===== PÓS-KANTISMO ===== Os filósofos que sucedem a [[lexico:k:kant|Kant]] se diferenciam de Kant de uma maneira radical e se assemelham a ele de uma maneira perfeita. Diferenciam-se radicalmente dele no seu [[lexico:p:ponto|ponto]] de partida. Kant tomara como ponto de partida da [[lexico:f:filosofia|Filosofia]] a [[lexico:m:meditacao|meditação]] sobre a [[lexico:c:ciencia|ciência]] físico-matemática aí existente como um [[lexico:f:fato|fato]], e também a meditação sobre a [[lexico:c:consciencia-moral|consciência moral]], que também é [[lexico:o:outro|outro]] fato, e, como diz Kant, factum, fato da [[lexico:r:razao-pratica|razão prática]]. Mas os filósofos que vêm depois de Kant abandonam [[lexico:e:esse|esse]] ponto de partida de Kant; já [[lexico:n:nao|não]] tomam como ponto de partida o [[lexico:c:conhecimento|conhecimento]] e a [[lexico:m:moral|moral]], mas tomam como ponto de partida o "[[lexico:a:absoluto|absoluto]]". Esse algo absoluto e [[lexico:i:incondicionado|incondicionado]] é o que dá [[lexico:s:sentido|sentido]] e progressividade ao conhecimento e o que fundamenta a validez dos juízos morais. Mas ao mesmo [[lexico:t:tempo|tempo]] digo que se assemelham a Kant, porque de Kant tomaram esse novo ponto de partida. Aquilo que para Kant era uma [[lexico:t:transformacao|transformação]] da [[lexico:m:metafisica|metafísica]] antiga numa metafísica do [[lexico:i:ideal|ideal]], é para eles [[lexico:a:agora|agora]], propriamente, a primeira pedra sobre a qual tem que se edificar o [[lexico:s:sistema|sistema]]. E, se assim mo permitisse o [[lexico:e:esforco|esforço]] arriscadíssimo, aventuradíssimo, de reduzir a um [[lexico:e:esquema|esquema]] claro aquilo que há de comum nos três grandes filósofos que sucedem a Kant, — [[lexico:f:fichte|Fichte]], [[lexico:s:schelling|Schelling]], [[lexico:h:hegel|Hegel]] — [[lexico:e:eu|eu]] me atreveria ousadamente a esboçar o seguinte. Primeiro, esses filósofos, os três, partem da [[lexico:e:existencia|existência]] do absoluto. A [[lexico:p:pergunta|pergunta]] metafísica fundamental que nós desde o [[lexico:c:comeco|começo]] deste curso levantamos (que é o que existe?) respondem: existe o Absoluto, o incondicionado. Existe algo cuja existência não está sujeita a [[lexico:c:condicao|condição]] alguma. Este é para eles o ponto de partida. Algum perito em filosofia pode descobrir aqui a [[lexico:i:influencia|influência]] que sobre esses pensadores exerce Espinosa, que foi descoberto na Alemanha, precisamente neste [[lexico:m:momento|momento]], na [[lexico:e:epoca|época]] da [[lexico:m:morte|morte]] de Kant. Foi, pois, para eles o absoluto o ponto de partida. Segundo, também é comum aos três pensadores, que vêm depois de Kant, a [[lexico:i:ideia|ideia]] de que esse absoluto, esse [[lexico:s:ser|ser]] absoluto que tomaram como ponto de partida, é de índole espiritual. Quer dizer, que esses três pensadores consideram e concebem esse absoluto sob uma ou outra [[lexico:e:especie|espécie]], mas sempre sob uma espécie espiritual; nenhum deles o concebe sob uma espécie material, nenhum deles o concebe materialisticamente. Em [[lexico:t:terceiro|terceiro]] [[lexico:l:lugar|lugar]], os três consideram também que esse absoluto, que é de [[lexico:c:carater|caráter]] e de [[lexico:c:consistencia|consistência]] espiritual, manifeste-se, fenomenaliza-se, expande-se no tempo e no [[lexico:e:espaco|espaço]], explicita-se pouco a