===== RENASCENÇA ===== A Renascença marca uma renovação e uma [[lexico:r:ruptura|ruptura]]; é [[lexico:c:costume|costume]] congratular-se por ambos estes fatos, mas o [[lexico:j:juizo|juízo]] merecia [[lexico:s:ser|ser]] mais ponderado. Nesse repúdio do passado havia em primeiro [[lexico:l:lugar|lugar]] ingratidão e muitas contribuições, muitos valores ainda vivos, muitos germes que apenas esperavam [[lexico:o:ocasiao|ocasião]] propícia para se desenvolver eram tratados com descaso; por [[lexico:o:outro|outro]] lado, os caminhos novos que se começava a trilhar estavam longe de oferecer segurança e os homens [[lexico:n:nao|não]] se apercebiam de que, procurando retificar a direção, falseavam-na em outro [[lexico:s:sentido|sentido]]. Não devemos imaginar, aliás, que essa renovação tenha sido integral e súbita; a [[lexico:h:historia|história]] não tem desses saltos. Muitos dados anteriores continuaram a ser utilizados e não assumiram imediatamente uma [[lexico:f:fisionomia|fisionomia]] diversa; não era a primeira nem a segunda vez que se verificava um [[lexico:r:retorno|retorno]] ao passado; aprendera-se a estimar a [[lexico:a:antiguidade|antiguidade]] e travara-se [[lexico:c:conhecimento|conhecimento]] com ela, um conhecimento bastante [[lexico:p:profundo|profundo]], se [[lexico:b:bem|Bem]] que ela fosse por vezes desfigurada. Não é da noite para o dia que nos tornamos [[lexico:h:humanistas|humanistas]] e houve um [[lexico:h:humanismo|humanismo]] antes do Humanismo; quer o [[lexico:t:termo|termo]] da [[lexico:e:evolucao|evolução]] fosse o [[lexico:r:racionalismo|racionalismo]], quer o [[lexico:a:ateismo|ateísmo]], as correntes naturalista e religiosa, anticlerical e cristã, que se escoavam, confundidas, durante a Idade Média, levaram mais [[lexico:t:tempo|tempo]] do que geralmente se supõe para separarem-se. Também é [[lexico:v:verdade|verdade]] que outros dias despontavam, com seus [[lexico:c:caracteres|caracteres]] próprios. Distinguiam-se por uma maneira de [[lexico:p:pensar|pensar]] bastante [[lexico:s:singular|singular]]. [[lexico:e:esse|esse]] [[lexico:p:pensamento|pensamento]] não só deixara de ser condicionado pela [[lexico:f:fe|fé]], mas abeberava-se em fontes que já não eram exclusivamente filosóficas. Eram o fruto de uma vasta [[lexico:c:cultura|cultura]] histórica ou filológica e do [[lexico:e:estado|Estado]] [[lexico:s:social|social]] da [[lexico:e:epoca|época]]. Assumia um [[lexico:c:carater|caráter]] literário ou mesmo [[lexico:a:artistico|artístico]] e sofria a [[lexico:i:influencia|influência]] dos [[lexico:c:costumes|costumes]] como das condições políticas; multiplicava-se em figuras diversas e pitorescas, mas não surge aí nenhum desses vastos painéis em que uma doutrina se organiza e se impõe durante um [[lexico:m:momento|momento]]. É digno de [[lexico:n:nota|nota]], com [[lexico:e:efeito|efeito]], que a [[lexico:f:filosofia|Filosofia]] da Renascença não comporte grandes sistemas como os que vimos desenvolver-se na filosofia antiga ou na medieval. Possui grandes pensadores, mormente pensadores curiosos, que mais valem [[lexico:p:por-si|por si]] mesmos, pelo seu [[lexico:t:temperamento|temperamento]], pelo seu [[lexico:g:genio|gênio]], do que pelas suas [[lexico:i:ideias|ideias]]; estas ideias, eles procuram utilizá-las em suas pesquisas, em seus conflitos, em sua [[lexico:a:arte|arte]] e mesmo em suas técnicas de preferência a reuni-las num [[lexico:c:corpo|corpo]] de doutrina. Temos aí, portanto, um estado de [[lexico:e:espirito|espírito]], um clima filosófico, mas não uma filosofia ou filosofias propriamente ditas. Trata-se menos de especular que de [[lexico:v:viver|viver]] e de uma certa maneira de encarar a [[lexico:v:vida|vida]]. Se quisermos [[lexico:a:agora|agora]] distinguir alguns traços gerais dessa [[lexico:a:atitude|atitude]] do [[lexico:h:homem|homem]] em face das [[lexico:c:coisas|coisas]] e em face de [[lexico:s:si-mesmo|si mesmo]], atitude realmente nova, notaremos em primeiro lugar um [[lexico:g:gosto|gosto]], uma [[lexico:p:paixao|paixão]], um [[lexico:e:entusiasmo|entusiasmo]] por essa vida e por exercícios do espírito que o período anterior evidentemente não conhecera. E não podemos deixar de assinalar um recuo do cristianismo, pelo menos do cristianismo ascético e [[lexico:m:mistico|místico]], isto é, do [[lexico:p:puro|puro]] e [[lexico:v:verdadeiro|verdadeiro]] cristianismo. Não é mais a fé que busca a [[lexico:i:inteligencia|inteligência]], mas a inteligência que procura [[lexico:e:explicar|explicar]] a fé e, não o conseguindo, consola-se depressa, antes de dispensá-la por completo, com o seu [[lexico:p:proprio|próprio]] [[lexico:j:jogo|jogo]] e com o deslumbramento de [[lexico:b:bens|bens]] que já não são os do [[lexico:c:ceu|céu]]. É certo que o livre curso [[lexico:a:aberto|aberto]] ao [[lexico:a:animal|animal]] [[lexico:h:humano|humano]] pela [[lexico:a:anarquia|anarquia]] [[lexico:p:politica|política]], o descobrimento de uma antiguidade revelada, agora, no seu conjunto e na [[lexico:p:perfeicao|perfeição]] da sua arte escultória como da sua [[lexico:l:literatura|literatura]], um [[lexico:m:mundo|mundo]] dilatado por viagens que pareciam antes insensatas, descobertas que abriam perspectivas fascinantes sobre a [[lexico:e:economia|economia]] da [[lexico:n:natureza|natureza]], foram [[lexico:c:causas|causas]] dessa [[lexico:m:mutacao|mutação]] do espírito, se bem convenha colocar no próprio espírito, na sua natureza e no seu [[lexico:m:misterio|mistério]], o [[lexico:p:principio|princípio]] das suas viravoltas e desvios. As consequências, todavia, foram decisivas e de um alcance muito maior do que se teria imaginado. O mais grave era a [[lexico:a:autonomia|autonomia]] proclamada pela inteligência e que a constituía juiz de tudo e de si mesma. Seus êxitos convidavam-na a todas as audácias. Através dos segredos da natureza esperava desvendar os do próprio [[lexico:d:deus|Deus]] e não previa que, ao desmontar a derradeira mola da [[lexico:m:mecanica|mecânica]] montada pelo Criador, aprenderia a passar sem ele e que, ofuscada pelas próprias luzes, ofuscada pela [[lexico:r:razao|razão]], pretenderia submeter a mesma fé ao seu império, antes de dispensá-la por completo. Assim se preparava o mundo [[lexico:m:moderno|moderno]] que, no termo e no excesso a que chegou, representa o grande divórcio entre o [[lexico:h:homem-e-deus|homem e Deus]]. 0 homem não tolerava mais [[lexico:l:limitacao|limitação]] ou constrangimento de [[lexico:o:ordem|ordem]] terrestre ou celeste, material ou espiritual. Fazia [[lexico:q:questao|questão]] de não reconhecer mais [[lexico:a:autoridade|autoridade]] alguma, quer no [[lexico:t:temporal|temporal]], quer no espiritual, e de não se impor nenhuma [[lexico:d:disciplina|disciplina]] que o tolhesse da gozar os seus prazeres ou lhes impedisse a livre expansão. O estado tornou-se uma [[lexico:t:tirania|tirania]] [[lexico:p:pessoal|pessoal]] ou uma tirania das facções e assumiu um caráter puramente laico; a autoridade, fosse qual fosse, podia ser [[lexico:o:objeto|objeto]] de [[lexico:d:discussao|discussão]]. A filosofia tendia a converter-se numa [[lexico:e:explicacao|explicação]] puramente [[lexico:r:racional|racional]] do mundo e a [[lexico:m:moral|moral]] a consistir apenas em impulsos e numa legislação, sem qualquer ligação com o outro mundo e sem nenhuma [[lexico:s:sancao|sanção]] de cima. Era, numa [[lexico:p:palavra|palavra]], o [[lexico:r:reino|reino]] do homem-rei, na [[lexico:e:expectativa|expectativa]] de tornar-se o reino do homem-deus. Notemos, no entanto, que estas coisas não eram ditas com tanta [[lexico:f:forca|força]] de [[lexico:e:expressao|expressão]] nem tão abertamente. Não havia absolutamente — repetimo-lo — pensador capaz de realizar uma [[lexico:s:sintese|síntese]] de conjunto, pouco [[lexico:p:possivel|possível]] aliás em [[lexico:m:meio|meio]] a tamanha variedade de temperamentos e diversidades de doutrinas: havia sobrevivencias de uma época recente e as potências assim solapadas eram ainda capazes de se defender