===== REALIDADE ===== (in. Reality; fr. Réalité; al. Realitut, Wirklichkeit; it. Realtà). 1. Em seu [[lexico:s:significado:start|significado]] [[lexico:p:proprio:start|próprio]] e específico, [[lexico:e:esse:start|esse]] [[lexico:t:termo:start|termo]] indica o [[lexico:m:modo:start|modo]] de [[lexico:s:ser:start|ser]] das [[lexico:c:coisas:start|coisas]] existentes fora da [[lexico:m:mente:start|mente]] humana ou independentemente dela. A [[lexico:p:palavra:start|palavra]] realitas foi cunhada no [[lexico:f:fim:start|fim]] da [[lexico:e:escolastica:start|escolástica]], mais precisamente por Duns Scot. Este a usou sobretudo para definir a [[lexico:i:individualidade:start|individualidade]], que consistiria na "última realidade do [[lexico:e:ente:start|ente]]", que determina e contrai a [[lexico:n:natureza:start|natureza]] comum ad esse hanc rem, à [[lexico:c:coisa:start|coisa]] [[lexico:s:singular:start|singular]] (Op. Ox, II, d. 3, q. 5, n. 1). Duns e seus discípulos preferiram chamar essa realitas de haecceitas. Mais [[lexico:t:tarde:start|Tarde]], esse termo passaria a designar o esse in re da escolástica, p. ex. no [[lexico:s:sentido:start|sentido]] com que S. Anselmo pretendia passar, através da [[lexico:p:prova-ontologica:start|prova ontológica]], do esse in intellectu ("Ente [[lexico:s:superior:start|superior]] a tudo") ao seu "esse in re" (Prosl. 2), ou então no sentido com que os escolásticos falavam do [[lexico:u:universal:start|universal]] in re, "incorporado nas coisas". Assim, o oposto de realidade é [[lexico:i:idealidade:start|idealidade]], que indica o modo de ser daquilo que está na mente e [[lexico:n:nao:start|não]] pode ser ou ainda não foi incorporado ou atualizado nas coisas. A [[lexico:r:referencia:start|referência]] a coisas também evidente está em expressões como "[[lexico:d:definicao:start|definição]] [[lexico:r:real:start|real]]", para indicar a definição da coisa, e não do [[lexico:n:nome:start|nome]], e "direitos reais", para indicar os direitos pertinentes às coisas, e não às pessoas. O [[lexico:p:problema:start|problema]] suscitado diretamente pela [[lexico:n:nocao:start|noção]] de realidade é o da [[lexico:e:existencia:start|existência]] das coisas ou do "[[lexico:m:mundo:start|mundo]] [[lexico:e:exterior:start|exterior]]". Esse problema nasceu com [[lexico:d:descartes:start|Descartes]], ou seja, com o [[lexico:p:principio:start|princípio]] cartesiano de que o [[lexico:o:objeto:start|objeto]] do [[lexico:c:conhecimento:start|conhecimento]] [[lexico:h:humano:start|humano]] é somente a [[lexico:i:ideia:start|ideia]]. Desse [[lexico:p:ponto:start|ponto]] de vista, torna-se imediatamente duvidosa a existência da realidade a que a ideia parece aludir, mas sem provas, assim como uma pintura não [[lexico:p:prova:start|prova]] a realidade da coisa representada. Para justificar a realidade das coisas, Descartes recorreu à veridicidade de [[lexico:d:deus:start|Deus]]: em sua [[lexico:p:perfeicao:start|perfeição]], Deus não pode enganar-nos, não pode permitir que haja em nós [[lexico:i:ideias:start|ideias]] que [[lexico:n:nada:start|nada]] representem (Méd., IV). Mas Descartes chegou à [[lexico:e:existencia-de-deus:start|existência de Deus]] não só reelaborando a prova [[lexico:o:ontologica:start|ontológica]] como também admitindo o princípio de que "na [[lexico:c:causa:start|causa]] eficiente e total deve haver pelo menos tanta realidade quanto no [[lexico:e:efeito:start|efeito]]", princípio com base no qual a [[lexico:i:ideia-de-deus:start|ideia de Deus]], que é a ideia da [[lexico:m:maxima:start|máxima]] perfeição, deve [[lexico:t:ter:start|ter]] como causa um