===== PERCEPÇÃO ===== (gr. antilepsis; lat. perceptio; in. Perception; fr. Perception; al. Wahrnehmung, Perception; it. Percezioné). Podemos distinguir três significados principais deste [[lexico:t:termo:start|termo]]: 1) um [[lexico:s:significado:start|significado]] generalíssimo, segundo o qual este termo designa qualquer [[lexico:a:atividade:start|atividade]] cognoscitiva em [[lexico:g:geral:start|geral]]; 2) um significado mais restrito, segundo o qual designa o [[lexico:a:ato:start|ato]] ou a [[lexico:f:funcao:start|função]] cognoscitiva à qual se apresenta um [[lexico:o:objeto:start|objeto]] [[lexico:r:real:start|real]]; 3) um significado específico ou técnico, segundo o qual [[lexico:e:esse:start|esse]] termo designa uma [[lexico:o:operacao:start|operação]] determinada do [[lexico:h:homem:start|homem]] em suas [[lexico:r:relacoes:start|relações]] com o [[lexico:a:ambiente:start|ambiente]]. No primeiro significado percepção [[lexico:n:nao:start|não]] se distingue de [[lexico:p:pensamento:start|pensamento]]. No segundo, é o [[lexico:c:conhecimento:start|conhecimento]] [[lexico:e:empirico:start|empírico]], [[lexico:i:imediato:start|imediato]], certo e exaustivo do objeto real. No [[lexico:t:terceiro:start|terceiro]] significado é a [[lexico:i:interpretacao:start|interpretação]] dos estímulos. Só no âmbito deste [[lexico:u:ultimo:start|último]] significado, podemos entender o que a [[lexico:p:psicologia:start|psicologia]] hoje discute como "[[lexico:p:problema:start|problema]] da percepção". 1) No seu significado mais geral, o termo foi empregado por Telésio, segundo [[lexico:q:quem:start|quem]] "a [[lexico:s:sensacao:start|sensação]] é a percepção das [[lexico:a:acoes:start|ações]] das [[lexico:c:coisas:start|coisas]], dos impulsos do [[lexico:a:ar:start|ar]] e das mesmas paixões e mudanças, especialmente destas últimas" (De rer. nat, VII, 3). Esta doutrina abria polêmica contra a [[lexico:t:tese:start|tese]] de que a sensação consiste simplesmente na [[lexico:a:acao:start|ação]] das coisas ou na modificação do [[lexico:e:espirito:start|espírito]]. Telésio, porém, afirma que ela consiste na percepção de uma ou de outra. A mesma doutrina foi defendida por [[lexico:b:bacon:start|Bacon]], que se reportava explicitamente à [[lexico:d:distincao:start|distinção]] de Telésio (De augm. scient., IV, 3). [[lexico:d:descartes:start|Descartes]], por sua vez, empregava esse termo para indicar todos os atos cognitivos, que são passivos em [[lexico:r:relacao:start|relação]] ao objeto, em [[lexico:o:oposicao:start|oposição]] aos atos da [[lexico:v:vontade:start|vontade]], que são ativos (Pass. de l’âme, I, 17). Descartes dividiu-as em: percepção que se reportam aos objetos externos, as que se reportam ao [[lexico:c:corpo:start|corpo]] e as que se reportam à [[lexico:a:alma:start|alma]] (Ibid., I, 23-25). Neste [[lexico:s:sentido:start|sentido]] geral, a [[lexico:p:palavra:start|palavra]] foi usada também por [[lexico:l:locke:start|Locke]]: "A percepção é a primeira [[lexico:f:faculdade:start|faculdade]] da alma exercida em torno das nossas [[lexico:i:ideias:start|ideias]]; por isso, é a primeira e mais [[lexico:s:simples:start|simples]] [[lexico:i:ideia:start|ideia]] a que chegamos por [[lexico:m:meio:start|meio]] da [[lexico:r:reflexao:start|reflexão]]. (...) Na percepção pura e simples, o espírito geralmente é [[lexico:p:passivo:start|passivo]], não podendo deixar de perceber o que em ato percebe" (Ensaio, II, 9,1). Da mesma maneira, [[lexico:l:leibniz:start|Leibniz]] entende a percepção como o que a alma do homem e a alma do [[lexico:a:animal:start|animal]] têm em comum, como "a [[lexico:e:expressao:start|expressão]] de muitas coisas em uma", e distingue-a da [[lexico:a:apercepcao:start|apercepção]] ou pensamento pelo [[lexico:f:fato:start|fato]] de esta última [[lexico:s:ser:start|ser]] acompanhada pela reflexão (Nouv. ess., II, 9, 1; cf. Op., ed. Erdmann, pp. 438, 464, etc). Não é diferente o sentido geral que [[lexico:k:kant:start|Kant]] atribui à palavra, quando dá [[lexico:n:nome:start|nome]] de percepção à "[[lexico:r:representacao:start|representação]] com [[lexico:c:consciencia:start|consciência]]", distinguindo-a em sensação (se fizer [[lexico:r:referencia:start|referência]] apenas ao [[lexico:s:sujeito:start|sujeito]]) e conhecimento (se for objetiva) (Crít. R. Pura, [[lexico:d:dialetica:start|Dialética]], Livro I, seç. 1). É bastante óbvio que percepção nesse sentido significa o mesmo que pensamento em geral; o [[lexico:p:proprio:start|próprio]] Locke notava esta [[lexico:i:identidade:start|identidade]] de significado, mesmo preferindo pessoalmente a palavra percepção, porque pensamento, em inglês, indica "a operação do espírito sobre as próprias ideias", enquanto na percepção o espírito é geralmente passivo (Ensaio, II, 9, 1). 