===== PESSOA ===== (gr. [[lexico:p:prosopon|prosopon]], [[lexico:h:hypostasis|hypostasis]]; lat. [[lexico:p:persona|persona]]; in. Person; fr. Personne; al. Person; it. Persona). No [[lexico:s:sentido|sentido]] mais comum do [[lexico:t:termo|termo]], o [[lexico:h:homem|homem]] em suas [[lexico:r:relacoes|relações]] com o [[lexico:m:mundo|mundo]] ou consigo mesmo. No sentido mais [[lexico:g:geral|geral]] (porquanto essa [[lexico:p:palavra|palavra]] foi aplicada também a [[lexico:d:deus|Deus]]), um [[lexico:s:sujeito|sujeito]] de relações. É [[lexico:p:possivel|possível]] distinguir as seguintes fases desse [[lexico:c:conceito|conceito]]: !) [[lexico:f:funcao|função]] e relação-substância; 2) auto-relação ([[lexico:r:relacao|relação]] consigo mesmo); 3) heterorrelação (relação com o mundo). 1) Essa palavra deriva de persona, que, em latim, significa máscara (no sentido de [[lexico:p:personagem|personagem]]: in. Character; fr. Personnage; al. Rolle) e foi introduzida com [[lexico:e:esse|esse]] sentido na [[lexico:l:linguagem|linguagem]] filosófica pelo [[lexico:e:estoicismo|estoicismo]] popular, para designar os papéis representados pelo homem na [[lexico:v:vida|vida]]: Epicteto diz: "Lembra-te de que aqui [[lexico:n:nao|não]] passas de ator de um [[lexico:d:drama|drama]], que será breve ou longo segundo a [[lexico:v:vontade|vontade]] do [[lexico:p:poeta|poeta]]. E se lhe agradar que representes a pessoa de um mendigo, esforça-te por representá-la devidamente. Faze o mesmo, se te for destinada a pessoa de um coxo, de um magistrado, de um homem comum. Visto que a ti cabe apenas [[lexico:r:representar|representar]] [[lexico:b:bem|Bem]] qualquer pessoa que te seja destinada, a [[lexico:o:outro|outro]] pertence o [[lexico:d:direito|direito]] de escolhê-la" (Manual, 17, trad. Leopardi; cf. Dissertazioni, I, 29, etc). O conceito de papel, neste sentido, pode [[lexico:s:ser|ser]] reduzido ao de relação: um papel outra [[lexico:c:coisa|coisa]] não é senão um conjunto de relações que ligam o homem a dada [[lexico:s:situacao|situação]] e o definem com [[lexico:r:respeito|respeito]] a ela. Por isso, a [[lexico:n:nocao|noção]] de pessoa revelou-se [[lexico:u:util|útil]] quando foi preciso expressar as relações entre Deus e o Cristo (considerado como o [[lexico:l:logos|Logos]] ou [[lexico:v:verbo|verbo]]), e entre ambos e o [[lexico:e:espirito|Espírito]], mas ao mesmo [[lexico:t:tempo|tempo]] foi [[lexico:f:fonte|fonte]] de mal-entendidos e heresias. Com [[lexico:e:efeito|efeito]], por um lado a relação parecia [[lexico:t:ter|ter]] sido somada — acidentalmente somada — à [[lexico:s:substancia|substância]] da coisa; este pelo menos era seu conceito na [[lexico:f:filosofia|Filosofia]] tradicional e, em [[lexico:p:particular|particular]], na aristotélica (v. relação). Por outro lado, a própria palavra pessoa, lembrando a máscara de teatro, parecia implicar o [[lexico:c:carater|caráter]] [[lexico:a:aparente|aparente]] e não [[lexico:s:substancial|substancial]] da pessoa. Daí nasceram as longas disputas trinitárias que caracterizam a [[lexico:h:historia|história]] dos primeiros séculos do Cristianismo e que levaram às decisões do Concilio de Niceia (325). Para evitar a [[lexico:a:associacao|associação]] entre a noção de pessoa e a de máscara, os escritores gregos adotaram, em vez de prosopon, a palavra hypostasis, que, em seu [[lexico:s:significado|significado]] de "suporte", revela as preocupações que sugeriram a [[lexico:e:escolha|escolha]]. Mas sobre o caráter acidental que a relação parece ter por [[lexico:n:natureza|natureza]], muitos padres da Igreja acharam melhor simplesmente negar que a pessoa