ser que tenha tanta "realidade" quanto aquela que a ideia representa: Deus (Ibid., III). A [[lexico:e:evolucao:start|evolução]] ulterior do problema levou à [[lexico:n:negacao:start|negação]] da realidade. O [[lexico:e:empirismo-ingles:start|empirismo inglês]], com [[lexico:b:berkeley:start|Berkeley]] e [[lexico:h:hume:start|Hume]], reduzia a realidade das coisas ao ser percebido, negando-a, pois, como modo de ser autônomo. Por [[lexico:o:outro:start|outro]] lado, com [[lexico:l:leibniz:start|Leibniz]], o [[lexico:r:racionalismo:start|racionalismo]] resolvia as coisas em [[lexico:e:elementos:start|elementos]] ou átomos ([[lexico:m:monadas:start|mônadas]]) de natureza espiritual, negando, também desse modo, o [[lexico:c:carater:start|caráter]] específico de sua realidade (v. [[lexico:i:imaterialismo:start|imaterialismo]]). [[lexico:k:kant:start|Kant]] de algum modo reafirmou a realidade das coisas, mantendo na palavra realidade (Realität) a [[lexico:s:significacao:start|significação]] específica de realidade das coisas ou, como ele mesmo diz, "coisalidade" (Sachheit) ([[lexico:c:critica-da-razao-pura:start|Crítica da Razão Pura]], [[lexico:a:analitica:start|Analítica]], II, cap. I), contrapondo-lhe a "idealidade" do [[lexico:e:espaco:start|espaço]] e do [[lexico:t:tempo:start|tempo]], que são formas da [[lexico:i:intuicao:start|intuição]], e não das coisas (Ibid., § 3). Mas, para ele, o problema diz [[lexico:r:respeito:start|respeito]] à existência ([[lexico:d:dasein:start|Dasein]]) mesma das coisas. É o que ele examina em "[[lexico:r:refutacao:start|Refutação]] do [[lexico:i:idealismo:start|Idealismo]]". A solução então proposta é que "a [[lexico:c:consciencia:start|consciência]] de minha própria existência é ao mesmo tempo consciência da existência de outras coisas fora de mim". A prova dessa [[lexico:a:assercao:start|asserção]] é que a consciência do tempo, isto é, da [[lexico:m:mudanca:start|mudança]], não seria [[lexico:p:possivel:start|possível]] sem a consciência de algo permanente; e esse algo permanente, não podendo ser [[lexico:d:dado:start|dado]] pela própria consciência do tempo, pode ser dado apenas pela coisa exterior à consciência. Seja válida ou não essa [[lexico:d:demonstracao:start|demonstração]], está claro que, por um lado, Kant julgava válido o [[lexico:p:primado:start|primado]] da consciência estabelecido por Descartes, para [[lexico:q:quem:start|quem]] a realidade das coisas é um problema que exige demonstração, e, por outro, tendia a destruir essa formulação, relacionando a consciência da existência com a existência das coisas. Ele nem sequer se propunha o problema do modo de ser específico das coisas, do [[lexico:t:tipo:start|tipo]] de existência que lhes é próprio. Contudo, esse problema está intimamente ligado ao da "existência" das coisas, e só uma resposta a ele (seja ela qual for) pode dar significado à sua solução positiva. Isto porque, se as coisas existem, surge imediatamente a [[lexico:p:pergunta:start|pergunta]]: qual é o sentido de sua existência? Portanto, deve-se considerar que o problema da realidade é [[lexico:c:composto:start|composto]] por esses dois problemas inseparáveis: o da existência e o do modo de ser específico das coisas. O idealismo [[lexico:p:pos-kantiano:start|pós-kantiano]] deteve-se mais no segundo que no primeiro desses problemas. Segundo [[lexico:f:fichte:start|Fichte]], a realidade consiste em [[lexico:g:geral:start|geral]] na [[lexico:a:atividade:start|atividade]] do [[lexico:e:eu:start|eu]], que "põe o objeto limitando-se" e transporta para o objeto uma [[lexico:p:parte:start|parte]] de sua atividade. "A [[lexico:f:fonte:start|fonte]] da