===== PHYSIS ===== physis: [[lexico:n:natureza|natureza]] 1. Embora a [[lexico:p:palavra|palavra]] em si [[lexico:n:nao|não]] seja fortemente confirmada até ao [[lexico:t:tempo|tempo]] de [[lexico:h:heraclito|Heráclito]], (de [[lexico:f:fato|fato]], aparece anteriormente nos títulos de obras de [[lexico:a:anaximandro|Anaximandro]] e [[lexico:x:xenofanes|Xenófanes]]), é evidente que a [[lexico:i:investigacao|investigação]] que usa a abordagem metodológica conhecida como Jogos e mais [[lexico:t:tarde|Tarde]] conhecida por [[lexico:p:pitagoras|Pitágoras]] como [[lexico:p:philosophia|philosophia]] teve, como assunto principal [[lexico:g:geral|geral]], a physis. Foi assim que a compreenderam tanto [[lexico:p:platao|Platão]] ([[lexico:v:ver|ver]] [[lexico:f:fedon|Fédon]] 96a) como [[lexico:a:aristoteles|Aristóteles]] ([[lexico:m:metafisica|Metafísica]] 1005a) o qual chama aos primeiros filósofos physikoi, i. e., os interessados na physis. Conglobava estas [[lexico:c:coisas|coisas]] diferentes mas relacionadas: 1) o [[lexico:p:processo|processo]] de crescimento ou [[lexico:g:genesis|genesis]] (assim [[lexico:e:empedocles|Empédocles]], frgs. 8, 63; Platão, Leis 892c; Aristóteles, [[lexico:p:physica|Physica]] 193b); 2) a [[lexico:s:substancia|substância]] [[lexico:f:fisica|física]] da qual eram feitas as coisas, a [[lexico:a:arche|arche]] no [[lexico:s:sentido|sentido]] de Urstoff (assim Platão, Leis 891c; Aristóteles, Physica 189b, 193a); e 3) uma [[lexico:e:especie|espécie]] de [[lexico:p:principio|princípio]] interno organizador, a [[lexico:e:estrutura|estrutura]] das coisas (assim Heráclito, frg. 123; [[lexico:d:democrito|Demócrito]], frg. 242). 2. Os significados 1) e 2) devem ver-se no contexto do [[lexico:t:teismo|teísmo]] dos [[lexico:p:pre-socraticos|pré-socráticos]]: esta «substância» era viva, daí divina, e logo imortal e indestrutível (ver Aristóteles, [[lexico:d:de-anima|De anima]] I, 411a, Physica III, 203 a-b; Platão, Leis 967a; confrontar [[lexico:e:epinomis|Epinomis]] 991d). Assim a physis dos primeiros filósofos tinha [[lexico:m:movimento|movimento]] e [[lexico:v:vida|vida]], mas com a remoção enfática, feita por [[lexico:p:parmenides|Parmênides]], da [[lexico:k:kinesis|kinesis]] do [[lexico:r:reino|reino]] do [[lexico:s:ser|ser]] (ver on), a [[lexico:n:nocao|noção]] de physis foi, de fato, destruída, passando a iniciação do movimento para agentes exteriores, v. g. o «[[lexico:a:amor|amor]] e Ódio» de Empédocles (ver Diels, frg. 31A28) e o [[lexico:n:nous|noûs]] de [[lexico:a:anaxagoras|Anaxágoras]], ou, e aos olhos de Platão esta é a doutrina mais religiosamente perniciosa (Leis 889c), o movimento era casual e [[lexico:n:necessario|necessário]], provavelmente em [[lexico:r:referencia|referência]] aos [[lexico:a:atomistas|atomistas]] (ver [[lexico:t:tyche|tyche]]). O que Platão acha errado nas teorias contemporâneas da physis é a sua materialidade (Leis 892b) e a [[lexico:a:ausencia|ausência]] de desígnio ([[lexico:t:techne|techne]]; ver Soph. 265c). Foi para corrigir estas duas concepções erradas que Platão substituiu a [[lexico:p:psyche|psyche]] como [[lexico:f:fonte|fonte]] de movimento. 