===== PRINCÍPIO ===== [[lexico:a:arche|arche]] É aquilo, donde de algum [[lexico:m:modo|modo]], uma [[lexico:c:coisa|coisa]] procede quanto ao [[lexico:s:ser|ser]], ao acontecer ou ao conhecer. — [[lexico:p:primeiros-principios|primeiros princípios]] são os que, em sua [[lexico:o:ordem|ordem]], [[lexico:n:nao|não]] procedem de [[lexico:o:outro|outro]] princípio; com isso, porém, não se exclui que, numa ordem [[lexico:s:superior|superior]], tenham também [[lexico:p:principios|princípios]]. — O [[lexico:c:conceito|conceito]] de princípio é mais amplo que o de [[lexico:c:causa|causa]] ou de [[lexico:e:elemento|elemento]]. A [[lexico:n:nocao|noção]] de causa implica a [[lexico:d:diversidade|diversidade]] do ser e a dependência do causado relativamente à causa. A noção de elemento inclui que este entre, como [[lexico:p:parte|parte]], na [[lexico:f:formacao|formação]] de um [[lexico:t:todo|todo]]. O conceito de princípio prescinde destas determinações (vide [[lexico:r:razao|razão]], causa, [[lexico:p:principios-do-conhecimento|princípios do conhecimento]], [[lexico:p:principios-do-ser|princípios do ser]]). — [[lexico:b:brugger|Brugger]]. Desde os [[lexico:p:pre-socraticos|pré-socráticos]], o [[lexico:t:termo|termo]] princípio significou “princípio de todas as [[lexico:c:coisas|coisas]]” ou ”aquilo de que derivam todas as outras coisas”. A este [[lexico:s:sentido|sentido]] deve acrescentar- se outro que também teve larga [[lexico:t:tradicao|tradição]]; em vez de mostrar uma [[lexico:r:realidade|realidade]] e dizer dela que é o princípio de todas as coisas, pode propor-se uma razão pela qual todas as coisas são o que são. Então o princípio não é o [[lexico:n:nome|nome]] de nenhuma realidade, mas descreve o [[lexico:c:carater|caráter]] de determinada [[lexico:p:proposicao|proposição]] que “dá razão de”. Estes dois modos de entender o princípio foram posteriormente chamados princípio do ser e princípio do conhecer. Em muitos casos, pode caraterizar-se um determinado [[lexico:p:pensamento-filosofico|pensamento filosófico]] pela importância que dá a um princípio sobre o outro. Por [[lexico:e:exemplo|exemplo]], se há um [[lexico:p:primado|primado]] do princípio do ser sobre o princípio do conhecer, estamos perante um [[lexico:p:pensamento|pensamento]] filosófico fundamentalmente realista, segundo o qual o princípio do [[lexico:c:conhecimento|conhecimento]] segue o princípio da realidade; se dá um primado inverso, encontram-nos perante um pensamento idealista, segundo o qual os princípios do conhecimento da realidade determinam a realidade enquanto conhecida ou cognoscível. Apesar de já antes [[lexico:e:existir|existir]] a noção de princípio, foi [[lexico:a:aristoteles|Aristóteles]] que precisou os vários significados deste termo: [[lexico:p:ponto|ponto]] de partida do [[lexico:m:movimento|movimento]] de uma coisa; o melhor ponto departida; o elemento primeiro e [[lexico:i:imanente|imanente]] da [[lexico:g:geracao|geração]], e..... ([[lexico:m:metafisica|Metafísica]]). Segundo Aristóteles “o caráter comum de todos os princípios é o ser a [[lexico:f:fonte|fonte]] donde derivam o ser, ou a geração, ou o conhecimento”. Para muitos escolásticos, o princípio é aquilo de onde algo procede, podendo este algo pertencer à realidade, ao movimento ou ao conhecimento. Embora um princípio seja um ponto de partida, nem todo o ponto de partida pode ser um princípio. Por isso, reservou-se o nome de princípio para aquele que não pode reduzir-se a outro. Em contrapartida, pode admitir-se que os princípios de uma determinada [[lexico:c:ciencia|ciência]] são, por sua vez, dependentes de certos princípios superiores e, em última [[lexico:a:analise|análise]], dos chamados “primeiros