fosse relação, e insistir na sua [[lexico:s:substancialidade|substancialidade]]. Era o que fazia, p. ex., S. [[lexico:a:agostinho|Agostinho]], ao afirmar que pessoa significa simplesmente "substância", e que por isso o Pai é pessoa em relação a [[lexico:s:si-mesmo|si mesmo]] (ad se), e não em relação ao [[lexico:f:filho|filho]], etc. (De Trin., VII, 6). Com base nisso, [[lexico:b:boecio|Boécio]] dava a [[lexico:d:definicao|definição]] de pessoa que se tornou clássica em toda a Idade Média: "pessoa é a substância individual de natureza [[lexico:r:racional|racional]]" (De duabus naturis et una persona Christi, 3 pessoa L., 64, col. 1345). Mas, como [[lexico:n:nota|nota]] [[lexico:t:tomas-de-aquino|Tomás de Aquino]] (S. Th., I, q. 29, a. 4, contra), o [[lexico:p:proprio|próprio]] Boécio admitia que "[[lexico:t:todo|todo]] atinente às pessoa significa uma relação"; [[lexico:a:alem|além]] disso, não havia outra maneira de esclarecer o significado das pessoas divinas, senão a de esclarecer as relações entre elas, com o mundo e com os homens. Tomás de Aquino, portanto, em um de seus textos mais notáveis pela clareza e [[lexico:f:forca|força]] filosófica (prescindindo do significado teológico-religioso), ao elucidar o [[lexico:d:dogma|dogma]] trinitário, restabelece o significado do conceito de pessoa como relação, mesmo afirmando simultaneamente a substancialidade da relação in divinis. "Não há [[lexico:d:distincao|distinção]] em Deus, a não ser em [[lexico:v:virtude|virtude]] das relações de [[lexico:o:origem|origem]]. Contudo, em Deus a relação não é como um [[lexico:a:acidente|acidente]] inerente ao sujeito, mas é a própria [[lexico:e:essencia|essência]] divina, de tal [[lexico:m:modo|modo]] que subsiste do mesmo modo como subsiste a essência divina. Assim como a divindade é Deus, a paternidade divina é Deus Pai, que é pessoa divina: portanto, a pessoa divina significa a relação enquanto subsistente, isto é, significa a relação na [[lexico:f:forma|forma]] da substância, que é a [[lexico:h:hipostase|hipóstase]] subsistente na natureza divina, embora aquilo que subsiste na natureza divina outra coisa não seja senão a natureza divina" (S. Th., I, q. 29, a. 4). Deste modo, ao lado do caráter substancial ou hipostático da pessoa, era energicamente ressaltado o seu significado de relação. Isto no que se refere às pessoa divinas. No que concerne à pessoa em geral, Tomás de Aquino afirmava que, à [[lexico:d:diferenca|diferença]] do [[lexico:i:individuo|indivíduo]], que [[lexico:p:por-si|por si]] é [[lexico:i:indistinto|indistinto]], "a pessoa, numa natureza qualquer, significa [[lexico:o:o-que-e|o que é]] distinto nessa natureza, assim como na [[lexico:n:natureza-humana|natureza humana]] significa a [[lexico:c:carne|carne]], os ossos e a [[lexico:a:alma|alma]] que são os [[lexico:p:principios|princípios]] que individualizam o homem" (Ibid., I, q. 29, a. 4). Portanto, segundo Tomás de Aquino, mesmo no sentido comum a pessoa é distinção e relação. 2) A partir de [[lexico:d:descartes|Descartes]], ao mesmo tempo em que se enfraquece ou diminui o [[lexico:r:reconhecimento|reconhecimento]] do caráter substancial da pessoa, acentua-se a sua natureza de relação, especialmente de auto-relação ou relação do homem consigo mesmo. O conceito de pessoa neste sentido identifica-se com o de [[lexico:e:eu|eu]] como [[lexico:c:consciencia|consciência]], e é analisado sobretudo no que se refere àquilo que se chama de [[lexico:i:identidade|identidade]] [[lexico:p:pessoal|pessoal]], ou seja, [[lexico:u:unidade|unidade]] e continuidade da [[lexico:v:vida-consciente|vida consciente]] do Eu. [[lexico:l:locke|Locke]] afirma