===== RECUSA ===== Se, de chofre e à queima-roupa, me desfechassem a mais preocupante, a mais inquietante de todas as questões: «Que é o [[lexico:h:homem|homem]]?», creio que responderia com desassombro e sem hesitação: «O homem é o [[lexico:a:animal|animal]] que se recusa a aceitar o que gratuitamente lhe deram e gratuitamente lhe dão.» [[lexico:n:nao|Não]] me perguntem [[lexico:a:agora|agora]] [[lexico:q:quem|quem]] dá o que o homem recusa. Só importa a recusa da gratuidade. O homem se lhe recusa; o homem é a própria recusa, antes de [[lexico:s:ser|ser]] o asno o que quer que seja ou o que quer que venha a ser. Pelo menos, ao que me parece, é esta a que está antes de qualquer outra [[lexico:d:determinacao|determinação]] do homem, de todas as suas possíveis ou realizadas determinações. Que dela decorrem, uma a uma, todas as demais — as que se nos deparam em todos os livros de [[lexico:a:antropologia|antropologia]] e de [[lexico:h:historia|história]] que se leiam da única maneira de ler, as que se nos oferecem através de uma [[lexico:l:leitura|leitura]] interrogante. A Recusa está no fundo do [[lexico:a:abismo|abismo]] sem fundo, aonde tentamos descer, em busca do ser-origem do homem, que mora na intimidade de qualquer dos homens. No entanto, se falamos absurdamente do «fundo de um abismo sem fundo», é porque queremos deixar em [[lexico:a:aberto|aberto]] a [[lexico:q:questao|questão]] de averiguar se a tal Recusa está efetivamente no término (ou no início) do [[lexico:p:pensar|pensar]] o ser do homem. Talvez mais, muito mais e mais [[lexico:a:alem|além]] houvesse que perguntar; que perguntar, sobretudo, haveria se este pensar não tem que descer ao [[lexico:l:limite|limite]] do pensável, ao liminar do impensável, e que transpô-lo decididamente, ou se não haverá que deter-nos no [[lexico:m:meio|meio]] da escarpa, da escarpa que não tem «meio» se o abismo não tem «fundo». Mas para baixo do meio — que o seja ou não seja — há o [[lexico:m:mito|mito]]: Adão recusou-se a prosseguir vivendo no Paraíso. Não importa que não seja esta a letra exata do [[lexico:r:relato|relato]] [[lexico:m:mitico|mítico]]: tudo veio a passar-se [[lexico:c:como-se|como se]] assim fosse. Aqui, a [[lexico:r:referencia|referência]] ao Primeiro Homem faz-se só [[lexico:m:modo|modo]] de apontar para o que do homem parece [[lexico:c:caracteristica|característica]] primeira, e [[lexico:s:semelhante|semelhante]] característica mostra-se-nos como [[lexico:i:ilusao|ilusão]] de um orgulhoso triunfo sobre o Exílio. A Recusa do Paraíso é, pois, a versão já humana do [[lexico:p:proprio|próprio]] acontecer [[lexico:h:humano|humano]], a primeira [[lexico:a:afirmacao|afirmação]] do homem, que é um querer firmar-se ele em [[lexico:s:si-mesmo|si mesmo]]. [EudoroMito:27-28] (in. Great refusal; fr. Grand refus; it. Gran rifiutó). É a recusa da [[lexico:r:realidade|realidade]] em favor da [[lexico:i:imaginacao|imaginação]] e das possibilidades que ela desvenda em [[lexico:a:arte|arte]]. Essa [[lexico:e:expressao|expressão]] foi empregada com [[lexico:e:esse|esse]] [[lexico:s:sentido|sentido]] por André Breton no primeiro manifesto dos surrealistas (1924) (Les manifestes du surréalisme, 1946). Foi adotada por H. [[lexico:m:marcuse|Marcuse]] para indicar "o protesto contra a [[lexico:r:repressao|repressão]] supérflua, a [[lexico:l:luta|luta]] pela [[lexico:f:forma|forma]] definitiva de [[lexico:l:liberdade|liberdade]]: [[lexico:v:viver|viver]] sem [[lexico:a:angustia|angústia]]" ([[lexico:e:eros|Eros]] and Civilization, 1954, cap. VII). V. [[lexico:u:utopia|utopia]].