===== PREGUIÇA ===== [[lexico:n:nao|Não]] é certamente mera coincidência se, paralelamente ao disfarce burguês da [[lexico:a:acidia|acídia]] como preguiça, a preguiça (junto com a esterilidade, que se cristaliza no [[lexico:i:ideal|ideal]] da mulher lésbica) se converte aos poucos em emblema que os artistas opõem à [[lexico:e:etica|ética]] capitalista da [[lexico:p:produtividade|produtividade]] e do [[lexico:u:util|útil]]. A [[lexico:p:poesia|poesia]] de Baudelaire está dominada do início ao [[lexico:f:fim|fim]] pela [[lexico:i:ideia|ideia]] da paresse como [[lexico:s:sinal|sinal]] da [[lexico:b:beleza|beleza]]. Um dos efeitos fundamentais que Moreau buscava realizar na sua pintura era “la belle inertie”. A obsessiva [[lexico:p:presenca|presença]], na sua [[lexico:o:obra|obra]], de uma emblemática [[lexico:f:figura|figura]] feminina (marcada especialmente através do gesto hierático da sua Salomé) não pode [[lexico:s:ser|ser]] entendida se prescindirmos da sua concepção da feminilidade como criptografia do [[lexico:t:tedio|tédio]] improdutivo e da inércia: “Cette femme ennuyée, fantasque” — escreve ele — “à nature animale, se donnant le plaisir, três peu vif pour elle, de voir son ennemi à terre, tant elle est degoütée de toute satisfaction de ses désirs. Cette femme se promenant nonchalamment d’une façon végétale...” [“Esta mulher aborrecida, esquisita” — escreve ele — “de natureza animal, dando-se o prazer, muito pouco vivo para ela, de ver seu inimigo por terra, tanto ela está enjoada com qualquer satisfação de seus desejos. Esta mulher caminhando indolentemente, de uma maneira vegetal...”]. Observe-se que, na grande tela incompleta Les chimères, na qual Moreau queria [[lexico:r:representar|representar]] todos os [[lexico:p:pecados|pecados]] e todas as tentações do [[lexico:h:homem|homem]], pode-se perceber uma figura que corresponde especificamente à tradicional [[lexico:r:representacao|representação]] da acídia-melancolia. [AgambenE:26-27 Nota]