===== PRIVATIVIDADE ===== O aparecimento da [[lexico:s:sociedade|sociedade]] – a ascensão da administração do [[lexico:l:lar|lar]], de suas [[lexico:a:atividades|atividades]], seus problemas e dispositivos organizacionais – do sombrio interior do lar para a [[lexico:l:luz|luz]] da [[lexico:e:esfera|esfera]] pública [[lexico:n:nao|não]] apenas turvou a antiga fronteira entre o [[lexico:p:privado|privado]] e [[lexico:o:o-politico|O Político]], mas também alterou o [[lexico:s:significado|significado]] dos dois termos e a sua importância para a [[lexico:v:vida|vida]] do [[lexico:i:individuo|indivíduo]] e do cidadão, ao [[lexico:p:ponto|ponto]] de torná-los quase irreconhecíveis. Hoje, não apenas não concordaríamos com os gregos que uma vida vivida na privatividade do que é “[[lexico:p:proprio|próprio]] ao indivíduo” ([[lexico:i:idion|idion]]), fora do [[lexico:m:mundo|mundo]] do que é comum, é “idiota” por [[lexico:d:definicao|definição]], mas tampouco concordaríamos com os romanos, para os quais a privatividade oferecia um refúgio apenas [[lexico:t:temporario|temporário]] dos assuntos da res publica. O que hoje chamamos de privado é uma esfera de intimidade cujos primórdios podemos remeter aos últimos períodos da [[lexico:c:civilizacao|civilização]] romana, embora dificilmente a qualquer período da [[lexico:a:antiguidade|antiguidade]] grega, mas cujas peculiares [[lexico:m:multiplicidade|multiplicidade]] e variedade eram certamente desconhecidas de qualquer período anterior à era [[lexico:m:moderna|moderna]]. Não se trata de mera [[lexico:m:mudanca|mudança]] de ênfase. Na [[lexico:p:percepcao|percepção]] dos antigos, o [[lexico:c:carater|caráter]] privativo da privatividade, indicado pela própria [[lexico:p:palavra|palavra]], era sumamente importante: significava literalmente um [[lexico:e:estado|Estado]] de encontrar-se privado de [[lexico:a:alguma-coisa|alguma coisa]], até das mais altas e mais humanas capacidades do [[lexico:h:homem|homem]]. [[lexico:q:quem|quem]] quer que vivesse unicamente uma vida privada – um homem que, como o [[lexico:e:escravo|escravo]], não fosse admitido para adentrar o domínio [[lexico:p:publico|público]] ou que, como o bárbaro, tivesse escolhido não estabelecer tal domínio – não era inteiramente [[lexico:h:humano|humano]]. Hoje não pensamos mais primeiramente em [[lexico:p:privacao|privação]] quando empregamos a palavra “privatividade” e isso em [[lexico:p:parte|parte]] se deve ao enorme enriquecimento da esfera privada por [[lexico:m:meio|meio]] do [[lexico:m:moderno|moderno]] [[lexico:i:individualismo|individualismo]]. Não obstante, parece ainda mais importante o [[lexico:f:fato|fato]] de que a privatividade moderna é pelo menos tão nitidamente oposta ao domínio [[lexico:s:social|social]] – desconhecido dos antigos, que consideravam o seu conteúdo como assunto privado – quanto do domínio [[lexico:p:politico|político]] propriamente [[lexico:d:dito|dito]]. O [[lexico:f:fato-historico|fato histórico]] decisivo é que a privatividade moderna, em sua [[lexico:f:funcao|função]] mais [[lexico:r:relevante|relevante]], a de abrigar [[lexico:o:o-que-e|o que é]] íntimo, foi [[lexico:d:descoberta|descoberta]] não como o oposto da esfera [[lexico:p:politica|política]], mas da esfera social, com a qual é, portanto, mais próxima e autenticamente relacionada. [ArendtCH, 6]