===== PRAGMA ===== (pragma; lat. res; in. Thing; fr. Chose; al. Ding; it. Cosa). Tanto no [[lexico:d:discurso|discurso]] comum quando no filosófico, [[lexico:e:esse|esse]] [[lexico:t:termo|termo]] "[[lexico:c:coisa|coisa]]" tem dois significados fundamentais: 1) genérico, designando qualquer [[lexico:o:objeto|objeto]] ou termo, [[lexico:r:real|real]] ou [[lexico:i:irreal|irreal]], mental ou [[lexico:f:fisico|físico]], etc, de que, de um [[lexico:m:modo|modo]] qualquer, se possa tratar; 2) específico, denotando os objetos naturais enquanto tais. 1) No primeiro [[lexico:s:significado|significado]], a [[lexico:p:palavra|palavra]] é um dos termos mais frequentes da [[lexico:l:linguagem|linguagem]] comum e também é amplamente empregada pelos filósofos. "Coisa" pode [[lexico:s:ser|ser]] o termo de um [[lexico:a:ato|ato]] de [[lexico:p:pensamento|pensamento]] ou de [[lexico:c:conhecimento|conhecimento]], de [[lexico:i:imaginacao|imaginação]] ou de [[lexico:v:vontade|vontade]], de construção ou de [[lexico:d:destruicao|destruição]], etc. Pode-se [[lexico:f:falar|falar]] de uma coisa que existe na [[lexico:r:realidade|realidade]] como também de uma coisa que está na imaginação, no [[lexico:c:coracao|coração]], nos sentidos, etc. Assim, pode-se dizer que, nessa acepção, coisa significa um termo qualquer de um [[lexico:a:ato-humano|ato humano]] qualquer ou, mais exatamente, qualquer objeto com que, de qualquer modo, se deva tratar. É o significado contido na palavra grega pragma. 2) No seu significado mais restrito, a coisa é o objeto [[lexico:n:natural|natural]] também [[lexico:c:chamado|chamado]] de "[[lexico:c:corpo|corpo]]" ou "[[lexico:s:substancia|substância]] corpórea". O [[lexico:u:uso|uso]] do termo nesse segundo significado é até certo [[lexico:p:ponto|ponto]] recente. Pode talvez remontar a [[lexico:d:descartes|Descartes]], que, porém, ao lado da [[lexico:e:expressao|expressão]] "coisa corpóreas" (choses corporelles), emprega também "coisa que pensa" (chose quipense), mostrando, assim, que entende a palavra no significado tradicional de substância (Méd., II, passirrí). [[lexico:l:locke|Locke]] preferiu a palavra "substância" ("As [[lexico:i:ideias|ideias]] das [[lexico:s:substancias|substâncias]] são as combinações de ideias [[lexico:s:simples|simples]] das quais se supõe que representem [[lexico:c:coisas|coisas]] particulares e distintas, subsistentes [[lexico:p:por-si|por si]] mesmas", Ensaio, II, 12, § 6). E só com [[lexico:b:berkeley|Berkeley]] pode-se dizer que o termo coisa tenha suplantado definitivamente o termo substância: "As ideias impressas nos sentidos pelo autor da [[lexico:n:natureza|natureza]]", diz ele, "são chamadas [[lexico:c:coisas-reais|coisas reais]] e as suscitadas pela imaginação, sendo menos regulares, vividas e constantes, são mais propriamente chamadas ideias ou imagens das coisas, que elas copiam ou representam" (Principles, I, § 33). A partir daí, esse termo coisa passou a ser bastante frequente para indicar o corpo ou o objeto natural em [[lexico:g:geral|geral]]. [[lexico:k:kant|Kant]] estende-o ainda mais, distinguindo as coisas tais como aparecem para nós, isto é, submetidas às condições da nossa [[lexico:s:sensibilidade|sensibilidade]] ([[lexico:e:espaco|espaço]] e [[lexico:t:tempo|tempo]]), e as coisas em geral, ou coisa em si (Crít. R. Pura, § 8). Mas também fixa o significado desse termo em seu tratamento sobre o [[lexico:e:esquematismo|esquematismo]] [[lexico:t:transcendental|transcendental]], onde faz da coisalidade ou realidade (Sachheit, Realität) o [[lexico:e:esquema|esquema]] fundamental da [[lexico:c:categoria|categoria]] de [[lexico:q:qualidade|qualidade]], no [[lexico:s:sentido|sentido]] de que "coisa em geral é o que corresponde a uma [[lexico:s:sensacao|sensação]] em geral" (Ibid., Esquematismo dos [[lexico:c:conceitos|conceitos]] puros). A partir daí, a [[lexico:h:historia|história]] da [[lexico:n:nocao|noção]] de coisa pode ser dividida em duas correntes fundamentais, segundo se lhe atribua ou negue um significado específico. Podemos, portanto, distinguir: a) A corrente para a qual o ser da coisa se resolve no ser em geral. Assim, para o [[lexico:i:idealismo-empirico|idealismo empírico]], para o qual o ser é [[lexico:r:representacao|representação]] ou [[lexico:i:ideia|ideia]], a coisa é representação ou ideia, ou um [[lexico:c:complexo|complexo]] de representações ou de ideias. Essa doutrina, que é a de Berkeley, foi reproduzida inúmeras vezes na [[lexico:f:filosofia-moderna|filosofia moderna]] e contemporânea. Para o [[lexico:i:idealismo|Idealismo]] [[lexico:a:absoluto|absoluto]] ou romântico, para o qual a realidade é a própria [[lexico:r:razao|razão]], a coisa é um [[lexico:c:conceito|conceito]] da razão; e de [[lexico:f:fato|fato]] [[lexico:h:hegel|Hegel]] a considera como uma categoria [[lexico:l:logica|lógica]] (Ene, §§ 125 ss.;Wissenschaft der Logik, ed. Glockner, I, pp. 602 ss.) O significado autônomo dessa noção [[lexico:n:nao|não]] é resgatado pela modificação da [[lexico:t:tese|tese]] do [[lexico:e:empirismo|empirismo]] [[lexico:c:classico|clássico]], proposta por [[lexico:s:stuart-mill|Stuart Mill]]. Segundo eles, as coisas são "possibilidades de sensações" (Examination of Hamilton’s Phil., pp. 190 ss.), mas isso não delimita especificamente o modo de ser das coisas. Isso tampouco é feito pela concepção de [[lexico:m:mach|Mach]], que define as coisa como complexos de sensações (Analyse der Empfindungen, 9a ed., 1922, p. 14), ainda que as "sensações" de que [[lexico:f:fala|fala]] Mach não sejam determinações subjetivas, mas [[lexico:e:elementos|elementos]] neutros que entram na composição tanto das coisas quanto da [[lexico:m:mente|mente]]. Esse ponto de vista foi reproduzido por [[lexico:r:russell|Russell]], para [[lexico:q:quem|quem]] "uma coisa é uma [[lexico:s:sequencia|sequência]] determinada de aparências, em ligação contínua umas com as outras, segundo certas leis causais" (Scientific Method in Phil, 1926, IV, trad. fr., p. 86). A conexão do modo de ser das coisas com a [[lexico:a:acao|ação]] humana sobre a qual, como veremos logo, baseia-se a noção positiva de coisa, é elucidada por [[lexico:b:bergson|Bergson]], que, no entanto, a utiliza só com o [[lexico:f:fim|fim]] de negar a realidade das coisas. "Não há coisa, há somente [[lexico:a:acoes|ações]]", disse (Évol. créatr., 11-ed., 1911, p. 270). As coisa são criações da [[lexico:i:inteligencia|inteligência]] enquanto [[lexico:f:funcao|função]] prática que solidifica o [[lexico:d:devir|devir]], substituindo pela estabilidade fictícia de "coisa" ou de "estados" a continuidade e fluidez da [[lexico:c:consciencia|consciência]] (Ibid., pp. 269 ss. 296). Nessa doutrina, as coisas se reduzem a ações e a ação à [[lexico:d:duracao|duração]] real da consciência; tem-se, embora com certa consciência dos problemas inerentes, a costumeira [[lexico:r:reducao|redução]] da coisa a um [[lexico:e:estado|Estado]] [[lexico:s:subjetivo|subjetivo]]. E o significado de tal redução da coisa a elementos subjetivos, ainda que qualificados (sensações, representações, ideias, ações, etc), é simplesmente isto: que não existem coisas. b) Corrente para a qual o ser da coisa tem