===== REDUÇÃO EIDÉTICA ===== Para alcançar seu [[lexico:o:objeto|objeto]] [[lexico:p:proprio|próprio]], o [[lexico:e:eidos|eidos]], a [[lexico:f:fenomenologia|fenomenologia]] deve praticar [[lexico:n:nao|não]] a [[lexico:d:duvida|dúvida]] cartesiana, mas uma [[lexico:s:suspensao-do-juizo|suspensão do juízo]] que Husseel denomina epoché. Quer isto dizer que a fenomenologia "coloca entre parêntesis" certos [[lexico:e:elementos|elementos]] do [[lexico:d:dado|dado]] e se desinteressa deles. Importa distinguir várias espécies destas reduções. Em primeiro [[lexico:l:lugar|lugar]], a epoché prescinde de todas as doutrinas filosóficas; ao fenomenólogo não interessam as opiniões alheias; ele investe contra as próprias [[lexico:c:coisas|coisas]]. Após esta eliminação preparatória, temos a [[lexico:r:reducao-eidetica|redução eidética]], mediante a qual a [[lexico:e:existencia|existência]] individual do objeto estudado "é colocada entre parêntesis" e eliminada, porque à fenomenologia não interessa senão a [[lexico:e:essencia|essência]]. Eliminando a [[lexico:i:individualidade|individualidade]] e a existência, eliminam-se igualmente todas as ciências da [[lexico:n:natureza|natureza]] e do [[lexico:e:espirito|espírito]], suas observações de fatos não menos que suas generalizações. O próprio [[lexico:d:deus|Deus]], enquanto [[lexico:f:fundamento|fundamento]] do [[lexico:s:ser|ser]], deve ser eliminado. Também a [[lexico:l:logica|lógica]] e as demais ciências eidéticas ficam submetidas à mesma [[lexico:c:condicao|condição]]: a fenomenologia considera a essência pura e põe de lado todas as outras fontes de informação. À [[lexico:r:reducao|redução]] [[lexico:e:eidetica|eidética]] acrescenta [[lexico:h:husserl|Husserl]], em suas obras posteriores, o que ele chama a redução [[lexico:t:transcendental|transcendental]]. Esta consiste em [[lexico:p:por|pôr]] entre parêntesis não só a existência, senão tudo o que não é correlato da [[lexico:c:consciencia|consciência]] pura. Como resultado desta última redução, [[lexico:n:nada|nada]] mais resta do objeto [[lexico:a:alem|além]] do que é dado ao [[lexico:s:sujeito|sujeito]]. Para [[lexico:b:bem|Bem]] [[lexico:c:compreender|compreender]] a [[lexico:t:teoria|teoria]] da redução transcendental, é [[lexico:n:necessario|necessário]] que examinemos [[lexico:a:agora|agora]] a doutrina da [[lexico:i:intencionalidade|intencionalidade]], que lhe serve de base. A inspiração cartesiana surge em A [[lexico:i:ideia-da-fenomenologia|Ideia da Fenomenologia]] (1907) que se fará sentir nas Ideen I e, ainda, mas num [[lexico:g:grau|grau]] menor, nas Meditações Cartesianas. O sujeito cartesiano resultante das operações da dúvida e do [[lexico:c:cogito|cogito]] é um sujeito [[lexico:c:concreto|concreto]], vivencial, não um quadro [[lexico:a:abstrato|abstrato]]. Simultaneamente, [[lexico:e:esse|esse]] sujeito é um [[lexico:a:absoluto|absoluto]] pois tal é o [[lexico:s:sentido|sentido]] [[lexico:v:verdadeiro|verdadeiro]] das duas primeiras meditações: ele se basta a [[lexico:s:si-mesmo|si mesmo]], não tem [[lexico:n:necessidade|necessidade]] de nada para fundar seu ser. A [[lexico:p:percepcao|percepção]] que esse sujeito possui de si mesmo "é e se mantém enquanto dura um absoluto, um "este", algo que é, em si, [[lexico:o:o-que-e|o que é]], algo que me permite medir, como última [[lexico:m:medida|medida]], o que "ser" e "ser dado" pode e deve significar" ([[lexico:i:ideia|ideia]] da Fenomenologia). A [[lexico:i:intuicao|intuição]] do [[lexico:v:vivido|vivido]] [[lexico:p:por-si|por si]] mesmo constitui o [[lexico:m:modelo|modelo]] de toda [[lexico:e:evidencia|evidência]] originária. E nas Ideen I Husserl vai refazer o [[lexico:m:movimento|movimento]] cartesiano a partir do [[lexico:m:mundo|mundo]] percebido ou mundo [[lexico:n:natural|natural]]. Nada há de espantoso nesse "deslize" do [[lexico:p:plano|plano]] [[lexico:l:logico|lógico]] ao plano natural.- ambos são "mundanos" e o objeto em [[lexico:g:geral|geral]] é tanto [[lexico:c:coisa|coisa]] como [[lexico:c:conceito|conceito]]. Não exis+e um deslize propriamente [[lexico:d:dito|dito]] mas uma acentuação e é indispensável compreender corretamente que a redução se aplica em geral a toda [[lexico:t:transcendencia|transcendência]] (isto é a [[lexico:t:todo|todo]] em si). A [[lexico:a:atitude-natural|atitude natural]] contém uma [[lexico:t:tese|tese]] ou [[lexico:p:posicao|posição]] implícita pela qual [[lexico:e:eu|eu]] encontro aqui o mundo e o aceito como existente. "As coisas corporais aí estão simplesmente para mim com uma [[lexico:d:distribuicao|distribuição]] espacial qualquer; elas estão "presentes" no sentido literal ou figurado de [[lexico:a:acordo|acordo]] com a [[lexico:a:atencao|atenção]] especial que lhes confiro... Os seres animados igualmente, tais como os homens, aí estão para mim de maneira imediata... Para mim os objetos reais estão ali, portadores de [[lexico:d:determinacao|determinação]], mais ou menos conhecidos, fazendo [[lexico:c:corpo|corpo]] com os objetos percebidos efetivamente, sem serem eles mesmos percebidos, nem mesmo presentes de [[lexico:m:modo|modo]] intuitivo... Mas o conjunto desses objetos co-presentes à intuição de maneira clara ou obscura, distinta ou confusa, e que cobre constantemente o [[lexico:c:campo|campo]] [[lexico:a:atual|atual]] da percepção, não esgota sequer o mundo que para mim está "ali" de [[lexico:f:forma|forma]] [[lexico:c:consciente|consciente]] a cada [[lexico:i:instante|instante]] que estou desperto. Pelo contrário, ele se estende sem limites segundo uma [[lexico:o:ordem|ordem]] fixa de seres, ele é de um lado atravessado, de [[lexico:o:outro|outro]] circundado por um [[lexico:h:horizonte|horizonte]] abscuramente consciente de [[lexico:r:realidade|realidade]] indeterminada... Este horizonte brumoso incapaz para sempre de uma total determinação está necessariamente ali... O mundo... tem seu horizonte [[lexico:t:temporal|temporal]] [[lexico:i:infinito|infinito]] nos dois sentidos, seu passado e seu [[lexico:f:futuro|futuro]], conhecidos e desconhecidos, imediatamente vividos e privados de [[lexico:v:vida|vida]]. "Enfim este mundo não é somente mundo de coisa, mas segundo a própria imediatez, mundo de valores, mundo de [[lexico:b:bens|bens]], mundo [[lexico:p:pratico|prático]]" (Ideen, 48-50). Mas esse mundo contém igualmente um âmbito [[lexico:i:ideal|ideal]]: se me dedico presentemente à [[lexico:a:aritmetica|aritmética]] esse mundo aritmético está ali para mim, diferente da realidade natural na medida em que ele só está ali para mim enquanto tomo a [[lexico:a:atitude|atitude]] do matemático, ao passo que a realidade natural sempre está ali. Enfim, o mundo natural é também o mundo da inter-subjetividade. A tese natural, contida implicitamente na atitude natural, é aquilo que permite que eu "descubra (a realidade) como existente e a acolha, como ela se dá a mim, igualmente existente" (Ideen, 52-53). É evidente que posso pôr em dúvida os dados do mundo natural, recusar as informações que dele recebo, distinguir por [[lexico:e:exemplo|exemplo]] aquilo que é "[[lexico:r:real|real]] do que é "[[lexico:i:ilusao|ilusão]]" etc. Mas essa dúvida "não altera nada na posição geral da atitude natural" (ibid.); ela nos faz aceder a uma [[lexico:a:apreensao|apreensão]] desse mundo existente mais "adequada", mais "rigorosa" do que a que nos dá a percepção imediata, funda a [[lexico:s:superacao|superação]] do perceber pelo [[lexico:s:saber-cientifico|saber científico]], mas nesse [[lexico:s:saber|saber]] a tese intrínseca à atitude natural se conserva, pois não há [[lexico:c:ciencia|ciência]] que não postule a existência do mundo real do qual é ciência. Esta alusão às duas primeiras meditações de [[lexico:d:descartes|Descartes]] exprime que nem bem o [[lexico:r:radicalismo|radicalismo]] cartesiano foi retomado e Husserl denuncia sua insuficiência: a dúvida cartesiana relativa à coisa natural (pedaço de cera) continua sendo em si mesma uma atitude mundana, sendo tão-somente uma modificação dessa atitude sem corresponder portanto à exigência profunda de radicalidade. [[lexico:p:prova|prova]] disso será dada nas Meditações Cartesianas em que Husserl denuncia o [[lexico:p:pressuposto|pressuposto]] geométrico pelo qual Descartes assimila o cogito a um [[lexico:a:axioma|axioma]] do saber em geral, quando o cogito deve ser muito mais, uma vez que ele é o fundamento dos próprios axiomas; esse pressuposto geométrico revela a insuficiência da dúvida como [[lexico:p:processo|processo]] de radicalização. À dúvida é preciso, portanto, opor uma atitude pela qual eu não íomo posição em [[lexico:r:relacao|relação]] ao mundo como existente ainda que essa posição seja [[lexico:a:afirmacao|afirmação]] natural de existência ou dúvida cartesiana, etc. É claro que eu, como sujeito [[lexico:e:empirico|empírico]] e concreto, continuo a participar da posição natural do mundo, "esta tese continua a ser algo de vivido", mas, não faço dela nenhum [[lexico:u:uso|uso]]. Fica suspensa, fora de [[lexico:j:jogo|jogo]], fora de circuito, entre [[lexico:p:parenteses|parênteses]]; e por essa "redução" (epoqué) o mundo circundante não é mais simplesmente existente, mas "[[lexico:f:fenomeno|fenômeno]] de existência" (Meditações Cartesianas)