===== RELAÇÃO ===== A relação assume importância decisiva na estruturação do [[lexico:m:mundo|mundo]]. Em todos os tempos os homens deram-se conta da profunda [[lexico:u:unidade|unidade]] existente no [[lexico:u:universo|universo]], a despeito de sua multiformidade. Alguns por essa [[lexico:f:forma|forma]] se deixaram encantar pela unidade, que a interpretaram como sendo a única [[lexico:r:realidade|realidade]], reduzindo a [[lexico:m:multiplicidade|multiplicidade]] a mera [[lexico:i:ilusao|ilusão]]; assim p. ex., [[lexico:p:parmenides|Parmênides]]. Contra [[lexico:s:semelhante|semelhante]] [[lexico:i:interpretacao|interpretação]], importa salvaguardar a realidade da multiplicidade, sem contudo menosprezar a unidade. Ambas as exigências são unidas no [[lexico:k:kosmos|kosmos]], que sobre [[lexico:s:si-mesmo|si mesmo]] se move, dos gregos, cosmos que a Idade Média aperfeiçoa, inserindo-o na [[lexico:o:ordem|ordem]] ("ordo") que se deve fundamentar em [[lexico:d:deus|Deus]]. Por esta forma, o mundo é concebido como [[lexico:p:pluralidade|pluralidade]] de seres que, reciprocamente vinculados por diversas [[lexico:r:relacoes|relações]], constituem "um" [[lexico:t:todo|todo]]; sem relação [[lexico:n:nao|não]] haveria unidade de ordem. Com esta as relações radicam na unidade absoluta de Deus, a qual encerra, unificado, tudo o que, repartido, mercê da [[lexico:p:participacao|participação]], constitui o edifício do mundo. Desta maneira, a unidade da [[lexico:c:criacao|criação]], baseada na relação, reflete a unidade absoluta da [[lexico:f:fonte|fonte]] originária. Mais exata é a relação do comportar-se (latim: habitudo, maneira de se haver, de se comportar) de um [[lexico:e:ente|ente]] relativamente a [[lexico:o:outro|outro]]. Fala-se também de proporção, todavia geralmente apenas no domínio matemático ou em casos afins. Uma relação supõe o sujeito-relacional, o termo-relacional e o fundamento-relacional; na relação de paternidade, o [[lexico:s:sujeito|sujeito]] é o pai; o [[lexico:t:termo|termo]], o [[lexico:f:filho|filho]]; e a [[lexico:g:geracao|geração]], o [[lexico:f:fundamento|fundamento]]. Há relações mútuas ou recíprocas e não-mútuas ou unilaterais; relações que, de ambos os lados, são da mesma [[lexico:e:especie|espécie]], e relações que são de espécie diferente (compare-se paternidade-filiação); relações, em que participam só dois [[lexico:e:elementos|elementos]] e relações em que participam vários elementos (p. ex., o conjunto de relações de um relógio). [[lexico:a:alem|Além]] disso, as relações diferem entre si por sua profundidade e [[lexico:d:duracao|duração]] (p. ex., a realização de uma compra em [[lexico:o:oposicao|oposição]] à [[lexico:u:uniao|união]] matrimonial); também resultam, em [[lexico:p:parte|parte]], da indigência (p. ex., na criança pequenina), em parte, da superabundante [[lexico:r:riqueza|riqueza]] (p. ex., o que sucedia com [[lexico:p:platao|Platão]] enquanto chefe da [[lexico:a:academia|Academia]]). Sumamente importante é a [[lexico:d:distincao|distinção]] entre relação [[lexico:t:transcendental|transcendental]] ou [[lexico:e:essencial|essencial]] e [[lexico:r:relacao-predicamental|relação predicamental]] ([[lexico:c:categorial|categorial]]) ou acidental. A primeira ultrapassa os limites de uma só [[lexico:c:categoria|categoria]] mas envolve-se a todas e entra também na [[lexico:c:constituicao|constituição]] essencial de seu sujeito (p. ex., relação entre os [[lexico:p:principios-do-ser|princípios do ser]] ([[lexico:p:principios|princípios]] do [[lexico:s:ser|ser]]), relação da criatura relativamente a Deus, do peixe relativamente à água). A segunda acresce, como ulterior [[lexico:d:determinacao|determinação]], ao sujeito já completo em sua constituição essencial e é uma categoria própria do [[lexico:a:acidente|acidente]] (p. ex., a relação de dependência não essencial). Além da relação [[lexico:r:real|real]], até aqui considerada, existe a relação [[lexico:l:logica|lógica]] (relatio