2) O segundo significado do termo é mais restrito; expressa o ato cognitivo [[lexico:o:objetivo:start|objetivo]], que apreende ou manifesta um objeto real determinado ([[lexico:f:fisico:start|físico]] ou mental). Este é o significado originário do termo, tal qual foi usado pelos estoicos como equivalente de [[lexico:c:compreensao:start|compreensão]] ([[lexico:k:katalepsis:start|katalepsis]]); "Os estoicos definem a sensação deste [[lexico:m:modo:start|modo]]: a sensação é percepção por meio do [[lexico:s:sensorio:start|sensório]] ou da compreensão" (Aécio, Plac, IV, 8, 1; cf. [[lexico:e:epicuro:start|Epicuro]], Fr. 250; [[lexico:p:plotino:start|Plotino]], Enn., VI, 7, 3, 29, etc). Cícero traduzia como perceptio o termo [[lexico:g:grego:start|grego]], tendo particularmente em vista o sentido de representação [[lexico:c:cataleptica:start|cataléptica]] (Acad., II, 6, 17; Definibus, III, 5, 17). Em sentido [[lexico:a:analogo:start|análogo]], esse termo foi usado por S. [[lexico:a:agostinho:start|Agostinho]] (De Trin., IV, 20) e por [[lexico:t:tomas-de-aquino:start|Tomás de Aquino]]; este último designava com ele "certo conhecimento [[lexico:e:experimental:start|experimental]]" (S. Th., I, q. 63, a. 5, ad 2). Essa palavra foi reintroduzida no [[lexico:u:uso:start|uso]] filosófico por Telésio e Bacon (como já dissemos), e com eles seu significado começou a distinguir-se do de sensação. Mas foi só Descartes que estabeleceu o significado novo e mais [[lexico:c:complexo:start|complexo]] do termo. Falando das percepções externas, ele afirmava que, conquanto elas sejam produzidas por movimentos provenientes de coisas externas, "nós as relacionamos com as coisas que supomos ser suas [[lexico:c:causas:start|causas]], de tal maneira que acreditamos [[lexico:v:ver:start|ver]] um archote e ouvir um sino quando apenas sentimos os movimentos que deles vêm" (Pass. de l’âme, I, 23). A partir de então a distinção entre sensação e percepção torna-se fundamental na [[lexico:t:teoria:start|teoria]] da percepção. Essa distinção é expressa por C. Bonnet (Essai analytique sur les facultes de l’âme, 1759, XIV, 195-96) e pela [[lexico:e:escola-escocesa:start|escola escocesa]] do [[lexico:s:senso-comum:start|senso comum]], especialmente por Reid (Inquiry into the Human Mind, 1764, VI, 2)). Em [[lexico:v:virtude:start|virtude]] dela, a sensação é reduzida à ideia simples de Locke: a uma [[lexico:u:unidade:start|unidade]] elementar produzida diretamente no sujeito pela ação causal do objeto. A percepção, por [[lexico:o:outro:start|outro]] lado, torna-se um ato complexo que inclui uma [[lexico:m:multiplicidade:start|multiplicidade]] de sensações, presentes e passadas, e também a sua referência ao objeto, ou seja, um ato judicativo. Identificando percepção e [[lexico:i:intuicao:start|intuição]] empírica, que é o [[lexico:c:conhecimento-objetivo:start|conhecimento objetivo]], o resultado da atividade judicante exercida sobre o multíplice [[lexico:s:sensivel:start|sensível]], Kant (.Prol., § 10) já considerara incluído na percepção o ato judicativo. A [[lexico:p:presenca:start|presença]] de um [[lexico:j:juizo:start|juízo]] na percepção torna-se [[lexico:t:tema:start|tema]] comum na [[lexico:f:filosofia:start|Filosofia]] do séc. XIX. [[lexico:h:hegel:start|Hegel]] levava essa tese ao [[lexico:e:extremo:start|extremo]] quando considerava a percepção (e a [[lexico:c:coisa:start|coisa]] que é seu objeto) como um [[lexico:p:produto:start|produto]] do [[lexico:u:universal:start|universal]] (da Consciência ou do Pensamento): "Para nós ou em [[lexico:s:si-mesmo:start|si mesmo]], o Universal, como [[lexico:p:principio:start|princípio]], é a [[lexico:e:essencia:start|essência]] da percepção, e em face dessa [[lexico:a:abstracao:start|abstração]] o que percebe e [[lexico:o:o-que-e:start|o que é]] percebido são o não-essencial" (Phänomen. des Geistes, I, Consciência II, trad. it., I, p. 97). Mas à [[lexico:p:parte:start|parte]] essa tese extremista (que no entanto foi repetida até há pouco [[lexico:t:tempo:start|tempo]] pelas escolas idealistas), a distinção entre sensação e percepção e o [[lexico:r:reconhecimento:start|reconhecimento]] do [[lexico:c:carater:start|caráter]] ativo ou judicativo da percepção tiveram como base a sua referência ao objeto [[lexico:e:externo:start|externo]]. Foi o que fizeram Hamilton, que se inspirava na doutrina da [[lexico:e:escola:start|escola]] escocesa (Lectures on Metaphysics, 5a ed., 1870, II, pp. 129 ss.), e [[lexico:s:spencer:start|Spencer]], que muito contribuiu para difundir esse [[lexico:p:ponto:start|ponto]] de vista (Principles of Psychology, 1855, § 353). Bolzano (Wissenschaftslehre, 1837, I, p. l6l), [[lexico:b:brentano:start|Brentano]] (Psychologie vom empirischen Standpunkte, 1874,1, 3, § 1), Helmoltz (Die Tatsachen in der Wahmehmung, 1879, p. 36) enfatizaram a ação do pensamento ou do [[lexico:i:intelecto:start|intelecto]] na percepção; Brentano identificava percepção e juízo ou [[lexico:c:crenca:start|crença]] (loc. cit). Em sentido [[lexico:s:semelhante:start|semelhante]], [[lexico:h:husserl:start|Husserl]] fazia a distinção entre percepção e outros atos intencionais da consciência, com base em sua [[lexico:c:caracteristica:start|característica]] de "[[lexico:a:apreender:start|apreender]]" o objeto (Ideen, I, § 37). Na percepção, a coisa mesma está presente em seu ser, assim como está presente na coisa o sujeito que percebe (cf. G. Brand, Welt, [[lexico:i:ich:start|Ich]] und Zeit, 1955, 3). É só aparentemente diferente a [[lexico:n:nocao:start|noção]] de [[lexico:b:bergson:start|Bergson]] da "percepção pura". Bergson diz: "A percepção outra coisa não é senão uma [[lexico:s:selecao:start|seleção]]. Ela [[lexico:n:nada:start|nada]] cria: sua [[lexico:t:tarefa:start|tarefa]] é eliminar do conjunto das imagens todas as imagens sobre as quais [[lexico:e:eu:start|eu]] não teria nenhuma pretensão e, depois, eliminar das imagens conservadas tudo o que não interessa às necessidades dessa [[lexico:i:imagem:start|imagem]] [[lexico:p:particular:start|particular]] que denomino corpo" (Matière et mémoire, p. 235). Deste modo, a percepção delinearia, no interminável [[lexico:c:campo:start|campo]] das imagens conservadas na consciência, o objeto destinado a servir às necessidades da ação e que delimita a ação [[lexico:p:possivel:start|possível]] do meu corpo. Mas, mesmo assim, a tarefa da percepção continua sendo apreender ou delinear um objeto. O [[lexico:c:conceito:start|conceito]] de percepção ao qual essas doutrinas fazem referência é bastante [[lexico:u:uniforme:start|uniforme]]: a percepção é o ato pelo qual a consciência "apreende" ou "situa" um objeto, e esse ato utiliza certo [[lexico:n:numero:start|número]] de dados elementares de sensações. Este conceito, portanto, supõe: 1) a noção de consciência como atividade introspectiva e auto-reflexiva; 2) a noção do objeto percebido como [[lexico:e:entidade:start|entidade]] individual perfeitamente isolável e dada; 3) a noção de unidades elementares sensíveis. O [[lexico:a:abandono:start|abandono]] desses três pressupostos caracteriza a nova fase do problema da percepção, própria da psicologia e da filosofia contemporâneas. 3) Segundo o terceiro conceito, percepção outra coisa não é senão a interpretação dos estímulos, o reencontro ou a construção do significado deles. Essa [[lexico:d:definicao:start|definição]] é uma [[lexico:f:formula:start|fórmula]] simplificada e genérica para expressar as características mais evidentes que as teorias psicológicas contemporâneas atribuem à percepção; F. H. Allport enumerou (e analisou criticamente) treze dessas teorias (Theories of Perception and the Concept of Structure, 1955). No entanto, é preciso observar que, por terem sido quase todas elas propostas por psicólogos pesquisadores que as formularam como generalizações experimentais, raramente representam alternativas que se excluam mutuamente, mas na [[lexico:m:maioria-das-vezes:start|maioria das vezes]] só evidenciam ou consideram fatores ou condições fundamentais que certa [[lexico:o:ordem:start|ordem]] de investigações trouxe à tona. Apesar disso é possível distinguir dois grupos de teorias: a) as que insistem na importância dos fatores e das condições objetivas; b) as que insistem na importância dos fatores e das condições subjetivas. a) Ao primeiro [[lexico:g:grupo:start|grupo]] de teorias pertence, em primeiro [[lexico:l:lugar:start|lugar]], a [[lexico:p:psicologia-da-forma:start|psicologia da forma]] (Gestalttheorie), que é substancialmente uma teoria da percepção. O [[lexico:g:gestaltismo:start|gestaltismo]] inicia-se com a [[lexico:o:obra:start|obra]] de Max Wertheimer sobre a percepção do [[lexico:m:movimento:start|movimento]] (1912) e tem como outros expoentes Wolfgang Köhler (Gestalt Psychcology, 1929) e Kurt Koffka (Beiträge Zur Psychologie der Gestalt, 1919). Seu objetivo é opor-se aos pressupostos 2 e 3 da concepção tradicional de percepção. Mostrou, em primeiro lugar, que não existem (a não ser como abstração artificial) sensações elementares que façam parte da composição de um objeto, e, em segundo lugar, que não existe um objeto de percepção como entidade isolada ou isolável. O que se percebe é uma [[lexico:t:totalidade:start|totalidade]] que faz parte de uma totalidade. O gestaltismo dedicou-se a determinar as "leis" com base nas quais essas totalidades são constituídas, as "leis de organização", que são: da proximidade, da [[lexico:s:semelhanca:start|semelhança]], da direção, da boa [[lexico:f:forma:start|forma]], do [[lexico:d:destino:start|destino]] comum, do fechamento, etc.; elas podem ser vistas em ação mesmo em experiências muito simples, como p. ex. as que revelam a [[lexico:t:tendencia:start|tendência]] a agrupar numa única percepção sinais semelhantes ou suficientemente próximos, ou então constituam uma [[lexico:f:figura:start|figura]] regular. A [[lexico:a:afirmacao:start|afirmação]] fundamental dessa teoria é que a percepção sempre se