===== ONTOLOGISMO ===== (in. Ontologism; fr. Ontologisme; al. Ontologismus; it. Ontologismó). Doutrina segundo a qual "o [[lexico:t:trabalho|trabalho]] filosófico [[lexico:n:nao|não]] começa no [[lexico:h:homem|homem]], mas em [[lexico:d:deus|Deus]]; não sobe do [[lexico:e:espirito|espírito]] ao [[lexico:e:ente|ente]], mas desce do Ente ao espírito" (Gioberti, Intr. allo studio della fil., 1840,11, p. 175). O ontologismo opõe-se ao [[lexico:p:psicologismo|psicologismo]], que segue [[lexico:c:caminho|caminho]] oposto e é considerado [[lexico:t:tipico|típico]] da [[lexico:f:filosofia-moderna|filosofia moderna]], a partir de [[lexico:d:descartes|Descartes]]. A [[lexico:t:tese|tese]] fundamental do ontologismo é de que o homem possui uma [[lexico:v:visao|visão]] ou [[lexico:i:intuicao|intuição]] imediata direta do ente: ou do ente genericamente entendido como [[lexico:n:nocao|noção]] [[lexico:g:geral|geral]] do [[lexico:s:ser|ser]] (como julga Rosmini) ou do ente entendido como o [[lexico:p:proprio|próprio]] Ente supremo, Deus (como julga Gioberti). Esta tese fundamental deriva do [[lexico:a:agostinismo|agostinismo]] escolástico, que sempre insistiu na [[lexico:i:iluminacao|iluminação]] direta do [[lexico:i:intelecto|intelecto]] [[lexico:h:humano|humano]] por Deus, e, mais imediatamente, dos ocasionalistas e de [[lexico:m:malebranche|Malebranche]], que reduziram toda [[lexico:e:especie|espécie]] de [[lexico:c:conhecimento|conhecimento]] à visão em Deus (v. agostinismo; [[lexico:o:ocasionalismo|ocasionalismo]]). Contudo, o ontologismo inclui-se no quadro do [[lexico:r:retorno|retorno]] romântico à [[lexico:t:tradicao|tradição]] que domina a [[lexico:f:filosofia|Filosofia]] europeia na primeira metade do séc. XIX e ressalta os dois [[lexico:c:conceitos|conceitos]] interligados, [[lexico:r:revelacao|revelação]] e tradição. De [[lexico:f:fato|fato]], intuição do ente é entendida como a revelação que o ente faz de si próprio ao homem. O ontologismo de Rosmini limita essa revelação à noção geral do ser ou "ser [[lexico:p:possivel|possível]]", entendido como [[lexico:f:forma|forma]] fundamental e originária da [[lexico:m:mente|mente]] humana e como [[lexico:c:condicao|condição]] de qualquer conhecimento, que seria [[lexico:s:sintese|síntese]] entre a [[lexico:i:ideia|ideia]] do ser e um [[lexico:d:dado|dado]] [[lexico:s:sensivel|sensível]] (Nuovo saggio sull’origine delle idee, 1830, §§ 492, 537). O [[lexico:a:ato|ato]] do conhecimento assim entendido é a [[lexico:p:percepcao-intelectiva|percepção intelectiva]] . Para Gioberti, porém, Deus revela-se ao homem (à intuição) em sua própria [[lexico:a:atividade|atividade]] criadora, e a intuição expressa-se plenamente na [[lexico:f:formula|fórmula]] "o Ente cria o existente", que relaciona três realidades: [[lexico:c:causa-primeira|causa primeira]], [[lexico:s:substancias|substâncias]] criadas e [[lexico:a:acao|ação]] criadora (Int. alio studio della fii, 1840, II, p. 183). Tanto Rosmini quanto Gioberti tacham a filosofia [[lexico:m:moderna|moderna]] de subjetivista, de psicologista e de nihilista, mas na [[lexico:r:realidade|realidade]], como já dissemos, sua doutrina é francamente romântica e encontra [[lexico:c:correspondencia|correspondência]] na filosofia do segundo [[lexico:s:schelling|Schelling]], na de [[lexico:s:schleiermacher|Schleiermacher]] e na de outros expoentes românticos. Uma continuação do ontologismo na filosofia contemporânea pode ser considerada a filosofia de P. Carabellese, que procurou conciliar Rosmini com [[lexico:k:kant|Kant]]. Carabellese considera a [[lexico:c:consciencia|consciência]], que é o [[lexico:p:ponto|ponto]] de partida e o [[lexico:u:unico|único]] [[lexico:f:fundamento|fundamento]] da filosofia, como a consciência que o [[lexico:s:sujeito|sujeito]] tem do ser, mas, ao contrário de Rosmini e de Gioberti, considera o ser como absolutamente [[lexico:i:imanente|imanente]] à própria consciência. No entanto, também Carabellese chama [[lexico:e:esse|esse]] ser de Deus e considera-o fundamento da [[lexico:o:objetividade|objetividade]] de todas as [[lexico:c:coisas|coisas]] particulares que a consciência pode atingir (Critica dei [[lexico:c:concreto|concreto]], 1921; II [[lexico:p:problema|problema]] teológico come filosofia, 1931). O ontologismo, fundado principalmente por Malebranche (século XVII) e de novo admitido, no século XIX, por certas escolas católicas, é historicamente uma [[lexico:c:consequencia|consequência]] da [[lexico:t:teoria|teoria]] cartesiana do conhecimento e do ocasionalismo, para o qual a "ação" das criaturas só tem Deus como [[lexico:c:causa|causa]] propriamente dita, sendo as criaturas só aparentemente ativas. Pelo que, também não desenvolvemos atividade no ato do conhecimento, nem as coisas atuam sobre nossos sentidos e [[lexico:e:entendimento|entendimento]]. Os seres sensíveis são meras ocasiões para "orar", isto é, para dirigir nossa [[lexico:a:atencao|atenção]] a Deus, em cuja [[lexico:e:essencia|essência]] contemplamos todas ou, ao menos, as [[lexico:i:ideias|ideias]] das coisas espirituais. Contudo, esta [[lexico:v:visao-de-deus|visão de Deus]] não é idêntica à dos bem-aventurados, reduz-se apenas a [[lexico:v:ver|ver]] sua essência, enquanto [[lexico:a:arquetipo|arquétipo]] de todas as ideias (Malebranche), ou enquanto causa das coisas criadas (Gioberti). Este conhecimento, na [[lexico:m:medida|medida]] em que se refere à essência de Deus, também não é claro, mas [[lexico:o:obscuro|obscuro]]; é mais um receber [[lexico:p:passivo|passivo]] do que um [[lexico:s:saber|saber]] judicativo. Só o [[lexico:t:termo|termo]] [[lexico:f:finito|finito]] da [[lexico:r:relacao|relação]] é [[lexico:o:objeto|objeto]] de conhecimento claro e [[lexico:r:reflexo|reflexo]]. Deus, o Ser primeiro (primum ontologicum; donde, o [[lexico:n:nome|nome]] de ontologismo), é também o primeiro Conhecido, no qual conhecemos tudo o mais. — Os principais representantes do ontologismo no século XIX foram Ubaghs) (da [[lexico:e:escola|escola]] de Lovaina), Gioberti e Rosmini. — O [[lexico:e:erro|erro]] [[lexico:c:capital|capital]] do ontologismo consiste em confundir com o Ser [[lexico:d:divino|divino]], [[lexico:i:infinito|infinito]], o ser enquanto tal, [[lexico:a:abstrato|abstrato]], [[lexico:i:indeterminado|indeterminado]] co-apreendido por nós em toda [[lexico:p:percepcao|percepção]] e em [[lexico:t:todo|todo]] [[lexico:p:pensamento|pensamento]]. — Rast. Em [[lexico:s:sentido|sentido]] geral, entende-se por ontologismo, sobretudo em [[lexico:t:teoria-do-conhecimento|teoria do conhecimento]], a [[lexico:t:tendencia|tendência]] para considerar de um [[lexico:m:modo|modo]] exclusivo e parcial o objeto do conhecimento como o primeiro do qual deriva a legitimidade do próprio conhecimento. A [[lexico:o:ontologia|ontologia]] converte-se então em base da [[lexico:g:gnoseologia|gnoseologia]] e ainda da [[lexico:e:epistemologia|epistemologia]].. Contudo, o ontologismo não coincide exatamente com o [[lexico:r:realismo|realismo]] filosófico e epistemológico, mesmo quando historicamente surgiu de uma [[lexico:o:oposicao|oposição]] determinante das correntes idealistas. Pode verificar-se essa [[lexico:d:diferenca|diferença]] na própria [[lexico:o:origem|origem]] da corrente ontologista, tal como foi explícita e [[lexico:c:consciente|consciente]] admitida pelos ontologistas italianos, que começaram por contrapor o ontologismo ao psicologismo, especialmente de [[lexico:t:tipo|tipo]] cartesiano, afirmando que este [[lexico:u:ultimo|último]] [[lexico:p:parte|parte]] de um dado [[lexico:p:psiquico|psíquico]] interior e deduz o [[lexico:i:inteligivel|inteligível]] do sensível, isto é, a ontologia da [[lexico:p:psicologia|psicologia]]. Quanto ao problema do conhecimento de Deus, alguns ontologistas inclinam-se para a aceitação de um [[lexico:p:processo|processo]] [[lexico:i:imediato|imediato]]; outros propõem uma [[lexico:m:mudanca|mudança]] radical relativamente a qualquer ponto de partida [[lexico:p:psicologico|psicológico]]: o [[lexico:p:primado|primado]] pertence ao inteligível, de tal modo que se no domínio do conhecimento a [[lexico:c:compreensao|compreensão]] do ente é direta, no domínio do ser pode chegar-se inclusive a sustentar que o ente cria o existente. Assim, na ideia dos ontologistas, o ser soberano, tal como as ideias eternas e [[lexico:u:universais|universais]] do criado, constituem o objeto direto e imediato da [[lexico:i:inteligencia|inteligência]]. [[lexico:p:pensar|pensar]] é, para eles, [[lexico:a:apreender|apreender]] o inteligível, de tal modo que não pode haver derivação do psicológico ou do gnoseológico para o [[lexico:o:ontologico|ontológico]], mas, em todo o caso, o processo inverso. O ontologismo foi rejeitado pela [[lexico:h:hierarquia|hierarquia]] católica como heterodoxo, sobretudo por ensinar o conhecimento imediato de Deus.