significado específico. Foi [[lexico:h:husserl|Husserl]] quem ressaltou esse significado, do ponto de vista fenomenológico, afirmando que existe "uma [[lexico:d:diferenca|diferença]] fundamental entre o ser como [[lexico:e:experiencia|experiência]] vivida e o ser como coisa" e que, portanto, "uma coisa não pode ser dada em nenhuma [[lexico:p:percepcao|percepção]] [[lexico:p:possivel|possível]] ou outra [[lexico:m:modalidade|modalidade]] de consciência em geral" (Ideen, I, § 42). O modo de ser específico da coisa consiste no fato de que ela é dada em um [[lexico:n:numero|número]] [[lexico:i:indefinido|indefinido]] de [[lexico:a:aparicoes|aparições]], mas permanece [[lexico:t:transcendente|transcendente]] como uma [[lexico:u:unidade|unidade]] que está [[lexico:a:alem|além]] dessas aparições, e que, todavia, se manifesta em um núcleo de elementos [[lexico:b:bem|Bem]] determinados, circundados por um [[lexico:h:horizonte|horizonte]] de outros elementos mais indeterminados (Ibid., § 44). O ser da coisa se contrapõe, assim, ao das experiências vividas ou da consciência. Essa [[lexico:c:contraposicao|contraposição]] é pressuposta por todas as tentativas da [[lexico:f:filosofia|Filosofia]] contemporânea de determinar de maneira específica o ser da coisa. E é significativo que tais tentativas tenham partido de dois pontos de vista independentes e aparentemente contrastantes, o [[lexico:n:naturalismo|naturalismo]] instru-mentalista, de um lado, e a filosofia [[lexico:e:existencialista|existencialista]], de [[lexico:o:outro|outro]]. Mead mostrou a ligação entre a noção de coisa e o "[[lexico:m:mundo|mundo]] da ação". As coisa se inserem numa fase bem determinada desse mundo, isto é, na que se situa entre o início de uma ação e a sua consumação final. Em outros termos, é na fase da manipulação que comparece ou se constitui a coisa [[lexico:f:fisica|física]], que, no entanto, é [[lexico:u:universal|universal]] no sentido de pertencer à experiência de todos (Mind, Self and Society, pp. 184-85). [[lexico:d:dewey|Dewey]], por sua vez, mostrou a estreita conexão do modo de ser das coisa com a [[lexico:i:investigacao|investigação]]. "As coisas", disse ele, "existem como objetos para nós na [[lexico:m:medida|medida]] em que tenham sido preliminarmente determinadas como resultados de investigações. Quando são usadas na preparação de novas investigações sobre novas situações problemáticas, são conhecidas como objetos só em [[lexico:v:virtude|virtude]] de indagações anteriores que justificam a sua assertividade. Na nova [[lexico:s:situacao|situação]], os objetos são meios para alcançar o conhecimento de alguma outra coisa" (Logic, VI; trad. it., p. 175). Dewey afirmou nitidamente o [[lexico:c:carater|caráter]] instrumental das coisas e, em geral, de todos os objetos de conhecimento. Tanto as "coisas imediatas" quanto os objetos da [[lexico:c:ciencia|ciência]] física "construídos por uma [[lexico:o:ordem|ordem]] matemático-mecânica" são "meios para garantir ou para evitar determinados objetos imediatos" (Experience and Nature, p. 141). Essas determinações de Mead e Dewey são apresentadas como resultados de análises empíricas. [[lexico:h:heidegger|Heidegger]] apresenta suas determinações como resultados de uma [[lexico:a:analise|análise]] [[lexico:e:existencial|existencial]]: a noção de coisa é esclarecida por ele como um [[lexico:e:elemento|elemento]] da [[lexico:e:existencia|existência]] humana enquanto "[[lexico:s:ser-no-mundo|ser-no-mundo]]". Ser no mundo significa ocupar-se com [[lexico:a:alguma-coisa|alguma coisa]] e a coisa é sempre um [[lexico:i:instrumento|instrumento]] (Zeug), um [[lexico:m:meio|meio]] para... Enquanto tal, o modo de ser da coisa é o da instrumentalidade, e "a instrumentalidade é a [[lexico:d:determinacao|determinação]] ontológico-categorial do [[lexico:e:ente|ente]] como ele é em sf. Quer dizer: a instrumentalidade não se acrescenta como uma qualidade secundária ou extrínseca à realidade da coisa, mas a constitui, é essa mesma realidade. O modo de ser da coisa é o da instrumentalidade, do ser instrumento ou instrumento para... Desse ponto de vista, "a natureza não pode ser entendida como simples [[lexico:p:presenca|presença]], nem mesmo como [[lexico:f:forca|força]] natural. A floresta é plantação, a montanha é pedreira, a corrente é força hidráulica, o vento é vento em popa. A [[lexico:d:descoberta|descoberta]] do mundo [[lexico:a:ambiente|ambiente]] e a descoberta da natureza ocorrem ao mesmo tempo". Pode-se certamente procurar [[lexico:v:ver|ver]] [[lexico:o:o-que-e|o que é]] a natureza, e deixar de lado a instrumentalidade das coisa Mas, nesse caso, a natureza permanece incompreensível "como o que tece e acontece, o que se precipita sobre nós e nos empolga" (Sein und Zeit, § 15). Sem [[lexico:d:duvida|dúvida]], Heidegger conseguiu determinar, ainda melhor do que o [[lexico:i:instrumentalismo|instrumentalismo]] americano, o modo de ser instrumental das coisas, a categoria da instrumentalidade que o define. Por sua vez, Lewis pôs em [[lexico:e:evidencia|evidência]] as implicações lógicas que [[lexico:s:semelhante|semelhante]] conceito da coisa traz em si. "Atribuir uma qualidade objetiva a uma coisa", disse ele, "significa implicitamente a [[lexico:p:previsao|previsão]] de que, se [[lexico:e:eu|eu]] agir de certa maneira, ocorrerá certa experiência especificável: se eu morder esta maçã, seu sabor será doce; se eu a comer, será digerida e não me envenenará, etc. Essas e outras tantas proposições hipotéticas constituem o meu conhecimento da maçã que tenho em [[lexico:m:maos|mãos]]" (Mind and the World-Order, cap. V, ed. Dover, p. 140). As expressões da [[lexico:f:forma|forma]] Se... então referem-se a possibilidades que transcendem a experiência [[lexico:a:atual|atual]] e que são próprias do [[lexico:h:homem|homem]] como ser ativo. "O significado do conhecimento", disse ainda Lewis a esse propósito, "depende do significado de uma [[lexico:p:possibilidade|possibilidade]] que não é atual. Possibilidade e [[lexico:i:impossibilidade|impossibilidade]], logo [[lexico:n:necessidade|necessidade]] e [[lexico:c:contingencia|contingência]], [[lexico:c:compatibilidade|compatibilidade]] e [[lexico:i:incompatibilidade|incompatibilidade]], e várias outras noções fundamentais, exigem que deva haver proposições ‘Se... então’, cuja [[lexico:v:verdade|verdade]] ou [[lexico:f:falsidade|falsidade]] é [[lexico:i:independente|independente]] da [[lexico:c:condicao|condição]] afirmada na oração [[lexico:a:antecedente|antecedente]]" (Ibid., 142 n) (v. [[lexico:i:implicacao|Implicação]]). O horizonte [[lexico:l:logico|lógico]] do conceito de coisa, elaborado pela filosofia contemporânea, é, portanto, o da possibilidade, expresso pelas proposições condicionais. Isso é confirmado pelos resultados das pesquisas experimentais realizadas pela [[lexico:p:psicologia|psicologia]] transacional, que levam a ver na coisa certa "[[lexico:c:classe|classe]] de possibilidades" que constitui uma prognose generalizada, com base na experiência passada, dos usos ou comportamentos possíveis de um objeto (Explorations in Transactional Psychology, org. F. P. Kilpatrick, 1961, cap. 21; trad. it., p. 495-96).