que a pessoa "é um ser inteligente e pensante que possui [[lexico:r:razao|razão]] e [[lexico:r:reflexao|reflexão]], podendo observar-se (ou seja, considerar a própria coisa pensante que ele é) em diversos tempos e [[lexico:l:lugares|lugares]]; e isso ele faz somente por [[lexico:m:meio|meio]] da consciência, que é inseparável do [[lexico:p:pensar|pensar]] e [[lexico:e:essencial|essencial]] a ele" (Ensaio, II, 27, 11). A pessoa é aqui identificada com a identidade pessoal, com a relação que o homem tem consigo mesmo, e esta última com a consciência. [[lexico:l:leibniz|Leibniz]] está de [[lexico:a:acordo|acordo]] com Locke nesse [[lexico:a:aspecto|aspecto]], mas insiste também na identidade [[lexico:f:fisica|física]] ou [[lexico:r:real|real]] como outro componente da pessoa, além da identidade [[lexico:m:moral|moral]] ou da consciência (Nouv. ess., II, 27, 9). A relação [[lexico:c:consciente|consciente]] do homem consigo mesmo torna-se, a partir de então, [[lexico:c:caracteristica|característica]] fundamental da pessoa. [[lexico:w:wolff|Wolff]] diz: "A pessoa é o [[lexico:e:ente|ente]] que conserva a [[lexico:m:memoria|memória]] de si mesmo, ou seja, lembra-se que é o mesmo que foi antes, neste ou naquele [[lexico:e:estado|Estado]]" (Psychol. rationalis, § 741). E [[lexico:k:kant|Kant]] analogamente afirma: "O [[lexico:f:fato|fato]] de o homem poder representar seu próprio eu eleva-o infinitamente acima de todos os seres vivos da [[lexico:t:terra|Terra]]. Por isso, ele é uma pessoa, e por [[lexico:c:causa|causa]] da unidade de consciência persistente através de todas as alterações que podem atingi-lo, é uma só e mesma pessoa" (Antr., § 1). [[lexico:h:hegel|Hegel]] entendia por pessoa o sujeito autoconsciente enquanto "[[lexico:s:simples|simples]] [[lexico:r:referencia|referência]] a si mesmo na própria [[lexico:i:individualidade|individualidade]]" (Fil. do dir., § 35). Lotze diz: "A essência da pessoa não se reporta a uma [[lexico:o:oposicao|oposição]] passada ou presente do eu ao não eu, mas consiste no [[lexico:i:imediato|imediato]] ser por si" (Mikrokosmus, I, 1856, p. 575). E [[lexico:r:renouvier|Renouvier]] diz: "A consciência toma o [[lexico:n:nome|nome]] de pessoa quando é levada ao [[lexico:g:grau|grau]] [[lexico:s:superior|superior]] de distinção e [[lexico:e:extensao|extensão]] no qual atinge o [[lexico:c:conhecimento|conhecimento]] de si mesma e do [[lexico:u:universal|universal]], bem como o poder de formar [[lexico:c:conceitos|conceitos]] e aplicar as leis fundamentais do espírito, que são as [[lexico:c:categorias|categorias]]" (Nouvelle monadologie, 1899, p. 111). Visto que a pessoa é, neste sentido, simplesmente a relação do homem consigo mesmo (o que é a definição da consciência) identifica-se com a consciência, e essa identificação é o [[lexico:u:unico|único]] [[lexico:d:dado|dado]] conceptual que se pode achar na exaltação [[lexico:r:retorica|retórica]] da pessoa que caracteriza algumas formas contemporâneas de [[lexico:p:personalismo|personalismo]] . 3) Contra a [[lexico:i:interpretacao|interpretação]] acima de pessoa estão obviamente as posições filosóficas que se recusam a reduzir o ser do homem à consciência e fazem polêmica contra a forma mais radical dessa interpretação, que é o [[lexico:h:hegelianismo|hegelianismo]]. Neste sentido, a [[lexico:a:antropologia|antropologia]] da [[lexico:e:esquerda-hegeliana|esquerda hegeliana]] e do [[lexico:m:marxismo|marxismo]], apesar de não se ter preocupado, abertamente, em esclarecer o conceito de pessoa, constitui o início de uma renovação desse conceito ou a evidenciação de um aspecto sobre o qual a [[lexico:t:tradicao|tradição]] filosófica se calara: a pessoa humana é constituída ou condicionada essencialmente pelas "relações de produção e de [[lexico:t:trabalho|trabalho]]", de que o homem participa com a natureza e com os outros homens para satisfazer às suas necessidades (cf. [[lexico:m:marx|Marx]], Deutsche Ideologie, I). Por outro lado, a doutrina moral kantiana já caracterizara o conceito de pessoa em termos de heterorrelação, ou seja, relação com os outros. Quando Kant dizia que "os seres racionais são chamados de pessoas porque a natureza deles os indica já como fins em si mesmos, como algo que não pode ser empregado unicamente como meio" (Grundlegung Zur Met. der Sitten, II), declarava que a natureza da pessoa, do [[lexico:p:ponto|ponto]] de vista moral, consiste na relação intersubjetiva. No entanto, foi só com a [[lexico:f:fenomenologia|fenomenologia]] que o conceito de pessoa como heterorrelação ingressa explicitamente na filosofia. [[lexico:h:husserl|Husserl]], considerando o eu como o "polo da vida [[lexico:i:intencional|intencional]] ativa e passiva e de todos os hábitos criados por ela" (Cart. Med., § 44), acentuava essa relação com outra coisa, em que consiste a [[lexico:i:intencionalidade|intencionalidade]]. Mas é sobretudo com [[lexico:s:scheler|Scheler]] que a pessoa é explicitamente definida como "relação com o mundo". Segundo ele, a pessoa é definida essencialmente por essa relação, assim como o eu é definido pela relação com o mundo [[lexico:e:externo|externo]], o indivíduo pela relação com a [[lexico:s:sociedade|sociedade]], o [[lexico:c:corpo|corpo]] pela relação com o [[lexico:a:ambiente|ambiente]]. Segundo Scheler, "o mundo [[lexico:n:nada|nada]] mais é que [[lexico:c:correlacao|correlação]] objetiva da pessoa; portanto, a cada pessoa individual corresponde um mundo individual" (Formalismus, 1913, p. 408). As esferas objetivas que se podem distinguir no mundo (objetos internos, objetos externos, objetos corpóreos, etc.) tornam-se concretos apenas enquanto partes de um mundo correlativo a uma pessoa, enquanto domínio das possibilidades de [[lexico:a:acao|ação]] da própria pessoa A pessoa, neste sentido, não deve ser confundida com a alma, com o eu ou com a consciência: um [[lexico:e:escravo|escravo]], p. ex., é todas essas [[lexico:c:coisas|coisas]], mas não é pessoa porque não tem [[lexico:p:possibilidade|possibilidade]] de agir sobre o próprio corpo, e assim um [[lexico:e:elemento|elemento]] de seu mundo escapa-lhe (Ibid., p. 499). "A pessoa" — diz ainda Scheler — "só se dá onde se dá um poder fazer por meio do corpo, mais precisamente um poder fazer que não se fundamenta apenas na lembrança das sensações ocasionadas pelos movimentos externos e pelas experiências ativas, mas que precede o agir [[lexico:e:efetivo|efetivo]] (Ibid., p. 499). Não obstante os numerosos e nem sempre coerentes vaivéns metafísicos a que Scheler submeteu sua doutrina, seu conceito de pessoa como de "relação com o mundo" foi fecundo, inclusive porque assumido como ponto de partida da [[lexico:a:analise|análise]] [[lexico:e:existencial|existencial]] de [[lexico:h:heidegger|Heidegger]] (Sein und Zeit, § 10, ‘); esta se centrou precisamente no conceito da pessoa humana, de [[lexico:e:existencia|existência]], como relação com o mundo. Esse conceito de pessoa, que, como vimos, não coincide com o de eu, foi formulado em termos análogos e é geralmente empregado nas [[lexico:c:ciencias-sociais|ciências sociais]]. A definição habitualmente recorrente nessas ciências, de pessoa como "o indivíduo provido de [[lexico:s:status|status]] [[lexico:s:social|social]]", faz referência à rede de relações