realidade (Realität) é o Eu" — diz Fichte. "Apenas pelo Eu e com o Eu é dado o [[lexico:c:conceito:start|conceito]] da realidade. Mas o Eu é porque se põe, e se põe porque é. Portanto, pôr-se e ser são uma e mesma coisa. Mas o conceito de pôr-se e o de atividade em geral são, por sua vez, uma só e mesma coisa. Portanto, toda realidade é ativa e toda coisa ativa é realidade" (Wissenschaftslehre, § 4, E). Essa ideia de realidade como atividade passou a fazer parte da bagagem do [[lexico:r:romantismo:start|Romantismo]] e influenciou o [[lexico:d:desenvolvimento:start|desenvolvimento]] posterior do problema. "Atividade é realidade propriamente dita" — dizia Novalis (Fragmente, 190). [[lexico:s:schopenhauer:start|Schopenhauer]] afirmava categoricamente "que a [[lexico:e:essencia:start|essência]] dos objetos intuíveis é a sua [[lexico:a:acao:start|ação]] —, que é na ação que consiste a realidade do objeto, e que a pretensão de uma existência do objeto fora da [[lexico:r:representacao:start|representação]] do [[lexico:s:sujeito:start|sujeito]] e mesmo de uma essência da coisa real diferente da sua ação não tem sentido; ao contrário, é uma [[lexico:c:contradicao:start|contradição]]" (Die Welt, I, § 5). [[lexico:c:como-se:start|como se]] vê, na [[lexico:o:origem:start|origem]] da [[lexico:r:reducao:start|redução]] de realidade a atividade está um sentido idealista. Todavia, ela serviu para abrir uma nova [[lexico:a:alternativa:start|alternativa]] de solução para o problema: a realidade não seria [[lexico:s:simples:start|simples]] objeto de conhecimento, mas um modo de ser que se revela melhor para outras formas de [[lexico:e:experiencia:start|experiência]]. A noção de atividade, tão apreciada pelo Romantismo, representa o primeiro [[lexico:m:modelo:start|modelo]] dessa solução. Por outro lado, o [[lexico:s:sensacionismo:start|sensacionismo]] de [[lexico:c:condillac:start|Condillac]] mostrara que a ideia de realidade derivava do sentido do [[lexico:t:tato:start|tato]]; mas o sentido era entendido por Condillac de maneira ativa e [[lexico:d:dinamica:start|dinâmica]], como guiado e sustentado pela [[lexico:n:necessidade:start|necessidade]] e por desejos (Traité des sensations, 1754,1, 3, 1; I, 7, 3; II, 5, 5). Mais tarde, Destut de Tracy relacionara a ideia de realidade com a experiência da resistência que as coisas opõem ao [[lexico:m:movimento:start|movimento]] (Idéologie, 1801, cap. 8). Na [[lexico:f:filosofia:start|Filosofia]] contemporânea, [[lexico:d:dilthey:start|Dilthey]] defendeu ideia análoga (Contribuição à solução do problema da origem da nossa [[lexico:c:crenca:start|crença]] na realidade do mundo exterior, em Gesammelte Schriften, 1890, V, 1, pp. 90 ss.). A resistência definiria o modo de ser da realidade, isto é, das coisas; correspondentemente, a experiência dessa realidade seria mais volitiva e prática que cognitiva. [[lexico:s:scheler:start|Scheler]] aceitou esta [[lexico:i:interpretacao:start|interpretação]] da realidade (Die Wissensformen und die Gesellschaft, pp. 455 ss.). [[lexico:t:tese:start|tese]] substancialmente análoga foi apresentada por Santayana no livro [[lexico:c:ceticismo:start|ceticismo]] e [[lexico:f:fe-animal:start|fé animal]] (1923), no qual ele mostrava que a crença na realidade é devida a experiências puramente animais (fome, [[lexico:l:luta:start|luta]], etc.) e só é justificável com base em tais experiências. O mesmo Santayana expusera essa noção de realidade em Essays in Critical Realism (1920), [[lexico:o:obra:start|obra]] publicada por sete filósofos americanos (v. [[lexico:r:realismo:start|realismo]]). Na filosofia mais recente o