===== PROGRESSO ===== [[lexico:m:movimento:start|movimento]] para a frente. — Em boa [[lexico:l:logica:start|lógica]], o progresso tanto pode ocorrer para o [[lexico:b:bem:start|Bem]] como para o [[lexico:m:mal:start|mal]]. Correntemente, entretanto, quando se [[lexico:f:fala:start|fala]] do progresso da [[lexico:c:civilizacao:start|civilização]], da [[lexico:n:natureza-humana:start|natureza humana]], trata-se de um progresso para o bem: para o [[lexico:a:aumento:start|aumento]] dos conhecimentos do [[lexico:e:espirito:start|espírito]] e da [[lexico:f:felicidade:start|felicidade]] do [[lexico:h:homem:start|homem]]. A [[lexico:c:crenca:start|crença]] no progresso era um dos [[lexico:p:principios:start|princípios]] do espírito enciclopédico do século XVIII, do [[lexico:p:positivismo:start|positivismo]] do século XIX: os filósofos do século XVIII ([[lexico:d:diderot:start|Diderot]], [[lexico:v:voltaire:start|Voltaire]], os [[lexico:e:enciclopedistas:start|enciclopedistas]]) [[lexico:n:nao:start|não]] entendiam por progresso somente o das ciências, mas sobretudo um progresso [[lexico:s:social:start|social]] no [[lexico:s:sentido:start|sentido]] das liberdades políticas e no sentido do [[lexico:b:bem-estar:start|bem-estar]] econômico. A. [[lexico:c:comte:start|Comte]], após reconhecer [[lexico:t:todo:start|todo]] o [[lexico:v:valor:start|valor]] da "[[lexico:e:evolucao:start|evolução]] industrial", considerava que o principal [[lexico:o:objeto:start|objeto]] do progresso [[lexico:h:humano:start|humano]] consistia no "melhoramento [[lexico:c:continuo:start|contínuo]] de nossa própria [[lexico:n:natureza:start|natureza]]", cujos eminentes atributos são a "[[lexico:i:inteligencia:start|inteligência]]" e a "sociabilidade". [[lexico:a:agora:start|agora]], contudo, qualquer que seja o [[lexico:i:ideal:start|ideal]] que as doutrinas filosóficas nos convidem a promover, pode-se dizer que a [[lexico:h:historia:start|história]] [[lexico:r:real:start|real]] confirma a [[lexico:v:visao:start|visão]] positivista? Existe, de [[lexico:f:fato:start|fato]], um progresso das ciências, logo um progresso das técnicas e, por isso mesmo, do bem-estar dos homens; entretanto, pode-se dizer que, no [[lexico:p:plano:start|plano]] humano, nossa [[lexico:e:epoca:start|época]] tenha mais "valor" que as épocas anteriores? O valor de uma época se caracteriza por sua "[[lexico:c:cultura:start|cultura]]": em [[lexico:r:relacao:start|relação]] a isso, é [[lexico:i:impossivel:start|impossível]] dizer-se que a cultura [[lexico:m:moderna:start|moderna]] seja [[lexico:s:superior:start|superior]] a dos antigos, ou que a cultura francesa seja superior à cultura alemã ou inglesa; tratam-se, simplesmente, de culturas "diferentes". Se consideramos a multiplicação das descobertas científicas e filosóficas, ou das criações artísticas, reconheceremos, por [[lexico:e:exemplo:start|exemplo]], a superioridade do século de Péricles (séc. V a. C.) ou da [[lexico:r:renascenca:start|Renascença]], sobre a Idade Média europeia. Desse [[lexico:p:ponto:start|ponto]] de vista, e considerando-se apenas o [[lexico:d:desenvolvimento:start|desenvolvimento]] das ciências, o século XX não tem equivalente na história. Entretanto, no que concerne ao progresso da natureza humana, é preciso distinguir duas perspectivas: 1.° do ponto de vista individual, não existe progresso e nunca o haverá: cada homem que nasce tem que reaprender completamente a [[lexico:s:superar:start|superar]] suas paixões e fazer triunfar a [[lexico:r:razao:start|razão]]; haverá sempre coléricos, instintivos, angustiados etc; porém, 2.