sociais que constituem o status da pessoa. A consideração da pessoa como unidade individual, com a qual se lida no domínio considerado por essas ciências, corresponde à mesma [[lexico:d:determinacao|determinação]] conceitual do termo como [[lexico:a:agente|agente]] moral, sujeito de direitos civis e políticos ou, em geral, membro de um [[lexico:g:grupo|grupo]] social. O homem é pessoa porque, nos papéis que desempenha, é essencialmente definido por suas relações com os outros. Recebe este nome o indivíduo de [[lexico:o:ordem|ordem]] espiritual. E portanto um indivíduo dotado de natureza espiritual em sua peculiaridade não-comunicável. No mundo visível só o homem aparece como pessoa; designa-se com um nome próprio e apresenta-se como sujeito de toda [[lexico:p:proposicao|proposição]], como portador de todas as propriedades: Paulo é homem, é [[lexico:a:artista|artista]], é sadio, etc. (daí, o latim [[lexico:s:suppositum|suppositum]] = que está posto debaixo [v. supósito]; o [[lexico:g:grego|grego]] hypostasis = o que está debaixo). À essência da pessoa pertence somente a [[lexico:c:capacidade|capacidade]] de [[lexico:a:autoconsciencia|autoconsciência]] espiritual e, correspondentemente, a de dispor de si mesmo, não absolutamente o exercício [[lexico:a:atual|atual]] de dita capacidade; a criança no seio materno já é pessoa. Sem [[lexico:d:duvida|dúvida]], a natureza espiritual deve realizar-se no indivíduo de maneira não-comunicável; por isso, a essência divina e a [[lexico:h:humanidade|humanidade]] de Cristo, apesar de serem [[lexico:s:substancias|substâncias]] individuais, não são pessoas, porque a primeira pertence às três pessoas divinas, e a segunda é comunicada, como natureza humana ao Filho de Deus. A [[lexico:d:dignidade|dignidade]] incomparável da pessoa humana foi sempre conhecida. Enquanto os sujeitos (supposita) infra espirituais vivem só ao serviço da [[lexico:e:especie|espécie]], a pessoa tem, acima do bem da espécie e do todo social, seu [[lexico:d:destino|destino]] e [[lexico:f:fim|fim]] absolutamente exclusivos, irreiteráveis (personalismo). Esta prerrogativa baseia-se em sua [[lexico:l:liberdade|liberdade]], mercê da qual ela determina seu próprio [[lexico:c:caminho|caminho]], sem [[lexico:e:estar|estar]] presa, com [[lexico:n:necessidade|necessidade]] inevitável, às leis essenciais de sua espécie; e em sua [[lexico:i:imortalidade|imortalidade]], em virtude da qual aspira a uma [[lexico:p:perfeicao|perfeição]] que só a ela compete. Donde, o nunca ser lícito utilizar a pessoa [[lexico:c:como-se|como se]] fosse uma coisa, como [[lexico:p:puro|puro]] meio em ordem a um fim; contudo, ressalvado seu [[lexico:v:valor|valor]] próprio, a pessoa deve prestar sua contribuição à [[lexico:c:comunidade|comunidade]], se [[lexico:n:necessario|necessário]], à custa dos mais duros sacrifícios, com [[lexico:r:risco|risco]] até da própria vida. Do ponto de vista da história do [[lexico:p:pensamento|pensamento]], o cristianismo, por defender a natureza espiritual do homem, dotada de liberdade e imortalidade, alcançou méritos imperecedouros no que diz respeito à nobreza intangível da pessoa. Em oposição a isso, a pessoa tem sido [[lexico:o:objeto|objeto]] de múltiplas e muito contrárias apreciações. [[lexico:s:schopenhauer|Schopenhauer]], influenciado pelo [[lexico:b:budismo|budismo]], vê na individualização pessoal a desgraça primitiva que reclama a [[lexico:s:salvacao|salvação]] mediante a diluição do indivíduo na vontade universal. Prosseguindo até ao [[lexico:e:extremo|extremo]] o trilho rasgado por [[lexico:p:parmenides|Parmênides]] e [[lexico:p:platao|Platão]], Hegel esvazia a