problema da realidade praticamente deixou de ser problema da "existência" das coisas para tornar-se cada vez mais problema do modo de ser específico das coisas. Suas formulações são feitas segundo a alternativa aberta pelas doutrinas que reconhecem o caráter não simplesmente cognitivo da experiência da realidade. [[lexico:h:heidegger:start|Heidegger]] negou explicitamente o primado da consciência, do qual nascia o problema da existência das coisas. "Crer na realidade do ‘mundo exterior’ (com ou sem [[lexico:d:direito:start|direito]]), demonstrar essa realidade (suficientemente ou não), pressupor essa realidade (explicitamente ou não), tudo isso são tentativas que pressupõem antes de mais nada o sujeito sem mundo, vale dizer, não [[lexico:c:consciente:start|consciente]] de seu mundo, que deve, portanto, começar por fundar a segurança de seu mundo" (Sein und Zeit, § 43, a). O problema da existência do mundo exterior ou das coisas desaparece por [[lexico:s:si-mesmo:start|si mesmo]] uma vez que se elimine o [[lexico:p:pressuposto:start|pressuposto]] falaz do "sujeito sem mundo", ou seja, pressuposto de que o [[lexico:h:homem:start|homem]] não é já e sempre sobretudo um ser no mundo. Restabelecido este caráter fundamental do modo de ser do homem, que por isso é um "[[lexico:s:ser-ai:start|ser-aí]]" (em que aí indica sua [[lexico:r:relacao:start|relação]] com o mundo), o problema da realidade torna-se o problema do modo como as coisas do mundo se apresentam ao homem ou estão em relação com ele. Segundo Heidegger, esse modo de ser é a "simples [[lexico:p:presenca:start|presença]]", uma vez que a existência é o modo de ser reservado ao ser-aí, ao homem. "Se a [[lexico:e:expressao:start|expressão]] realidade significa ser do ente (res) simplesmente presente no mundo (e de [[lexico:f:fato:start|fato]] nada mais deve ser pensado dela) na [[lexico:a:analise:start|análise]] desse modo de ser segue-se que o ente intramundano só é concebível ontologicamente se for esclarecido o [[lexico:f:fenomeno:start|fenômeno]] da intramundanidade. Mas este se baseia no fenômeno do mundo, que, por sua vez, enquanto [[lexico:m:momento:start|momento]] [[lexico:e:essencial:start|essencial]] da [[lexico:e:estrutura:start|estrutura]] do [[lexico:s:ser-no-mundo:start|ser-no-mundo]], pertence à [[lexico:c:constituicao:start|constituição]] fundamental do ser-aí. O ser-no-mundo, novamente, é ontologicamente articulado na [[lexico:t:totalidade:start|totalidade]] do ser do ser-aí, que se caracteriza como Cuidado ([[lexico:c:cura:start|cura]])" (Ibid., § 43, b). Precisamente porque o ser do ser-aí (a existência humana) é Cuidado, os entes de que essa existência se ocupa, que são diferentes dela — as coisas (cujo modo de ser é a realidade) — caracterizam-se pela instrumentalidade. "O modo de ser desse ente é a instrumentalidade, que, no entanto, não deve ser vista como tendências de interpretação. (...) A instrumentalidade é [[lexico:d:determinacao:start|determinação]] ontológico-categorial do ente como é em si" (Ibid., § 15). De tal modo, Heidegger destacou o caráter instrumental das coisas, em [[lexico:v:virtude:start|virtude]] do qual elas podem valer como meios para o homem. Mas Heidegger julga que esse caráter não pertence às coisas na [[lexico:m:medida:start|medida]] de sua relação com o homem, mas constitui seu ser "em si", sua essência. À parte essa pretensão, a análise de Heidegger pode ser considerada uma caracterização do modo de ser das coisas ou da "realidade", entendida em seu significado próprio e específico. Por outro lado, essa mesma análise mostrou o caráter [[lexico:a:arbitrario:start|arbitrário]] do "problema