rickert retoma de Windelband a distinção entre ciência nomotéticas e ciências idiográficas (v. [[lexico:n:nomotetico-e-idiografico:start|nomotético e idiográfico]]), assim escrevendo em Os limites da formação dos conceitos científicos (1896-1902): "A mesma realidade torna-se natureza quando a consideramos em referência ao geral e torna-se história quando a consideramos em referência ao particular". Nesse [[lexico:p:ponto:start|ponto]], porém, surge um problema: nem todos os acontecimentos individuais suscitam o [[lexico:i:interesse:start|interesse]] do historiador, mas somente os que têm particular importância ou significado. O historiador deve escolher. Mas com base em que [[lexico:c:criterio:start|critério]] ele pode operar as suas escolhas? Para Rickert, o critério de [[lexico:e:escolha:start|escolha]] está na relação dos fatos individuais com o valor. E a relação com os valores que constitui a base da elaboração conceituai da história. Tudo o que não tem valor o historiador deixa-o. O que não significa que o historiador deve pronunciar juízos de valor sobre o que pesquisa, mas sim que ele reconstrói um [[lexico:a:acontecimento:start|acontecimento]] somente porque ele tem valor. "O [[lexico:c:conceito:start|conceito]] de individualidade histórica constitui-o os valores captados e feitos próprios pela [[lexico:c:civilizacao:start|civilização]] ao qual ele pertence. O procedimento histórico é contínua referência ao valor." Em [[lexico:s:suma:start|suma]], o conhecimento histórico encontra o seu fundamento em relação aos valores. Por isso, o objeto do conhecimento histórico é definido como Kultur ([[lexico:c:cultura:start|cultura]]) e os valores aos quais ele se refere são definidos como Kulturwerte (valores culturais). São esses os valores que o homem realiza no [[lexico:d:devir:start|devir]] histórico. No início de sua [[lexico:e:especulacao:start|especulação]], juntamente com Windelband, Rickert propusera uma teoria dos valores, estendidos, ao modo neocriticista, como princípios [[lexico:a:a-priori:start|a priori]] capazes de estabelecer a validade dos diversos âmbitos da atividade humana. Mas depois, abandonando progressivamente essa proposta, Rickert passou a interpretar os valores como necessários e absolutos, afirmando-os em nível de [[lexico:s:subsistencia:start|subsistência]] transcendente e atribuindo-lhes realidade [[lexico:m:metafisica:start|metafísica]] própria. Com isso, Rickert pretende se opor a toda forma de [[lexico:h:historicismo:start|historicismo]], que, para ele, [[lexico:n:nada:start|nada]] mais é que [[lexico:r:relativismo:start|relativismo]] e [[lexico:n:niilismo:start|niilismo]]. Nessa sua caminhada da consideração dos valores como referência normativa à [[lexico:i:ideia:start|ideia]] de valores absolutos existentes metafisicamente, Rickert envolveu também Windelband, que, por seu turno, fez questão de escrever: "A história como ciência, vale dizer, como ciência da cultura, não é (...) possível senão enquanto existem valores que têm [[lexico:d:dimensao:start|dimensão]] geral, que nos fornecem a [[lexico:r:razao:start|razão]] da escolha e da [[lexico:s:sintese:start|síntese]] dos fatos". A distinção entre ciências nomotéticas e ciências idiográficas (v. [[lexico:n:nomotetico:start|nomotético]] e idiográfico) e a [[lexico:r:referencia-aos-valores:start|referência aos valores]] dos fatos tomados em consideração pelo historiador são dois pontos destacados na [[lexico:m:metodologia:start|metodologia]] das ciências histórico-sociais. São ideias que, retomadas e devidamente corrigidas por Weber, pertencem hoje à parte mais sólida da metodologia da [[lexico:h:historiografia:start|historiografia]]. {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}