pessoa, convertendo-a em mero [[lexico:m:momento|momento]] transitório na [[lexico:e:evolucao|evolução]] da [[lexico:i:ideia|ideia]] absoluta; nesta concepção se fundam as tendências coletivistas do [[lexico:m:materialismo-dialetico|materialismo dialético]]. Assim, enquanto, por um lado, a pessoa é sacrificada ao todo geral, por outro lado, do ponto de vista do [[lexico:c:conceptualismo|conceptualismo]], este todo volatiliza-se. Situa-se a pessoa sobre si mesma, solitária e sem ligações, e, deste modo, se prepara o caminho à degeneração de um [[lexico:i:individualismo|individualismo]] desenfreado; dele foi vítima a Idade [[lexico:m:moderna|moderna]], a partir do [[lexico:r:renascimento|Renascimento]]. Em [[lexico:n:nietzsche|Nietzsche]] encontram-se rastos coletivistas e rastos individualistas, consoante se atentar na [[lexico:m:multidao|multidão]] ou no [[lexico:s:super-homem|super-homem]]. Hoje, a filosofia existencial ([[lexico:f:filosofia-da-existencia|filosofia da existência]]), oriunda de [[lexico:k:kierkegaard|Kierkegaard]] e preparada por Scheler advoga de novo a causa da pessoa; desloca todavia exageradamente a essência da mesma para o que é inerente ao [[lexico:a:ato|ato]], embora seja [[lexico:v:verdade|verdade]] que o homem se eleva à autenticidade ou existência, isto é, à plena realização de seu ser-pessoa, só pela [[lexico:d:decisao|decisão]] com que aceita seu ser. — Com isto vemos qual seja a [[lexico:t:tarefa|tarefa]] que ao homem incumbe como pessoa: cumpre-lhe desenvolver-se conforme a [[lexico:l:lei|lei]] nele inscrita e passar, assim, da pessoa à maturação da [[lexico:p:personalidade|personalidade]]. — Lötz. Na sua acepção clássica, o termo pessoa deriva de máscara. Trata-se da máscara que cobria o rosto de um ator quando desempenhava o seu papel no teatro., sobretudo na [[lexico:t:tragedia|tragédia]]. Daqui derivam, por sua vez, duas [[lexico:s:significacoes|significações]] igualmente antigas. Por um lado, pessoa é o personagem. Por outro lado, faz-se derivar o termo de fazer ressoar a [[lexico:v:voz|voz]], como o fazia o ator através da máscara. Discute-se os gregos tiveram ou não uma ideia de pessoa enquanto “personalidade humana”. Em geral, adota-se uma [[lexico:p:posicao|posição]] negativa, mas pode presumir-se que alguns tiveram uma [[lexico:i:intuicao|intuição]] do fato do homem como que personalidade que transcende o ser [[lexico:p:parte|parte]] do cosmos ou membro do estado-cidade. Poderia ser esse, por [[lexico:e:exemplo|exemplo]], o caso de [[lexico:s:socrates|Sócrates]]. As elaborações mais explícitas na noção de pessoa devem-se, em especial, ao pensamento cristão. Um dos primeiros a desenvolver plenamente esta noção foi [[lexico:s:santo|santo]] Agostinho, que logrou que o termo poderia usar-se para referir-se à [[lexico:t:trindade|trindade]] (as três pessoas) e ao ser [[lexico:h:humano|humano]]. Referiu-se às pessoas divinas baseando- se na noção aristotélica de relação, para evitar considerá-las como simples substância impessoais no sentido tradicional. Mas Além disso, Santo Agostinho encheu os seus conceitos com o fruto da [[lexico:e:experiencia|experiência]] que, desde então, se passou a chamar precisamente pessoal. A ideia de pessoa, em Santo Agostinho, perde a relativa [[lexico:e:exterioridade|exterioridade]] que, todavia, tinha, para assumir decididamente um caráter íntimo. A ideia de relação serviu a Santo Agostinho para destacar o ser [[lexico:r:relativo|relativo]] a si mesmo e de cada pessoa divina pelo qual e efetivamente há três pessoas e não apenas uma. A ideia de intimidade, para fazer desta relação consigo mesmo não algo [[lexico:a:abstrato|abstrato]] mas