===== PRIVADO ===== É com [[lexico:r:relacao:start|relação]] a essa múltipla [[lexico:s:significacao:start|significação]] do domínio [[lexico:p:publico:start|público]] que o [[lexico:t:termo:start|termo]] “privado” tem [[lexico:s:significado:start|significado]], em sua acepção original de privativo. [[lexico:v:viver:start|viver]] uma [[lexico:v:vida:start|vida]] inteiramente privada significa, acima de tudo, [[lexico:e:estar:start|estar]] privado de [[lexico:c:coisas:start|coisas]] essenciais a uma vida verdadeiramente humana: estar privado da [[lexico:r:realidade:start|realidade]] que advém do [[lexico:f:fato:start|fato]] de [[lexico:s:ser:start|ser]] visto e ouvido por outros, privado de uma relação “objetiva” com eles decorrente do fato de ligar-se e separar-se deles mediante um [[lexico:m:mundo:start|mundo]] comum de coisas, e privado da [[lexico:p:possibilidade:start|possibilidade]] de realizar algo mais permanente que a própria vida. A [[lexico:p:privacao:start|privação]] da [[lexico:p:privatividade:start|privatividade]] reside na [[lexico:a:ausencia:start|ausência]] de outros; para estes, o [[lexico:h:homem:start|homem]] privado [[lexico:n:nao:start|não]] aparece, e, portanto, é [[lexico:c:como-se:start|como se]] não existisse. O que quer que ele faça permanece sem importância ou [[lexico:c:consequencia:start|consequência]] para os outros, e o que tem importância para ele é desprovido de [[lexico:i:interesse:start|interesse]] para os outros. Nas circunstâncias modernas, essa privação de [[lexico:r:relacoes:start|relações]] “objetivas” com os outros e de uma realidade garantida por intermédio destes últimos tornou-se o [[lexico:f:fenomeno:start|fenômeno]] de [[lexico:m:massa:start|massa]] do desamparo, no qual assumiu sua [[lexico:f:forma:start|forma]] mais extrema e mais anti-humana. [v. abandono] O [[lexico:m:motivo:start|motivo]] pelo qual [[lexico:e:esse:start|esse]] fenômeno é tão [[lexico:e:extremo:start|extremo]] é que a [[lexico:s:sociedade:start|sociedade]] de massas não apenas destrói o domínio privado tanto quanto o domínio público; priva ainda os homens não só do seu [[lexico:l:lugar:start|lugar]] no mundo, mas também do seu [[lexico:l:lar:start|lar]] privado, no qual outrora eles se sentiam resguardados contra o mundo e onde, de qualquer forma, até os que eram excluídos do mundo podiam encontrar-lhe o substituto no calor do lar e na limitada realidade da vida em [[lexico:f:familia:start|família]]. Devemos o pleno [[lexico:d:desenvolvimento:start|desenvolvimento]] da vida no lar e na família como [[lexico:e:espaco:start|espaço]] interior e privado ao [[lexico:e:extraordinario:start|extraordinário]] [[lexico:s:senso:start|senso]] [[lexico:p:politico:start|político]] do [[lexico:p:povo:start|povo]] romano, que, ao contrário dos gregos, jamais sacrificou o privado ao público, mas, ao contrário, compreendeu que esses dois domínios somente podiam [[lexico:s:subsistir:start|subsistir]] sob a forma da [[lexico:c:coexistencia:start|coexistência]]. E, embora a [[lexico:c:condicao:start|condição]] dos [[lexico:e:escravos:start|escravos]] fosse provavelmente um pouco melhor em Roma que em Atenas, é bastante [[lexico:c:caracteristico:start|característico]] que um escritor romano tenha acreditado que, para os escravos, a casa do senhor era o mesmo que a res publica para os cidadãos.