da realidade", no modo como foi entendido a partir de Descartes, como problema de uma realidade "exterior" à consciência. Mostrou que tal problema surge de um pressuposto filosófico infundado, representado pela tese do "sujeito sem mundo" ou, em outras [[lexico:p:palavras:start|palavras]], de uma existência do homem que não consiste na relação com o mundo. É significativo observar que quase simultaneamente a essas análises de Heidegger o problema da realidade exterior era considerado um "pseudoproblema" de um ponto de vista totalmente diferente, do [[lexico:c:circulo-de-viena:start|Círculo de Viena]]. Carnap (Scheinsprobleme in der Philosophie, das Fremdpsychische und der Idealismus-streit, 1928) e Schlick (Positivismus und Realismus, reed. em Gesammelte Aufsätze, 1938) rejeitavam tanto a tese da irrealidade do mundo exterior quanto da sua realidade tachando-as de pseudo-afirmações, porquanto nenhuma das duas se prestava a verificações experimentais. Mas o [[lexico:c:circulo:start|Círculo]] de Viena não apresentou qualquer solução do segundo [[lexico:a:aspecto:start|aspecto]] — o mais legítimo — do problema da realidade: o modo de ser das coisas. A esse respeito, limitou-se (como fazem seus seguidores até hoje) a repropor a velha tese de [[lexico:m:mach:start|Mach]] (Analyse der Empfindungen, 1900), segundo a qual as coisas são compostas pelos mesmos elementos últimos que compõem o eu (as sensações), e estes elementos últimos são neutros em si, ou seja, nem subjetivos, nem objetivos. Esta tese obviamente não dá conta do caráter específico da realidade das coisas, não explica por que um conjunto de tais elementos neutros assume, em cada caso diferente, as características de uma "coisa" ou de um "eu". [[lexico:a:alem:start|Além]] do significado cujas interpretações estudamos até aqui, a palavra realidade também costuma ser usada nos outros significados abaixo, que devem ser considerados secundários porque são designados com mais [[lexico:p:propriedade:start|propriedade]] por outros termos do vocabulário filosófico. 2. Em [[lexico:o:oposicao:start|oposição]] a [[lexico:a:aparencia:start|aparência]], [[lexico:i:ilusao:start|ilusão]] e outros semelhantes, realidade significa às vezes o ser em qualquer dos seus significados existenciais. Assim p. ex., na obra de Bradiey, Appearance and Reality (1893), a oposição anunciada pelo título é entre o [[lexico:a:aparecer:start|aparecer]] e o ser, uma vez que ele não é limitado à realidade no seu sentido específico, vale dizer, ao modo de ser das coisas. [[lexico:d:dewey:start|Dewey]] empregou a palavra no mesmo sentido, mas com uma [[lexico:c:conotacao:start|conotação]] [[lexico:c:critica:start|crítica]]: "Na sua [[lexico:f:formula:start|fórmula]] mais breve, a realidade torna-se existência, qual gostaríamos que fosse depois que analisamos seus defeitos e decidimos quais devem ser eliminados; a ‘realidade’ é aquilo que seria a existência se nossas preferências racionalmente justificadas estivessem tão completamente estabelecidas na natureza que esgotassem e definissem seu ser por inteiro, tornando, pois, desnecessárias a luta e a busca. [[lexico:o:o-que-e:start|o que é]] eliminado (uma vez que a perturbação, a luta, o conflito e o [[lexico:e:erro:start|erro]] ainda existem empiricamente, algo é eliminado), sendo excluído por definição da realidade plena, é atribuído a um [[lexico:g:grau:start|grau]] ou a uma [[lexico:o:ordem:start|ordem]] do ser que se afirma ser metafisica-mente inferior; essa ordem recebe varias designações: aparência, ilusão, [[lexico:e:espirito:start|espírito]] mortal ou puramente [[lexico:e:empirico:start|empírico]], em [[lexico:c:contraposicao:start|contraposição]] ao que é, real e verdadeiramente" (Experience and Nature, cap. II, p. 54). 