===== OUTRO ===== (theteron; in. Other; fr. Autre; al. Andere; it. Altró). Um dos cinco gêneros supremos do [[lexico:s:ser:start|ser]], enunciados por [[lexico:p:platao:start|Platão]] em [[lexico:s:sofista:start|sofista]], e que são: o ser, o repouso, o [[lexico:m:movimento:start|movimento]], o [[lexico:i:identico:start|idêntico]] e o outro O [[lexico:m:motivo:start|motivo]] para admitir o outro como um [[lexico:g:genero:start|gênero]] à [[lexico:p:parte:start|parte]] é o seguinte: o repouso e o movimento são-, portanto, sob o [[lexico:a:aspecto:start|aspecto]] do ser, são idênticos. Mas também são diferentes um do outro, e essa [[lexico:d:diversidade:start|diversidade]] é exatamente como é a sua [[lexico:i:identidade:start|identidade]] (devida ao [[lexico:f:fato:start|fato]] de que ambos são). O outro (o diferente) é, portanto, um gênero igualmente originário e irredutível aos outros [[lexico:q:quatro:start|Quatro]] (Sof, 254 ss.). O [[lexico:r:reconhecimento:start|reconhecimento]] do outro como gênero supremo é muito importante, pois permite que Platão resolva a [[lexico:a:antinomia:start|antinomia]] ([[lexico:t:tipica:start|típica]] da sofistica e da [[lexico:e:eristica:start|erística]]), segundo a qual é [[lexico:i:impossivel:start|impossível]] dizer o [[lexico:f:falso:start|falso]] porque o falso é o que [[lexico:n:nao:start|não]] é, e dizer o que não é significa dizer [[lexico:n:nada:start|nada]], ou seja, não dizer. Desse [[lexico:p:ponto:start|ponto]] de vista, o [[lexico:e:erro:start|erro]] deveria ser declarado inexistente, e não haveria sequer [[lexico:d:diferenca:start|diferença]] [[lexico:p:possivel:start|possível]] entre o [[lexico:f:filosofo:start|filósofo]], que se preocupa em estabelecer a [[lexico:d:distincao:start|distinção]] entre [[lexico:v:verdade:start|verdade]] e erro, e o sofista, que não se preocupa com isso. Admitido, porém, o outro como gênero supremo, o [[lexico:n:nao-ser:start|não-ser]] poderá ser interpretado: não como o nada, mas como o outro do ser, mais precisamente do ser de que se [[lexico:f:fala:start|fala]]; p. ex., dizer que algo é não grande ou não [[lexico:b:belo:start|belo]] significa dizer que é outro, diferente do grande e do belo, mas nem por isso é o oposto do ser, o nada (Ibid., 257 b ss.). Essa [[lexico:a:afirmacao:start|afirmação]] da [[lexico:r:realidade:start|realidade]] do não-ser, enquanto outro ou diferente, é apresentada pelo Estrangeiro eleata, principal [[lexico:p:protagonista:start|protagonista]] do Sofista, como uma [[lexico:e:especie:start|espécie]] de "parricídio" em [[lexico:r:relacao:start|relação]] a [[lexico:p:parmenides:start|Parmênides]], que afirmara que só o ser é, e que o não ser não é (Ibid., 242 d). Essas observações de Platão, sobretudo sobre a [[lexico:c:categoria:start|categoria]] do outro, depois foram empregadas com frequência para esclarecer a [[lexico:n:nocao:start|noção]] de nada . [[lexico:h:heidegger:start|Heidegger]] caracterizou nossa [[lexico:e:existencia:start|existência]] quotidiana como sendo uma "existência entre os outros". O "outro" é igual a nós, mas também é alguém que está, irremediavelmente, separado de nós (v. [[lexico:a:analise:start|análise]] existencial da comunicação). A distância pode ser abreviada quando o "outro" se torna a segunda [[lexico:p:pessoa:start|pessoa]], o "você". A [[lexico:a:analise-existencial-da-comunicacao:start|análise existencial da