eminentemente [[lexico:c:concreto|concreto]] e real. Um dos autores mais influentes na história da noção de pessoa foi Boécio, que proporcionou a definição básica para quase todos os pensadores medievais: “a pessoa é uma substância individual de natureza racional”. A pessoa é uma substância que existe por direito próprio e que é perfeitamente incomunicável. Santo Anselmo (monologio) aceita a definição de Boécio, mas assinala que há um contraste entre pessoa e substância.. com efeito, diz Santo Anselmo: “fala-se só de pessoa relativamente a uma natureza racional individual, e da substância relativamente aos indivíduos, a maioria dos quais subsistem na [[lexico:p:pluralidade|pluralidade]]”. S. Tomás recorda a definição de Boécio e manifesta que enquanto a individualidade se encontra propriamente na substância que se individualiza por si mesma, os acidentes não são individualizados por uma substância. Por isso, as substâncias individuais recebem o nome especial de hipóstases ou substâncias primeira.. Ora, como os indivíduos se encontram de modo mais especial nas substâncias racionais que t~em o domínio dos seus próprios atos e a [[lexico:f:faculdade|faculdade]] de atuarem por si mesmas, os indivíduos de natureza racional possuem um nome que os distingue de todas as primeiras substâncias: o nome pessoa. Assim, diz-se da pessoa que é substância individual com o fim de designar o [[lexico:s:singular|singular]] no [[lexico:g:genero|gênero]] da substância e acrescenta-se que é de natureza racional para mostrar que se trata de uma substância individual da ordem das substâncias racionais. Segundo Ocam, a pessoa é uma substância intelectual completa que não depende de outro [[lexico:s:suposto|suposto]]. Quase todas as [[lexico:i:ideias|ideias]] relativas à pessoa expostas até [[lexico:a:agora|agora]] sublinham o seu ser por si e, desse modo, a sua independência e incomunicabilidade. Mas há dentro do cristianismo outras ideias que destacam a relação e a origem da pessoa. Os autores modernos não eliminaram os [[lexico:e:elementos|elementos]] metafísicos em que se fundava grande parte da concepção tradicional. Assim, por exemplo, Leibniz diz que “a palavra pessoa traz consigo a ideia de um ser pensante e inteligente, capaz de razão e de reflexão, que pode considerar-se como o mesmo, como a mesma coisa, que pensa em tempos distintos e em lugares diferentes, o que faz unicamente por meio do pensamento que tem das suas próprias [[lexico:a:acoes|ações]]” (NOVOS [[lexico:e:ensaios|Ensaios]]). Contudo, muitos autores modernos, agregaram também elementos psicológicos e éticos. Muitos propuseram a distinção entre a noção de indivíduo e a de pessoa. Por um lado, define-se negativamente a unidade do indivíduo: algo, ou alguém, é indivíduo, quando não é outro indivíduo. Em contrapartida, pode definir-se a unidade da pessoa positivamente mediante elementos procedentes de si mesma. Por outro lado, quando o indivíduo é um ser humano, é uma [[lexico:e:entidade|entidade]] psicofísica; a pessoa, em contrapartida, é uma entidade que se funda numa [[lexico:r:realidade|realidade]] psicofísica, mas não redutível inteiramente a ela. Finalmente, o indivíduo está determinado no seu ser; a pessoa é livre e é essa a sua essência.. Esta [[lexico:c:contraposicao|contraposição]], entre o determinado e o livre, o indivíduo e a pessoa, foi elaborada por filósofos que persistiram na importância do ético na [[lexico:c:constituicao|constituição]] da pessoa. Assim aconteceu em Kant, que definiu a pessoa ou a personalidade, como “a liberdade e a independência perante o [[lexico:m:mecanismo|mecanismo]] da natureza