com represálias temíveis. [[lexico:n:nada|nada]] parecia muito mudado, nem o pensamento que se manifestava em [[lexico:p:publico|público]] pretendia explicitamente transformar tudo. Os senhores do momento eram desconfiados, sabiam farejar o perigo e debelá-lo sem considerações. Era no [[lexico:s:silencio|silêncio]] dos gabinetes que os homens se abandonavam a uma reprovável embriaguez; não se confiavam senão a ouvidos complacentes e cúmplices; a essa aurora renascente misturava-se, sinistro, o ciarão das fogueiras. Mas o mundo estava em marcha, fosse ela qual fosse e, se não conduzia ao [[lexico:p:ponto|ponto]] visado, o pensamento empenhava-se num jogo em que esperava tudo ganhar, sem suspeitar que podia também perder tudo. (...) Já dissemos que o racionalismo, isto é, o [[lexico:s:sistema|sistema]] que consiste em limitar estritamente o homem ao âmbito da própria razão, da razão racionante, era o termo [[lexico:n:natural|natural]] do [[lexico:m:movimento|movimento]] renascentista. Não se creia, contudo, que esse racionalismo fosse o que hoje vemos; tal era a [[lexico:u:util|útil]] advertência que fazia Lucien Febvre no seu livro sobre a [[lexico:r:religiao|Religião]] de Rabelais, onde, embora se enganasse talvez sobre o fundo e na [[lexico:i:interpretacao|interpretação]], definia com bastante exatidão o estado [[lexico:p:provavel|provável]] dos [[lexico:e:espiritos|espíritos]]. A Renascença separa ou tende a separar a razão e a fé, mas ainda conserva a ambas, com maior ou menor sinceridade. Deixa todavia entrever e — com certos espíritos mais consequentes ou mais avançados — já mostra mesmo como a razão aprenderá a dispensar a fé e a passar da [[lexico:s:separacao|separação]] à [[lexico:n:negacao|negação]]. Já não são filósofos de profissão que encontramos agora, mas literatos — e que literatos! — moralistas, e os primeiros nomes que surgem naturalmente são os de Rabelais e Montaigne. Talvez esperem que vejamos neles, como muitos têm pretendido [[lexico:v:ver|ver]], racionalistas puros, cépticos e inimigos da religião que fingiam professar. Não nos limitaremos a essa [[lexico:v:visao|visão]] simplista e, em [[lexico:p:parte|parte]], ilusória. São lídimos representantes da Renascença e conservam também este traço [[lexico:c:caracteristico|característico]] de seu tempo: a [[lexico:c:coexistencia|coexistência]], na [[lexico:f:falta|falta]] da aliança, da razão e da fé. Tem-se falado, como dissemos, numa "religião" de Rabelais e revocado em [[lexico:d:duvida|dúvida]] o "cristianismo" de Montaigne. E se não possuímos do primeiro uma profissão de fé explícita, ouvimo-lo contudo [[lexico:f:falar|falar]] num Deus onipotente e boníssimo, em termos de um vigor e de uma solenidade grandiosos; e se o outro, na [[lexico:a:apologia|apologia]] de Raimundo de Sebonde, desbarata essa razão em que o seu autor pretendia apoiar-se, é para deixar à fé, exclusivamente, as coisas da fé; tem [[lexico:a:alem|além]] disso, aqui e acolá, sobretudo no capítulo "Das orações", passagens que chegam quase a raiar pelo [[lexico:m:misticismo|misticismo]]. Mas é verdade que com estes dois grandes escritores se afiava uma espada de dois gumes que devia tornar-se terrivelmente perigosa. A [[lexico:c:critica|crítica]] acerba e chocarreira com que Rabelais fustigava os costumes eclesiásticos e a maneira de pensar dos escolásticos infligia golpes sensíveis à própria igreja ou à sua filosofia, e era muito fácil levar o cepticismo [[lexico:u:universal|universal]] de Montaigne até o terreno em que êk se abstivera de entrar. O que não deixou aliás de ser feito. Charron, pode-se dizer, não é mais que um Montaigne descolorido, descarnado, e onde, por conseguinte, aparece melhor o jogo, o esqueleto racionalista. Mas a herança do [[lexico:m:mestre|mestre]] foi recolhida sobretudo por um bando mais audaz que ele teria desaprovado, o dos "libertinos", que, pelo [[lexico:f:fim|fim]] do século e no século seguinte, por sua conta e [[lexico:r:risco|risco]] — o qual às vezes era grande, pois estava em