rationis). Pertencem a esta [[lexico:c:classe|classe]] certos aspectos que em si não são relações, mas que nosso [[lexico:p:pensamento|pensamento]] considera como tais, porque, de contrário, não lograríamos concebê-los; tais relações são entes de [[lexico:r:razao|razão]] com fundamento na realidade (p. ex., a relação entre o [[lexico:c:conceito|conceito]] de espécie e os indivíduos reais, a [[lexico:i:identidade|identidade]] de uma [[lexico:c:coisa|coisa]] consigo mesma por nós pensada como relação). A estas relações lógicas dedicam-se primariamente a lógica e a [[lexico:l:logistica|logística]]. — Lötz. A relação é uma das [[lexico:c:categorias|categorias]] de [[lexico:a:aristoteles|Aristóteles]], o qual define o [[lexico:r:relativo|relativo]] como a [[lexico:r:referencia|referência]] de uma coisa à outra, do dobro ao terço, do excesso ao defeito, do medido à [[lexico:m:medida|medida]], do [[lexico:c:conhecimento|conhecimento]] à [[lexico:c:consciencia|consciência]], do [[lexico:s:sensivel|sensível]] à [[lexico:s:sensacao|sensação]]. Há, assim, relações numéricas determinadas e indeterminadas, mas também relações não numéricas, relações segundo a [[lexico:p:potencia|potência]] (relação do ativo ao [[lexico:p:passivo|passivo]]) e também segundo a [[lexico:p:privacao|privação]] da potência (o [[lexico:i:impossivel|impossível]], o invisível, etc). Os escolásticos desenvolveram a concepção aristotélica numa doutrina que, mantendo a acepção fundamental que tem a relação no [[lexico:d:dito|dito]] [[lexico:f:filosofo|filósofo]], pretende abarcar todos os modos de relação. A relação é examinada antes de tudo na lógica como um [[lexico:p:predicamento|predicamento]] e, nessa [[lexico:q:qualidade|qualidade]], é definida como a ordem de uma coisa relativamente a outra. A relação predicamental é, portanto, um acidente real relativamente referido a outra coisa, e requer a [[lexico:e:existencia|existência]] de um sujeito real e de um termo real diferente realmente do sujeito para que o ser da relação possa advir a [[lexico:m:modo|modo]] de inserção entre os termos. Na [[lexico:o:ontologia|ontologia]] examina-se a relação por [[lexico:m:meio|meio]] de funções sensivelmente parecidas às da lógica, mas com um [[lexico:s:sentido|sentido]] muito menos [[lexico:f:formal|formal]]. Quando a relação se afirma apenas da [[lexico:m:mente|mente]] trata-se de uma relação lógica; quando se diz do real, trata-se de uma relação [[lexico:o:ontologica|ontológica]]. Os escolásticos consideram a relação como qualquer coisa diferente de uma concepção arbitrária ou de um [[lexico:f:fenomeno|fenômeno]] real de índole meramente psicológica. Em contrapartida, o mesmo quando a relação continua a ser para [[lexico:k:kant|Kant]] uma categoria, é-o em sentido diferente. As categorias da relação, deduzidas dos juízos assim chamados (categóricos, hipotéticos, disjuntivos), são respectivamente a [[lexico:s:substancia|substância]] e o acidente, a [[lexico:c:causalidade|causalidade]] e a dependência, e a [[lexico:c:comunidade|comunidade]] ou [[lexico:r:reciprocidade|reciprocidade]] de [[lexico:a:acao|ação]] entre o [[lexico:a:agente|agente]] e o paciente. Já nestas definições ou concepções da relação pode advertir-se a [[lexico:i:implicacao|implicação]] dos elementos lógicos, gnoseológicos e ontológicos, que é frequente em toda a [[lexico:i:investigacao|investigação]] acerca das relações. A relação é estudada por Kant principalmente no seu [[lexico:a:aspecto|aspecto]] gnoseológico, mas não exclusivamente. O [[lexico:e:empirismo|empirismo]] radical, por seu lado, assinala que as relações que conecta m as experiências devem ser por sua vez relações experimentadas, de modo que qualquer espécie de relação experimentada deve ser considerada algo tão real como qualquer outro [[lexico:e:elemento|elemento]] do [[lexico:s:sistema|sistema]]. Assim, enquanto o empirismo tradicional deixa as [[lexico:c:coisas|coisas]] soltas, introduzindo