refere a uma totalidade, cujas partes, se consideradas separadamente, não apresentam as mesmas características: maiores simplicidade e clareza possíveis e maiores [[lexico:s:simetria:start|simetria]] e [[lexico:r:regularidade:start|regularidade]] possíveis. Tais características por vezes levaram os gestaltistas a admitir a teoria do "[[lexico:t:todo:start|todo]] determinante", segundo a qual o todo transcende suas partes e as determina dinamicamente de [[lexico:a:acordo:start|acordo]] com suas próprias leis. Assim, o todo assemelha-se à "coisa" de que [[lexico:f:fala:start|fala]] Husserl, a propósito da percepção [[lexico:t:transcendente:start|transcendente]], porquanto a essência da coisa integra em si e ao mesmo tempo transcende a totalidade de suas manifestações. Esta é a teoria da percepção substancialmente aceita em Phenoménologie de la perception (1945) de M. [[lexico:m:merleau-ponty:start|Merleau-Ponty]]. Importante variante dessa teoria é a do campo topológico de Lewin, segundo a qual o [[lexico:i:individuo:start|indivíduo]], reduzido a um ponto sem dimensões, está submetido à ação das forças que agem no campo e que ele sente como alheias ao seu corpo. Nesta [[lexico:c:condicao:start|condição]], o indivíduo é considerado em "locomoção", isto é, como que movendo-se para uma meta positiva ou como afastando-se de uma meta negativa. O [[lexico:e:espaco:start|espaço]] em que ocorre esse movimento é o denominado "espaço de [[lexico:v:vida:start|vida]]", ou seja, a [[lexico:r:regiao:start|região]] onde o indivíduo tem [[lexico:e:experiencia:start|experiência]] da sua ação, espaço que não tem propriedades métricas ou direções determinadas, sendo por isso topológico, no sentido de poder [[lexico:t:ter:start|ter]] em qualquer [[lexico:m:momento:start|momento]] qualquer [[lexico:d:dimensao:start|dimensão]] ou forma geométrica, ainda que mantenha as propriedades que possibilitam o movimento (Lewin, Principles of Topological Psychology, 1936). Podem ser consideradas variantes dessa teoria: a de Hebb, para quem o campo perceptivo corresponde a um campo fisiológico, a um "[[lexico:m:mecanismo:start|mecanismo]] de ação neutra seletiva" que, para cada percepção particular, se situaria em algum ponto do [[lexico:s:sistema:start|sistema]] nervoso central (The Organization of Behavior, Nova York, 1949), e a teoria do "campo tônico-sensorial", segundo a qual "as propriedades perceptivas de um objeto são função da maneira como os estímulos provenientes do objeto modificam o [[lexico:e:estado:start|Estado]] ‘tônico-sensorial’ existente do [[lexico:o:organismo:start|organismo]]" (Werner E Wapner, "Toward a General Theory of Perception" em Psychological Review, 1952, pp. 324-38). Todas as teorias aqui mencionadas, concentradas como estão nos [[lexico:c:conceitos:start|conceitos]] de "totalidade" ou de "campo", privilegiam de certo modo o [[lexico:a:aspecto:start|aspecto]] objetivo da percepção. b) Um segundo grupo de teorias tem em vista principalmente o aspecto [[lexico:s:subjetivo:start|subjetivo]] da percepção Para estas teorias, não é válido nem mesmo o 1o [[lexico:p:pressuposto:start|pressuposto]] da 2a concepção de percepção, o da consciência. Estas doutrinas com [[lexico:e:efeito:start|efeito]] não recorrem à noção de consciência nem à consideração introspectiva. Uma [[lexico:q:quantidade:start|quantidade]] enorme de observações experimentais evidenciou a importância, para a percepção, do estado de preparação ou predisposição do sujeito, aquilo que geralmente se chama de "[[lexico:d:disposicao:start|disposição]]" (set) perceptual. O fato fundamental é que [[lexico:e:estar:start|estar]] disposto para certo [[lexico:e:estimulo:start|estímulo]] e para certa [[lexico:r:reacao:start|reação]] a um estímulo facilita o ato de perceber e possibilita a sua realização com maior prontidão, [[lexico:e:energia:start|energia]] ou [[lexico:i:intensidade:start|intensidade]]. A disposição, em outras [[lexico:p:palavras:start|palavras]], é um [[lexico:p:processo:start|processo]] seletivo que determina preferências, prioridades, diferenças qualitativas ou quantitativas naquilo que se percebe; não é diferente do próprio processo perceptivo, nem é um mecanismo [[lexico:i:inato:start|inato]] ou prefixado, mas um [[lexico:e:esquema:start|esquema]] variável aprendido ou [[lexico:c:construido:start|construído]], ainda que nem sempre voluntariamente (cf. o cap. 9 da obra citada de Allport). As mais recentes teorias da percepção levam em consideração esses fatos. Com base neles, a teoria transacional, p. ex., considera a percepção como uma [[lexico:t:transacao:start|transação]], como um [[lexico:a:acontecimento:start|acontecimento]] que ocorre entre o organismo e o ambiente, e não pode portanto ser reduzido à ação do objeto ou do sujeito, nem à [[lexico:a:acao-reciproca:start|ação recíproca]] dos dois. Como transação, a [[lexico:n:natureza:start|natureza]] da percepção deriva da [[lexico:s:situacao:start|situação]] total em que está inserida e tem suas raízes tanto na experiência passada do indivíduo quanto em suas expectativas de [[lexico:f:futuro:start|futuro]] ([[lexico:d:dewey:start|Dewey]] E Bentley, Knowing and the Known, 1949; Cantril, Ames, Hastorf, Ittelson, "Psychology and Scientific Research", em Science, 1949, pp. 461, 491, 517; Ittelson E Cantil, Perception: a Transactional Approach, 1954). Desse ponto de vista, é fácil evidenciar o caráter ativo e seletivo da percepção, o fato de ela valer-se de indícios com base nos quais reconstrói o significado do objeto e, também sua outra característica fundamental, que é o fato de ser constituída de probabilidades, e não de certezas. Essas características são apresentadas pelo funcionalismo, [[lexico:c:chamado:start|chamado]] de "New Look" da teoria da percepção, e levaram à teoria da [[lexico:m:motivacao:start|motivação]] e à teoria das [[lexico:h:hipoteses:start|hipóteses]]. A primeira, que é chamada também de teoria do "estado diretivo", funda-se no reconhecimento da [[lexico:i:influencia:start|influência]] que as necessidades físicas, as expectativas do indivíduo (p. ex., um castigo ou um prêmio) e a sua [[lexico:p:personalidade:start|personalidade]] exercem sobre o objeto percebido e sobre a rapidez e a intensidade da percepção (Bruner E Krech, Perception and Personality, a Symposium, Durham, 1950). Na segunda teoria, confluem todos os dados experimentais em que se fundamentaram as teorias do presente grupo e boa parte dos dados experimentais em que se fundamentavam as teorias do primeiro grupo. A ideia fundamental da teoria da [[lexico:h:hipotese:start|hipótese]] é que as percepções (aliás, assim como a lembrança ou o pensamento) constituem hipóteses que o organismo aventa em determinadas situações e que são confirmadas, abandonadas ou modificadas de acordo com essa situação. A disposição (set), da qual falava uma das teorias, é justamente a preparação para uma hipótese desse [[lexico:g:genero:start|gênero]]. A disposição constitui a [[lexico:e:expectativa:start|expectativa]] perceptual, que se baseia na experiência precedente e antecipa a futura. Em geral, na percepção, as disposições são estabelecidas desde muito tempo, através da atividade perceptiva anterior, e pode estar pronta para entrar em ação quando o organismo ingressa em dada situação. Através dela, o organismo escolhe, organiza e transforma as "informações" que lhe chegam do ambiente. Essas informações são indícios ou sinalizações que servem para "evocar" a hipótese ou para confirmá-la ou desmenti-la. As principais correlações funcionais entre as variáveis que a teoria comporta são as seguintes: I) Quanto mais forte é a hipótese, tanto maior é a [[lexico:p:probabilidade:start|probabilidade]] da sua [[lexico:e:evocacao:start|evocação]] e tanto menor a [[lexico:s:soma:start|soma]] de indícios necessária para confirmá-la. Disso resulta que, quando a hipótese é fraca, para a sua [[lexico:c:confirmacao:start|confirmação]] é necessária uma enorme quantidade de informações apropriadas. II) Quanto mais forte é a hipótese, tanto maior é a soma de indícios necessária para invalidá-la; e quanto mais fraca a hipótese, tanto menor é a quantidade de indícios contrários necessários para invalidá-la (cf. o art. de L. Postman, em [[lexico:s:social:start|social]] Psychology at the Crossroads, org. Rohrer E Sherif, Nova York, 1951; e Allport, op cit., cap. 15). O que essa teoria faz é resumir, de forma menos dogmática, tanto os dados experimentais recolhidos por um expressivo número de observadores quanto as características essenciais atribuídas à percepção pelas doutrinas contemporâneas da psicologia, a partir da Gestalttheorie. Essas características podem ser recapitula-das da seguinte maneira: 1) a percepção não é o conhecimento exaustivo e total do objeto, como julgavam as teorias do número 2, e sim uma interpretação provisória e incompleta, fundamentada em indícios ou sinalizações. 2) A percepção não implica nenhuma [[lexico:g:garantia:start|garantia]] .de [[lexico:v:validade:start|validade]], nenhuma [[lexico:c:certeza:start|certeza]]; mantém-se na [[lexico:e:esfera:start|esfera]] do [[lexico:p:provavel:start|provável]]. 3) Como qualquer conhecimento provável, para ser validada, a percepção precisa ser submetida à [[lexico:p:prova:start|prova]], sendo então confirmada ou rejeitada. 