===== PERDÃO ===== O descobridor do papel do perdão no domínio dos assuntos humanos foi Jesus de Nazaré. O [[lexico:f:fato:start|fato]] de que ele tenha feito essa [[lexico:d:descoberta:start|descoberta]] em um contexto [[lexico:r:religioso:start|religioso]] e a tenha [[lexico:e:enunciado:start|enunciado]] em [[lexico:l:linguagem:start|linguagem]] religiosa [[lexico:n:nao:start|não]] é [[lexico:m:motivo:start|motivo]] para levá-la menos a sério em um [[lexico:s:sentido:start|sentido]] estritamente [[lexico:s:secular:start|secular]]. É da [[lexico:n:natureza:start|natureza]] de nossa [[lexico:t:tradicao:start|tradição]] de [[lexico:p:pensamento:start|pensamento]] [[lexico:p:politico:start|político]] (por [[lexico:m:motivos:start|motivos]] nos quais não podemos nos deter aqui) [[lexico:s:ser:start|ser]] altamente seletiva e excluir da conceituação articulada grande variedade de experiências políticas autênticas, entre as quais não é surpreendente encontrar algumas de natureza elementar. Certos aspectos dos ensinamentos de Jesus de Nazaré que não se relacionam basicamente com a [[lexico:m:mensagem:start|mensagem]] religiosa cristã, mas surgiram de experiências da pequena e coesa [[lexico:c:comunidade:start|comunidade]] de seus seguidores, inclinada a desafiar as autoridades públicas de Israel, certamente incluem-se entre essas experiências políticas autênticas, embora tenham sido negligenciados em [[lexico:v:virtude:start|virtude]] de sua suposta natureza exclusivamente religiosa. O [[lexico:u:unico:start|único]] [[lexico:s:sinal:start|sinal]] rudimentar da [[lexico:p:percepcao:start|percepção]] de que o perdão pode ser o corretivo [[lexico:n:necessario:start|necessário]] aos danos inevitáveis que resultam da [[lexico:a:acao:start|ação]] pode ser visto no [[lexico:p:principio:start|princípio]] romano de poupar os vencidos (parcere subiectis) – uma [[lexico:s:sabedoria:start|sabedoria]] que os gregos desconheciam totalmente – ou no [[lexico:d:direito:start|direito]] de comutar a [[lexico:p:pena:start|pena]] de [[lexico:m:morte:start|morte]], provavelmente também de [[lexico:o:origem:start|origem]] romana, que é a prerrogativa de quase todos os chefes de [[lexico:e:estado:start|Estado]] ocidentais. É [[lexico:c:crucial:start|crucial]] para o nosso contexto que Jesus sustente, contra os “escribas e fariseus” que, em primeiro [[lexico:l:lugar:start|lugar]], não é [[lexico:v:verdade:start|verdade]] que somente [[lexico:d:deus:start|Deus]] tenha o poder de perdoar; [É o que se afirma enfaticamente em Lucas 5, 21-42 (cf. Mateus 9, 4-6 ou Marcos 12, 7-10), onde Jesus opera um milagre para provar que “o Filho do homem tem sobre a Terra o poder de perdoar pecados”, com ênfase em “sobre a Terra”. O que choca o povo é muito mais sua insistência no “poder de perdoar” que os milagres que ele faz, de modo que “os que comiam ali com ele começaram a dizer entre si: Quem é este que também perdoa pecados?” (Lucas 7, 49).] e, em segundo lugar, que [[lexico:e:esse:start|esse]] poder não deriva de Deus – [[lexico:c:como-se:start|como se]] Deus, e não os homens, perdoasse através de seres humanos –, mas, ao contrário, deve ser mobilizado pelos homens entre si, antes que possam esperar serem perdoados também por Deus. A formulação de Jesus é ainda mais radical. No Evangelho não se supõe que o [[lexico:h:homem:start|homem]] perdoe porque Deus perdoa, e ele, portanto, tem de fazer “o