como elementos de união operações como o [[lexico:h:habito|hábito]], o [[lexico:c:costume|costume]], a [[lexico:c:crenca|crença]], etc, e o [[lexico:r:racionalismo|racionalismo]] une as coisas mediante ficções metafísicas (substância, [[lexico:e:eu|eu]], categorias no sentido transcendental, etc), e o empirismo radical une-as na própria unidade da coisa e da relação, pelo que conjunções e separações são fenômenos coordenados. Noutras direções, o pensamento contemporâneo tem- se estudado a relação sobretudo dentro da ontologia do [[lexico:o:objeto|objeto]] [[lexico:i:ideal|ideal]]. O exame da relação com o objeto ideal não esgota todos os problemas que a [[lexico:q:questao|questão]] das relações na ontologia põe, visto que a relação se dá em todas as esferas dos objetos ou, pelo menos, tanto na [[lexico:e:esfera|esfera]] dos objetos ideais como na dos objetos reais. Esta [[lexico:p:presenca|presença]] da relação em ambas as ordens oferece já uma primeira grave dificuldade que conduz com frequência à confusão das instâncias reais com as [[lexico:i:ideias|ideias]], [[lexico:r:reducao|redução]] do real ao ideal no racionalismo; redução do ideal ao real [[lexico:p:psiquico|psíquico]] no empirismo [[lexico:p:psicologico|psicológico]], etc. se diz que a relação é um [[lexico:t:tema|tema]] da ontologia do objeto ideal, isso não significa que tenha de excluir-se a referência das relações à realidade mas tão pouco equivale a uma confusão das relações tal como o racionalismo e o empirismo a praticam em sentido inverso. Um dos problemas mais debatidos no que se refere às relações tem sido o de se estas são, [[lexico:c:como-se|como se]] tem dito, relações externas ou relações externas. Quando se concebem as relações como relações externas, supõe-se que as coisas relacionadas ou relacionáveis possuem uma realidade [[lexico:i:independente|independente]] das suas relações. As relações não afetam, portanto, fundamentalmente, as coisas relacionadas ou relacionáveis. Quando se concebem as relações como relações internas, em contrapartida, supõe-se que as coisas relacionadas ou relacionáveis não são independentes das suas relações; portanto, as relações são internas [[lexico:a:as-proprias-coisas|às próprias coisas]]. Assim, por [[lexico:e:exemplo|exemplo]], na [[lexico:t:teoria|teoria]] das relações externas as coisas são ontologicamente prévias às relações, as quais se sobrepõem às coisas, ordenando-as de certos modos. Na teoria das relações internas, em compensação, nenhuma coisa é prévia às suas relações, pois as relações constituem justamente a coisa. Na lógica não [[lexico:s:simbolica|simbólica]], a relação refere-se ao [[lexico:c:carater|caráter]] condicionado ou [[lexico:i:incondicionado|incondicionado]] dos enunciados (juízos ou proposições). Quando o [[lexico:e:enunciado|enunciado]] é incondicionado, temos as proposições categóricas, quando é condicionado, temos as proposições hipotéticas e disjuntiva.. Na [[lexico:c:classificacao|classificação]] tradicional da [[lexico:p:proposicao|proposição]], as proposições categóricas são um [[lexico:t:tipo|tipo]] das proposições [[lexico:s:simples|simples]]. As hipotéticas e disjuntivas são um tipo das proposições manifestamente compostas. Exemplo de proposições categóricas “se Antônio lê, aprenderá muito”; exemplo de proposição disjuntiva é: “Susana passa as férias na [[lexico:g:grecia|Grécia]] ou na Turquia”. Na lógica simbólica, o [[lexico:p:problema|problema]] das relações tem sido tratado de forma mais complexa, o que quer dizer, neste caso, mais rica e subtil. As relações exprimem-se por meio de esquemas de [[lexico:q:quantificacao|quantificação]]. E assim como há uma [[lexico:a:algebra|álgebra]] de classes, há uma álgebra de relações.. Entre as operações fundamentais desta álgebra figuram a inclusão, a identidade, a [[lexico:s:suma|suma]] (lógica), o [[lexico:p:produto|produto]] ([[lexico:l:logico|lógico]]) e a [[lexico:n:nocao|noção]] de complemento.