===== PERFEIÇÃO ===== (in. Perfection; fr. Perfection; al. Volkommenheit; it. Perfezionè). Esta [[lexico:p:palavra|palavra]] foi usada pelos filósofos somente em [[lexico:r:relacao|relação]] aos significados 1) e 3) do [[lexico:a:adjetivo|adjetivo]] correspondente: [[lexico:n:nao|não]] se considera perfeição a perfeição relativa, ou seja, o [[lexico:e:estado|Estado]] de uma [[lexico:c:coisa|coisa]] excelente entre as de sua [[lexico:e:especie|espécie]]. [[lexico:t:tomas-de-aquino|Tomás de Aquino]] diz: "A perfeição de uma coisa é dúplice, ou seja, primeira e segunda. A primeira perfeição é aquela em [[lexico:v:virtude|virtude]] da qual uma coisa é perfeita na sua [[lexico:s:substancia|substância]], e esta perfeição é a [[lexico:f:forma|forma]] do [[lexico:t:todo|todo]] que emerge da integridade das partes. A segunda perfeição é a do [[lexico:f:fim|fim]]; mas o fim é a [[lexico:o:operacao|operação]] (assim como o fim do citarista é tocar citara) ou é a coisa à qual se chega através da operação (assim como o fim do construtor é a casa que ele constrói). A primeira perfeição é [[lexico:c:causa|causa]] da segunda: a forma é com [[lexico:e:efeito|efeito]] o [[lexico:p:principio|princípio]] das operações" (S. Th., I, q. 73, a. 1). [[lexico:e:esse|esse]] mesmo [[lexico:c:conceito|conceito]] era com exatidão exposto por [[lexico:k:kant|Kant]]: "A perfeição indica às vezes um conceito que pertence à [[lexico:f:filosofia|Filosofia]] [[lexico:t:transcendental|transcendental]], o da [[lexico:t:totalidade|totalidade]] dos [[lexico:e:elementos|elementos]] diferentes que, reunidos, constituem uma coisa; mas pode [[lexico:s:ser|ser]] entendido também como pertencente à [[lexico:t:teologia|teologia]], e então significa o [[lexico:a:acordo|acordo]] das propriedades de uma coisa com um fim" (Met. der Sitten, Intr., V, A; cf. Crít. do [[lexico:j:juizo|Juízo]], § 15). Estas determinações reduzem a perfeição: 1) à integridade do todo; 2) à realização do fim. Mas tendem na [[lexico:r:realidade|realidade]] a privilegiar o primeiro conceito, que, ao ser aplicado à totalidade do ser, levou a [[lexico:t:tradicao|tradição]] filosófica a identificar perfeição e realidade. Tomás de Aquino mesmo descreveu a perfeição de [[lexico:d:deus|Deus]] e da criatura como consistente na [[lexico:p:posse|posse]] do ser: "Deus, que é a totalidade do seu ser, possui o ser segundo a virtude integral do ser, e não pode carecer de nenhuma nobreza que pertença a coisa alguma. Assim como toda a nobreza e a perfeição inerem a uma coisa porque a coisa é, também o defeito inere a ela porque, de algum [[lexico:m:modo|modo]], ela não é" (Contra Gent., I, 28). Deste [[lexico:p:ponto|ponto]] de vista, uma coisa é tanto mais perfeita quanto maior a sua posse do ser; e como Deus possui todo o ser, é totalmente [[lexico:p:perfeito|perfeito]]. Essas equações constituíam lugares-comuns da [[lexico:e:escolastica|escolástica]]. medieval. Duns Scot repete-as, afirmando que a forma nas criaturas implica alguma perfeição porque é forma partilhada e parcial, enquanto a forma não tem imperfeição em Deus porque não é nem [[lexico:p:participacao|participação]] nem [[lexico:p:parte|parte]] (Op. Ox., I, d. 8, q. 4, a. 3, n. 22). [[lexico:d:descartes|Descartes]] recorreu exatamente a esse conceito de perfeição ao afirmar que as [[lexico:i:ideias|ideias]] "que representam [[lexico:s:substancias|substâncias]] são sem [[lexico:d:duvida|dúvida]] algo mais e contêm em si mais realidade objetiva, ou seja, participam por [[lexico:r:representacao|representação]] de mais graus de ser ou de perfeição do que as que representam só modos ou acidentes" (Méd., III). [[lexico:s:spinoza|Spinoza]] identificava explicitamente realidade e perfeição (Et., II, def. 6), e [[lexico:l:leibniz|Leibniz]] declarava entender por perfeição "a [[lexico:g:grandeza|grandeza]] da realidade positiva tomada precisamente, pondo-se de lado os limites das [[lexico:c:coisas|coisas]] que a possuem" (Monad., § 41). Kant falava neste [[lexico:s:sentido|sentido]] de uma perfeição