===== PECADO ORIGINAL ===== (lat. peccatum originale; in. Original sin; fr. Péché originel; al. Erbsünd; it. Peccato originalé). As discussões filosófico-teológicas a [[lexico:r:respeito|respeito]] do [[lexico:p:pecado-original|pecado original]] geralmente tiveram como [[lexico:o:objeto|objeto]] a maneira como [[lexico:e:esse|esse]] [[lexico:p:pecado|pecado]] se transmitiu de Adão aos outros homens. [[lexico:t:tomas-de-aquino|Tomás de Aquino]] de Aquino enumerava duas [[lexico:h:hipoteses|hipóteses]] principais, aduzidas para a solução desse [[lexico:p:problema|problema]]: a [[lexico:h:hipotese|hipótese]] do [[lexico:t:traducianismo|traducianismo]], segundo a qual "a [[lexico:a:alma|alma]] [[lexico:r:racional|racional]] transmite-se com a semente, de tal maneira que de uma alma infecta derivam almas infectas", e a hipótese da bereditariedade, segundo a qual "a [[lexico:c:culpa|culpa]] da alma do primeiro genitor transmite-se à prole, embora a alma [[lexico:n:nao|não]] se transmita do mesmo [[lexico:m:modo|modo]] como os defeitos do [[lexico:c:corpo|corpo]] se transmitem de pai para [[lexico:f:filho|filho]]". Ambas as hipóteses pareciam insustentáveis a Tomás de Aquino de Aquino, e ele anunciava a sua dizendo que "todos os homens nascidos de Adão podem considerar-se um [[lexico:u:unico|único]] [[lexico:h:homem|homem]], porquanto têm a mesma [[lexico:n:natureza|natureza]], recebida do primeiro genitor, da mesma maneira como nas cidades todos os homens que pertencem à mesma [[lexico:c:comunidade|comunidade]] se julgam um só corpo, e a comunidade inteira é como um único homem" (II, 1, q. 81, a. 1). Alguns séculos depois, em sua [[lexico:t:teodiceia|Teodiceia]] (1710), [[lexico:l:leibniz|Leibniz]] enumeraria as mesmas hipóteses (Théod., I, § 86), entre as quais oscilou sempre o [[lexico:p:pensamento|pensamento]] teológico. Aliás, é só em [[lexico:k:kant|Kant]] e em [[lexico:k:kierkegaard|Kierkegaard]] que se encontra uma [[lexico:i:interpretacao|interpretação]] filosófica (e não teológica) do pecado original. Kant observou que não se deve confundir a [[lexico:q:questao|questão]] da [[lexico:o:origem|origem]] [[lexico:t:temporal|temporal]] de uma [[lexico:c:coisa|coisa]] com a questão de sua origem racional: o problema da origem temporal deve [[lexico:s:ser|ser]] resolvido pela doutrina bíblica do pecado original, mas o da origem racional do [[lexico:m:mal|mal]] deve ser solucionado pela doutrina do "mal radical", segundo a qual a [[lexico:d:disposicao|disposição]] inata do homem para o mal deriva da natureza de suas máximas. E diz: "A [[lexico:p:proposicao|proposição]] ‘o homem é mau’ significa apenas que o homem está ciente da [[lexico:l:lei-moral|lei moral]], mas acolheu o [[lexico:p:principio|princípio]] de afastar-se ocasionalmente dessa [[lexico:l:lei|lei]]. Dizer que ele é mau por natureza significa que isso vale para toda a [[lexico:e:especie|espécie]] humana, não no [[lexico:s:sentido|sentido]] de que essa [[lexico:q:qualidade|qualidade]] possa ser deduzida do [[lexico:c:conceito|conceito]] de espécie humana (do conceito de homem em [[lexico:g:geral|geral]]) — porque então seria necessária —, mas no sentido de que o homem, do modo como é conhecido por [[lexico:e:experiencia|experiência]], não pode ser julgado de outra maneira ou no sentido de que se pode pressupor como objetivamente necessária a [[lexico:t:tendencia|tendência]] ao mal em qualquer homem, até no melhor" (Religion, I, 3; trad. it., Durante, p. 18). Substancialmente idêntica a esta é a interpretação do pecado original dada por Kierkegaard, que discerniu a [[lexico:c:condicao|condição]] e a [[lexico:r:realidade|realidade]] psicológica dele na [[lexico:a:angustia|angústia]]: "A proibição de [[lexico:d:deus|Deus]] angustia Adão porque desperta nele a [[lexico:p:possibilidade|possibilidade]] da [[lexico:l:liberdade|liberdade]]. O que na inocência era o [[lexico:n:nada|nada]] da angústia passou então a fazer [[lexico:p:parte|parte]] da inocência, sendo aí também um nada, ou seja, a possibilidade angustiante de poder. Do que pode não tem a menor [[lexico:i:ideia|ideia]]; caso contrário, pressupor-se-ia, como acontece habitualmente, aquilo que segue, que é a [[lexico:d:diferenca|diferença]] entre o [[lexico:b:bem|Bem]] e o mal. Em Adão só há a possibilidade de poder, como [[lexico:f:forma|forma]] [[lexico:s:superior|superior]] de [[lexico:i:ignorancia|ignorância]], como [[lexico:e:expressao|expressão]] superior de angústia, porque em sentido mais elevado esta possibilidade é e não é, e Adão ama-a e foge dela" (Der Begriff Angst, I, § 5; trad. it., Fabro, p. 54). Também aqui, [[lexico:c:como-se|como se]] vê, não se trata da origem temporal, mas da origem racional do pecado original, e aqui também essa origem é vista numa possibilidade, indeterminada ou "indefinida", como a chama Kierkegaard, que é também a possibilidade de agir contra a proibição divina. Para Kierkegaard, assim como para Kant, o pecado original consistiria, portanto, na [[lexico:p:perspectiva|perspectiva]] de uma possibilidade, que, como tal, pode implicar a infração à [[lexico:n:norma|norma]] [[lexico:m:moral|moral]] ou à proibição divina.