===== PRIVADO E PÚBLICO ===== Encarada desse [[lexico:p:ponto|ponto]] de vista, a [[lexico:m:moderna|moderna]] [[lexico:d:descoberta|descoberta]] da intimidade parece constituir uma [[lexico:f:fuga|fuga]] do [[lexico:m:mundo|mundo]] [[lexico:e:exterior|exterior]] como um [[lexico:t:todo|todo]] para a [[lexico:s:subjetividade|subjetividade]] interior do [[lexico:i:individuo|indivíduo]], subjetividade esta que antes fora abrigada e protegida pelo domínio [[lexico:p:privado|privado]]. A dissolução desse domínio no [[lexico:s:social|social]] pode [[lexico:s:ser|ser]] perfeitamente observada na crescente [[lexico:t:transformacao|transformação]] da [[lexico:p:propriedade|propriedade]] imóvel em propriedade [[lexico:m:movel|móvel]], até que finalmente a [[lexico:d:distincao|distinção]] entre propriedade e [[lexico:r:riqueza|riqueza]], entre os fungibiles e os consumptibiles da [[lexico:l:lei|lei]] romana, perde toda a sua [[lexico:s:significacao|significação]], porque toda [[lexico:c:coisa|coisa]] [[lexico:t:tangivel|tangível]], “fungível” passa a ser [[lexico:o:objeto|objeto]] de “consumo”; perdeu seu [[lexico:v:valor|valor]] de [[lexico:u:uso|uso]] privado, antes determinado por sua [[lexico:l:localizacao|localização]], e adquiriu um valor exclusivamente social, determinado por sua permutabilidade constantemente mutável, cuja flutuação só temporariamente pode ser fixada por [[lexico:m:meio|meio]] de uma conexão com o denominador comum do dinheiro. Intimamente ligada a essa evaporação social do tangível estava a mais revolucionária contribuição moderna ao [[lexico:c:conceito|conceito]] de propriedade, segundo a qual a propriedade [[lexico:n:nao|não]] constituía uma [[lexico:p:parte|parte]] fixa e firmemente localizada do mundo, adquirida por seu proprietário de uma maneira ou de outra, mas, ao contrário, tinha no [[lexico:p:proprio|próprio]] [[lexico:h:homem|homem]] a sua [[lexico:o:origem|origem]], na sua [[lexico:p:posse|posse]] de um [[lexico:c:corpo|corpo]] e na sua indiscutível propriedade da [[lexico:f:forca|força]] desse corpo, que [[lexico:m:marx|Marx]] chamou de “força de [[lexico:t:trabalho|trabalho]]” . Assim, a propriedade moderna perdeu seu [[lexico:c:carater|caráter]] [[lexico:m:mundano|mundano]] e passou a situar-se na própria [[lexico:p:pessoa|pessoa]], isto é, naquilo que o indivíduo somente podia perder juntamente com a [[lexico:v:vida|vida]]. Historicamente, a [[lexico:p:premissa|premissa]] de [[lexico:l:locke|Locke]], de que o trabalho do corpo de uma pessoa é a origem da propriedade, é mais que duvidosa; no entanto, [[lexico:d:dado|dado]] o [[lexico:f:fato|fato]] de que já vivemos em condições nas quais a única propriedade em que podemos confiar é o nosso [[lexico:t:talento|talento]] e a nossa força de trabalho, é mais do que [[lexico:p:provavel|provável]] que ela venha [[lexico:a:a-se|a se]] tornar verdadeira. Pois a riqueza, depois que se tornou [[lexico:p:preocupacao|preocupação]] pública, adquiriu tais proporções que dificilmente poderia ser controlada pela posse privada. É [[lexico:c:como-se|como se]] o domínio [[lexico:p:publico|público]] tivesse se vingado daqueles que tentaram utilizá-lo para seus interesses privados. A maior ameaça aqui, porém, não é a abolição da posse privada da riqueza, mas sim a abolição da [[lexico:p:propriedade-privada|propriedade privada]] no [[lexico:s:sentido|sentido]] de um [[lexico:l:lugar|lugar]] tangível possuído por uma pessoa no mundo. Para que compreendamos o perigo para a [[lexico:e:existencia|existência]] humana decorrente da eliminação do domínio privado, para o qual a intimidade não é substituto muito seguro, talvez seja melhor considerarmos aquelas feições não privativas da [[lexico:p:privatividade|privatividade]] anteriores à descoberta da intimidade e que desta independem. A [[lexico:d:diferenca|diferença]] entre o que temos em comum e o que possuímos privadamente é, em primeiro lugar, que as nossas posses privadas, que usamos e consumimos diariamente, são muito mais urgentemente necessárias que