===== POTÊNCIA ===== A potência (do latim "[[lexico:p:posse:start|posse]]": poder), como fator parcial, [[lexico:f:forma:start|forma]], juntamente com o [[lexico:a:ato:start|ato]], a [[lexico:e:estrutura:start|estrutura]] do [[lexico:e:ente:start|ente]] [[lexico:f:finito:start|finito]]. Esta [[lexico:n:nocao:start|noção]], primeiramente desenvolvida por [[lexico:a:aristoteles:start|Aristóteles]] (que a denomina dyn mei on) e ulteriormente aperfeiçoada pela [[lexico:e:escolastica:start|escolástica]], continua vivendo no [[lexico:c:conceito:start|conceito]] de [[lexico:f:forca:start|força]] em [[lexico:l:leibniz:start|Leibniz]] e no "[[lexico:e:em-si:start|em-si]]" de [[lexico:h:hegel:start|Hegel]]. Hoje, a [[lexico:b:biologia:start|biologia]] (Driesch) e também a [[lexico:f:fisica:start|física]] encontraram de novo o [[lexico:c:caminho:start|caminho]] que a ela conduz. No que tange à [[lexico:e:essencia:start|essência]] da potência, ela só pode [[lexico:s:ser:start|ser]] descrita por sua [[lexico:r:relacao:start|relação]] com o ato, como a [[lexico:p:possibilidade:start|possibilidade]] [[lexico:r:real:start|real]] ou [[lexico:a:aptidao:start|aptidão]] para ele. Sendo assim, há dois tipos de potência. A potência passiva é a aptidão para receber um ato. [[lexico:n:nao:start|Não]] coincide com a potência objetiva, com a pura ou não-real possibilidade, a qual é abandonada pelo ente no início de sua [[lexico:e:existencia:start|existência]], mas que não entra nele como fator parcial; denomina-se objetiva, porque só na [[lexico:m:mente:start|mente]] do Criador aparece como [[lexico:o:objeto:start|objeto]]. Mas aqui trata-se da potência subjetiva, que, como [[lexico:s:sujeito:start|sujeito]] real (sub-iectum) do ato a ela [[lexico:a:agregado:start|agregado]], co-estrutura o real. Esta é potência pura (isenta de ato), quando não traz consigo nenhum ato nem pressupõe nenhum ato que lhe sirva de [[lexico:f:fundamento:start|fundamento]]. Como tal consideram Aristóteles e muitos escolásticos a [[lexico:m:materia-prima:start|matéria prima]] de [[lexico:t:todo:start|todo]] o corpóreo, a qual deve toda sua [[lexico:a:atualidade:start|atualidade]] ao ato (forma [[lexico:e:essencial:start|essencial]]) a ela agregado e por ela recebido. Uma potência não-pura ou põe ela própria um ato ou radica noutro ato no qual se alicerça. O primeiro caso ocorre na forma essencial, a qual só é potência diante da existência; mas, diante da matéria-prima, é ato. O segundo caso verifica-se nas potências acidentais, que se baseiam na [[lexico:s:substancia:start|substância]]; pense-se, p. ex., na [[lexico:r:receptividade:start|receptividade]] do [[lexico:h:homem:start|homem]] para a [[lexico:c:ciencia:start|ciência]]. A potência passiva, como pura receptividade, não é, em si, todavia ato, mas também não é completamente [[lexico:n:nada:start|nada]], mas é algo real; p. ex., a pedra carece de receptividade para o [[lexico:s:saber:start|saber]]. A amplitude desta potência decide a [[lexico:e:extensao:start|extensão]] do ato, que um ente pode receber; desse [[lexico:m:modo:start|modo]], delimita o ato. Na potência passiva inclui-se a "potência obediencial" (potenlia oboedientialis), que consiste na [[lexico:c:capacidade:start|capacidade]] da criatura para receber a [[lexico:a:acao:start|ação]] de [[lexico:d:deus:start|Deus]], inclusive para [[lexico:a:alem:start|além]] dos limites de sua [[lexico:n:natureza:start|natureza]], sem que, contudo, esta fique anulada. Constitui ela a [[lexico:p:pressuposicao:start|pressuposição]] para o [[lexico:m:milagre:start|milagre]] e para a elevação [[lexico:s:sobrenatural:start|sobrenatural]] do homem. Em [[lexico:c:contraposicao:start|contraposição]] à potência passiva está a potência ativa como [[lexico:f:faculdade:start|faculdade]] ou potência de produzir um ato. Este é, pelo menos, a [[lexico:a:atividade:start|atividade]] correspondente à faculdade (p. ex., ato da [[lexico:i:inteligencia:start|inteligência]] ou da [[lexico:v:vontade:start|vontade]]), e com frequência é uma [[lexico:o:obra:start|obra]] (p. ex., um [[lexico:f:filho:start|filho]], uma casa). A potência ativa