° do ponto de vista da história dos homens, pode-se notar uma progressiva evolução das constituições dos Estados no sentido de uma maior [[lexico:l:liberdade:start|liberdade]], de uma evolução das [[lexico:r:relacoes:start|relações]] entre Estados no sentido de maior coesão, e, por isso mesmo, de uma [[lexico:p:paz:start|paz]] durável e organizada. Em [[lexico:s:suma:start|suma]], a história dos indivíduos é uma perpétua [[lexico:r:repeticao:start|repetição]] dos mesmos erros e arrebatamentos que somente os progressos e sobretudo a [[lexico:g:generalizacao:start|generalização]] da [[lexico:e:educacao:start|educação]] podem permitir-nos superar mais facilmente; em compensação, a história da [[lexico:h:humanidade:start|humanidade]] revela um progresso no sentido da [[lexico:a:associacao:start|associação]] das nações e dos homens entre eles. Na [[lexico:v:verdade:start|verdade]], porém, a paz não é um [[lexico:f:fim:start|fim]] em [[lexico:s:si-mesmo:start|si mesmo]]: se a organização da paz mundial representa um progresso "[[lexico:m:moral:start|moral]]", propícia ao desenvolvimento da cultura e das artes e necessária para o melhoramento das condições de [[lexico:v:vida:start|vida]], é preciso notar, com [[lexico:h:hegel:start|Hegel]], que só a [[lexico:d:diversidade:start|diversidade]] dos países pode manter entre eles um [[lexico:e:estado:start|Estado]] de concorrência propícia ao progresso técnico e científico. Hegel afirmava mesmo a [[lexico:n:necessidade:start|necessidade]] de um certo estado de ameaça externa para entreter e sacudir as consciências nacionais, para manter desperto o espírito competitivo das sociedades, assim como sua própria [[lexico:v:vontade:start|vontade]] de [[lexico:c:criacao:start|criação]] ou de [[lexico:e:expressao:start|expressão]]: a natureza humana, assim, é feita [[lexico:c:como-se:start|como se]] não houvesse progresso sem [[lexico:e:estimulo:start|estímulo]] [[lexico:e:externo:start|externo]]. Pode-se concluir que os verdadeiros períodos de progresso global (simultaneamente [[lexico:a:artistico:start|artístico]] e técnico) correspondem, historicamente, às épocas de paz efetiva (propícia ao desenvolvimento das artes e aos progressos sociais) e às épocas com riscos de [[lexico:g:guerra:start|guerra]] (propícias ao desenvolvimento das técnicas e das ciências). (in. Progress; fr. Progrès; al. Fortschrift; it. Progresso). [[lexico:e:esse:start|esse]] [[lexico:t:termo:start|termo]] designa duas [[lexico:c:coisas:start|coisas]]: 1a uma [[lexico:s:serie:start|série]] qualquer de eventos que se desenvolvam em sentido desejável; 2a a crença de que os acontecimentos históricos desenvolvem-se no sentido mais desejável, realizando um aperfeiçoamento crescente. No primeiro sentido, fala-se, p. ex., do "progresso da química" ou do "progresso da [[lexico:t:tecnica:start|técnica]]"; no segundo sentido, dizemos simplesmente "o progresso". Neste segundo sentido, a [[lexico:p:palavra:start|palavra]] designa não só um balanço da história passada, mas também uma [[lexico:p:profecia:start|profecia]] para o [[lexico:f:futuro:start|futuro]]. O primeiro sentido restrito do termo não dá [[lexico:o:origem:start|origem]] a problemas e acha-se em toda [[lexico:p:parte:start|parte]]. Os antigos também o possuíram, em [[lexico:p:particular:start|particular]] os estoicos, que o empregaram para indicar o avanço do homem no [[lexico:c:caminho:start|caminho]] da [[lexico:s:sabedoria:start|sabedoria]] e da [[lexico:f:filosofia:start|Filosofia]] (J. Stobeo, Ecl., II, 6, 146). O segundo sentido do termo não