[Plínio, o Moço, citado por W. L. Westermann, “Sklaverei”, em Pauly-Wissowa, Supl. VI, p. 1.045.] No entanto, por mais suportável que possa [[lexico:t:ter:start|ter]] sido a vida privada em família, é óbvio que ela nunca podia ser mais que um substituto, ainda que o domínio privado, tanto em Roma como em Atenas, oferecesse um amplo espaço para [[lexico:a:atividades:start|atividades]] que hoje classificamos como superiores à [[lexico:a:atividade:start|atividade]] [[lexico:p:politica:start|política]], tais como o acúmulo de [[lexico:r:riqueza:start|riqueza]] na [[lexico:g:grecia:start|Grécia]] ou a [[lexico:d:devocao:start|devoção]] às artes e às ciências em Roma. Essa [[lexico:a:atitude:start|atitude]] “liberal” que podia, em certas circunstâncias, originar escravos muito prósperos e altamente educados, significou apenas que o fato de ser próspero não tinha qualquer realidade na pólis grega, e que ser [[lexico:f:filosofo:start|filósofo]] não tinha muita importância na [[lexico:r:republica:start|república]] romana.[v. escravo] Como seria de esperar, o [[lexico:c:carater:start|caráter]] privativo da privatividade, a [[lexico:c:consciencia:start|consciência]] de se estar privado de algo [[lexico:e:essencial:start|essencial]] em uma vida passada exclusivamente na [[lexico:e:esfera:start|esfera]] restrita do lar, perdeu sua [[lexico:f:forca:start|força]] a [[lexico:p:ponto:start|ponto]] de quase se extinguir com o advento do cristianismo. A [[lexico:m:moralidade:start|moralidade]] cristã, em [[lexico:c:contraposicao:start|contraposição]] a seus preceitos religiosos fundamentais, sempre insistiu em que cada um deve cuidar de seus afazeres e que a [[lexico:r:responsabilidade:start|responsabilidade]] política constitui antes de tudo um [[lexico:o:onus:start|ônus]], aceito exclusivamente em prol do [[lexico:b:bem-estar:start|bem-estar]] e da [[lexico:s:salvacao:start|salvação]] daqueles que ela liberta da [[lexico:p:preocupacao:start|preocupação]] com os assuntos públicos. [v. caritas] É surpreendente que essa atitude tenha sobrevivido na [[lexico:s:secular:start|secular]] era [[lexico:m:moderna:start|moderna]] a tal ponto que Karl [[lexico:m:marx:start|Marx]] – que nesse [[lexico:p:particular:start|particular]], como em outros, apenas resumiu, conceitualizou e transformou em um programa as premissas subjacentes a 200 anos de modernidade – pôde enfim predizer e alimentar esperanças quanto à “[[lexico:d:decadencia:start|decadência]]” de [[lexico:t:todo:start|todo]] o domínio público. A [[lexico:d:diferenca:start|diferença]] entre os pontos de vista cristão e socialista a esse [[lexico:r:respeito:start|respeito]] – o primeiro vendo o [[lexico:g:governo:start|governo]] como um [[lexico:m:mal:start|mal]] [[lexico:n:necessario:start|necessário]] em [[lexico:v:virtude:start|virtude]] da [[lexico:n:natureza:start|natureza]] pecadora do homem e o [[lexico:o:outro:start|outro]] esperando poder aboli-lo algum dia – não é uma diferença de avaliação da esfera pública, mas da [[lexico:n:natureza-humana:start|natureza humana]]. [[lexico:o:o-que-e:start|o que é]] [[lexico:i:impossivel:start|impossível]] perceber de um ponto de vista ou de outro é que a “decadência do [[lexico:e:estado:start|Estado]]” de Marx havia sido precedida pela decadência do domínio público ou, antes, por sua [[lexico:t:transformacao:start|transformação]] na muito restrita esfera do governo. Nos dias de Marx, esse governo começara a decair ainda mais, isto é, a ser transformado em uma “administração doméstica” de dimensões nacionais, até que, em nossos dias, começa a desaparecer completamente sob a forma da esfera ainda mais restrita e [[lexico:i:impessoal:start|impessoal]] da administração. [ArendtCH, 8] {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}