3. Em oposição a [[lexico:p:possibilidade:start|possibilidade]], potencialidade e às vezes também a necessidade, essa palavra significa [[lexico:a:atualidade:start|atualidade]], efetividade ou aquilo que se atualizou ou efetivou e possui existência de fato. O termo alemão Wirklichkeit, diferente de Realität, tem esse sentido específico, embora os filósofos nem "sempre se atenham estritamente a essa [[lexico:d:distincao:start|distinção]]. Nesse sentido, a palavra designa uma das [[lexico:c:categorias:start|categorias]] da [[lexico:l:logica:start|lógica]] de [[lexico:h:hegel:start|Hegel]]. "A realidade é a [[lexico:u:unidade:start|unidade]] imediata, que se produziu, da essência e da existência, ou do interno e do [[lexico:e:externo:start|externo]]" (Enc., § 142): com isso, Hegel pretende dizer que a realidade é a essência que se atualizou como existência, ou o interno que se manifestou efetivamente no externo. Quem insistiu na distinção entre Wirklichkeit e Realitäte foi Lotze (Mikrokosmos, III, p. 535). N. [[lexico:h:hartmann:start|Hartmann]], por sua vez, utilizou a distinção, descobrindo na efetividade (Wirklichkeit) o sentido [[lexico:p:primario:start|primário]] do ser (Möglichkeit und Wirklichkeit, 1938) (v. Ser). Na hodierna [[lexico:t:terminologia:start|terminologia]] filosófica, o termo "real" designa, via de [[lexico:r:regra:start|regra]], o ente, o existente, em oposição tanto ao meramente [[lexico:a:aparente:start|aparente]] quanto ao puramente possível. Portanto, em primeiro [[lexico:l:lugar:start|lugar]], denomina-se real (1) o que não é só representado, imaginado, pensado, o que não tem só "ser [[lexico:i:ideal:start|ideal]]", existe em si, independentemente de nossa representação e de nosso [[lexico:p:pensamento:start|pensamento]]. Atendendo ao segundo aspecto do vocábulo, ou seja, enquanto oposto a meramente "possível", real (2) equivale a "[[lexico:a:atual:start|atual]]". Segundo o exposto, "realidade" significa o [[lexico:e:estado:start|Estado]] do ser-real nas duas acepções indicadas, opondo-se, por um lado, a ilusão e, por outro lado, a possibilidade. Empregando o termo no primeiro sentido, falamos, p. ex., da realidade do mundo exterior. Realidade (atualidade), em oposição a possibilidade, é sinônimo de existência. Tendo em conta a sua [[lexico:f:forma:start|forma]] [[lexico:l:linguistica:start|linguística]], o termo [[lexico:a:abstrato:start|abstrato]] "realidade" designa propriamente o ser-real como estado do ente; mas, por vezes, emprega-se também como termo [[lexico:c:concreto:start|concreto]] (equivalente então a "algo real") — designativo de um ente [[lexico:p:particular:start|particular]] ("uma" realidade) e, com maior frequência, da totalidade do real ("a" realidade). O idealismo epistemológico, para o qual o ente-em-si é [[lexico:i:incognoscivel:start|incognoscível]], deve dar outro sentido ao termo "realidade", se é que pretende conservar uma realidade cognoscível que não deva ser mera ilusão; real é, para ele, p. ex., o fenômeno legitimamente formado, enquanto tal; Kant atribui-lhe "realidade empírica", apesar de sua "idealidade [[lexico:t:transcendental:start|transcendental]]". — De Vries. O [[lexico:p:predicado:start|predicado]] “é real” (e o substantivo realidade”) são definidos por vezes de modo [[lexico:n:negativo:start|negativo]] e por vezes de modo [[lexico:p:positivo:start|positivo]]. No primeiro caso, afirma-se que o ser real só pode ser entendido como um ser contraposto ao ser aparente, ou ao ser potencial, ou ao ser