mesmo” e sim que, “se cada um, no íntimo do [[lexico:c:coracao:start|coração]], perdoar” Deus fará “o mesmo” O motivo da insistência sobre um [[lexico:d:dever:start|dever]] de perdoar é, obviamente, que “eles não sabem o que fazem” e não se aplica ao caso [[lexico:e:extremo:start|extremo]] do crime e do [[lexico:m:mal:start|mal]] voluntário, pois do contrário não teria sido necessário ensinar que, “se ele te ofender sete vezes no dia, e sete vezes no dia retornar a ti, dizendo ‘me arrependo’ tu o perdoarás” ). O versículo, que citei da [[lexico:t:traducao:start|tradução]] padrão, poderia também ser traduzido como segue: “E se ele transgredir contra ti (...) e (...) procurar-te, dizendo: Mudei de [[lexico:i:ideia:start|ideia]], deves desobrigá-lo.”]. O crime e o mal voluntário são raros, mais raros talvez que as boas [[lexico:a:acoes:start|ações]]; segundo Jesus, Deus se encarregará deles no [[lexico:j:juizo:start|Juízo]] Final, que nenhum papel desempenha na [[lexico:v:vida:start|vida]] terrena e tampouco se caracteriza pelo perdão, mas pela justa [[lexico:r:retribuicao:start|retribuição]] (apodounai) . A ofensa, contudo, é uma [[lexico:o:ocorrencia:start|ocorrência]] cotidiana, decorrência [[lexico:n:natural:start|natural]] do fato de que a ação estabelece constantemente novas [[lexico:r:relacoes:start|relações]] em uma teia de relações, e precisa do perdão, da liberação, para possibilitar que a vida possa continuar, desobrigando constantemente os homens daquilo que fizeram sem o [[lexico:s:saber:start|saber]]. Os homens podem ser agentes livres somente mediante essa mútua e constante desobrigação do que fazem; somente com a constante [[lexico:d:disposicao:start|disposição]] para mudar de ideia e recomeçar pode-se confiar a eles um poder tão grande quanto o de começar algo novo. Sob esse [[lexico:a:aspecto:start|aspecto]], o perdão é o [[lexico:e:exato:start|exato]] oposto da vingança, que atua como re-ação a uma ofensa inicial, com a qual, longe de porem [[lexico:f:fim:start|fim]] às consequências da primeira [[lexico:f:falta:start|falta]], todos permanecem enredados no [[lexico:p:processo:start|processo]], permitindo que a re-ação em cadeia contida em cada ação siga livremente seu curso. Ao contrário da vingança, que é a [[lexico:r:reacao:start|reação]] natural e automática à transgressão e que, devido à irreversibilidade do processo da ação, pode ser esperada e até calculada, o [[lexico:a:ato:start|ato]] de perdoar jamais pode ser previsto; é a única reação que atua de [[lexico:m:modo:start|modo]] inesperado e, embora seja reação, conserva algo do [[lexico:c:carater:start|caráter]] original da ação. Em outras [[lexico:p:palavras:start|palavras]], o perdão é a única reação que não re-age apenas, mas age de novo e inesperadamente, sem ser condicionada pelo ato que a provocou e de cujas consequências liberta, por conseguinte, tanto o que perdoa quanto [[lexico:o:o-que-e:start|o que é]] perdoado. A [[lexico:l:liberdade:start|liberdade]] mencionada nos ensinamentos de Jesus sobre o perdão é a [[lexico:l:libertacao:start|libertação]] com [[lexico:r:relacao:start|relação]] à vingança, que prende tanto o [[lexico:a:agente:start|agente]] quanto o paciente no inexorável [[lexico:a:automatismo:start|automatismo]] do processo da ação que, [[lexico:p:por-si:start|por si]], jamais precisa chegar a um fim. [ArendtCH:C33] {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}