princípios” ou axiomas. Se nos limitarmos [[lexico:a:agora|agora]] só aos princípios do conhecer, poderemos dividi- los em duas classes: os princípios comuns a todas as [[lexico:c:categorias|categorias]] de um [[lexico:s:saber|saber]] e os princípios próprios de cada [[lexico:c:categoria|categoria]] de saber. No que se refere à [[lexico:n:natureza|natureza]] dos princípios do conhecer, debateu-se trata de [[lexico:p:principios-logicos|princípios lógicos]] ou de [[lexico:p:principios-ontologicos|princípios ontológicos]]. Alguns afirmam que só merecem chamar-se “princípios” os princípios lógicos (como o de [[lexico:i:identidade|identidade]], de não [[lexico:c:contradicao|contradição]] e o do [[lexico:t:terceiro|terceiro]] excluído). Outros afirmam que os princípios lógicos são, no fundo, ontológicos, uma vez que os princípios não regeriam se não estivessem de certo modo fundados na realidade. Quanto à [[lexico:r:relacao|relação]] entre os princípios primeiros e os princípios próprios de uma ciência, repetem-se os termos da polêmica há pouco descrita: uns defendem que se trata de uma relação primeiramente [[lexico:l:logica|lógica]] e outros de uma relação fundada na natureza das realidades consideradas. Finalmente, foi tradicional o debate acerca da redutibilidade dos princípios de cada ciência aos princípios de qualquer outra ciência. A [[lexico:d:diferenca|diferença]] entre a tradição aristotélica e o [[lexico:c:cartesianismo|cartesianismo]], nesta [[lexico:a:aspecto|aspecto]], consistiu que enquanto a primeira defendeu a doutrina da [[lexico:p:pluralidade|pluralidade]] dos princípios, [[lexico:d:descartes|Descartes]] tentou encontrar primeiro as [[lexico:c:causas|causas]], os princípios que satisfizessem as condições seguintes: serem tão claros e evidentes que o [[lexico:e:espirito|espírito]] [[lexico:h:humano|humano]] não pudesse duvidar da sua [[lexico:v:verdade|verdade]], e serem princípios dos quais pudesse depender o conhecimento das outras coisas, e dos quais possa deduzir-se [[lexico:e:esse|esse]] conhecimento. Esses princípios seriam as verdadeiras “proposições máximas”. (gr. arche; lat. Principium; in. Principle; fr. Principe; al. Prinzip, Grundsatz; it. Principio). Ponto de partida e [[lexico:f:fundamento|fundamento]] de um [[lexico:p:processo|processo]] qualquer. Os dois significados, "ponto de partida" e "fundamento" ou "causa", estão estreitamente ligados na noção desse termo, que foi introduzido em [[lexico:f:filosofia|Filosofia]] por [[lexico:a:anaximandro|Anaximandro]] (Simplício, Fís., 24,13); a ele recorria [[lexico:p:platao|Platão]] com frequência no sentido de causa do movimento (Fed., 245 c) ou de fundamento da [[lexico:d:demonstracao|demonstração]] (Teet., 155 d); Aristóteles foi o primeiro a enumerar completamente seus significados. Tais significados são os seguintes: 1) ponto de partida de um movimento, p. ex., de uma linha ou de um [[lexico:c:caminho|caminho]]; 2) o melhor ponto de partida, como p. ex. o que facilita aprender uma coisa; 3) ponto de partida [[lexico:e:efetivo|efetivo]] de uma produção, como p. ex. a quilha de um navio ou os alicerces de uma casa; 4) causa externa de um processo ou de um movimento, como p. ex. um insulto que provoca uma briga; 5) o que, com a sua [[lexico:d:decisao|decisão]], determina movimentos ou mudanças, como p. ex. o [[lexico:g:governo|governo]] ou as magistraturas de uma [[lexico:c:cidade|cidade]]; 6a aquilo de que parte um processo de conhecimento, como p. ex. as premissas de uma demonstração. Aristóteles acrescenta a esta lista: "’Causa’ também tem os mesmos significados, pois todas as causas são princípios. O que todos os significados têm em comum é que, em todos, princípio é ponto de partida