4) A percepção não é um conhecimento [[lexico:p:perfeito:start|perfeito]] e imutável, mas possui a característica da corrigibilidade. A representação de um objeto real. — Contrapõe-se à imagem, que é a representação de um objeto [[lexico:i:irreal:start|irreal]]. Se analisarmos a natureza de nossas percepções, vemos que compreendem um [[lexico:e:elemento:start|elemento]] [[lexico:a:afetivo:start|afetivo]] (uma sensação), um [[lexico:s:sentimento:start|sentimento]] de [[lexico:e:exterioridade:start|exterioridade]], e finalmente um elemento do conhecimento que nos permite [[lexico:n:nomear:start|nomear]], determinar o objeto. Se consideramos o objeto da percepção, podemos distinguir as percepções externas de um objeto fora de nós e as percepções internas de um estado de sujeito; e entre esses dois tipos de percepções (externas e internas) situam-se as percepções proprioceptivas, que se relacionam com nosso corpo. Se consideramos a [[lexico:g:genese:start|gênese]] das percepções, podemos distinguir as percepções adquiridas (por [[lexico:e:exemplo:start|exemplo]], discernir pela vista se uma superfície é lisa ou rugosa) e as percepções naturais (as diferenças de cor, por exemplo). Os filósofos e psicólogos do século XVIII contrapunham de [[lexico:b:bom:start|Bom]] grado a "percepção" (que é a representação de um objeto preciso) e a "sensação" (que é indefinível). A teoria [[lexico:m:moderna:start|moderna]] da forma, ou Gestalttheorie, suprimiu esta oposição descobrindo que a percepção não é um "[[lexico:c:composto:start|composto]]" de sensações elementares, mas sim uma sensação global: "Não percebemos de início as folhas, depois a árvore; não ouvimos inicialmente as notas, depois a melodia; é o conjunto da árvore ou da melodia que é inicialmente percebido; e é nele que aprendemos a distinguir folhas ou notas" (Guillaume). A percepção é então a [[lexico:a:apreensao:start|apreensão]] imediata de "estruturas" na [[lexico:r:realidade:start|realidade]]. Os psicólogos modernos (Merleau-Ponty, por exemplo) contrapõem a "percepção" [[lexico:n:natural:start|natural]] à "representação", que implica na [[lexico:a:analise:start|análise]] e na reflexão. Finalmente, se consideramos as condições da percepção, devemos reconhecer que só percebemos o que nos interessa. É o que se denomina "[[lexico:l:lei:start|lei]] do [[lexico:i:interesse:start|interesse]]". Nesse sentido, a percepção está ligada à ação: "Perceber-se uma poltrona, escreve [[lexico:j:janet:start|Janet]], é preparar-se para sentar nela". Em [[lexico:s:suma:start|suma]], se a percepção é o ponto de partida de nosso conhecimento do [[lexico:m:mundo:start|mundo]], é também o [[lexico:i:instrumento:start|instrumento]] da nossa ação sobre ele. (V. [[lexico:t:teoria-da-forma:start|teoria da forma]], imagem.) É a apreensão [[lexico:s:sensorial:start|sensorial]] global de um complexo de dados sensíveis. (Considerada em oposição á impressão sensorial pura, toma o aspecto de uma apercepção). Na velha psicologia "atomista" foi interpretada como um produto composto, a modo de mosaico, de "sensações simples elementares" precedentemente formadas, ao passo que, segundo os modernos pontos de vista [[lexico:r:relativos:start|relativos]] à totalidade psicológica, a percepção é o "ato [[lexico:p:primitivo:start|primitivo]]" propriamente [[lexico:d:dito:start|dito]] do [[lexico:c:conhecimento-sensorial:start|conhecimento sensorial]], que em seguida decompomos em seus [[lexico:e:elementos:start|elementos]]. Na construção da imagem perceptiva podem cooperar, juntamente com as impressões procedentes do objeto sensível, fatores subjetivos de várias espécies: complexos representativos associados, esquemas antecipadores e [[lexico:d:distribuicao:start|distribuição]] da [[lexico:a:atencao:start|atenção]], os quais realizam uma como que seleção entre as partes do todo que se devem considerar. Tais fatores e, no homem, os fatores intelectuais de fixação e interpretação de sentido, que se unem às funções sensoriais, convertem a [[lexico:i:impressao:start|impressão]] sensorial numa apercepção ou apreensão. Mas a [[lexico:c:consequencia:start|consequência]] deste "[[lexico:a:a-priori:start|a priori]] [[lexico:p:psicologico:start|psicológico]]" não é necessariamente uma percepção enganadora (representação), mas, antes, acima de tudo, uma "focalização" daquilo que no complexo [[lexico:c:concreto:start|concreto]] tem importância para o sujeito. Enquanto na apreensão humana do mundo dos sentidos se combinam o intelectual e a percepção sensorial, esta amplia-se até se tornar percepção de coisas, na qual fazemos os objetos presentes a nós, como [[lexico:s:substancias:start|substâncias]] existentes em si. (Por isso, a [[lexico:t:terminologia:start|terminologia]] [[lexico:e:escolastica:start|escolástica]] fala da [[lexico:s:substancialidade:start|substancialidade]] das coisas sensíveis como de um "sensibile [[lexico:p:per-accidens:start|per accidens]]"). No que tange às propriedades que fundamentam a "impressão de realidade" da percepção e a distinguem da mera representação. — representação; sobre a apreensão da totalidade na percepção, — forma. Willwoll O termo percepção alude primeiramente a uma apreensão; quando esta afeta realidades mentais fala-se da apreensão de noções. A percepção implica, pois, algo distinto da sensação, mas também da [[lexico:i:intuicao-intelectual:start|intuição intelectual]] a qual, [[lexico:c:como-se:start|como se]] estivesse situada no