qualquer parte do mundo comum; sem a propriedade, como disse Locke, “de [[lexico:n:nada|nada]] nos vale o comum” . A mesma [[lexico:n:necessidade|necessidade]] que, do ponto de vista do domínio público, exibe somente o seu [[lexico:a:aspecto|aspecto]] [[lexico:n:negativo|negativo]] de [[lexico:p:privacao|privação]] de [[lexico:l:liberdade|liberdade]] possui uma força motriz cuja premência é inigualada pelos chamados desejos e aspirações superiores do homem; não apenas ela será sempre a primeira entre as necessidades e preocupações do homem, mas também evitará a [[lexico:a:apatia|apatia]] e a extinção da iniciativa que tão obviamente ameaçam todas as comunidades demasiado ricas. A necessidade e a vida são tão intimamente aparentadas e conectadas que a própria vida é ameaçada quando se elimina totalmente a necessidade. Pois, longe de resultar automaticamente no estabelecimento da liberdade, a eliminação da necessidade apenas obscurece a linha que separa a liberdade da necessidade. (As modernas discussões sobre a liberdade, nas quais esta última nunca é vista como um estado objetivo da existência humana, mas constitui um insolúvel problema de subjetividade, de uma vontade inteiramente indeterminada ou determinada, ou resulta da necessidade, evidenciam o fato de que já não se percebe uma diferença objetiva e tangível entre ser livre e ser forçado pela necessidade.) A segunda saliente [[lexico:c:caracteristica|característica]] não privativa da privatividade é que as [[lexico:q:quatro|Quatro]] paredes da propriedade privada de uma pessoa oferecem o [[lexico:u:unico|único]] refúgio seguro contra o mundo público comum – não só contra tudo o que nele ocorre, mas também contra a sua própria [[lexico:p:publicidade|publicidade]], contra o fato de ser visto e ouvido. Uma existência vivida inteiramente em público, na [[lexico:p:presenca|presença]] de outros, torna-se, como se diz, superficial. Retém a sua visibilidade, mas perde a [[lexico:q:qualidade|qualidade]] resultante de vir à [[lexico:l:luz|luz]] a partir de um terreno mais sombrio, que deve permanecer [[lexico:o:oculto|oculto]] a [[lexico:f:fim|fim]] de não perder sua profundidade em um sentido muito [[lexico:r:real|real]], não [[lexico:s:subjetivo|subjetivo]]. O único [[lexico:m:modo|modo]] eficaz de garantir a escuridão do que deve ser escondido da luz da publicidade é a propriedade privada, um lugar possuído privadamente para se esconder. [v. atrium] Embora seja bastante [[lexico:n:natural|natural]] que os traços não-privativos da privatividade apareçam mais nitidamente quando os homens estão ameaçados de perdê-la, o tratamento [[lexico:p:pratico|prático]] da propriedade privada por corpos políticos pré-modernos mostra claramente que os homens sempre estiveram conscientes da existência e importância desses traços. Nem por isso, porém, eles protegeram diretamente as [[lexico:a:atividades|atividades]] exercidas no domínio privado, mas protegeram antes as fronteiras que separavam o que era privadamente possuído de outras partes do mundo, principalmente do próprio mundo comum. Por [[lexico:o:outro|outro]] lado, a marca distintiva da moderna [[lexico:t:teoria|teoria]] [[lexico:p:politica|política]] e [[lexico:e:economica|econômica]], na [[lexico:m:medida|medida]] em que considera a propriedade privada como [[lexico:q:questao|questão]] [[lexico:c:crucial|crucial]], tem sido sua ênfase nas atividades privadas dos proprietários e em sua necessidade de proteção governamental para o acúmulo de riqueza, à custa da propriedade tangível. O que importa ao domínio público, porém, não é o [[lexico:e:espirito|espírito]] mais ou menos empreendedor de homens de negócios privados, e sim as cercas em torno das casas e dos jardins dos cidadãos. A invasão da privatividade pela [[lexico:s:sociedade|sociedade]], a “[[lexico:s:socializacao|socialização]] do homem” (Marx), é mais eficazmente realizada por meio da expropriação, mas esta não é a única maneira. Nesse, como em outros aspectos, as medidas revolucionárias do [[lexico:s:socialismo|socialismo]] ou