possível. O que se disser acerca das noções de aparência, [[lexico:p:potencia:start|potência]] e possibilidade permite [[lexico:c:compreender:start|compreender]] em tal caso a natureza do ser real. No segundo caso, afirma-se que “é real” equivale a “é atual” ou a “existente” (e “realidade” equivale a “ser, atualidade, a existência”). Em tal caso é preciso [[lexico:s:saber:start|saber]] o que se entende pelas noções de ser de existência, de [[lexico:a:ato:start|ato]] com o fim de estabelecer o que se vai significar por “é real” ou por realidade. Ambas as maneiras de definir o que se entende pelo ser real têm as suas vantagens e os seus inconvenientes: a maneira negativa permite [[lexico:p:por:start|pôr]] em relevo que nem de tudo o que falamos podemos dizer que é real - pois em tal caso referir-se a algo e à sua realidade seriam exatamente a mesma coisa e o conceito de realidade tornar-se-ia completamente inútil. Mas ao mesmo tempo impede de dar uma noção suficientemente positiva da realidade. A maneira positiva proporciona esta noção. Mas, simultaneamente, obriga a referir o conceito de realidade a outros [[lexico:c:conceitos:start|conceitos]], e neste caso também o conceito de realidade se torna inútil. Em vista disto, pode-se propor dois métodos: um consiste em usar simultaneamente as definições negativas e positivas; o outro consiste em tentar uma [[lexico:s:serie:start|série]] de caraterísticas - diferentes do ser, da existência ou da atualidade - que permitam estabelecer em cada caso se aquilo de que se [[lexico:f:fala:start|fala]] é real. Ambos os métodos foram usados pela maior parte dos filósofos. Quase todos eles, além disso, consideraram que o problema da realidade é um problema de índole [[lexico:m:metafisica:start|metafísica]]. Como tal, obrigou a ligar o exame do problema da realidade com os problemas da essência e da existência. Alguns supuseram que apenas a essência é real; outros proclamaram que a realidade corresponde unicamente à existência. Outros, finalmente, assinalaram que somente uma essência que implicasse a sua própria existência é verdadeiramente real e todos os restantes entes são formas menos plenas ou mais imperfeitas da realidade. Em todos estes casos a ideia acerca do que é real depende de prévias suposições metafísicas e tende a equiparar a realidade com o que transcende necessariamente a experiência. Certos filósofos, em contrapartida, fizeram constar que só em relação com a experiência podemos adquirir uma ideia justa acerca do que é a realidade. O real é dado, como sugere Kant, no [[lexico:l:limite:start|limite]] da experiência possível e por isso “o que concorda com as condições materiais da experiência da [[lexico:s:sensacao:start|sensação]] é real”. Como noção, a realidade pode converter-se numa das categorias ou conceitos puros do [[lexico:e:entendimento:start|entendimento]]: “o [[lexico:p:postulado:start|postulado]] para o conhecimento para a realidade das coisas - escreve Kant - exige uma [[lexico:p:percepcao:start|percepção]]; por conseguinte, uma sensação acompanhada de consciência do próprio objeto cuja existência há-de conhecer-se, mas é preciso também que este objeto concorde com alguma percepção real segundo as analogias da experiência, as quais manifestam [[lexico:t:todo:start|todo]] o entrelaçamento real na experiência possível”. O problema de todas estas concepções é não poder distinguir entre as espécies ou formas do real. Com o fim de galgar este [[lexico:o:obstaculo:start|obstáculo]] podem adoptar-se várias atitudes. Uma consiste em declarar que o ser real é o que é comum a todas as espécies de realidade que se podem descrever e em