3. Com Aristóteles há uma reabilitação geral da physis que toma muitas das funções da psyche platônica: é definida (Physica II, 192b) como «o princípio (arche) e a [[lexico:c:causa|causa]] ([[lexico:a:aitia|aitia]]) do movimento e do repouso para as coisas em que está imediatamente presente». Como a psyche, é espiritual porque é primordialmente [[lexico:f:forma|forma]] (Physica II, 193a), e atua para um [[lexico:f:fim|fim]] ([[lexico:t:telos|telos]]; Physica II, 194a). Levantam-se dois problemas: ao substituir a psyche pela physis Aristóteles cortou a ligação entre o movimento e a vida e, por [[lexico:o:outro|outro]] lado, entre a [[lexico:f:finalidade|finalidade]] (telos) e a [[lexico:i:inteligencia|inteligência]] (noûs). O primeiro é resolvido alargando a physis ao domínio dos [[lexico:e:elementos|elementos]] inanimados e postulando a doutrina do «movimento [[lexico:n:natural|natural]]» para cada um (ver [[lexico:s:stoicheion|stoicheion]], [[lexico:k:kinoun|kinoun]] 8), mas na Physica viu volta-se para uma [[lexico:p:posicao|posição]] mais platônica: as coisas «animadas», i. e., vivas, têm dentro de si tanto o princípio do movimento como o iniciador do movimento e por isso diferem das coisas inanimadas que têm dentro de si o princípio [[lexico:p:passivo|passivo]] ([[lexico:p:paschein|paschein]]) do movimento, mas não o ativo ([[lexico:p:poiein|poiein]]), que consequentemente tem de operar do [[lexico:e:exterior|exterior]] (Physica VIII, 255b-256a); assim, [[lexico:t:todo|todo]] o movimento, de fato, requer uma causa eficiente (kinoun). No segundo [[lexico:p:problema|problema]], a ligação entre o telos e o noûs, é igualmente ambivalente, estando justapostos na Physica II, 199a dois argumentos para a [[lexico:t:teologia|teologia]] da physis, um dos quais sugere a [[lexico:p:presenca|presença]] do noûs enquanto o outro a nega. 4. O monísmo estoico levou à identificação de [[lexico:d:deus|Deus]] - natureza - [[lexico:f:fogo|fogo]] (SVF II, 1027; Cícero, De nat. deor. II, 22, 57). No seu papel [[lexico:i:imanente|imanente]] e ativo a physis é o [[lexico:l:logos|Logos]] ([[lexico:s:seneca|Sêneca]], De benef. IV, 7) e, ao nível do existente individual, os [[lexico:l:logoi-spermatikoi|logoi spermatikoi]]. É um princípio [[lexico:m:moral|moral]] pelo fato de que a finalidade do [[lexico:h:homem|homem]] era [[lexico:v:viver|viver]] «harmoniosamente com a natureza» (para a [[lexico:m:moralidade|moralidade]] «natural» estóica e para a [[lexico:t:teoria|teoria]] da interligação da natureza, ver [[lexico:n:nomos|nomos]] e [[lexico:s:sympatheia|sympatheia]] respectivamente). 5. A doutrina plotiniana da natureza está ligada à sua [[lexico:i:ideia|ideia]] de [[lexico:a:alma|alma]]; tanto a alma do [[lexico:u:universo|universo]] (ver [[lexico:p:psyche-tou-pantos|psyche tou pantos]]) como as almas individuais imanentes aos homens têm dois aspectos diferentes: um lado [[lexico:s:superior|superior]] e contemplativo, a alma em si (embora nas [[lexico:e:eneadas|Eneadas]] IV, 4, 13, seja [[lexico:c:chamado|chamado]] [[lexico:p:phronesis|phronesis]]) e um lado inferior, a physis, que está eternamente afastada do noûs e cujo enfraquecimento resultante do seu poder contemplativo a fez decair da [[lexico:t:theoria|theoria]] para a [[lexico:a:atividade|atividade]] ([[lexico:p:praxis|praxis]]); ela produz, não mecanicamente, mas como uma forma enfraquecida da [[lexico:c:contemplacao|contemplação]] (Eneadas III, 8, 2-5). Dentro da physis individual encontra-se a [[lexico:f:faculdade|faculdade]] vegetativa que opera sem [[lexico:p:pensamento|pensamento]] e sem [[lexico:i:imaginacao|imaginação]] (Eneadas IV, 4, 13); ver psyche, telos. physis (he): Natureza. Latim: natura. O substantivo physis deriva do [[lexico:v:verbo|verbo]] phyo, que quer dizer faço crescer, faço nascer, e, na forma média, phyomai: [[lexico:e:eu|eu]] broto, eu cresço, eu nasço. A Natureza se manifesta como [[lexico:p:potencia|potência]] autônoma que possui, comunica e organiza a vida. Dois sentidos: - Natureza [[lexico:u:universal|universal]]. Se, materialmente, o [[lexico:m:mundo|mundo]] é um Todo, um conjunto, a Natureza apresenta-se, formalmente, como a [[lexico:o:ordem|ordem]] do mundo, como a [[lexico:l:lei|lei]] que [[lexico:r:regra|regra]] os fenômenos e a alma que vivifica o [[lexico:c:corpo|corpo]]. - Natureza intima de cada um. [[lexico:e:essencia|Essência]]. Em seu léxico filosófico (Mct., A, 4), Aristóteles tenta encontrar uma [[lexico:d:definicao|definição]] para physis. E, para isso, seguindo seu [[lexico:m:metodo|método]] habitual, passa em revista os diferentes sentidos: - [[lexico:g:geracao|geração]] (génesis / genesis) dos seres dotados de crescimento. E [[lexico:e:esse|esse]] o sentido etimológico; - causa interna do crescimento, lei imanente à vida; - [[lexico:m:materia-prima|matéria-prima]] dos seres (bronze, madeira); - substância (ousía / [[lexico:o:ousia|ousia]]) dos seres naturais. Conclusão: a natureza, em seu sentido primeiro e principal, é a substância dos seres que têm em si o princípio de seu [[lexico:p:proprio|próprio]] movimento. - Natureza universal. O emprego dessa palavra é antigo na [[lexico:h:historia-da-filosofia|história da filosofia]]. As primeiras obras que expunham o [[lexico:s:sistema|sistema]] do mundo eram tratados Da natureza (Peri physeos). Assim, esses tratados teriam sido escritos por Tales, Ferecides de Siro (Da natureza e dos [[lexico:d:deuses|deuses]]), por vários membros da [[lexico:e:escola|escola]] pitagórica (Brontino, Alcmêon, Mílon, Filolau), por Xenófanes, Parmênides, [[lexico:z:zenao|Zenão]] de Eleia, Empédocles e Anaxágoras. Para Pitágoras, a Natureza era mais que o mundo [[lexico:s:sensivel|sensível]], pois [[lexico:p:porfirio|Porfírio]] explica que ela continha, [[lexico:a:alem|além]] deste mundo e dos homens que o habitam, os deuses imortais (Vida de Pitágoras, 48). O mesmo ocorre com Platão. Ele denigre seus antecessores "que fizeram investigações sobre a Natureza" por terem emitido doutrinas ímpias; de fato, chamaram a Natureza de Tétrade dos [[lexico:q:quatro-elementos|quatro elementos]] ([[lexico:t:terra|Terra]], água, [[lexico:a:ar|ar]] e fogo), transformando-os nas primeiras qualidades de todas as coisas, sem se preocupar com a alma espiritual (Leis, X, 891b-d). Por isso, ele reúne com o [[lexico:c:conceito|conceito]] de physis todos os seres, materiais e espirituais, produzidos por uma potência original. Em [[lexico:f:fedro|Fedro]] (270c), vê a Natureza como Lei Espiritual que rege o universo. Aristóteles dedica à physis todo o segundo livro de sua Física, pois esta é "a [[lexico:c:ciencia|ciência]] da Natureza". Ela tem como [[lexico:o:objeto|objeto]] os seres em movimento (kinoúmena / kinoumena), ao passo que a metafísica tem como objeto as [[lexico:c:causas|causas]] e os [[lexico:p:principios|princípios]] imutáveis ("imóveis") dos quais os seres naturais extraem sua [[lexico:o:origem|origem]]. Para os estoicos, a Natureza é o Todo e o [[lexico:a:absoluto|absoluto]]. O mundo é "um [[lexico:v:vivente|vivente]] [[lexico:u:unico|único]], [[lexico:c:composto|composto]] de uma única substância e de uma única alma" ([[lexico:m:marco-aurelio|Marco Aurélio]], IV, 40), e a ordem que o governa é a Natureza. Assim, a natureza rege eternamente o Todo com leis racionais necessárias e perfeitas. Ela é, pois, divina (D.L.,VII, 89,135,147). [[lexico:e:epicuro|Epicuro]] escreveu um tratado Da natureza, que não chegou até nós. Ele, porém, aproveita outras oportunidades para tecer-lhe elogios: ela é imortal e bem-aventurada, sede da ordem e da [[lexico:u:unidade|unidade]] (Carta a Heródoto, in D.L., X, 