meio equidistante dos dois atos. Por isso se definiu a percepção como a “apreensão direta de uma situação objetiva”, o que supõe a supressão de atos intermédios, mas também a [[lexico:a:apresentacao:start|apresentação]] de um objetivo como algo [[lexico:p:por-si:start|por si]] mesmo estruturado.. Este sentido dizia Locke que a percepção é um ato próprio do pensamento de tal modo que a percepção e a [[lexico:p:posse:start|posse]] de ideias é uma e a mesma coisa ([[lexico:e:ensaios:start|Ensaios]]). Leibniz distinguiu entre apercepção e a percepção ou consciência da primeira e define a percepção como “um estado passageiro que compreende e representa uma multiplicidade na unidade ou na [[lexico:s:substancia:start|substância]] simples”. Para Kant, a percepção é a consciência empírica, isto é, “uma consciência acompanhada por sensações”. Apesar de todas estas diferenças, é caraterístico de quase todas as doutrinas modernas e contemporâneas acerca da percepção o fato de situá-la sempre no mencionado território intermédio entre o [[lexico:p:puro:start|puro]] [[lexico:p:pensar:start|pensar]] e o puro sentir, [[lexico:b:bem:start|Bem]] como o sujeito e o objeto.. O lugar mais ou menos aproximado de cada uma destes termos que se outorga à percepção dará a [[lexico:d:diferenca:start|diferença]] de matizes entre o [[lexico:i:idealismo:start|Idealismo]] e o [[lexico:r:realismo:start|realismo]]. Por exemplo, para Descartes e Espinosa, a percepção é sobretudo um ato intelectual; esta concepção levou muitas vezes a uma distinção rigorosa entre percepção e sensação mesmo que se considere a primeiros como apreensão de objetos sensíveis. Esta distinção manteve-se na maior parte das tendências da psicologia moderna mesmo quando se considera que a percepção já não é exclusivamente um ato da [[lexico:i:inteligencia:start|inteligência]], mas uma apreensão psíquica tal em que intervêm sensações, representações e inclusive juízos num ato [[lexico:u:unico:start|único]] que só pode decompor-se mediante a análise. Outra [[lexico:q:questao:start|questão]] muito debatida foi a do caráter [[lexico:m:mediato:start|mediato]] ou imediato da percepção: o realismo inclinou-se geralmente para defender a imediatez; o realismo, em contrapartida, tende a afirmar que há algo mediato. Há certa [[lexico:a:afinidade:start|afinidade]] entre as teorias idealizadas e as teorias fenomenistas da percepção. Ambas são a favor da ideia que a percepção não é algo imediato, os fenomenistas, por exemplo, defendem que quando alguém vê o objeto, vê a [[lexico:a:aparencia:start|aparência]] de um objeto - ou, se quiser, vê o objeto enquanto aparência -, mas não vê propriamente o objeto. Em contrapartida, os realizadas defendem que quando alguém vê o objeto este aparece sem que haja diferença entre a aparência e o objeto. Os idealistas, por seu lado, defendem que a [[lexico:m:mediacao:start|mediação]] entre o objeto e a aparência consiste no pensamento, na reflexão, etc, o que os fenomenistas não aceitam. Na sua análise da [[lexico:m:materia:start|matéria]] e da [[lexico:m:memoria:start|memória]], Bergson não entende simplesmente a percepção como apreensão da realidade por um sujeito A noção de percepção dá [[lexico:o:origem:start|origem]] a duas concepções diferentes: 1) para a [[lexico:c:ciencia:start|ciência]], onde há um sistema de imagens sem centro, e a percepção só pode ser explicada mediante o [[lexico:s:suposto:start|suposto]] de uma consciência concebida como [[lexico:e:epifenomeno:start|epifenômeno]]; 2) para a consciência, a percepção representa uma [[lexico:h:harmonia:start|harmonia]] entre a realidade e o espírito. Daí as doutrinas opostas do idealismo e do realismo que têm como [[lexico:f:fundamento:start|fundamento]] comum o suposto gratuito de que percepção é só um conhecimento. Para Bergson, em contrapartida, a percepção é primeiramente ação. O problema da percepção foi examinado em pormenor por muitos dos chamados neo-realistas ingleses. Estes filósofos não são propriamente realistas porque não admitem a tese da imediatez na percepção, mas também não são idealistas, porque não fazem intervir o pensamento ou a reflexão como termos mediadores; a sua [[lexico:p:posicao:start|posição]] aproxima-se mais, neste aspecto, do [[lexico:f:fenomenismo:start|fenomenismo]]... Os neo-realizadas tendem a considerar os atos de percepção e as percepções como acontecimentos de tal modo que no caso do ato do ato da percepção pode falar-se de “acontecimentos percipientes”. Alguns deles consideram as suas teorias da percepção como uma [[lexico:f:fenomenologia:start|fenomenologia]] da percepção não só diferente de um simples exame dos dados psicológicos e neurofisiológicos, mas também de uma [[lexico:m:metafisica:start|metafísica]] da percepção. Partido de supostos muito diferentes, a fenomenologia ocupou-se também da percepção procurando descrever em que é que consistem os atos perceptivos. Husserl falou