do ser, do [[lexico:d:devir|devir]] ou do conhecer" (Mel, V, 1, 1012 b 32-1013 a 19). Esses reparos de Aristóteles contêm quase tudo o que a tradição filosófica posterior disse a [[lexico:r:respeito|respeito]] dos princípios. Talvez caiba distinguir outro [[lexico:s:significado|significado]]: como ponto de partida e causa, o princípio às vezes é assumido como o elemento [[lexico:c:constitutivo|constitutivo]] das coisas ou dos conhecimentos. Este, provavelmente, era um dos sentidos da [[lexico:p:palavra|palavra]] entre os pré-socráticos, às vezes utilizado pelo [[lexico:p:proprio|próprio]] Aristóteles (Met., I, 3, 983 b 11; III, 3, 998 b 30, etc). Neste sentido, Lucrécio chamava os átomos de princípio (De rer. nat., II, 292, 573, etc), e os estoicos distinguiam [[lexico:e:elementos|elementos]] e princípio, pelo [[lexico:f:fato|fato]] de que os princípio não são gerados e são incorruptíveis (DIÓG. L., VII, 1, 134). No séc XVIII, ao definir o princípio como "o que contém em si a razão de alguma outra coisa", [[lexico:w:wolff|Wolff]] (Ont., § 886) observava que esse significado estava de [[lexico:a:acordo|acordo]] com a noção de Aristóteles e que os escolásticos não se haviam afastado dela (Ont., § 879). Baumgarten, a [[lexico:q:quem|quem]] a [[lexico:t:terminologia|terminologia]] [[lexico:m:moderna|moderna]] tanto deve, repetia a [[lexico:d:definicao|definição]] de Wolff (Met., § 307). [[lexico:k:kant|Kant]], por um lado, restringia o [[lexico:u:uso|uso]] do termo ao [[lexico:c:campo|campo]] do conhecimento, entendendo por princípio "toda proposição [[lexico:g:geral|geral]], mesmo extraída da [[lexico:e:experiencia|experiência]] por [[lexico:i:inducao|indução]], que possa servir de [[lexico:p:premissa|premissa]] maior num [[lexico:s:silogismo|silogismo]]", mas por outro lado introduzia a noção de "princípio [[lexico:a:absoluto|absoluto]]" ou "princípio em si", vale dizer, conhecimentos sintéticos originários e puramente racionais, que ele julgava insubsis-tentes, mas aos quais a razão recorreria no seu uso dialético ([[lexico:c:critica-da-razao-pura|Crítica da Razão Pura]], [[lexico:d:dialetica|Dialética]], II, A). Na [[lexico:f:filosofia-moderna|filosofia moderna]] e contemporânea a noção de princípio tende a perder importância. Com [[lexico:e:efeito|efeito]], inclui a noção de um ponto de partida privilegiado, não de modo [[lexico:r:relativo|relativo]] (em relação a certos objetivos), mas absoluto, em si. Um ponto de partida desse [[lexico:g:genero|gênero]] hoje dificilmente poderia ser admitido pelas ciências. Poincaré observava com razão que um princípio não passa de [[lexico:l:lei|lei]] empírica que se considere cômodo subtrair ao controle da experiência por [[lexico:m:meio|meio]] de convenções oportunas: portanto, um princípio não é [[lexico:v:verdadeiro|verdadeiro]] nem [[lexico:f:falso|falso]], mas apenas cômodo (La valeur de la science, 1905, p. 239). Em [[lexico:m:matematica|matemática]] e lógica, nas quais há oportunidades dessa natureza, esse termo está em desuso para indicar as premissas de um [[lexico:d:discurso|discurso]], e foi substituído por [[lexico:a:axioma|axioma]] ou [[lexico:p:postulado|postulado]]. Nestes campos, é frequente dar-se o nome de princípio a teoremas particulares, cuja importância para o [[lexico:d:desenvolvimento|desenvolvimento]] ulterior de um [[lexico:s:sistema|sistema]] [[lexico:s:simbolico|simbólico]] se queira ressaltar. [[lexico:p:peirce|Peirce]] chamara de princípio guia (Leading Principle) o princípio que "se deve supor verdadeiro para sustentar a [[lexico:v:validade|validade]] lógica de um [[lexico:a:argumento|argumento]] qualquer" (Coll. Pap., 3,168; cf. [[lexico:d:dewey|Dewey]], Logic, I; trad. it., p. 46).