comunicação]] mostra como a relação ao "você" [[lexico:s:singular:start|singular]] é ontologicamente diversa da relação ao "você" plural, ou ao "eles"; enquanto aquela pode se dar "de [[lexico:i:imediato:start|imediato]]", à flor de nossa pele, o relacionamento ao "vocês" pluralizando só se faz através da [[lexico:p:persona:start|persona]] ou do [[lexico:e:espaco:start|espaço]] [[lexico:p:pessoal:start|pessoal]]. Para o "você", para a pessoa íntima e querida, "abrimos nossa [[lexico:a:alma:start|alma]]" — nossas qualidades e defeitos. No relacionamento com o "você", a [[lexico:l:linguagem:start|linguagem]] é reveladora, criativa, [[lexico:a:apofantica:start|apofântica]]; no relacionamento ao "vocês" — que é o relacionamento "para [[lexico:u:uso:start|uso]] [[lexico:e:externo:start|externo]]" — a linguagem é repetitiva, fundada numa [[lexico:l:logica:start|lógica]] [[lexico:i:impessoal:start|impessoal]], a lógica do "[[lexico:s:senso-comum:start|senso comum]]", e sua [[lexico:i:inteligibilidade:start|inteligibilidade]] só é possível dentro desta lógica. A noção de "outro" conjugada à noção de "espaço pessoal" permite-nos [[lexico:c:compreender:start|compreender]] o "crime original", o roubo. A [[lexico:c:comunicacao:start|comunicação]] externa à persona, a comunicação [[lexico:s:social:start|social]], se faz através de ideologemas, através da linguagem do "[[lexico:s:senso:start|senso]] comum". Existem, no entanto, conteúdos incomunicáveis através de ideologemas: e este se acumularão em nosso espaço pessoal, tornando-o um espaço de [[lexico:c:culpa:start|culpa]]. Relacionados a esta [[lexico:t:transformacao:start|transformação]] estão os casos em que, por [[lexico:e:exemplo:start|exemplo]], a mulher queixosa diz, "depois do [[lexico:c:casamento:start|casamento]] meu marido mostrou o que ele era na verdade". Antes do casamento, o relacionamento entre o noivo e a noiva se fazia através da persona; o noivo tratava a futura mulher não como uma segunda pessoa, como o "você", mas sim como um espectador individual que dentre os outros espectadores da [[lexico:f:familia:start|família]] dela, assistisse à sua [[lexico:r:representacao:start|representação]]. O casamento permitiu a "[[lexico:r:revelacao:start|revelação]] da verdade": transformou a mulher no "você" e abriu para ela espaço pessoal culposo do marido. O crime admitido pelo senso comum, o "crime comum" é o roubo. O [[lexico:a:arquetipo:start|arquétipo]] do roubo é o roubo de dinheiro; e dinheiro é aquilo que nos permite [[lexico:a:acesso:start|acesso]] a todos os valores ideológicos, objetificados, do "[[lexico:m:mundo:start|mundo]] [[lexico:e:exterior:start|exterior]]". O roubo é o gesto que, num curto-circuito, põe disponíveis a nós os valores que o quotidiano mantém inacessíveis a nós, mas que dominam e orientam a nossa [[lexico:v:vida:start|vida]] quotidiana como a cenoura na ponta da vara serve para guiar o cavalo com antolhos. O roubo é [[lexico:t:todo:start|todo]] crime que preserva o espaço pessoal transformado num espaço da culpa, e que impede o extravasamento dos conteúdos culposos e perturbadores para o mundo "[[lexico:o:objetivo:start|objetivo]]" do senso comum. E, por outro lado, qualquer [[lexico:a:atitude:start|atitude]] que possa destruir o espaço da culpa é uma atitude essencialmente "subversiva". (Francisco Doria - [[lexico:d:dcc:start|DCC]]). {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}