===== RAZÃO E REVELAÇÃO ===== [[lexico:a:agora|agora]] se apresenta, porém, com [[lexico:s:singular|singular]] agudeza o [[lexico:p:problema|problema]] final de toda a [[lexico:f:filosofia|Filosofia]]. Como alcançar [[lexico:e:esse|esse]] [[lexico:c:conhecimento|conhecimento]] da [[lexico:v:verdade|verdade]] primeira ou [[lexico:s:ser|ser]] primeiro? Que meios temos para chegar a essa [[lexico:s:sabedoria|sabedoria]] suprema ou esse conhecimento de [[lexico:d:deus|Deus]]? Resposta de [[lexico:t:tomas-de-aquino|Tomás de Aquino]]: temos antes de mais [[lexico:n:nada|nada]] a [[lexico:r:razao|razão]]. Com a razão podemos, sem [[lexico:d:duvida|dúvida]], avançar muito na sabedoria [[lexico:m:metafisica|metafísica]] acerca de Deus. Podemos, por [[lexico:e:exemplo|exemplo]], conhecer que Deus existe, que Deus é um, [[lexico:s:simples|simples]], [[lexico:i:infinito|infinito]], e outras verdades semelhantes. Pois [[lexico:b:bem|Bem]]: nem tudo o que sabemos acerca de Deus o sabemos pela via da razão [[lexico:n:natural|natural]]. Também temos sobre Deus conhecimentos "que excedem toda [[lexico:f:faculdade|faculdade]] de razão humana". São os conhecimentos que Deus mesmo nos deu de si [[lexico:p:proprio|próprio]] na sua [[lexico:r:revelacao|revelação]]. A [[lexico:s:situacao|situação]] de [[lexico:f:fato|fato]] é, pois, a seguinte: "conhecemos algo" de Deus por razão natural; "[[lexico:n:nao|não]] conhecemos tudo" de Deus por razão natural; "conhecemos algo" de Deus por revelação. Que a razão natural seja insuficiente para nos proporcionar um conhecimento completo e [[lexico:p:perfeito|perfeito]] de Deus, é [[lexico:c:coisa|coisa]] que resulta clara e patente se consideramos o [[lexico:m:mecanismo|mecanismo]] dos conhecimentos humanos. Com [[lexico:e:efeito|efeito]], o [[lexico:i:intelecto|intelecto]] [[lexico:h:humano|humano]] está unido à [[lexico:m:materia|matéria]]; para conhecer necessita tomar como [[lexico:p:ponto|ponto]] de partida a [[lexico:r:realidade|realidade]] [[lexico:s:sensivel|sensível]], e, sobre os [[lexico:d:dados-dos-sentidos|dados dos sentidos]] realizar a [[lexico:i:inteleccao|intelecção]] da [[lexico:f:forma|forma]] [[lexico:e:essencial|essencial]]. Sem dúvida nosso intelecto, baseando-se nos dados da [[lexico:e:experiencia|experiência]] sensível, pode inferir que Deus existe; mas não pode inferir o que Deus é. Sem dúvida, uma vez estabelecida a [[lexico:e:existencia-de-deus|existência de Deus]], nossa razão pode formar algum [[lexico:c:conceito|conceito]] dele; mas necessariamente há de ser um conceito [[lexico:n:negativo|negativo]] e "[[lexico:a:analogico|analógico]]", obtido estendendo à [[lexico:e:essencia|essência]] de Deus negativa e analogicamente os [[lexico:c:conceitos|conceitos]] das [[lexico:e:essencias|essências]] das [[lexico:c:coisas|coisas]] sensíveis. De maneira alguma está o intelecto humano capacitado para contemplar diretamente a essência mesma de Deus, já que Deus, [[lexico:s:substancia|substância]] totalmente espiritual, não oferece aos nossos sentidos base alguma sensível da qual o intelecto possa extrair a essência [[lexico:i:inteligivel|inteligível]]. O que ulteriormente sabemos de Deus, sabemo-lo, pois, por outra via que não é a razão natural. Sabemo-lo por revelação, sabemo-lo pela [[lexico:f:fe|fé]]. A conveniência de que as verdades da fé venham complementar as aquisições da razão natural não se baseia, todavia, somente na maior [[lexico:r:riqueza|riqueza]] de conhecimentos