toda, consideradas ao mesmo tempo como a faculdade de um ser submetido a leis próprias, isto é, a leis puras práticas estabelecidas pela sua própria razão” ([[lexico:c:critica-da-razao-pratica|CRÍTICA DA RAZÃO PRÁTICA]]). A personalidade moral, para Kant, “a liberdade de um ser racional submetido a leis morais”. Embora o ser racional se dê a si mesmo estas leis morais, isso não significa que sejam arbitrárias. Se o fossem, não emergiriam da pessoa, mas daquilo a que chamamos “o indivíduo”. A pessoa é “um fim em si mesmo”. Não pode ser substituída por outra.. O mundo material é, por isso, um mundo de pessoas. Depois de Kant, voltaram a assumir importância os elementos metafísicos da noção de pessoa. Assim, aconteceu com [[lexico:f:fichte|Fichte]], para o qual o Eu é pessoa não só por ser um centro de [[lexico:a:atividades|atividades]] racionais, mas sobretudo por ser um “centro metafísico”que se constitui a si mesmo “ao pôr-se a si mesmo”. Desde então o conceito de pessoa tem sofrido alterações fundamentais, pelo menos em dois aspectos: quanto à sua [[lexico:e:estrutura|estrutura]] e quanto às suas atividades. Relativamente à estrutura, houve [[lexico:t:tendencia|tendência]] para abandonar a concepção substancialista da pessoa para [[lexico:v:ver|ver]] nela um centro [[lexico:d:dinamico|dinâmico]] de atos. Quanto às suas atividades, houve tendência para contar entre elas não só as racionais, mas também as emocionais e volitivas. Deste modo, pensa-se que é possível evitar os perigos do impessoalismo que se apressa a identificar pessoa com substância e esta com coisa. É explícita a definição de Max Scheler: “a pessoa é uma unidade de ser concreta e essencial de atos da essência mais diversa... O ser da pessoa funda todos os atos essencialmente diversos” ([[lexico:e:etica|ÉTICA]]). Segundo esta concepção, a pessoa não é um ser [[lexico:n:natural|natural]] nem tão pouco membro de um“espírito cósmico”. É a unidade dos atos espirituais ou dos atos intencionais superiores. se pode dizer da pessoa que também é um indivíduo, deve acrescentar-se que é um indivíduo de caráter espiritual. Esta concepção destaca na realidade da pessoa o [[lexico:m:motivo|motivo]] que considera fundamental: o da sua [[lexico:t:transcendencia|transcendência]]. Se a pessoa não se transcende constantemente a si própria, ficaria sempre dentro dos limites da individualidade psicofísica e, em última análise, acabaria imersa na realidade [[lexico:i:impessoal|impessoal]] da coisa. Sem entrar na noção [[lexico:m:metafisica|metafísica]] de pessoa, que pressupomos, mas que não nos resolve nenhum [[lexico:p:problema|problema]] estritamente gnoseológico; e pressupondo que um suposto mineral se chama pedra, e um suposto [[lexico:v:vegetal|vegetal]] se chama planta, e um suposto sensitivo se chama [[lexico:a:animal|animal]], e um suposto humano se chama homem, temos que afirmar que, em uma [[lexico:m:metodologia|metodologia]] gnoseológica concreta, nos interessa imediatamente mais o homem como suposto humano que a pessoa como suposto racional, ainda que permaneça incluída no homem. O que significa que consideramos realmente o suposto humano, enquanto supossitum cognoscens, como a [[lexico:e:expressao|expressão]] gnoseológica da pessoa. Por isso no animal não cabe [[lexico:g:gnoseologia|gnoseologia]] alguma, e por isso vemos que o homem é uma realidade [[lexico:t:transcendente|transcendente]] à [[lexico:m:materia|matéria]] e à animalidade; fenomenologicamente isso o percebemos pela Gnoseologia, pelo conhecer gnoseológico que, ao mesmo tempo, nos descobre que entre o homem e o animal há uma [[lexico:m:mudanca|mudança]] de natureza.