proceder à [[lexico:c:classificacao:start|classificação]] destas espécies. Temos então a realidade articulada em real subjectiva, objetiva, experimentável, ideal, etc. Equivale substancialmente a erigir uma [[lexico:t:teoria-dos-objetos:start|teoria dos objetos]] e a encontrar por [[lexico:i:inducao:start|indução]] o que é comum a estes na [[lexico:q:qualidade:start|qualidade]] de objetos. Outra baseia-se na ideia de que o conceito de realidade não é [[lexico:u:univoco:start|unívoco]] e de que há, além disso, uma série de entidades que são do menos real ao mais real. Usualmente é preciso adicionar a esta concepção uma metafísica que comece por descrever a realidade máxima a certas, que podem ser o material, o [[lexico:p:pessoal:start|pessoal]], o [[lexico:t:temporal:start|temporal]], o [[lexico:t:transcendente:start|transcendente]], o espiritual, etc. A realidade é uma das maneiras primárias do ser. É [[lexico:n:necessario:start|necessário]] distinguir antes de tudo esta forma de todas as que aderem equivocadamente a ela. Por este [[lexico:m:motivo:start|motivo]], uma [[lexico:o:ontologia:start|ontologia]] crítica descritiva deve estabelecer claramente distinções entre os diferentes conceitos de realidade: a realidade lógica, a realidade cognoscitiva, etc, evitando aplicar uma forma de realidade [[lexico:c:categorial:start|categorial]] que corresponda exclusivamente a outra. A realidade como existência pode ser, sob este aspecto, um dos momentos do ser; a realidade como algo diferente ou oposto à idealidade; uma das formas do ser; a realidade como atualidade, um dos modos do ser. Todas as análises anteriores do conceito de realidade têm uma linha comum: é a de admitir que a expressão “é real” é uma expressão significativa. Os empiristas lógicos e ainda alguns neo-realistas negam esta [[lexico:s:suposicao:start|suposição]]. Em seu entender, não pode enunciar-se com sentido se certas entidades como a [[lexico:m:materia:start|matéria]], o eu, etc, são ou não reais. Portanto, o problema do conceito de realidade é para eles um pseudoproblema; realidade é um termo que não deve ser hipostasiado numa [[lexico:e:entidade:start|entidade]]. Em muitos casos os autores citados compreendem “é real” como equivalente a existente e existe como equivalente a “está quantificado”, logicamente falando. Esta concepção tem, não obstante, dois inconvenientes: o primeiro é que dentro dela torna-se [[lexico:i:impossivel:start|impossível]] dilucidar se há ou não há diferentes formas de realidade. O segundo é que nela não são admissíveis expressões tais como “o homem está voltado para realidade”, “o homem está implantado na realidade”, etc, que, segundo alguns pensadores, permitem compreender a estrutura da [[lexico:v:vida:start|vida]] humana e, com ela, a estrutura do [[lexico:c:conhecimento-objetivo:start|conhecimento objetivo]]. É difícil, portanto, que o problema da realidade possa ser desligado do da filosofia. Alguns creem, pelo contrário, que este problema é o [[lexico:p:problema-filosofico:start|problema filosófico]] por [[lexico:e:excelencia:start|excelência]]. Um dos problemas mais importantes que se põem acerca da realidade é o dos modos de expressão da mesma. Este problema costuma ser conhecido sob o nome de realidade e [[lexico:l:linguagem:start|linguagem]]. Trata-se de saber como é possível [[lexico:f:falar:start|falar]] acerca do real e quais são os limites linguísticos mais adequados para este propósito. Antes de poder dar uma resposta à [[lexico:q:questao:start|questão]] em referência, é necessário uma dilucidação do problema da linguagem. {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}