transcendental, que é "a integridade de cada coisa em seu [[lexico:g:genero|gênero]]", e de uma perfeição [[lexico:m:metafisica|metafísica]], como "integridade de uma coisa simplesmente como coisa em [[lexico:g:geral|geral]]", distinguindo delas a perfeição como [[lexico:a:aptidao|aptidão]] ou conveniência de uma coisa a vários fins (Crít. R. Prática, I, I, cap. I, escol. II). O conceito de perfeição foi fixado, no curso ulterior da filosofia, pelas seguintes determinações: como integridade do todo ou [[lexico:c:correspondencia|correspondência]] ao [[lexico:o:objetivo|objetivo]]; no primeiro [[lexico:s:significado|significado]], foi constantemente identificado com o [[lexico:c:conceito-de-ser|conceito de ser]]. Fora de sua persistência metafísica e teológica, a [[lexico:n:nocao|noção]] de perfeição é pouquíssimo utilizada na filosofia contemporânea. Quando é utilizada, a [[lexico:r:referencia|referência]] aos significados tradicionais é evidente: assim acontece, p. ex., em [[lexico:b:bergson|Bergson]], que identifica a perfeição com o [[lexico:a:absoluto|absoluto]], e ambos com a totalidade do ser ("Introduction à la métaphisique", em La pensée et le mouvant, 3a ed, 1934, p. 204). O vocábulo alemão correspondente’ ‘Vollkommenheit’’ significa etimologicamente: "[[lexico:t:ter|ter]] chegado ao pleno" (Zum-Vollen-gekommen-sein). [[lexico:s:significacao|Significação]] idêntica tem o vocábulo latino "perfectio" (efetuação inteiramente realizada). A perfeição inclui, portanto, consumação, acabamento. Esta consumação pode realizar-se de diversas maneiras: ou existe plenamente desde sempre, ou pouco a pouco vai chegando à maturidade. Perfeito desde sempre e sem [[lexico:d:devir|devir]] de nenhuma espécie, só existe Deus. A Ele, como [[lexico:i:infinito|infinito]], compete a perfeição absoluta, porque é perfeito sob todos os aspectos que se possam imaginar; nele se realizam, com perfeição suprema, todas as possibilidades do ser. — O [[lexico:f:finito|finito]] possui somente perfeição relativa, ou seja, dentro da [[lexico:e:esfera|esfera]], que lhe é fixada por sua [[lexico:e:essencia|essência]], a qual inclui determinadas possibilidades ontológicas e exclui outras. [[lexico:a:alem|Além]] disso, ele alcança sua perfeição unicamente por via do devir; sai inacabado das [[lexico:m:maos|mãos]] do Criador e deve aperfeiçoar-se a [[lexico:s:si-mesmo|si mesmo]] (incluindo o [[lexico:e:espirito|espírito]] [[lexico:p:puro|puro]], em conformidade com seu modo de [[lexico:e:existencia|existência]] supratemporal). Este desdobramento percorre várias fases, e daí as várias acepções do [[lexico:t:termo|termo]] "perfeição". No sentido mais eminente, atribuímos perfeição ao estado final, no qual são realizadas todas as possibilidades de um [[lexico:e:ente|ente]], no qual, portanto, este alcançou o fim ou [[lexico:i:ideal|ideal]] que lhe foi assinalado. Perfeição (1) denota aqui consumação ou acabamento pleno; falamos, por [[lexico:e:exemplo|exemplo]], de um [[lexico:m:mestre|mestre]] consumado. Este estado final compõe-se de múltiplos elementos, cada um dos quais apresenta um [[lexico:a:aspecto|aspecto]] da perfeição ou torna perfeito o ser em [[lexico:q:questao|questão]] sob determinado ponto de vista. Assim como ao estado global chamamos a perfeição, assim a cada [[lexico:e:elemento|elemento]] [[lexico:p:particular|particular]] denominamos uma perfeição, p. ex., saúde, [[lexico:f:forca|força]] de [[lexico:v:vontade|vontade]], pureza. O que até aqui descrevemos como perfeição implica sempre o desdobramento ou satisfação de disposições e é resultado de uma [[lexico:a:acao|ação]] que desenvolve ulteriormente o estado [[lexico:o:ontologico|ontológico]] inicial. Em sentido lato recebe também o [[lexico:n:nome|nome]] de perfeição (2) o [[lexico:p:proprio|próprio]] estado ontológico originário e [[lexico:i:implicito|implícito]] (não desdobrado), porque com ele um ente possui integralmente pelo menos a [[lexico:e:estrutura|estrutura]] básica de sua essência (assim, o recém nascido é [[lexico:h:homem|homem]]). Finalmente, tomando o vocábulo em acepção muito ampla, perfeição (3) significa toda participação, embora muito diminuta, no ser, porque representa sempre um passo avante para o pleno e completo (sentido [[lexico:i:identico|idêntico]] a [[lexico:a:ato|ato]]). — Sobre a [[lexico:d:distincao|distinção]] entre perfeição pura e não pura. — ato. A perfeição ético-religiosa significa, consumação das [[lexico:v:virtudes|virtudes]] morais e da [[lexico:u:uniao|união]] com Deus. Exige também que não se deixem baldias suas restantes disposições, mas que se cultivem e-desenvolvam na [[lexico:m:medida|medida]] do [[lexico:p:possivel|possível]]. — Lötz. Diz-se de algo que é perfeito, quando está acabado e completado de tal modo que não lhe [[lexico:f:falta|falta]] [[lexico:n:nada|nada]] e não lhe sobra nada para ser [[lexico:o:o-que-e|o que é]]. Esta [[lexico:i:ideia|ideia]] de perfeição inclui as ideias de [[lexico:l:limitacao|limitação]], acabamento e “[[lexico:f:finalidade|finalidade]] própria” que ressurgem constantemente no [[lexico:p:pensamento|pensamento]] [[lexico:g:grego|grego]]. [[lexico:a:aristoteles|Aristóteles]] acrescentou a este significado mais dois: 1) o perfeito é o melhor no seu gênero pois não há nada que possa superá-lo. 2) Perfeito é aquilo que alcançou o seu fim enquanto fim louvável. Na ideia de perfeição de Aristóteles, está [[lexico:l:latente|latente]] a noção que algo que [[lexico:p:por-si|por si]] mesmo é [[lexico:b:bom|Bom]]. Em princípio não deveria haver inconvenientes em admitir que algo mau é perfeito, pois, mesmo neste caso, é perfeito no seu gênero, o qual é a [[lexico:m:maldade|maldade]]. Mas, em todo o pensamento grego, pensa-se que o mau é algo defeituoso e portanto não pode ser perfeito. Se o perfeito é algo limitado, então todo o [[lexico:i:ilimitado|ilimitado]] será imperfeito; por isso se disse que os gregos consideravam como imperfeito o infinito, uma vez que só o que é finito pode [[lexico:e:estar|estar]] acabado. Na medida em que se conceba o infinito como “o inacabável”, parece que se deverá identificar o infinito com o imperfeito; mas pode conceber-se o infinito como uma [[lexico:m:manifestacao|manifestação]] da ideia de perfeição: quando o infinito é algo de absoluto. A ideia de perfeição teve uma importância considerável em toda a [[lexico:h:historia|história]] do pensamento ocidental, especialmente dentro do cristianismo, quando se concebeu Deus como a própria perfeição. Um exemplo disso encontramo-lo numa das formas da [[lexico:p:prova-ontologica|prova ontológica]], onde ser (ou existência) e perfeição se equiparam. A ideia de perfeição esteve, além disso, estreitamente relacionada com os chamados “[[lexico:p:principios|princípios]] de [[lexico:o:ordem|ordem]]” e “princípio de plenitude”. Os escolásticos distinguiram entre várias formas de perfeição. Em princípio, equipara-se a perfeição à [[lexico:b:bondade|bondade]] se chama perfeição a qualquer [[lexico:b:bem|Bem]] possuído por algo. [[lexico:c:como-se|como se]] trata de um bem, trata-se de uma realidade, de modo que o contrário de perfeição é defeito. Em geral, distinguiram-se dois tipos de perfeição: a perfeição absoluta, própria de Deus, e a perfeição relativa, que só o é relativamente ao absolutamente perfeito. Todo este conjunto de ideias levou a equiparar a ideia de perfeição à ideia de ato, de tal modo que a perfeição absolutamente pura é a que exclui qualquer [[lexico:p:potencia|potência]], isto é, qualquer imperfeição. Pode, pois, dizer-se que a ideia de perfeição esteve sempre ligada à ideia de ser e de existência, porque a ideia de ser se uniu à de [[lexico:v:valor|valor]]. contudo, pode introduzir-se a distinção entre o ser e o valor, que foi comum na [[lexico:e:epoca|época]] [[lexico:m:moderna|moderna]]. Deste modo podem classificar-se do seguinte modo os significados de perfeição: 1) algo pode ser perfeito naquilo que é; 2) algo pode ser perfeito naquilo que vale, e 3) algo pode ser perfeito ao mesmo [[lexico:t:tempo|tempo]] naquilo que é e naquilo que vale.