79). Entre os desejos, há os naturais (no masc. sing. physikós / [[lexico:p:physikos|physikos]]) e necessários, os naturais e não necessários e os que não são naturais nem necessários; são os primeiros que levam ao [[lexico:v:verdadeiro|verdadeiro]] [[lexico:p:prazer|prazer]], fonte da [[lexico:f:felicidade|felicidade]] (Carta a Meneceu, in D.L., X, 149). Para [[lexico:p:plotino|Plotino]], a Natureza é a forma do Universo; ela também é uma alma; não a [[lexico:a:alma-do-mundo|alma do mundo]], mas uma alma segunda, produzida pela alma primeira, que possui sensações e inteligência (III,VIII, 2-4). "Uma natureza única (mia) reúne todos os seres: é um grande deus" (V,V, 3). Locução: katà physin Z kata physin (acusativo): em conformidade com a Natureza. Muito empregada pelos estoicos, mas também pelo peripatético Critolau (Clemente de [[lexico:a:alexandria|Alexandria]], Stromata, II, XXI, 129). - [[lexico:c:carater|Caráter]] íntimo e permanente de um ser: sua natureza, universal ou individual. Filolau [[lexico:f:fala|fala]] da natureza do [[lexico:n:numero|número]], que é "mestra de [[lexico:c:conhecimento|conhecimento]]" (Estobeu, Ed., Intr.). Jâmblico conta que os primeiros pitagóricos estavam conscientes da importância de sua natureza (Vida de Pitágoras, 175). [[lexico:d:diogenes-de-apolonia|Diógenes de Apolônia]] constata que cada um dos [[lexico:q:quatro|Quatro]] elementos é diferente dos outros por sua natureza (fr. 2); Heráclito diz que todos os dias têm a mesma natureza (fr. 106). [[lexico:s:socrates|Sócrates]] - segundo diz [[lexico:x:xenofonte|Xenofonte]] - não discorria sobre a natureza do universo (physis tôn pánton — genitivo plural de to pân) (Mem., 1,1,10). Platão emprega abundantemente esse sentido: fala da natureza do homem (Leis, XI, 923b, 931e; IX, 874e), da natureza da alma (Rep., X, 611b, 612a), da natureza do [[lexico:f:filosofo|filósofo]] (Rep., III, 410b), da natureza do [[lexico:b:bem|Bem]] ([[lexico:f:filebo|Filebo]], 32d), da [[lexico:j:justica|justiça]] (Rep., III, 358e), da [[lexico:b:beleza|beleza]] eterna (Rep., V, 476b). Aristóteles mostra como, na Natureza, cada [[lexico:r:realidade|realidade]] tem atributos que constituem sua natureza: a do fogo é a de dirigir-se para o abo; o mesmo ocorre com cada objeto [[lexico:s:singular|singular]]: a natureza do leiio é a madeira; a natureza da [[lexico:e:estatua|estátua]] é o bronze (Fís., II, 1). Por natureza (physei / physei, dativo), os animais são dotados de [[lexico:s:sensacao|sensação]] (Met., A, 1, 980a). Por natureza, o homem é um [[lexico:a:animal|animal]] [[lexico:p:politico|político]] (Pol., I, II, 9; Ét. Mc, I,VII, 6). Por natureza, os homens nascem livres ou [[lexico:e:escravos|escravos]] (Pol., I,V, 11). Para os estoicos, a Natureza é ao mesmo tempo minha natureza; por um lado, a lei de minha natureza é [[lexico:e:estar|estar]] incorporado ao Todo; por outro lado, recebi para mim uma natureza na qual triunfa a [[lexico:r:razao|razão]], que quer a submissão das partes ao Todo e do sensível ao [[lexico:i:inteligivel|inteligível]]. Assim, a felicidade consiste em "fazer aquilo que a natureza exige do homem" (Marco Aurélio,VIII, 1, 5). É essa [[lexico:h:harmonia|harmonia]] das duas naturezas que constitui o [[lexico:i:ideal|ideal]] do estoico: segundo Crisipo, "nossa natureza consiste em viver segundo a natureza, a nossa e a do universo" (D.L.,VII, 88). Assim como os estoicos, Epicuro reconhece que a finalidade do homem é estar em conformidade com sua própria natureza (D.L., X, 129), mas com uma forma completamente diferente, pois essa finalidade é o prazer.