foi conhecido na [[lexico:a:antiguidade:start|antiguidade]] clássica e na Idade Média. A concepção [[lexico:g:geral:start|geral]] que os antigos tiveram da história foi a de [[lexico:d:decadencia:start|decadência]], a partir de uma [[lexico:p:perfeicao:start|perfeição]] primitiva (idade do ouro), ou de ciclo de eventos, que se repete identicamente sem limites (v. história). Costuma-se atribuir a primeira [[lexico:e:enunciacao:start|enunciação]] da [[lexico:n:nocao:start|noção]] de progresso a Francis [[lexico:b:bacon:start|Bacon]], que assim a expôs num famoso trecho do Novum Organum (1620): "Por antiguidade deveria entender-se a [[lexico:v:velhice:start|velhice]] do [[lexico:m:mundo:start|mundo]], que deve [[lexico:s:ser:start|ser]] atribuída aos nossos tempos e não à juventude do mundo, aos antigos. Do mesmo [[lexico:m:modo:start|modo]] como de um homem idoso podemos esperar um [[lexico:c:conhecimento:start|conhecimento]] muito maior das coisas humanas e um [[lexico:j:juizo:start|juízo]] mais maduro que o de um jovem, graças à [[lexico:e:experiencia:start|experiência]] e ao grande [[lexico:n:numero:start|número]] de coisas que viu, ouviu e pensou, também da nossa era (se ela tivesse [[lexico:c:consciencia:start|consciência]] de suas forças e quisesse experimentar e [[lexico:c:compreender:start|compreender]]) seria justo esperarmos muito mais coisas que dos tempos antigos, pois esta é a maiorida-de do mundo, em que ele está enriquecido por inúmeras experimentações e observações" (Nov. Org., I, 84). Bacon conclui com a expressão de Aulo Gélio (ou melhor, que Aulo Gélio atribuía a um antigo [[lexico:p:poeta:start|poeta]]): veritas filia temporis (Noct. Att., XII, 11). Alguns anos antes, [[lexico:c:conceitos:start|conceitos]] semelhantes a estes haviam sido expostos por Giordano [[lexico:b:bruno:start|Bruno]] em Cena delle Ceneri (1584). No séc. XVII a noção de progresso dá os primeiros passos, principalmente por [[lexico:m:meio:start|meio]] da [[lexico:d:disputa:start|disputa]] sobre os antigos e os modernos (v. ANTIGOS), enquanto no séc. XVIII, com Voltaire, Turgot e [[lexico:c:condorcet:start|Condorcet]], prevaleceria na concepção da história. Mas foi só no séc. XIX que esse [[lexico:c:conceito:start|conceito]] se afirmou totalmente, tornando-se, já nas primeiras décadas, a bandeira do [[lexico:r:romantismo:start|Romantismo]] e assumindo o [[lexico:c:carater:start|caráter]] de necessidade. O conceito de necessidade do plano progressista da história era expresso por [[lexico:f:fichte:start|Fichte]] da maneira mais enérgica: "Qualquer [[lexico:c:coisa:start|coisa]] que realmente exista, existe por absoluta necessidade; e existe necessariamente na [[lexico:f:forma:start|forma]] exata em que existe". Essa necessidade é [[lexico:r:racionalidade:start|racionalidade]] pura: "[[lexico:n:nada:start|nada]] é como é porque [[lexico:d:deus:start|Deus]] o queira arbitrariamente, mas porque Deus não pode manifestar-se de [[lexico:o:outro:start|outro]] modo. (...) Compreender com inteligência clara o [[lexico:u:universal:start|universal]], o [[lexico:a:absoluto:start|absoluto]], o [[lexico:e:eterno:start|eterno]] e o imutável, que é o guia da [[lexico:e:especie:start|espécie]] humana, é [[lexico:t:tarefa:start|tarefa]] dos filósofos. Fixar de fato a [[lexico:e:esfera:start|esfera]] cambiante e mutável dos fenômenos, através dos quais prossegue a marcha segura da espécie humana, é tarefa do historiador, cujas descobertas são só casualmente lembradas pelo [[lexico:f:filosofo:start|filósofo]]" (Grundzuge des gegenwartigen Zeitalters, 