===== PONTO ARQUIMEDIANO ===== É nesse [[lexico:p:ponto|ponto]], parece-me, que a [[lexico:p:preocupacao|preocupação]] do humanista para com o [[lexico:h:homem|homem]] e sua estatura é cortada pelo cientista. É [[lexico:c:como-se|como se]] as ciências tivessem feito aquilo que as humanidades jamais poderiam [[lexico:t:ter|ter]] realizado, a [[lexico:s:saber|saber]], provar de maneira demonstrável a [[lexico:v:validade|validade]] de seu [[lexico:o:objeto|objeto]]. A [[lexico:s:situacao|situação]], tal como se apresenta hoje, assemelha-se curiosamente a uma [[lexico:c:confirmacao|confirmação]] minuciosa de uma [[lexico:o:observacao|observação]] de Franz Kafka, [[lexico:e:escrita|escrita]] [[lexico:b:bem|Bem]] ao início desse [[lexico:p:processo|processo]]: “O homem – diz ele – encontrou o ponto de Arquimedes, porém utilizou-o contra [[lexico:s:si-mesmo|si mesmo]]; era-lhe permitido achá-lo, parece, somente sob esta [[lexico:c:condicao|condição]]” . A conquista do [[lexico:e:espaco|espaço]], a procura de um ponto fora da [[lexico:t:terra|Terra]] do qual fosse [[lexico:p:possivel|possível]] movê-la, desequilibrar – digamos assim – o planeta inteiro, de [[lexico:m:modo|modo]] algum é [[lexico:c:consequencia|consequência]] acidental da [[lexico:c:ciencia|ciência]] da [[lexico:e:epoca|época]] [[lexico:m:moderna|moderna]]. Esta, desde seus primórdios, [[lexico:n:nao|não]] foi uma ciência “[[lexico:n:natural|natural]]”, e sim uma ciência [[lexico:u:universal|universal]]; não era uma [[lexico:f:fisica|física]], e sim uma astrofísica que contemplava a terra do alto de um ponto no [[lexico:u:universo|universo]]. Em termos desse processo, a tentativa de conquistar o espaço significa que o homem espera [[lexico:s:ser|ser]] capaz de viajar até o [[lexico:p:ponto-arquimediano|ponto arquimediano]] por ele antecipado pela pura [[lexico:c:capacidade|capacidade]] de [[lexico:a:abstracao|abstração]] e [[lexico:i:imaginacao|imaginação]]. Contudo, ao fazê-lo, ele perderá necessariamente sua [[lexico:v:vantagem|vantagem]]. Tudo que ele pode achar é o ponto arquimediano com [[lexico:r:referencia|referência]] à terra, porém, uma vez aí chegado e tendo [[lexico:a:adquirido|adquirido]] [[lexico:e:esse|esse]] poder [[lexico:a:absoluto|absoluto]] sobre seu habitat terrestre, ele precisará de um novo ponto arquimediano, e assim ad infinitum. Em outras [[lexico:p:palavras|palavras]], o homem apenas pode se perder na imensidão do universo, pois o [[lexico:u:unico|único]] [[lexico:v:verdadeiro|verdadeiro]] ponto arquimediano seria o [[lexico:v:vazio|vazio]] absoluto, [[lexico:a:alem|além]] do universo. [ArendtPF:C8] Em nosso contexto, o que importa é que tanto o [[lexico:d:desespero|desespero]] quanto o triunfo são inerentes ao mesmo [[lexico:e:evento|evento]]. Se desejarmos colocar isso em uma [[lexico:p:perspectiva|perspectiva]] histórica, é como se a [[lexico:d:descoberta|descoberta]] de Galileu comprovasse com um [[lexico:f:fato|fato]] demonstrável que tanto o pior temor quanto a mais presunçosa [[lexico:e:esperanca|esperança]] da [[lexico:e:especulacao|especulação]] humana – o antigo temor de que os nossos sentidos, nossos órgãos para a recepção da [[lexico:r:realidade|realidade]], podem nos trair, e o [[lexico:d:desejo|desejo]] arquimediano de um ponto fora da Terra a partir do qual o homem pudesse erguer o [[lexico:m:mundo|mundo]] – só pudessem se mostrar verdadeiros ao mesmo [[lexico:t:tempo|tempo]], como se o desejo só pudesse ser satisfeito contanto que perdêssemos a realidade, e o temor só se consumasse se compensado pela aquisição de poderes supramundanos. Pois, o que quer que façamos hoje em física – seja liberando processos energéticos que ordinariamente só ocorrem no [[lexico:s:sol|sol]], seja tentando desencadear em um tubo de ensaio os processos de [[lexico:e:evolucao|evolução]] cósmica, ou, com o auxílio de telescópios, penetrando o espaço cósmico até um [[lexico:l:limite|limite]] de dois e mesmo de seis bilhões de anos-luz, ou construindo máquinas para a produção e controle de energias desconhecidas no [[lexico:l:lar|lar]] da [[lexico:n:natureza|natureza]] terrena, ou, em aceleradores atômicos, atingindo velocidades que se aproximam da velocidade da [[lexico:l:luz|luz]], ou produzindo [[lexico:e:elementos|elementos]] que não se encontram na natureza, ou dispersando partículas radioativas, criadas por nós na Terra mediante o emprego da radiação cósmica –, sempre manejamos a natureza a partir de um ponto no universo, fora da Terra. Sem efetivamente nos posicionarmos onde Arquimedes desejava se posicionar (dos moi [[lexico:p:pou|pou]] sto), presos ainda à Terra pela [[lexico:c:condicao-humana|condição humana]], descobrimos um [[lexico:m:meio|meio]] de atuar sobre a Terra e dentro da natureza terrena como se pudéssemos dispor dela a partir de fora, do ponto arquimediano. E mesmo com o [[lexico:r:risco|risco]] de ameaçar o processo vital natural, expomos a Terra a forças [[lexico:u:universais|universais]] e cósmicas alheias ao lar da natureza. [ArendtCH:C36]