jogo a própria vida — limitavam a [[lexico:t:terra|Terra]] à terra, o espírito ao malabarismo do espírito, e não temiam concluir por um ateísmo integral. Numa [[lexico:t:tese|tese]] preciosa sobre a Libertinagem erudita na primeira metade do século XVII, René Pintard traçou a história desses homens de uma audácia a toda [[lexico:p:prova|prova]]. É justamente nesses anos tardios que se inicia o seu pleno [[lexico:d:desenvolvimento|desenvolvimento]]. Não houve, com efeito, verdadeiros racionalistas no [[lexico:c:comeco|começo]] do século precedente. Como adverte outro historiador do racionalismo, Henri Busson, nem Le Febvre de Étaples, nem Budé, nem [[lexico:e:erasmo|Erasmo]] o foram: "embora queiram reduzir a [[lexico:t:teologia|teologia]], embora a antiguidade os encante, nunca lhes acudiu à [[lexico:i:ideia|ideia]] construir um sistema de [[lexico:m:metafisica|metafísica]] ou de moral fora da religião"28. E, na verdade, é precisamente o [[lexico:f:fideismo|fideísmo]] que engendra esse movimento da inteligência, a separação da razão e da fé, para evitar o conflito entre ambas. Mas ninguém pensa ainda em se desvencilhar da fé. Os "libertinos" de René Pintard vão mais depressa e mais longe. São espírito de vária [[lexico:e:especie|espécie]], ora pessoas de bem, ora menos honestas, que harmonizam demasiadamente bem os seus atos com os seus [[lexico:p:principios|princípios]]; são "curiosos" cuja [[lexico:c:curiosidade|curiosidade]] nada deixa escapar. Vivem solitários no recesso dos seus gabinetes, onde se procuram e se reúnem em sociedades mais ou menos secretas. Encontramo-las em Paris e em Roma. Há o "gabinete Dupuy" — Pedro e Jaques Dupuy — ou "[[lexico:a:academia|Academia]] puteana", na Rua dos Poitevins, perto de Saint-André-des-Arts, mais [[lexico:t:tarde|Tarde]] Rua de la Harpe, e há os amigos de Horatius Tubero, pseudônimo sob o qual se abriga a famosa "tétrada" composta de Naudé, Elias Deodati, [[lexico:g:gassendi|Gassendi]] e La Mothe-le-Vayer. Tornaremos ainda a encontrar Gassendi. Pelo [[lexico:e:exemplo|exemplo]] que apresenta, e para vermos delinear-se um [[lexico:f:futuro|futuro]] temeroso, de-tenhamo-nos um [[lexico:i:instante|instante]] no [[lexico:u:ultimo|último]]. Francisco La Mothe-le-Vayer, parisiense, viveu de 1588 a 1672, aliás com muita [[lexico:d:distincao|distinção]] pois foi preceptor de Luís XIV e de seu irmão, o Duque de Orleans. Era, por natureza e por [[lexico:h:habito|hábito]], epicurista. "Os [[lexico:d:deuses|deuses]]", dizia ele, "me deram o ser, mas a filosofia me proporcionou o [[lexico:b:bem-estar|bem-estar]]." E sua divisa era esta [[lexico:m:maxima|máxima]] espanhola: De las cosas más seguras, la más segura es dudar. Era um programa completo, e não o eram menos os títulos de algumas de suas numerosas obras: Trinta e um problemas cépticos, Da pouca [[lexico:c:certeza|certeza]] que existe em história, e por fim os Cinco [[lexico:d:dialogos|diálogos]] jeitos à [[lexico:i:imitacao|imitação]] dos antigos, por Horatius Tubero, que se tornaram o livro de cabeceira dos seus amigos. Compôs também um Hexameron rústico que pode ainda divertir muito, mas pouco honestamente. Não deixava de se julgar e de se proclamar perfeitamente ortodoxo e jactava-se de inventar uma "céptica cristã" em que pretendia condenar "o [[lexico:s:saber|saber]] presunçoso dos dogmáticos e todas essas ciências vãs cujo Apóstolo nos metia tanto medo". Era realmente um discípulo de Montaigne, sem a [[lexico:g:graca|graça]] e a profundeza do mestre e sem nada que o pudesse deter ou desviar no declive a que o arrastava o [[lexico:m:metodo|método]]. O termo já se deixava descortinar. Manifestava-se nesses beaux esprits cuja "doutrina curiosa" o Pe. Garasse atacou, como também na lamentável aventura do infeliz Teófilo. O termo era Pierre [[lexico:b:bayle|Bayle]] e [[lexico:v:voltaire|Voltaire]], o maior dos "libertinos". Mas, por um [[lexico:c:caminho|caminho]] mais largo, a Renascença ia também desembocar na [[lexico:f:filosofia-moderna|filosofia moderna]].