inclui já um certo ato, uma vez que, segundo o [[lexico:p:principio-de-causalidade:start|princípio de causalidade]], ninguém pode produzir o que não possui de algum modo. Enquanto a potência passiva repugna à essência de Deus, existe nele a potência ativa, não, é claro, para produzir a sua atividade, mas para produzir uma obra; e isto sem a recepção passiva imiscuída a toda obra finita, como, p. ex., com o nosso ensinar imiscui-se um aprender. — Lötz. Aristóteles considera que potência e ato são noções que se aplicam principalmente à [[lexico:c:compreensao:start|compreensão]] da passagem de entidades menos formadas a entidades mais formadas, pelo que se sublinham nesses [[lexico:c:conceitos:start|conceitos]] [[lexico:e:elementos:start|elementos]] dinâmicos, ao contrário do [[lexico:a:aspecto:start|aspecto]] [[lexico:e:estatico:start|estático]] assumido pelas noções de [[lexico:m:materia-e-forma:start|matéria e forma]]. São vários os significados de potência, mas, antes de mais há dois: 1) a potência é o poder que uma [[lexico:c:coisa:start|coisa]] tem de [[lexico:p:provocar:start|provocar]] uma [[lexico:m:mudanca:start|mudança]] noutra coisa; 2) a potência é a potencialidade existente numa coisa de passar a [[lexico:o:outro:start|outro]] [[lexico:e:estado:start|Estado]]. Esta última [[lexico:s:significacao:start|significação]] é aquela que Aristóteles considera mais importante para a sua [[lexico:m:metafisica:start|metafísica]].. Sem a noção de potência, não poderíamos dar conta do [[lexico:m:movimento:start|movimento]] enquanto passagem de uma coisa de um estado a outro estado. Por [[lexico:e:exemplo:start|exemplo]], a [[lexico:p:proposicao:start|proposição]] “x cresce” é [[lexico:i:ininteligivel:start|ininteligível]] se não aceitarmos que a proposição “x tem a potência de crescer” tem [[lexico:s:sentido:start|sentido]]. Em [[lexico:g:geral:start|geral]], não podemos dizer, segundo Aristóteles que “x virá a ser y” se não admitirmos previamente que há em x algumas das condições que vão tornar [[lexico:p:possivel:start|possível]] y. Isto não significa que basta supor uma potência para poder [[lexico:e:explicar:start|explicar]] a sua atualização.. Como Aristóteles afirmou muitas vezes, o ato é logicamente anterior à potência. As potências são de muitas espécies: umas residem nos seres animados, outras, nos inanimados; umas são racionais, outras, irracionais. A única coisa que têm em comum é a capacidade de serem atualizadas. Pode dizer-se que o ser que tem vista está em potência para [[lexico:v:ver:start|ver]] e que a cera está em potência para receber uma determinada [[lexico:f:figura:start|figura]]. A [[lexico:d:distincao:start|distinção]] entre diversos tipos de potência constituiu, depois de Aristóteles, um dos temas mais frequentes da [[lexico:r:reflexao:start|reflexão]] filosófica.. Os escolásticos distinguiam entre dois tipos de potência: a [[lexico:l:logica:start|lógica]] ou objetiva, que é uma mera e [[lexico:s:simples:start|simples]] possibilidade, pois pode definir-se como a mera não [[lexico:r:repugnancia:start|repugnância]] de algo perante a existência; o segundo [[lexico:t:tipo:start|tipo]] de potência é a real, subjectiva, não baseada no mero [[lexico:l:limite:start|limite]] [[lexico:v:vazio:start|vazio]] da possibilidade [[lexico:i:ideal:start|ideal]], mas na [[lexico:e:entidade:start|entidade]] real (para os significados tradicionais de [[lexico:o:objetivo:start|objetivo]] e subjectivo, vejam-se os artigos correspondentes). A potência subjectiva pode ser considerada, pois, uma possibilidade real, e ser tratada dentro do [[lexico:p:problema:start|problema]] da possibilidade se não fosse que esta [[lexico:r:reducao:start|redução]] da potência ao possível foi precisamente aquilo que levou muitas vezes a [[lexico:t:tradicao:start|tradição]] escolástica a acentuar excessivamente o [[lexico:m:momento:start|momento]] estático; mesmo quando a potência subjectiva seja equiparável à possibilidade real, é-o no sentido de que representa um [[lexico:p:principio:start|princípio]] e não simplesmente uma [[lexico:c:condicao:start|condição]]. Dentro da [[lexico:o:orientacao:start|orientação]] central da escolástica, continua a ser um [[lexico:c:carater:start|caráter]] comum a toda a potência, enquanto potência, certa imperfeição. Isto não permite identificar a noção de potência à de receptáculo vazio [[lexico:i:identico:start|idêntico]] ao não ser. A potência é sempre algo, mas pode acentuar-se nela o momento [[lexico:p:passivo:start|passivo]] ou o momento ativo; o primeiro é [[lexico:p:proprio:start|próprio]] dos filósofos influenciados pelo [[lexico:a:aristotelismo:start|aristotelismo]]; o segundo, dos pensadores influenciados pelo [[lexico:n:neoplatonismo:start|neoplatonismo]]. Com [[lexico:e:efeito:start|efeito]], a tradição neoplatônica defendeu a concepção da plenitude operativa da potência. Esta noção acentua-se quando se refere a um se subsistente por [[lexico:s:si-mesmo:start|si mesmo]]; o ser que vive de si e [[lexico:p:por-si:start|por si]] é aquele que também possui eminentemente as potências e, portanto, as [[lexico:a:atividades:start|atividades]], que lhe permitem ser aquilo que é. Enquanto no [[lexico:p:pensamento:start|pensamento]] inclinado para a [[lexico:i:interpretacao:start|interpretação]] do ato como mera atualidade e da potência como simples possibilidade, a mudança se explica pela existência de imperfeito, isto é, daquilo que ainda não chegou a ser e tende para a sua própria [[lexico:p:perfeicao:start|perfeição]], no pensamento orientado para a interpretação do ato como atividade e da potência com [[lexico:m:manifestacao:start|manifestação]] do ser superabundante, o movimento surge da própria perfeição [[lexico:f:formal:start|formal]]. A [[lexico:d:discussao:start|discussão]] sobre o caráter operativo ou não operativo da potência foi retomada ao longo de toda a [[lexico:f:filosofia-moderna:start|filosofia moderna]]. Leibniz insistiu em que a noção escolástica de potência acentuava demasiado o aspecto [[lexico:p:positivo:start|positivo]]. “as verdadeiras potências - dizia ele - nunca são simples possibilidades, há sempre nelas [[lexico:t:tendencia:start|tendência]] e ação” (NOVOS [[lexico:e:ensaios:start|Ensaios]]). Contudo, deve reconhecer-se que, dentro da própria escolástica, houve [[lexico:q:quem:start|quem]] procurasse transformar a noção de potência na força propriamente dita, pois supunham que nenhuma substância é completamente positiva. Para Duns Escoto, pode ser potência não só a [[lexico:m:materia:start|matéria]], mas também a matéria. Acontece mais ou menos o mesmo com os pensadores ingleses modernos. Estes examinam a noção clássica de potência sob o aspecto da noção de força. É certo a que, desde [[lexico:l:locke:start|Locke]], se manifesta uma tendência para reduzir essa [[lexico:r:realidade:start|realidade]] ao [[lexico:c:campo:start|campo]] [[lexico:p:psicologico:start|psicológico]] mesmo quando, na [[lexico:m:medida:start|medida]] em que se ataca o problema a fundo, voltam a surgir os problemas metafísicos. Tanto Locke como [[lexico:h:hume:start|Hume]] assinalam que a força ou potência se diz de duas maneiras: Por um lado, é algo capaz de fazer; por outro, algo capaz de receber uma mudança. No primeiro caso, é um poder ativo, no segundo, um poder passivo. Isto segue, em linhas gerais, a [[lexico:p:posicao:start|posição]] tradicional, mas Hume destrói a noção de potência ao declarar que não temos nenhuma [[lexico:i:ideia:start|ideia]] própria dela. A força é uma relação que o [[lexico:e:espirito:start|espírito]] concebe entre uma coisa anterior e outra posterior. Mas nem a [[lexico:s:sensacao:start|sensação]] nem a reflexão nos dão a ideia de força no [[lexico:a:antecedente:start|antecedente]] para produzir o [[lexico:c:consequente:start|consequente]]... “Na realidade - diz ele - não há nenhuma [[lexico:p:parte:start|parte]] de matéria que nos revele pelas suas [[lexico:q:qualidades-sensiveis:start|qualidades sensíveis]], alguma força ou [[lexico:e:energia:start|energia]] ou que nos dê fundamento para imaginar que poderia produzir algo ou ser seguida por algo ou outro objeto que nós mesmos poderíamos denominar efeito ([[lexico:i:investigacao:start|INVESTIGAÇÃO]] SOBRE O [[lexico:e:entendimento:start|entendimento]] [[lexico:h:humano:start|humano]]). Deste modo, Hume não só se opõe à tradição clássica, mas também a Locke., que supunha que a ideia de força pode derivar do [[lexico:f:fato:start|fato]]. “A conexão que sentimos no espírito - prossegue Hume -, a acostumada transição da [[lexico:i:imaginacao:start|imaginação]] de um objeto ao seu acompanhante usual, é o [[lexico:s:sentimento:start|sentimento]] ou [[lexico:i:impressao:start|impressão]] do qual formamos a ideia de força ou de conexão necessária”. Na medida em que o [[lexico:i:idealismo-alemao:start|idealismo alemão]] seguiu os antecedentes de Leibniz, tendeu a sublinhar o aspecto metafísico-operativo da potência como verdadeira força em todos os seres. [[lexico:d:descartes:start|Descartes]] reconhecia potência ativa só ao pensamento, enquanto a extensão era absolutamente passiva. Leibniz estendeu a potencialidade a toda a realidade. O mesmo fez [[lexico:k:kant:start|Kant]], sobretudo na última fase da sua [[lexico:f:filosofia:start|Filosofia]], quando o [[lexico:d:dinamico:start|dinâmico]] prevaleceu definitivamente sobre o matemático. [[lexico:f:fichte:start|Fichte]] explorou até ao [[lexico:e:extremo:start|extremo]] este [[lexico:u:ultimo:start|último]] caminho e [[lexico:s:schelling:start|Schelling]] postulou as potências como [[lexico:r:relacoes:start|relações]] determinadas entre o objetivo e o subjectivo, entre o real e o ideal. Como o existente é sempre só a indiferença, e não existe nada fora dele, o [[lexico:a:absoluto:start|absoluto]] como [[lexico:i:identidade:start|identidade]] encontra-se apenas sob a forma de potência. São estas as verdadeiras forças metafísicas a que, como tais, constituem o ser no conjunto das suas operações. O [[lexico:i:idealismo:start|Idealismo]] destaca extraordinariamente o operativismo da potência e afasta-se até um limite máximo da sua concepção como mera possibilidade. Será essa a tendência que irá reinar na maior parte das correntes contemporâneas. O ato define-se por si, como [[lexico:e:eficiencia:start|eficiência]]. É o ato o que e-facere. Todo ato, enquanto ato, é [[lexico:p:perfeito:start|perfeito]], porque é eficiente. Essa eficiência, porém, oferece graus, etc, enquanto fato, não enquanto formalmente considerada. [[lexico:o:o-que-e:start|o que é]] ato ou é, ou não é (formalmente considerado, [[lexico:o:ontologico:start|ontológico]]). Nós induzimos o ato, dele partimos, pois partimos de um ato para captarmos o ato. É o princípio simples. A potência é declarada pelo ato; é a capacidade do ato produzir ou receber (ativa ou passiva). Assim: Potência: passiva — a que é capaz de receber; ativa — a que é capaz de produzir. Já vimos a possibilidade real ou ideal. Assim também: Potência: ideal — a meramente lógica (ou a fundada em [[lexico:i:ideias:start|ideias]]); real — a que está no ato; Dessa forma, a potência real e a ideal podem ser ativa ou passiva. Ainda costumam subdividir: Potência: objetiva — a que está no objeto: é lógica; subjetiva — a que está no sujeito. Por sua vez, o ato é subdividido: real — fático; [[lexico:l:logico:start|lógico]] — fundado na lógica (confunde-se com o real); entitativo - que consiste numa entidade que tem ensidade; formal — apenas consiste na forma; misto — [[lexico:h:hibrido:start|híbrido]] com potência (o fático em geral); [[lexico:p:puro:start|puro]] — o que não tem hibridez com a potência passiva (Deus). O ato é anterior à potência (considerada absolutamente). O [[lexico:e:existir:start|existir]] finito é ato misto, é hibridez de [[lexico:a:ato-e-potencia:start|ato e potência]]. Neste caso, há [[lexico:p:prioridade:start|prioridade]] de ato em relação à potência, mas de potência em relação a atos, tomados como partes, isto é, [[lexico:r:relativos:start|relativos]]. No existir cronotópico, todo ato é potência de um outro ato. Sua eficiência assim o revela. A explanação sintética, que ora fizemos, não exclui as análises posteriores, que surgirão em outros temas, sobretudo quando examinemos os [[lexico:p:principios:start|princípios]] intrínsecos e extrínsecos do ser. {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}