pouco numa [[lexico:s:serie|série]] de trâmites sistematicamente enlaçados; de [[lexico:m:modo|modo]] que esse absoluto que, tomado na sua [[lexico:t:totalidade|totalidade]], é [[lexico:e:eterno|eterno]], fora do tempo, fora do espaço, constitui a [[lexico:e:essencia|essência]] mesma do ser, alargase, por assim dizer, no tempo e no espaço. Sua [[lexico:m:manifestacao|manifestação]] produz de si, do seu seio, formas que manifestam a sua própria essência; e todas essas formas que manifestam sua própria essência fundamental constituem aquilo que nós chamamos o [[lexico:m:mundo|mundo]], a [[lexico:h:historia|história]], os produtos da [[lexico:h:humanidade|humanidade]], o [[lexico:h:homem|homem]] mesmo. Por [[lexico:u:ultimo|último]], em quarto lugar, também é comum a esses filósofos e sucessores de Kant o [[lexico:m:metodo-filosofico|método filosófico]] que vão seguir e que vai consistir para os três numa primeira [[lexico:o:operacao|operação]] filosófica que eles chamam [[lexico:i:intuicao-intelectual|intuição intelectual]], a qual está encaminhada a [[lexico:a:apreender|apreender]] diretamente a essência desse absoluto sem tempo, a essência dessa incondicionalidade; e depois dessa operação de [[lexico:i:intuicao|intuição]] intelectual, que capta e apreende aquilo que o absoluto é, vem uma operação discursiva, [[lexico:s:sistematica|sistemática]] e dedutiva, que consiste em aplicar aos olhos do leitor os diferentes trâmites mediante os quais esse absoluto sem tempo e eterno se manifesta sucessivamente em formas várias e diversas no mundo, na [[lexico:n:natureza|natureza]], na história. Por conseguinte, todos estes filósofos serão essencialmente sistemáticos e construtivos. A operação primeira da intuição intelectual lhes dá, por assim dizer, o germe radical do sistema. A operação seguinte, da construção ou da [[lexico:d:deducao-transcendental|dedução transcendental]], dá-lhes a série dos trâmites e a conexão de formas que se manifestam no espaço e no tempo em que essa essência absoluta e incondicionada se explicita e se faz patente. Todos esses [[lexico:c:caracteres|caracteres]], que, digo, são comuns aos três filósofos que sucedem a Kant, mostram-se influenciados ou derivados por essa transformação que Kant fez no [[lexico:p:problema|problema]] da metafísica. Kant deu ao problema da metafísica a transformação seguinte: a metafísica procurava aquilo que é e existe "em si". Pois [[lexico:b:bem|Bem]], para o [[lexico:p:pensamento|pensamento]] científico [[lexico:n:nada|nada]] é ou existe em si, porque tudo é [[lexico:o:objeto|objeto]] de conhecimento, objeto pensado para um [[lexico:s:sujeito|sujeito]] pensante. Porém isto que procurava a metafísica, e que não é "em si" nem existe "em si", é, todavia, uma ideia reguladora para o conhecimento [[lexico:d:discursivo|discursivo]] do homem: as matemáticas, a [[lexico:f:fisica|física]], a química, a história [[lexico:n:natural|natural]]. E essa ideia reguladora representa o contrário dos objetos do conhecimento [[lexico:c:concreto|concreto]]. Se os objetos do conhecimento concreto são [[lexico:r:relativos|relativos]], correlativos ao sujeito, essa outra ideia reguladora representa o absoluto, o completo, o total, o que não tem condição alguma, o que não necessita condição. Daqui partem então os sucessores de Kant. E esse absoluto é, para eles, o ponto de partida, em vez de ser, como em Kant, o ponto de chegada.