do comunismo podem muito [[lexico:b:bem|Bem]] ser substituídas por uma “[[lexico:d:decadencia|decadência]]” mais lenta, porém não menos certa, do domínio privado em [[lexico:g:geral|geral]] e da propriedade privada em [[lexico:p:particular|particular]]. A distinção entre os domínios público e privado, concebida mais do ponto de vista da privatividade que do corpo [[lexico:p:politico|político]], equivale à distinção entre o que deve ser exibido e o que deve ser ocultado. Somente a era moderna, em sua rebelião contra a sociedade, descobriu quão rico e variegado pode ser o domínio do oculto nas condições da intimidade; mas é impressionante que, desde os primórdios da [[lexico:h:historia|história]] até o nosso [[lexico:t:tempo|tempo]], o que precisou ser escondido na privatividade tenha sido sempre a parte corporal da existência humana, tudo [[lexico:o:o-que-e|o que é]] ligado à necessidade do [[lexico:p:processo|processo]] vital e que, antes da era moderna, abrangia todas as atividades a serviço da [[lexico:s:subsistencia|subsistência]] do indivíduo e da [[lexico:s:sobrevivencia|sobrevivência]] da [[lexico:e:especie|espécie]]. Escondidos eram os trabalhadores que, “com seus corpos, cuidavam das necessidades da vida” [Aristóteles, Política, 1254b25] e as [[lexico:m:mulheres|mulheres]] que, com seus corpos, garantem a sobrevivência [[lexico:f:fisica|física]] da espécie. Mulheres e [[lexico:e:escravos|escravos]] pertenciam à mesma [[lexico:c:categoria|categoria]] e eram escondidos não somente porque eram propriedade de outrem, mas porque sua vida era “trabalhosa” , dedicada a funções corporais. [v. mulheres] No início da era moderna, depois que o trabalho “livre” perdeu o seu lugar oculto da privatividade do [[lexico:l:lar|lar]], os trabalhadores passaram a ser escondidos e segregados da [[lexico:c:comunidade|comunidade]] como criminosos, atrás de altos muros e sob constante supervisão. [Cf. Pierre Brizon, Histoire du travail et des travailleurs (4. ed., 1926), p. 184, quanto às condições de trabalho em uma fábrica do século XVII.] O fato de que a era moderna emancipou as classes operárias e as mulheres quase no mesmo [[lexico:m:momento|momento]] [[lexico:h:historico|histórico]] deve, certamente, ser incluído entre as características de uma era que já não acreditava que as funções corporais e as preocupações materiais deviam ser escondidas. E é ainda mais sintomático da [[lexico:n:natureza|natureza]] desses fenômenos que os poucos vestígios da estrita privatividade, mesmo em nossa [[lexico:c:civilizacao|civilização]], tenham a [[lexico:v:ver|ver]] com “necessidades” no sentido original de sermos demandados pelo fato de termos um corpo. [ArendtCH, 9] Embora a distinção entre o privado e o público coincida com a [[lexico:o:oposicao|oposição]] entre a necessidade e a liberdade, entre a futilidade e a [[lexico:p:permanencia|permanência]] e, finalmente, entre a vergonha e a [[lexico:h:honra|honra]], não é de [[lexico:f:forma|forma]] alguma [[lexico:v:verdadeiro|verdadeiro]] que somente o [[lexico:n:necessario|necessário]], o fútil e o vergonhoso tenham o seu lugar [[lexico:a:adequado|adequado]] no domínio privado. O [[lexico:s:significado|significado]] mais elementar dos dois domínios indica que há [[lexico:c:coisas|coisas]] que devem ser ocultadas e outras que necessitam ser expostas em público para que possam adquirir alguma forma de existência. Se examinarmos essas coisas, independentemente de onde as encontremos em qualquer civilização, veremos que cada [[lexico:a:atividade|atividade]] humana assinala sua localização adequada no mundo. Isso se aplica às principais atividades da [[lexico:v:vita-activa|vita activa]], o trabalho, a [[lexico:o:obra|obra]] e a [[lexico:a:acao|ação]], mas existe um [[lexico:e:exemplo|exemplo]] desse [[lexico:f:fenomeno|fenômeno]], reconhecidamente [[lexico:e:extremo|extremo]], cuja [[lexico:v:vantagem|vantagem]] para a elucidação é [[lexico:t:ter|ter]] desempenhado um papel considerável na teoria política. [ArendtCH, 10]