que este [[lexico:d:divino|divino]] auxílio nos outorga. Há outros dois fundamentos, segundo Tomás de Aquino, que abonam também a conveniência da revelação e, portanto, da fé. O primeiro se encontra no [[lexico:f:fim|fim]] supremo da [[lexico:s:salvacao|salvação]] do [[lexico:h:homem|homem]]. Para salvar-se necessita o homem conhecer seu fim e condicionar a ele seu [[lexico:c:comportamento|comportamento]]. Era, pois, conveniente que Deus revelasse ao homem certas verdades superiores à razão para que o homem, conhecendo-as, pudesse organizar e orientar convenientemente sua [[lexico:v:vida|vida]] para a eterna salvação. O segundo [[lexico:f:fundamento|fundamento]] que justifica a revelação é: que o exercício mesmo da fé reage sobre a razão aperfeiçoando-a e dando o remate mais [[lexico:a:adequado|adequado]] à [[lexico:a:atividade|atividade]] humana. Convém ao homem [[lexico:s:saber|saber]] que há, acima da sua razão limitada, essências que a razão sozinha não pode conhecer. Convém ao [[lexico:l:latente|latente]] [[lexico:o:orgulho|orgulho]] da [[lexico:a:alma|alma]] [[lexico:r:racional|racional]] o perpétuo exercício de [[lexico:h:humildade|humildade]] a que o obriga a fé. Convém que o homem não caia na tentação de medir a [[lexico:g:grandeza|grandeza]] de Deus pelo nível raso de sua pobre razão. Assim, pois, a fé é o complemento, o aperfeiçoamento da razão. Em rigor, a razão e a fé não deveriam se sobrepor nunca. Porque de um e mesmo [[lexico:o:objeto|objeto]] não podemos [[lexico:t:ter|ter]] ao mesmo [[lexico:t:tempo|tempo]] conhecimento de fé e conhecimento de razão. Se sabemos algo por fé, não p sabemos por razão. Se sabemos algo por razão, não o sabemos por fé. A razão demonstrativa e a [[lexico:c:ciencia|ciência]] certa de algo exclui a fé. E, reciprocamente, quando de algo temos [[lexico:c:crenca|crença]] por fé é que não podemos prová-lo nem demonstrá-lo. "É [[lexico:i:impossivel|impossível]] — diz Tomás de Aquino — que de uma e mesma coisa haja fé e ciência." Justamente porque a razão e a fé são complementares é que se excluem em um e mesmo objeto. Mas o rigor desse [[lexico:p:principio|princípio]] recebe na aplicação prática paliativos e emendas oportunas. De fato, muitas verdades que em si mesmas são de razão encontram-se em nós como de fé e são por nós cridas mais do que conhecidas demonstrativamente. Assim acontece quando damos crédito cego aos [[lexico:c:cientistas|cientistas]] nas disciplinas que ignoramos. De outra [[lexico:p:parte|parte]], existem demonstrações racionais que são difíceis de estabelecer e em cujo transcurso pode de fato fraquejar a [[lexico:i:inteligencia|inteligência]], dando entrada sub-repticiamente ao [[lexico:e:erro|erro]]. Que isto aconteça com efeito muitas vezes, demonstram-no as disputas e as discussões entre os sábios. É, pois, impossível e seria demais inconveniente levar ao [[lexico:e:extremo|extremo]] rigor o princípio da exclusão recíproca da razão e da fé. Sem dúvida a razão e a fé se completam, e, portanto, não devem se sobrepor. Mas em muitos casos — por exemplo, em todos os casos de [[lexico:i:ignorancia|ignorância]] ou de incapacidade [[lexico:p:pessoal|pessoal]] — a fé substitui com [[lexico:v:vantagem|vantagem]] à razão; e a [[lexico:p:providencia|Providência]] age sabiamente propondo à fé das multidões humanas certas verdades que em si mesmas, e talvez para algumas inteligências mais sutis, poderiam ser acessíveis à [[lexico:d:demonstracao|demonstração]] racional.