1806, 9). Idêntica concepção era defendida pelo positivismo, que, com Augusto Comte, exalta o progresso como [[lexico:i:ideia:start|ideia]] diretiva da [[lexico:c:ciencia:start|ciência]] e da [[lexico:s:sociologia:start|sociologia]], considerando-o como "o desenvolvimento da [[lexico:o:ordem:start|ordem]]" e estendendo-o também à vida inorgânica e [[lexico:a:animal:start|animal]] (Politique positive, 1851, I, pp. 64 ss.). On the Origin of [[lexico:s:species:start|species]] (1859), de [[lexico:d:darwin:start|Darwin]], atribuía base positiva ou científica ao [[lexico:m:mito:start|mito]] do progresso, aduzindo provas favoráveis ao [[lexico:t:transformismo:start|transformismo]] biológico interpretado em sentido otimista ou progressista. A [[lexico:o:obra:start|obra]] de [[lexico:s:spencer:start|Spencer]] (First Principles, 1862) utilizava a noção de progresso para dar da [[lexico:r:realidade:start|realidade]] uma [[lexico:i:interpretacao:start|interpretação]] [[lexico:m:metafisica:start|metafísica]] que pretendia ser positiva ou científica. Estas são apenas as etapas mais marcantes da [[lexico:a:afirmacao:start|afirmação]] de um conceito que dominou todas as manifestações da cultura ocidental do séc. XIX e ainda continua sendo pano de fundo de muitas concepções filosóficas e científicas. As principais implicações dessa noção são as seguintes: 1a o curso dos eventos (naturais e históricos) constitui uma série unilinear; 2a cada termo desta série é [[lexico:n:necessario:start|necessário]] no sentido de não poder ser diferente do que é; 3a cada termo da série realiza um incremento de valor sobre o precedente; 4a qualquer [[lexico:r:regressao:start|regressão]] é [[lexico:a:aparente:start|aparente]] e constitui a [[lexico:c:condicao:start|condição]] de um progresso maior. As vezes, como na filosofia de Hegel, limitam-se as condições de [[lexico:v:validade:start|validade]] da 3a [[lexico:p:proposicao:start|proposição]] por se admitir que a história constitui um [[lexico:c:circulo:start|círculo]] no qual as fases mais elevadas, já realizadas, constituem as condições para as mais baixas, de tal modo que estas possuem a mesma racionalidade ou perfeição do todo (cf. Hegel, Wissenschaft der Logik, I, I, I, cap. II, [[lexico:n:nota:start|nota]] I, "O progresso [[lexico:i:infinito:start|infinito]]"; [[lexico:c:croce:start|Croce]], La storia come pensiero e come azione, 1938, p. 25). Mas nenhuma dessas [[lexico:q:quatro:start|Quatro]] teses encontra apoio nas regras da [[lexico:m:metodologia:start|metodologia]] historiográfica que permitem delimitar, hoje, o [[lexico:c:campo:start|campo]] da "história"; nenhuma delas é compatível com tais regras; portanto, a ideia de progresso não pertence ao domínio da [[lexico:h:historiografia:start|historiografia]] científica. Por outro lado, na cultura contemporânea a crença no progresso foi muito abalada pela experiência das duas guerras mundiais e pela [[lexico:m:mudanca:start|mudança]] que elas produziram no campo da filosofia, pondo por [[lexico:t:terra:start|Terra]] a [[lexico:t:tendencia:start|tendência]] romântica que a tinha como pedra angular. Portanto, no estágio [[lexico:a:atual:start|atual]] dos estudos, essa ideia só pode ser considerada válida como [[lexico:e:esperanca:start|esperança]] ou empenho moral para o futuro, e não como [[lexico:p:principio:start|princípio]] diretivo da interpretação historiográfica. Sobre o período áureo da crença no progresso, cf. J. B. Bury, The [[lexico:i:idea:start|idea]] of Progress, 1932 (v. história). {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}