de uma percepção interna e de outra externa e, mais fecundamente, de uma percepção sensível, quando apreende um objeto real, e [[lexico:c:categorial:start|categorial]], quando apreende um objeto [[lexico:i:ideal:start|ideal]]. A fenomenologia da percepção tem uma base psicológica, mas um propósito [[lexico:o:ontologico:start|ontológico]].. A análise fenomenológica da percepção mostra-nos que há nela uma [[lexico:s:sintese:start|síntese]] de índole prática, a qual é possível porque percebeu no mundo a forma de diversas relações entre os elementos da percepção. Os indivíduos captam estas formas de acordo com as suas situações no mundo. A percepção não é nem uma sensação considerada como inteiramente individual-subjectiva, nem um ato da inteligência: é aquilo que vincula uma à outra na unidade da situação. Em resumo, esta doutrina pode reduzir-se a três pontos: 1) a percepção é uma [[lexico:m:modalidade:start|modalidade]] original da consciência; o mundo percebido não é um mundo de objetos como aquele que a ciência concebe; no percebido não há senão matéria, mas também forma; o sujeito que percebe não interpreta ou decifra um mundo supostamente caótico; qualquer percepção se apresenta dentro de determinados horizontes e no mundo; 2) Esta concepção da percepção não é só psicológica; ao mundo percebido não se pode sobrepor um mundo de ideias; a certeza da ideia não se funda na da percepção, mas assenta nela; O mundo percebido é um fundo sempre pressuposto por qualquer [[lexico:r:racionalidade:start|racionalidade]], [[lexico:v:valor:start|valor]] e [[lexico:e:existencia:start|existência]]. Procura a psicologia [[lexico:s:saber:start|saber]] como, no adulto, se forma a representação do mundo [[lexico:e:exterior:start|exterior]]; que elementos entram para a [[lexico:f:formacao:start|formação]] dessa noção, que é bastante complexa. Para o metafísico, o problema é colocado doutra maneira. Ele [[lexico:p:pergunta:start|pergunta]] primeiramente pela [[lexico:l:legalidade:start|legalidade]] do problema, se se pode afirmar a existência de uma realidade distinta do pensamento (realismo), ou se toda realidade não se reduz ao próprio pensamento (idealismo). Se se colocar no primeiro caso, emite hipótese sobre essa realidade. Nesse caso é apresentada como formada por átomos, como na filosofia de [[lexico:d:democrito:start|Demócrito]], de Epicuro e de Lucrécio, ou é apenas o espaço geométrico como em Descartes, ou de forças semelhantes à nossa atividade como Leibniz, ou os "reais" de [[lexico:h:herbart:start|Herbart]], a "vontade" de [[lexico:s:schopenhauer:start|Schopenhauer]], etc. Mas essa colocação do problema não é da psicologia. Para o homem comum, não há o problema da existência do mundo exterior, porque ele confunde as sensações com as percepções. Nossos sentidos recebem excitações exteriores, têm sensações brutas, as quais mais [[lexico:t:tarde:start|Tarde]] são transformadas em percepções. A percepção é um produto psicológico de formação secundária, e nasce e se desenvolve com o concomitante [[lexico:d:desenvolvimento:start|desenvolvimento]] da personalidade do homem. As excitações exteriores provocam-nos sensações brutais, diversas, díspares, sem ordem, mas a percepção já é o resultado de um [[lexico:t:trabalho:start|trabalho]] de ordenação das sensações. Uma [[lexico:s:serie:start|série]] de dificuldades são despertadas pelo problema da percepção exterior: a) A representação que temos do mundo exterior envolve sempre a noção da [[lexico:e:extensao:start|extensão]]. É o que nos oferecem a [[lexico:v:visao:start|visão]], o [[lexico:t:tato:start|tato]], as sensações cenestésicas e que colocam o problema da noção do espaço; b) Ante o mundo exterior não temos apenas uma noção confusa das coisas que o compõem, mas vemos que elas se delineiam, se focalizam, se distinguem, se fragmentam. Nós as separamos e as agrupamos para formar a noção de um objeto qualquer, uma árvore, um animal. Na formação da noção de objeto há duas funções: uma de desassociação, pois o separamos, fragmentamos o ambiente; e outra de [[lexico:a:associacao:start|associação]], pois concentramos, juntamos para formá-lo. c) Esses objetos são grupos de sensações estáveis e os consideramos como existentes fora de nós, embora os conheçamos apenas através de nossas sensações e só saibamos deles o que a nossa consciência nos revela. Surgem alguns problemas da psicologia tais como: 1) por que acreditamos na existência do mundo exterior e não afirmamos antes, como já o fizeram muitos, que é apenas uma [[lexico:i:ilusao:start|ilusão]] dos sentidos ou [[lexico:a:alucinacao:start|alucinação]]?; 2) como se formou em nós a crença na existência do mundo exterior? Quais os meios que dispomos para chegar a uma conclusão neste ponto, e poderemos afirmar [[lexico:a:alguma-coisa:start|alguma coisa]] como verdadeira por entre o que poderia ser alucinação? {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}